LIVRO DE CONTOS - PEQUENAS HISTÓRIAS SEM TESTEMUNHAS - A condição humana
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PEQUENAS HISTÓRIAS SEM TESTEMUNHAS
A condição humana
Sumário
01> Um escritor , seus personagens e um conflito
02> Reflexões sobre a casualidade do destino
03 > Quando eu crescer
04 > Amargas memórias
05 > Amarguradas recordações
06 > Traição
07 > Uma estranha percepção
08 > Heresia
09 > E assim a vida acontece
10 > Não há o lado de fora
11 > A inveja, um ponto obscuro nas nossas vulnerabilidades
12 > Quem era você, antes de eu nascer? Antes de ser meu pai?
13 > Sobre o gato Agenor
14 > Apenas um grito de rebeldia
15 > A realidade oculta da ficção
16 > Um acidente de percurso
17 > Diálogos improváveis
18 > Valeu a pena?
19 > Somos apenas passageiros, desse pequeno planea azul
20 > O passado visita o presente
21 > Um fenômeno surpreendente
22 > Apenas um homem solitário
23 > Uma história comovente dos limites humanos
24 > A realidade transformada em abstração
25 > Um professor socrático
26 > Uma aula de literatura
27 > A programação ordenada do medo
28 > Foda-se
29 > A internação
30 > Covardia
31 > UM OLHAR SOBRE A ORIGEM DA FAMÍLIA
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SOBRE O GATO AGENOR
Agenor não era um gato comum — embora, à primeira vista, parecesse apenas mais um felino de pelos cinzentos e olhos atentos. Chegara à casa numa tarde indecisa entre sol e chuva, desses dias em que o mundo parece suspenso, aguardando algo que ninguém sabe ao certo o que é.
Dona Dulce foi a primeira a notá-lo, encolhido junto ao portão, com uma dignidade estranha para quem claramente passara por muitas ruas. Não miava. Não implorava. Apenas observava.
— Esse gato tem jeito de quem sabe das coisas — murmurou ela, mais para si do que para qualquer outro.
E, como se tivesse ouvido um convite invisível, Agenor entrou.
Nos primeiros dias, manteve certa distância. Caminhava pela casa com passos leves, medidos, como se estivesse mapeando não apenas os espaços, mas também as almas que ali habitavam. Observava Aninha fazer os deveres, acompanhava seu Antônio ler o jornal, seguia Dona Dulce pela cozinha, atento aos gestos e aos silêncios.
Não era um gato de excessos. Não pedia colo, mas aceitava quando vinha. Não fazia algazarra, mas também não era ausente. Sua presença era firme, constante — quase como um guardião discreto.
Com o tempo, todos começaram a perceber: Agenor tinha uma sensibilidade incomum.
Quando Dona Dulce se sentia triste, ele surgia e se acomodava ao seu lado, em silêncio, como se compreendesse que certas dores não pedem palavras. Quando Aninha chorava por alguma frustração infantil, era ele quem aparecia primeiro, esfregando-se em suas pernas até arrancar um sorriso. E, nas noites mais longas, quando seu Antônio se perdia em pensamentos que não compartilhava com ninguém, era o gato que se deitava próximo, vigilante.
— Esse bicho entende mais da gente do que muita gente por aí — disse certa vez o velho, ajeitando os óculos.
Mas havia algo mais em Agenor.
Às vezes, ele parava diante de um ponto vazio da casa — um canto, uma porta, um corredor — e ficava ali, imóvel, como se escutasse algo que os outros não podiam ouvir. Seus olhos se fixavam em algo invisível, e um arrepio sutil percorria quem o observasse.
Aninha chegou a perguntar:
— Ele tá vendo o quê?
Ninguém soube responder.
Talvez lembranças. Talvez presenças. Talvez apenas o mundo sob uma lógica que os humanos ainda não compreendem.
Os anos passaram, e Agenor envelheceu.
Seu caminhar tornou-se mais lento, seus saltos mais calculados. Ainda assim, manteve aquela aura tranquila, aquela sabedoria silenciosa que parecia crescer com o tempo.
Até que, numa manhã diferente das outras, ele não se levantou.
A casa, que antes pulsava com sua presença discreta, mergulhou num silêncio pesado. Não era apenas a ausência de um animal. Era como se algo essencial tivesse partido — algo que sustentava, de maneira invisível, o equilíbrio daquele lar.
Dona Dulce chorou em silêncio. Aninha abraçou o vazio. Seu Antônio permaneceu longamente sentado, olhando para o lugar onde Agenor costumava ficar.
— Ele cuidava da gente — disse, por fim, com a voz baixa.
E talvez cuidasse mesmo.
Porque, mesmo depois de sua partida, algo permaneceu.
Nos momentos de tristeza, havia ainda um certo consolo inexplicável. Nas noites inquietas, uma sensação de proteção. Nos silêncios mais profundos, uma presença quase imperceptível — como um eco de algo que não se apaga.
Agenor partira, mas deixara uma marca invisível: a certeza de que os animais, especialmente os gatos, vivem em uma dimensão que apenas roçamos com nossa compreensão.
Eles não apenas habitam nossas casas.
Habitam nossos silêncios, nossas dores, nossas memórias.
E, de alguma forma misteriosa, cuidam de nós — mesmo quando já não estão mais aqui.
Depois de alguns meses — meses longos, arrastados, cheios de silêncios que pareciam maiores do que a própria casa — surgiu a pergunta inevitável:
Adotar outro gato?
Não foi uma decisão. Foi uma inquietação.
Veio primeiro com Aninha, de forma tímida, quase como quem pede desculpas por sentir vontade de seguir em frente:
— Mãe… e se a gente tivesse outro gatinho?
Dona Dulce não respondeu de imediato. Continuou mexendo a colher no café já frio, girando, girando, como se buscasse ali uma resposta que não vinha.
— Outro gato não é o Agenor — disse, por fim, sem dureza, mas com uma firmeza triste.
A frase ficou suspensa no ar.
Seu Antônio, que ouvira da sala, interveio dias depois, como quem entra numa conversa que nunca terminou:
— Não é pra substituir… — ajeitou os óculos — é pra continuar.
Mas continuar o quê?
A casa ainda guardava os hábitos de Agenor. O canto do sofá onde ele se deitava parecia intocado. Às vezes, Dona Dulce ainda evitava colocar objetos ali, como se temesse perturbar algo sagrado. Aninha, por sua vez, ainda chamava por ele sem perceber, em lapsos rápidos, quase sonhos acordados.
E então começaram as discussões.
Não discussões ásperas — mas aquelas conversas circulares, repetidas, que voltam sempre ao mesmo ponto.
— Vai ser diferente…
— Mas a gente tá pronto?
— E se não for igual?
— Justamente por isso…
Havia, no fundo, uma pergunta que ninguém dizia em voz alta:
É permitido amar outro sem trair o que se perdeu?
Numa tarde particularmente quente, o assunto voltou à mesa.
O ventilador girava preguiçoso, espalhando mais ruído do que alívio. Aninha insistia:
— Eu sinto falta de um gato na casa…
Dona Dulce suspirou.
— Eu sinto falta do gato.
Seu Antônio, mais calado que o habitual, levantou-se, caminhou até a porta e ficou olhando o quintal. O mesmo quintal onde Agenor, tantas vezes, parava como se enxergasse além do mundo visível.
— A casa ficou vazia demais — disse, sem se virar.
Silêncio.
Não era exatamente sobre o gato. Era sobre o que ele representava. Sobre o cuidado silencioso, a companhia sem exigências, a presença que preenchia sem pesar.
Naquela noite, algo curioso aconteceu.
Um barulho leve veio do portão.
Não era insistente. Não era urgente. Era… conhecido.
Aninha foi a primeira a perceber.
— Vocês ouviram?
Dona Dulce congelou por um instante. Seu Antônio levantou-se lentamente, como se cada passo carregasse uma expectativa antiga.
Ao abrirem o portão, encontraram um pequeno gato, magro, de olhos atentos — parado exatamente no mesmo lugar onde Agenor aparecera anos antes.
Ele não miava.
Apenas observava.
Os três se entreolharam.
Não havia decisão tomada. Nenhuma discussão concluída. Nenhum consenso firmado.
Mas, de alguma forma, a vida — com sua estranha teimosia — parecia não esperar por resoluções humanas.
Dona Dulce foi a primeira a ceder, quase num sussurro:
— Parece que… ele já decidiu.
O gato deu um passo à frente.
E, naquele gesto simples, silencioso, algo se reorganizou dentro da casa.
Não era substituição.
Não era esquecimento.
Era outra coisa — mais difícil de nomear, mas profundamente familiar:
A continuidade do afeto.
A adoção estava, enfim, confirmada.
Não houve assinatura, nem anúncio formal, nem qualquer tipo de cerimônia. Apenas aconteceu — como acontecem as coisas que já estavam decididas antes mesmo de serem ditas.
O pequeno gato já circulava pela casa com uma naturalidade desconcertante, como se conhecesse os caminhos, como se reconhecesse os cheiros, como se, de algum modo inexplicável, estivesse apenas retomando algo interrompido.
Faltava o nome.
E, curiosamente, foi isso que trouxe de volta uma certa solenidade ao ambiente.
— Nunca Agenor! — exclamou Dona Dulce, com uma firmeza que não deixava margem para negociação.
Não era rejeição. Era respeito.
O nome parecia carregado demais, quase sagrado, como se pertencesse a um tempo que não podia ser repetido.
Seguiu-se um silêncio.
Aninha olhava o gato, esperando que ele próprio se apresentasse. O bichinho, por sua vez, apenas observava, sentado no meio da sala, com aquele ar atento que lembrava — perigosamente — alguém.
Foi então que seu Antônio, sem hesitar, sem sequer piscar, decretou:
— Altamirando.
Dona Dulce virou o rosto devagar.
— O quê?
— Altamirando — repetiu ele, com a convicção de quem não propõe, apenas reconhece algo evidente.
Aninha franziu a testa.
— Mas… não é grande demais?
Dona Dulce cruzou os braços, ponderando.
— Nome comprido demais dá trabalho…
Seu Antônio, no entanto, já parecia estar além da discussão.
Abaixou-se um pouco, ficando na altura do gato, e falou como se estivesse tratando diretamente com ele:
— Pode receber o apelido de “Mirinho”. Mas seu nome… é Altamirando.
Houve um breve silêncio.
O gato piscou lentamente. Uma vez.
Depois se levantou, caminhou até seu Antônio e roçou levemente a cabeça em sua perna, num gesto calmo, decidido. Aquele gesto de gato, que se torna o dono do tutor.
Seu Antônio sorriu de lado.
— Tá vendo? Já concordou...
Dona Dulce soltou um suspiro, que misturava resignação e um começo de ternura.
— Pois muito bem, então… Altamirando.
Aninha repetiu, testando o som:
— Mirinho…
O gato — agora Altamirando, oficialmente — percorreu a sala, explorando cantos, farejando memórias, ocupando espaços. Ao passar pelo antigo lugar de Agenor, parou por um instante.
Olhou. Silêncio. Dava a impressão de que sentia algum cheiro.
Então seguiu.
E, naquele pequeno movimento, havia algo quase imperceptível — mas profundo.
Como se não estivesse substituindo.
Como se estivesse apenas… continuando a história.
Adoção confirmada, nome decidido — ainda que com certa solenidade doméstica — Altamirando, ou melhor, Mirinho, começou a revelar quem realmente era.
E, ao contrário de Agenor, cuja presença era quase filosófica, o novo morador não parecia interessado em contemplar o mundo.
Ele queria… interagir com ele.
Intensamente.
A primeira suspeita surgiu na cozinha.
Dona Dulce entrou certa manhã e encontrou o pano de prato no chão, a tigela de frutas deslocada e uma banana curiosamente mordiscada — não comida, apenas testada, como se alguém tivesse feito uma análise técnica e depois desistido.
— Esse gato… — murmurou ela, já desconfiando.
Mirinho apareceu logo em seguida, com passos leves e olhar inocente demais para ser confiável.
Sentou-se. Piscou.
Como quem diz: não há provas.
Dias depois, foi a vez da sala.
Aninha deixara seu caderno aberto sobre a mesa. Quando voltou, encontrou uma página inteira decorada com marcas de patas levemente sujas de tinta azul.
No centro, um borrão mais expressivo, quase artístico.
— Mãe! O Mirinho pintou meu dever!
Dona Dulce tentou manter a seriedade, mas falhou.
— Pelo menos tem criatividade… E sorriu, imaginando Altamirando um pintor.
Mirinho, naquele momento, estava embaixo do sofá, observando o resultado de sua intervenção estética com aparente satisfação.
Seu Antônio, por outro lado, demorou mais a perceber.
Até o dia em que o jornal simplesmente desapareceu.
Não sumiu por completo — isso teria sido menos intrigante. Ele reapareceu, horas depois, parcialmente escondido atrás da poltrona, com algumas páginas amassadas e outras… levemente rasgadas.
— Isso aqui foi um atentado — declarou, ajustando o óculos.
Mirinho surgiu atrás da cortina, enrolado como se fosse parte da decoração.
Olhou.
E deu um pequeno salto repentino, agarrando a própria sombra no chão, como se aquilo fosse a coisa mais urgente do mundo.
Seu Antônio ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois, inesperadamente, riu.
— Esse aí não veio pra cuidar da casa… veio pra acordar a casa.
E acordava mesmo.
Corridas repentinas durante a madrugada, como se perseguisse entidades invisíveis. Saltos calculados — e às vezes nem tanto — sobre móveis que claramente não foram feitos para aquilo. Investidas corajosas contra o pé de quem estivesse distraído sob o lençol.
Aninha adorava.
— Ele é maluco!
— Ele é jovem — corrigia Dona Dulce, embora já começasse a esconder melhor os objetos mais frágeis.
Mas havia algo curioso, em Altamirando.
Entre uma travessura e outra, Mirinho também demonstrava momentos de pausa.
Às vezes, no meio de uma de suas corridas, ele simplesmente parava. Olhava para um ponto específico da casa — o mesmo canto onde Agenor costumava se deitar.
Ficava ali por alguns segundos.
Quieto.
Atento.
Como se escutasse.
Como se lembrasse.
Então, de repente, voltava a correr atrás de nada — ou de tudo.
Certa noite, depois de um dia particularmente caótico — que incluíra um copo derrubado, uma planta parcialmente desenterrada e um ataque inesperado a um novelo de lã —, Dona Dulce sentou-se cansada.
Mirinho subiu no sofá e, pela primeira vez, acomodou-se ao lado dela sem inquietação.
Ficou ali. Quieto.
Ela hesitou por um instante… e fez um carinho leve em sua cabeça.
O Altamirando fechou os olhos.
E, por um breve momento, houve silêncio.
Um silêncio diferente.
Não igual ao de Agenor — nunca seria —, mas ainda assim… completo.
Dona Dulce suspirou.
— Você não é ele…
Mirinho abriu um olho, como se escutasse.
Ela continuou:
— Mas acho que a gente precisava de você, mesmo assim.
O gato não respondeu, claro.
Mas encostou-se um pouco mais.
E, naquela casa, que aprendera a conviver com a ausência, agora também se aprendia algo novo:
A alegria imperfeita, barulhenta, inesperada — mas profundamente viva — de recomeçar.
O tempo, como sempre, não pediu licença.
Passou. E, com ele, Altamirando cresceu.
Já não cabia mais no diminutivo apressado de “Mirinho”, embora o apelido resistisse, teimoso, nas vozes da casa. Seu corpo alongara-se, os movimentos tornaram-se mais precisos, e havia agora uma elegância quase cerimonial em cada passo. A transformação era visível — mas não apenas no físico.
As maluquices cessaram.
Não de uma vez, não com anúncio. Foram rareando, como as chuvas ao fim de uma estação. Primeiro, as corridas noturnas diminuíram. Depois, os ataques repentinos às sombras, tornaram-se mais espaçados. Até que, um dia, ninguém mais se lembrava da última travessura.
— Ele tá… diferente — comentou Aninha, observando-o de longe.
Dona Dulce concordou com um leve aceno.
Seu Antônio, com um meio sorriso, resumiu:
— Virou gato de verdade.
Altamirando agora passava longos períodos em silêncio.
Não um silêncio vazio — mas um silêncio cheio de alguma coisa difícil de nomear. Instalava-se em pontos estratégicos da casa: o encosto do sofá, o parapeito da janela, o mesmo canto onde Agenor, anos antes, parecia escutar o invisível.
Ficava ali. Observando.
Às vezes, o olhar seguia movimentos que ninguém mais via. Outras vezes, parecia atravessar as paredes, como se buscasse algo além do que os olhos humanos alcançam.
— Ele tá pensando — dizia Aninha, meio em tom de brincadeira, meio em dúvida.
— Ou lembrando — completava Dona Dulce, sem saber bem por quê.
Havia também uma nova forma de presença.
Altamirando não era mais o caos que agitava a casa — era o eixo que a organizava.
Se Dona Dulce sentava-se cansada, ele surgia e se acomodava próximo, sem pressa. Se seu Antônio mergulhava em seus pensamentos, lá estava o gato, em vigília tranquila. Se Aninha, agora mais crescida, se perdia em inquietações silenciosas, era ele quem se aproximava, não com brincadeiras, mas com uma companhia serena. Com Pedrinho, era um olhar pedinte...
Não exigia.
Oferecia.
E isso fazia toda a diferença.
Certa tarde, enquanto o sol atravessava a sala em faixas douradas, seu Antônio observava o gato imóvel no parapeito.
— Engraçado… — disse, ajustando o óculos — começa tudo em bagunça… e termina em contemplação.
Dona Dulce sorriu de leve.
— Talvez seja assim com a gente também.
Altamirando, como se tivesse ouvido, moveu apenas a ponta do rabo.
Nada mais.
Mas o que mais chamava atenção era aquele velho hábito.
O mesmo, o canto de Agenor...
Ele ainda parava ali.
Imóvel. Atento.
O tempo não apagara esse gesto — apenas o aprofundara.
Agora, porém, havia algo diferente. Não era mais a curiosidade inquieta de um jovem gato. Era uma escuta paciente, quase solene.
Como se compreendesse.
Como se dialogasse com aquilo que, para os outros, permanecia inacessível.
Aninha, certa vez, perguntou, já sem o tom infantil de antes:
— Você acha que ele vê as mesmas coisas que o Agenor via?
Dona Dulce demorou a responder.
— Eu acho… — disse, por fim — que cada gato vê do seu jeito. Mas talvez… o mistério seja o mesmo.
Naquela noite, a casa estava em paz.
Altamirando caminhou lentamente até o antigo lugar de Agenor. Parou.
Sentou-se.
E ficou.
O silêncio que se formou não era de ausência.
Era de continuidade.
Como se, naquele instante, todas as fases — a chegada, a perda, o recomeço, a travessura e a maturidade — se encontrassem num único ponto invisível.
E ali, naquele canto simples de uma casa comum, Altamirando parecia cumprir o destino silencioso de todo gato:
Ser, ao mesmo tempo, presença e enigma.
Companhia e mistério.
Fim… e recomeço.
E Madalena?
A pergunta surgiu quase por acaso, mas trouxe consigo um silêncio diferente — mais denso, mais antigo.
Aninha foi quem perguntou, interrogativamente, numa tarde qualquer, dessas em que o tempo parece dobrar-se sobre si mesmo:
— Mãe… e a Madalena?
Dona Dulce parou o que estava fazendo. Não imediatamente — houve aquele pequeno atraso de quem é alcançado por uma lembrança, que nunca foi embora, apenas se escondeu.
Seu Antônio ergueu os olhos por cima do óculos.
Altamirando, no parapeito, moveu levemente as orelhas.
— A Madalena… — repetiu Dona Dulce, como se experimentasse o nome depois de muito tempo.
Diferente de Agenor, Madalena nunca fora completamente da casa.
Era presença e ausência ao mesmo tempo.
Aparecia nos fins de tarde, silenciosa, elegante, com aquele andar que parecia não tocar o chão. Não pedia nada — aceitava. Comia pouco, ficava o suficiente, e partia antes que a noite se tornasse profunda demais.
Tinha olhos que não se entregavam.
E um mistério que ninguém ousava decifrar.
— Ela escolhia a gente… mas nunca ficou — disse seu Antônio, mais para si do que para os outros.
Aninha lembrava-se bem.
Lembrava-se de esperar por ela. Lembrava-se da alegria contida, quando surgia no muro. Lembrava-se, sobretudo, da sensação de que Madalena pertencia a outro mundo — um mundo que apenas tangenciava o deles.
— Ela sumiu, não foi? — perguntou Aninha, agora com um tom mais maduro.
Dona Dulce assentiu devagar.
— Depois que o Agenor… partiu… ela ainda apareceu umas duas vezes.
— Eu me lembro — disse seu Antônio. — Ficava menos tempo.
— Como se estivesse… se despedindo — completou Dona Dulce.
Silêncio.
Altamirando desceu do parapeito.
Caminhou lentamente até o centro da sala.
Parou.
— E depois? — insistiu Aninha.
Dona Dulce respirou fundo.
— Depois… não voltou mais.
Mas não havia dor na frase.
Havia algo diferente. Uma aceitação serena, quase respeitosa.
Como se todos soubessem, no fundo, que Madalena nunca fora de partir — porque nunca fora de ficar.
Seu Antônio, então, disse algo que raramente dizia — algo sem ironia, sem defesa:
— Tem gato que é da casa… e tem gato que é do mundo.
Aninha pensou por um instante.
— E ela?
Ele sorriu de leve.
— Ela era do caminho.
Naquela noite, algo curioso aconteceu.
Altamirando, já em seu silêncio filosófico, dirigiu-se à porta.
Sentou-se.
Ficou olhando para fora.
Não miou. Não pediu para sair.
Apenas observava.
O vento passava leve pelo quintal. As sombras se moviam devagar. Por um instante — breve, quase ilusório — pareceu haver um movimento no muro.
Uma forma.
Um contorno.
Elegante.
Silencioso.
Altamirando não se moveu. Mas seus olhos acompanharam.
E, então, piscou lentamente.
Uma vez.
Depois, levantou-se e voltou para dentro.
No dia seguinte, nada foi dito.
Mas Aninha, ao passar pelo muro, teve a estranha sensação de que alguém ainda conhecia aquele caminho.
E talvez conhecesse mesmo.
Porque há presenças que não se explicam em permanência.
Elas existem no intervalo.
Na travessia.
No quase.
Madalena não ficou.
Mas também não se foi completamente.
Como certos encontros da vida, ela permaneceu onde sempre esteve:
Entre o que se vê…
e o que apenas se sente.
“Entre o que se vê… e o que apenas se sente” existe um território silencioso, quase invisível — e, ainda assim, profundamente real.
É o espaço onde a experiência humana se torna maior do que as palavras.
O que se vê, pertence ao mundo das formas: o gesto, o corpo, a presença concreta, o acontecimento que pode ser contado, descrito, compartilhado. É o domínio da certeza, visível, aquilo que se pode apontar e dizer: está aqui.
Mas o que se sente… não obedece a essa lógica.
O que se sente escapa.
Não se fixa. Não se deixa medir. Não cabe inteiro em linguagem alguma.
É uma espécie de verdade mais íntima — e, paradoxalmente, mais difícil de provar.
Entre esses dois polos existe um intervalo.
E é nesse intervalo que a vida realmente acontece.
Porque raramente sentimos apenas o que vemos.
E quase nunca vemos tudo o que sentimos.
Pense na lembrança de alguém que partiu.
O corpo já não está. A voz não ecoa. O lugar que ocupava pode até ter sido reorganizado. Tudo, no plano visível, indica ausência.
Mas algo permanece.
Um cheiro que surge sem aviso. Um gesto repetido sem perceber. Um silêncio que carrega significado. Uma presença que não se impõe — mas também não desaparece.
Isso não se vê. Mas se sente.
E, de algum modo, é tão real quanto qualquer objeto diante dos olhos.
Esse “entre” não é vazio.
É densidade.
É onde habitam as memórias, os afetos, as intuições, os vínculos que não dependem da matéria para existir. É também onde mora o mistério — aquilo que não conseguimos explicar, mas reconhecemos quando nos atravessa.
Talvez seja por isso que certos encontros parecem maiores do que o tempo que duraram.
E certas ausências… nunca se completam.
Porque não pertencem apenas ao que foi vivido de forma concreta — pertencem ao que foi sentido de forma profunda.
Viver apenas no que se vê, é limitar a existência ao que pode ser comprovado.
Mas viver apenas no que se sente, é correr o risco de se perder naquilo que não tem forma.
A sabedoria — se é que ela existe — talvez esteja em sustentar essa tensão.
Habitar esse intervalo sem a necessidade de resolvê-lo.
Aceitar que há coisas que não serão explicadas, apenas experienciadas.
No fundo, “entre o que se vê… e o que apenas se sente” é onde se revela uma dimensão mais sutil da realidade.
Uma dimensão onde o amor continua mesmo sem presença.
Onde a memória não é passado, mas continuidade.
Onde o invisível não é ausência — é outra forma de presença.
E talvez seja justamente nesse espaço — discreto, silencioso, quase imperceptível — que aquilo que realmente importa encontra sua forma mais verdadeira de existir.
O conto de Agenor, Madalena e Altamirando nunca foi apenas sobre gatos.
Ou melhor: é sobre gatos — mas não só.
Há uma ambiguidade que atravessa toda a narrativa, como um fio invisível que costura os episódios, aparentemente simples do cotidiano doméstico, a uma reflexão mais ampla sobre a própria condição de existir. Os gatos, com seus gestos contidos e seus silêncios densos, funcionam como espelhos — não do que somos na superfície, mas do que nos habita em profundidade.
Agenor representa aquilo que chega sem explicação e, sem esforço, organiza o mundo ao redor. Sua presença é quase arquetípica: o guardião silencioso, aquele que compreende sem falar, que acolhe sem invadir. Sua morte não é apenas a perda de um animal — é o primeiro grande confronto da casa com a finitude, com a ruptura inevitável que nenhuma afeição consegue impedir.
Madalena, por sua vez, é o oposto complementar. Nunca pertence, nunca se fixa. Ela encarna o transitório, o indomável, o que não pode ser retido. Sua existência é feita de intervalos, de aparições e ausências. Se Agenor é a permanência que conforta, Madalena é o mistério que inquieta. Ela não deixa vazio — deixa perguntas.
Altamirando surge como síntese — mas não como repetição. Ele não substitui, ele desloca. Sua trajetória, da desordem juvenil à contemplação madura, reflete um ciclo que é profundamente humano: nascer no impulso, viver no excesso, e, com o tempo, aprender a habitar o silêncio.
Assim, o conto se revela como uma metáfora da vida.
A chegada inesperada (Agenor), o encontro que não se pode possuir (Madalena), e o amadurecimento que nos transforma (Altamirando). Três formas de existência, três modos de estar no mundo — todos atravessados pela mesma pergunta silenciosa: o que, afinal, permanece?
E é aqui que a ambiguidade se intensifica.
Porque, se lido literalmente, o conto fala de gatos que entram e saem de uma casa, deixam marcas, criam vínculos.
Mas, se lido com mais atenção, ele fala de pessoas.
Fala dos que chegam e mudam tudo sem pedir licença. Dos que passam e, justamente por não ficarem, se tornam inesquecíveis. E dos que permanecem tempo suficiente para se transformar — e, ao se transformarem, nos transformam também.
Fala, sobretudo, da impossibilidade de fixar o que é vivo.
Tudo muda.
Tudo escapa.
Tudo segue.
Na última noite, sem que ninguém percebesse de imediato, algo se alterou na casa.
Altamirando, já em sua fase de silêncio profundo, caminhou até o antigo canto — o mesmo onde Agenor parava, o mesmo que, por vezes, parecia convocar presenças invisíveis.
Sentou-se.
Mas, dessa vez, não ficou apenas observando.
Deitou-se.
Lentamente.
Como se reconhecesse algo.
Como se finalmente compreendesse.
Dona Dulce, ao passar, estranhou.
— Ele não costuma deitar aí…
Seu Antônio aproximou-se.
Aninha ficou em silêncio.
Altamirando não se moveu.
Respirava — mas havia algo diferente no ritmo, algo que não pertencia mais à pressa da vida.
Um tempo outro.
Mais calmo.
Mais distante.
E, então, sem anúncio, sem ruptura visível, apenas… cessou.
Não houve barulho.
Não houve luta.
Apenas um silêncio — mas não o silêncio da ausência imediata.
Um silêncio cheio.
Denso.
Quase sagrado.
Aninha foi a primeira a chorar.
Dona Dulce segurou o ar por um instante longo demais.
Seu Antônio, com a voz baixa, disse apenas:
— Ele entendeu.
Ninguém perguntou o quê.
Porque, naquele momento, todos sabiam. Ou, pelo menos, sentiam.
Naquela mesma noite, o vento atravessou o quintal com uma suavidade incomum.
E, por um instante breve — desses que não se podem provar, apenas perceber —, três presenças pareceram cruzar o mesmo espaço.
Nenhuma delas visível. Mas todas… inegavelmente reais.
No dia seguinte, a casa estava em silêncio.
Mas não vazia.
Porque, no fundo, o conto nunca foi sobre quem ficou ou quem partiu.
Foi sobre aquilo que, mesmo atravessando o tempo, a perda e a mudança, insiste em permanecer — não diante dos olhos…
Mas exatamente ali,
entre o que se vê…
e o que apenas se sente.
mario moura
QUEM ERA VOCÊ ANTES DE EU NASCER? ANTES DE SER MEU PAI?
A pergunta veio sem aviso, como um vento leve que entra pela janela num fim de tarde:
— Pai… quem era você antes de ser meu pai?
Ele ficou em silêncio por um instante. Não por falta de resposta, mas porque algumas respostas exigem que a gente volte no tempo com cuidado, como quem folheia um álbum antigo.
— Eu era… muitas coisas — disse ele, com um sorriso pequeno.
— Mas nenhuma delas sabia que você existiria.
O filho franziu a testa, curioso.
— Como assim?
— Antes de você, eu era só um rapaz tentando entender o mundo. Eu errava mais do que acertava, fazia planos que não davam certo, mudava de ideia toda hora. Achava que sabia quem eu era… mas não sabia.
O menino sentou ao lado dele, atento.
— E quando eu nasci?
O pai olhou para as próprias mãos, como se ainda pudesse sentir o peso daquele primeiro instante.
— Quando você nasceu, foi como se alguém tivesse acendido uma luz aqui dentro. Tudo o que eu era antes… ainda estava ali, mas começou a mudar. Eu aprendi a ter mais paciência, a ter mais medo também… e mais coragem. Aprendi que não dava mais para pensar só em mim.
— Então você deixou de ser quem você era?
O pai balançou a cabeça.
— Não! Eu continuo sendo aquela pessoa… só que maior. Como uma história que ganhou um novo capítulo. Você não apagou quem eu fui — você me deu um motivo pra melhorar.
O menino ficou em silêncio por um momento, absorvendo aquilo.
— Então… você gosta mais de quem você é agora?
O pai sorriu, dessa vez com os olhos.
— Muito mais. Porque agora eu sei por que estou aqui.
O filho encostou a cabeça no ombro dele.
— Eu acho que você devia ser legal antes, também.
O pai riu baixinho.
— Eu espero que sim… mas foi depois de você, que eu comecei a tentar ser melhor de verdade.
O sol já estava se despedindo, pintando o céu de laranja. E ali, naquele instante simples, o passado e o presente se encontravam — não como versões diferentes de uma mesma pessoa, mas como partes de uma mesma história, ainda sendo escrita.
O menino mexeu-se inquieto, como se sentisse medo de expressar um sentimento que o tomara, repentinamente. O pai notou a inquietação, e perguntou por que ele se inquietara.
Olhando firme o pai nos olhos, formulou a pergunta que o incomodara:
— Eu também vou perder você, como você perdeu o vovô e a vovó?
Sem saber, tinha acabado de virar uma das páginas mais importantes da vida...
O pai não respondeu na hora.
A pergunta não era difícil de entender — era difícil de atravessar.
Ele olhou para o filho com mais cuidado do que antes, como se agora não bastasse explicar; era preciso acolher.
— Vai… — disse, com suavidade, sem desviar da verdade. — Um dia, isso pode acontecer.
O menino abaixou o olhar, os dedos inquietos.
O pai continuou, com a voz firme, mas calma:
— Mas tem uma coisa importante que você precisa saber… perder alguém não é o fim da relação com essa pessoa.
O filho levantou os olhos, confuso. Ar de quem atravessou o deserto...
— Como assim?
— Quando alguém que a gente ama vai embora, a presença muda de lugar. Ela deixa de estar do lado de fora… e passa a morar dentro da gente.
Ele tocou levemente o peito do filho.
— Nas coisas que a gente lembra, nos jeitos que a gente aprende, nas frases que repetimos sem perceber. Às vezes até nas escolhas que fazemos.
O menino ficou quieto, escutando.
— Eu sinto falta dos meus pais — continuou o pai. — Há dias em que a saudade aperta. Mas também tem dias em que eu sorrio lembrando deles. E, de algum jeito… eles ainda estão comigo.
— Não é a mesma coisa, né? — disse o menino, com a voz pequena, como quem discorda, por não se acomodar com a perda.
— Não — respondeu o pai, com honestidade. Não é a mesma coisa...
Silêncio demorado. Quase eterno, como se os ponteiros de um relógio tivessem caído.
— Não é a mesma coisa. A falta existe. E ela ensina a gente a valorizar o tempo, enquanto ele está acontecendo.
Ele puxou o filho um pouco mais para perto.
— Mas olha… você não precisa viver isso agora. O que você tem hoje… é o agora. E o agora ainda tem a gente aqui, junto.
O menino encostou-se no pai, mais silencioso.
— Eu tenho medo… — confessou.
O pai não tentou tirar o medo dele.
— Eu também tenho — disse. — Porque quando a gente ama, a gente sempre corre o risco de sentir falta um dia.
Ele fez uma pausa breve.
— Mas sabe o que é mais forte do que o medo?
O menino não respondeu.
— O próprio amor. Porque é ele que faz tudo isso valer a pena.
O filho respirou fundo, ainda triste, mas menos sozinho.
— Então… mesmo que um dia eu perca vocês… eu ainda vou ter vocês comigo?
O pai sorriu, com os olhos marejados.
— Vai. De um jeito diferente… mas vai.
O menino fechou os olhos por um instante e abraçou o pai com mais força do que antes — como se tivesse entendido que aquele momento, simples e silencioso, já era uma daquelas coisas que a memória nunca deixaria ir embora.
E o pai retribuiu o abraço com a mesma força — não para segurar o tempo, mas para vivê-lo inteiro, enquanto ele ainda estava ali.
A pergunta veio sem aviso, como um vento leve que entra pela janela num fim de tarde:
— Pai… quem era você antes de ser meu pai?
Ele ficou em silêncio por um instante. Não por falta de resposta, mas porque algumas respostas exigem que a gente volte no tempo com cuidado, como quem folheia um álbum antigo.
— Eu era… muitas coisas — disse ele, com um sorriso pequeno. — Mas nenhuma delas sabia que você existiria.
O filho franziu a testa, curioso.
— Como assim?
— Antes de você, eu era só um rapaz tentando entender o mundo. Eu errava mais do que acertava, fazia planos que não davam certo, mudava de ideia toda hora. Achava que sabia quem eu era… mas não sabia.
O menino sentou ao lado dele, atento.
— E quando eu nasci?
O pai olhou para as próprias mãos, como se ainda pudesse sentir o peso daquele primeiro instante.
— Quando você nasceu, foi como se alguém tivesse acendido uma luz aqui dentro. Tudo o que eu era antes… ainda estava ali, mas começou a mudar. Eu aprendi a ter mais paciência, a ter mais medo também… e mais coragem. Aprendi que não dava mais pra pensar só em mim.
— Então você deixou de ser quem você era?
O pai balançou a cabeça.
— Não. Eu continuo sendo aquela pessoa… só que maior. Como uma história que ganhou um novo capítulo. Você não apagou quem eu fui — você me deu um motivo pra melhorar.
O menino ficou em silêncio por um momento, absorvendo aquilo.
— Então… você gosta mais de quem você é agora?
O pai sorriu, dessa vez com os olhos.
— Muito mais. Porque agora eu sei por que estou aqui.
O filho encostou a cabeça no ombro dele.
— Eu acho que você devia ser legal antes também.
O pai riu baixinho.
— Eu espero que sim… mas foi depois de você que eu comecei a tentar ser melhor de verdade.
O sol já estava se despedindo, pintando o céu de laranja. E ali, naquele instante simples, o passado e o presente se encontravam — não como versões diferentes de uma mesma pessoa, mas como partes de uma mesma história, ainda sendo escrita.
E o filho, sem saber, tinha acabado de virar uma das páginas mais importantes dela.
O pai não respondeu na hora.
A pergunta não era difícil de entender — era difícil de atravessar.
Ele olhou para o filho com mais cuidado do que antes, como se agora não bastasse explicar; era preciso acolher.
— Vai… — disse, com suavidade, sem desviar da verdade.
— Um dia, isso pode acontecer.
O menino abaixou o olhar, os dedos inquietos.
O pai continuou, com a voz firme, mas calma:
— Mas tem uma coisa importante que você precisa saber… perder alguém não é o fim da relação com essa pessoa.
O filho levantou os olhos, confuso.
— Como assim?
— Quando alguém que a gente ama vai embora, a presença muda de lugar. Ela deixa de estar do lado de fora… e passa a morar dentro da gente.
Ele tocou levemente o peito do filho.
— Nas coisas que a gente lembra, nos jeitos que a gente aprende, nas frases que repetimos sem perceber. Às vezes até nas escolhas que fazemos.
O menino ficou quieto, escutando.
— Eu sinto falta dos meus pais — continuou o pai. — Tem dias em que a saudade aperta. Mas também tem dias em que eu sorrio lembrando deles. E, de algum jeito… eles ainda estão comigo.
— Não é a mesma coisa, né? — disse o menino, com a voz pequena.
— Não — respondeu o pai, com honestidade. — Não é a mesma coisa. A falta existe. E ela ensina a gente a valorizar o tempo enquanto ele está acontecendo.
Ele puxou o filho um pouco mais para perto.
— Mas olha… você não precisa viver isso agora. O que você tem hoje… é o agora. E o agora ainda tem a gente aqui, junto.
O menino encostou no pai, mais silencioso.
— Eu tenho medo… — confessou.
O pai não tentou tirar o medo dele.
— Eu também tenho — disse.
— Porque quando a gente ama, a gente sempre corre o risco de sentir falta um dia.
Ele fez uma pausa breve.
— Mas sabe o que é mais forte que o medo?
O menino não respondeu.
— O próprio amor. Porque é ele que faz tudo isso valer a pena.
O filho respirou fundo, ainda triste, mas menos sozinho.
— Então… mesmo que um dia eu perca vocês… eu ainda vou ter vocês comigo?
O pai sorriu, com os olhos marejados.
— Vai. De um jeito diferente… mas vai.
O menino fechou os olhos por um instante e abraçou o pai com mais força do que antes — como se tivesse entendido que aquele momento, simples e silencioso, já era uma daquelas coisas, que a memória nunca deixaria ir embora.
E o pai retribuiu o abraço com a mesma força — não para segurar o tempo, mas para vivê-lo inteiro, enquanto ele ainda estava ali.
O pai não disse nada imediatamente.
Havia algo no jeito que o filho falou — baixo, quase como sussurrar um segredo dito ao próprio coração — que não pedia resposta, mas presença. “Acho que entendi… esse momento é eterno… como todos os outros que já passaram…”
O ar parecia mais denso, como se o tempo, por um instante, tivesse desacelerado para escutar também.
O pai fechou os olhos por um breve segundo. Não para fugir, mas para sentir melhor. Porque havia ali uma verdade que não se explicava — apenas se reconhecia.
— É assim que a vida continua… — disse ele, em voz baixa.
O silêncio permitiu ouvir o canto de um pássaro.
— Não só no que a gente vive agora, mas no que a gente carrega adiante.
Ele segurou a mão do filho com mais firmeza, não por medo de perder, mas por reverência ao que existia ali.
— Tudo o que fomos… não desaparece. Vai se transformando. Vira memória, vira ensinamento, vira gesto. Vira até silêncio… desses que dizem tudo.
O menino não respondeu. Mas também não precisava.
— Os que vieram antes de nós — continuou o pai — ainda vivem, de algum jeito, no que fazemos sem perceber. No jeito que você ri… talvez tenha um pouco do riso do meu pai. No jeito que você olha o mundo… pode ter algo da sua mãe, da mãe dela, e de tantos outros que você nem chegou a conhecer.
Ele fez uma pausa, deixando que aquilo pousasse, amadurecesse.
— A gente não começa do zero. A gente continua...
O filho apertou a mão do pai.
— Então… quando eu lembrar de você… eu vou estar continuando você?
O pai sorriu, com uma mistura de ternura e algo mais profundo, quase sagrado.
— Sim. E mais do que isso… você vai estar transformando o que eu fui, em algo novo. Porque cada geração não só guarda — ela recria.
O vento leve passou novamente, como se atravessasse não só o espaço, mas também o tempo.
— As memórias — disse o pai — são como pequenas chamas. Algumas tremem, outras parecem quase se apagar… mas, quando são compartilhadas, elas acendem outras. E é assim que o amor atravessa gerações. Não como algo preso no passado, mas como algo vivo, em movimento.
O menino respirou fundo, e havia lágrimas que não caíam — não por contenção, mas por plenitude.
— Então… a gente nunca perde tudo?
— Nunca — respondeu o pai.
Silêncio demorado.
— Porque aquilo que foi vivido com amor não se perde. Se transforma em presença dentro de quem continua.
O silêncio que veio depois não era ausência de palavras. Era um espaço cheio de significado, onde passado, presente e futuro pareciam coexistir.
O filho encostou a cabeça no peito do pai, escutando o coração dele bater — não como um som qualquer, mas como um lembrete, de que aquele instante estava vivo… e, por isso, já começava a se tornar memória.
Uma memória que, um dia, seria lembrada não apenas com saudade, mas com gratidão.
E talvez fosse isso que tornava tudo eterno: não o fato de durar para sempre, mas o fato de nunca deixar de significar.
O menino, ainda de olhos fechados, repetiu quase em pensamento:
— É eterno…
E o pai, sem corrigir, sem explicar, apenas acolhendo, pensou:
Sim… porque agora faz parte de você.
O silêncio que veio depois não foi vazio — foi pleno.
Não era ausência de palavras, mas a presença de algo que já não cabia nelas. Um silêncio denso, quase palpável, que não separava pai e filho, mas os unia ainda mais. Como se, naquele instante, tudo o que precisava ser dito tivesse sido dito — e tudo o que realmente importava tivesse encontrado um lugar para existir sem som.
Há silêncios que incomodam, que afastam, que criam distância. Mas aquele era diferente. Era um silêncio que consagrava. Como se fosse um rito invisível, onde o amor deixava de ser apenas sentimento e se tornava testemunho.
O pai sentia o peso daquele momento — não como um fardo, mas como algo sagrado. Um peso bom, desses que nos lembram que estamos diante de algo verdadeiro. Ele sabia, mesmo sem formular em palavras, que aquele instante não passaria como os outros. Ele ficaria.
Ficaria no jeito como o filho lembraria daquele abraço.
Ficaria no modo como, um dia, talvez, ele próprio seguraria a mão de alguém com o mesmo cuidado.
Ficaria nas pausas, nos gestos, nos silêncios que ele ainda aprenderia a reconhecer.
(O silêncio eterniza, porque não disputa espaço com o tempo.)
As palavras envelhecem, mudam de sentido, às vezes se perdem. Mas o silêncio — quando preenchido de amor — permanece intacto dentro da memória. Ele não precisa ser lembrado com precisão; ele é sentido novamente, inteiro, cada vez que retorna.
Naquele momento, pai e filho não estavam apenas vivendo algo juntos. Estavam criando uma herança invisível. Algo que não seria escrito, nem ensinado diretamente, mas transmitido — como tudo o que é essencial.
Porque o amor mais profundo não é o que se declara… é o que se sustenta.
E, às vezes, ele se sustenta, justamente assim: num silêncio compartilhado,
numa respiração tranquila, numa presença que não precisa se explicar.
O menino talvez ainda não tivesse palavras para aquilo. Mas, um dia, teria memória. E essa memória não viria como uma cena nítida, cheia de detalhes — viria como uma sensação de acolhimento, de pertencimento, de continuidade.
E ele saberia, mesmo sem saber explicar:
Foi ali que o amor se tornou eterno.
O pai, por sua vez, compreendia algo igualmente profundo: que não são os grandes discursos que atravessam gerações, mas esses instantes silenciosos, onde o amor encontra sua forma mais verdadeira.
O tempo seguiria. Outros dias viriam. Outras conversas, outras perdas, outras descobertas.
Mas aquele silêncio… não passaria.
(Porque certos momentos não vivem no tempo — vivem em nós.)
E, quando o amor encontra esse lugar, ele deixa de ser apenas vivido… e passa a ser guardado como algo que nunca se perde. "Acho que entendi... esse momento é eterno... como todos os outros que já passaram..."
O pai não disse nada imediatamente.
Havia algo no jeito que o filho falou — baixo, quase como um segredo dito ao próprio coração — que não pedia resposta, mas presença.
“Acho que entendi… esse momento é eterno… como todos os outros que já passaram…”
O ar parecia mais denso, como se o tempo, por um instante, tivesse desacelerado para escutar também.
O pai fechou os olhos por um breve segundo. Não para fugir, mas para sentir melhor. Porque havia ali uma verdade que não se explicava — apenas se reconhecia.
— É assim que a vida continua… — disse ele, em voz baixa. — Não só no que a gente vive agora, mas no que a gente carrega adiante.
Ele segurou a mão do filho com mais firmeza, não por medo de perder, mas por reverência ao que existia ali.
— Tudo o que fomos… não desaparece. Vai se transformando. Vira memória, vira ensinamento, vira gesto. Vira até silêncio… desses que dizem tudo.
O menino não respondeu. Mas também não precisava.
— Os que vieram antes de nós — continuou o pai — ainda vivem, de algum jeito, no que fazemos sem perceber. No jeito que você ri… talvez tenha um pouco do riso do meu pai. No jeito que você olha o mundo… pode ter algo da sua mãe, da mãe dela, e de tantos outros que você nem chegou a conhecer.
Ele fez uma pausa, deixando que aquilo pousasse, amadurecesse.
— A gente não começa do zero. A gente continua.
O filho apertou a mão do pai.
— Então… quando eu lembrar de você… eu vou estar continuando você?
O pai sorriu, com uma mistura de ternura e algo mais profundo, quase sagrado.
— Sim. E mais do que isso… você vai estar transformando o que eu fui em algo novo. Porque cada geração não só guarda — ela recria.
O vento leve passou novamente, como se atravessasse não só o espaço, mas também o tempo.
— As memórias — disse o pai — são como pequenas chamas. Algumas tremem, outras parecem quase se apagar… mas, quando são compartilhadas, elas acendem outras. E é assim que o amor atravessa gerações. Não como algo preso no passado, mas como algo vivo, em movimento.
O menino respirou fundo, e havia lágrimas que não caíam — não por contenção, mas por plenitude.
— Então… a gente nunca perde tudo?
— Nunca — respondeu o pai. — Porque aquilo que foi vivido com amor não se perde. Se transforma em presença dentro de quem continua.
O silêncio que veio depois não era ausência de palavras. Era um espaço cheio de significado, onde passado, presente e futuro pareciam coexistir.
O filho encostou a cabeça no peito do pai, escutando o coração dele bater — não como um som qualquer, mas como um lembrete de que aquele instante estava vivo… e, por isso, já começava a se tornar memória.
Uma memória que, um dia, seria lembrada não apenas com saudade, mas com gratidão.
E talvez fosse isso que tornava tudo eterno: não o fato de durar para sempre, mas o fato de nunca deixar de significar.
O menino, ainda de olhos fechados, repetiu quase em pensamento:
— É eterno…
E o pai, sem corrigir, sem explicar, apenas acolhendo, pensou:
Sim… porque agora faz parte de você.
O silêncio que veio depois não foi vazio — foi pleno.
Não era ausência de palavras, mas a presença de algo que já não cabia nelas. Um silêncio denso, quase palpável, que não separava pai e filho, mas os unia ainda mais. Como se, naquele instante, tudo o que precisava ser dito tivesse sido dito — e tudo o que realmente importava tivesse encontrado um lugar para existir sem som.
(Há silêncios que incomodam, que afastam, que criam distância.)
Mas aquele era diferente. Era um silêncio que consagrava. Como se fosse um rito invisível, onde o amor deixava de ser apenas sentimento e se tornava testemunho.
O pai sentia o peso daquele momento — não como um fardo, mas como algo sagrado. Um peso bom, desses que nos lembram que estamos diante de algo verdadeiro. Ele sabia, mesmo sem formular em palavras, que aquele instante não passaria como os outros. Ele ficaria.
Ficaria no jeito como o filho lembraria daquele abraço.
Ficaria no modo como, um dia, talvez, ele próprio seguraria a mão de alguém com o mesmo cuidado.
Ficaria nas pausas, nos gestos, nos silêncios que ele ainda aprenderia a reconhecer.
(O silêncio eterniza porque não disputa espaço com o tempo.)
As palavras envelhecem, mudam de sentido, às vezes se perdem. Mas o silêncio — quando preenchido de amor — permanece intacto dentro da memória. Ele não precisa ser lembrado com precisão; ele é sentido novamente, inteiro, cada vez que retorna.
Naquele momento, pai e filho não estavam apenas vivendo algo juntos. Estavam criando uma herança invisível. Algo que não seria escrito, nem ensinado diretamente, mas transmitido — como tudo o que é essencial.
Porque o amor mais profundo não é o que se declara… é o que se sustenta.
E, às vezes, ele se sustenta justamente assim: num silêncio compartilhado, numa respiração tranquila, numa presença que não precisa se explicar.
O menino talvez ainda não tivesse palavras para aquilo. Mas, um dia, teria memória. E essa memória não viria como uma cena nítida, cheia de detalhes — viria como uma sensação de acolhimento, de pertencimento, de continuidade.
E ele saberia, mesmo sem saber explicar:
(Foi ali que o amor se tornou eterno.)
O pai, por sua vez, compreendia algo igualmente profundo: que não são os grandes discursos que atravessam gerações, mas esses instantes silenciosos, onde o amor encontra sua forma mais verdadeira.
O tempo seguiria. Outros dias viriam. Outras conversas, outras perdas, outras descobertas.
Mas aquele silêncio… não passaria.
Porque certos momentos não vivem no tempo — vivem em nós.
E, quando o amor encontra esse lugar, ele deixa de ser apenas vivido…
e passa a ser guardado como algo que nunca se perde.
mario moura
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UM ESCRITOR, SEUS PERSONAGENS E UM CONFLITO
O escritor já não sabia se era ele quem criava o personagem, ou se era o personagem que o escrevia. Sentado diante da tela em branco, com o cursor piscando como um coração impaciente, ele tentava domar aquela figura que surgira quase por acaso — um homem de presença esmagadora, cuja vontade dobrava todos ao redor.
No início, parecia simples. Seria apenas um antagonista: alguém rígido, autoritário, talvez até cruel. Mas, conforme as páginas avançavam, o personagem crescia de forma desproporcional. Invadia cenas que não lhe pertenciam, silenciava vozes que deveriam ter importância, reorganizava a história ao seu bel-prazer. Tornava-se, pouco a pouco, o eixo de tudo.
O escritor fechou o arquivo, inquieto.
“Por que ele precisa dominar tanto?”, murmurou.
A pergunta ecoou além da ficção. Ele começou a perceber que aquela tirania não era apenas narrativa — era familiar. Recordou-se do pai, cuja palavra era lei à mesa; das reuniões em que ninguém ousava discordar do tio mais velho; das relações profissionais onde o poder se disfarçava de competência, mas operava como controle.
O personagem não era invenção. Era síntese.
De volta ao texto, o escritor tentou enfraquecê-lo. Introduziu falhas, hesitações, pequenos momentos de vulnerabilidade. Mas o tirano reagia — não aceitava ser diminuído. Em cada diálogo, encontrava formas de recuperar o domínio, de manipular, de impor sua visão.
“Talvez o problema não seja ele”, pensou o escritor. “Talvez sejam os outros.”
E então percebeu: os demais personagens haviam sido construídos para ceder. Tinham sido moldados para evitar conflito, para aceitar, para sobreviver à força do outro. Não era apenas o tirano que precisava mudar — era o mundo ao redor dele.
Reescreveu tudo.
Deu voz a quem antes se calava. Criou resistência onde havia submissão. Introduziu confronto, não como violência, mas como afirmação. E, pela primeira vez, o tirano hesitou. Sua força já não era absoluta. Seu poder encontrava limites.
O escritor respirou fundo.
Não havia eliminado o personagem — apenas o colocado em relação. E nisso encontrou uma estranha paz: o poder, afinal, não existe sozinho. Ele se sustenta nas estruturas que o permitem.
Ao salvar o arquivo, percebeu que sua inquietação não era sobre escrever um tirano, mas sobre entender por que, tantas vezes, permitimos que existam.
E, talvez, como na ficção, a resposta começasse em dar voz a quem sempre foi escrito em silêncio.
O escritor, já imerso demais em suas próprias construções, começou a suspeitar que havia deslocado demais a responsabilidade. Durante capítulos inteiros, o controle parecia nascer do Estado, das normas, das estruturas. Mas algo não fechava. Havia momentos — pequenos, quase invisíveis — em que o controle surgia mesmo na ausência de qualquer regra explícita.
Foi isso que o fez parar.
E se o impulso de controlar não fosse apenas político, mas humano?
Ele voltou ao texto com outro olhar. Passou a observar não apenas o tirano, nem apenas o Estado difuso, mas os gestos cotidianos entre os personagens. Um corrigia a fala do outro. Outro decidia por alguém “para o seu bem”. Pequenas interferências, justificadas por cuidado, eficiência, amor.
Lina, que antes parecia uma força de desestabilização externa, também não escapou desse novo enquadramento. Em uma cena, ao tentar abrir espaço para que um personagem se expressasse, ela interrompe outro. Quase imperceptível — mas ali estava: a tentativa de conduzir, de direcionar, de moldar o fluxo.
O escritor hesitou ao escrever isso.
Seria incoerente? Ou inevitável?
Começou então a perceber que o controle podia ser menos uma imposição consciente e mais uma inclinação profunda — uma forma de lidar com a incerteza. Controlar o outro, a situação, o ambiente… talvez fosse, em parte, uma tentativa de organizar o caos, de reduzir o imprevisível que tanto inquieta.
O tirano, nesse novo recorte, deixava de ser uma exceção monstruosa e se tornava uma intensificação. Ele não era diferente em natureza — apenas em grau. Onde outros sugeriam, ele impunha. Onde outros influenciavam, ele dominava.
Essa percepção desconcertou o escritor.
Se o controle é um dado da personalidade humana, então nenhuma estrutura — nem mesmo as mais libertárias — estaria completamente livre dele. Ideologias poderiam deslocá-lo, disfarçá-lo, redistribuí-lo… mas dificilmente eliminá-lo.
Na narrativa, isso começou a aparecer como uma espécie de tensão permanente. Mesmo nos espaços criados por Lina, onde as hierarquias eram questionadas, surgiam disputas sutis: quem fala mais, quem define os temas, quem interpreta melhor o que é “liberdade”.
— Até a recusa em controlar pode virar uma forma de controle — escreveu o autor, quase como uma nota para si mesmo.
O silêncio que se seguiu a essa frase foi diferente. Não era mais o silêncio imposto pelo medo ou pela norma, mas um silêncio reflexivo, incômodo. Como se os personagens — e o próprio escritor — estivessem confrontando algo que não podia ser facilmente resolvido.
Ele percebeu então que talvez o objetivo não fosse erradicar o controle, mas torná-lo visível. Reconhecer quando ele emerge, como se manifesta, a quem serve. Talvez a ética não estivesse em negá-lo, mas em interrogá-lo constantemente.
O tirano continuava existindo. O Estado também. Lina, com todas as suas contradições, permanecia ativa. Mas agora havia algo mais difuso, atravessando todos: uma consciência incipiente de que o poder não é apenas uma estrutura externa, mas uma possibilidade interna.
Ao fechar o capítulo, o escritor não sentiu alívio. Sentiu algo mais complexo — uma espécie de lucidez desconfortável.
E escreveu, como última linha:
“O problema não é apenas quem nos controla, mas o quanto desejamos controlar — e o que fazemos com esse desejo quando o reconhecemos.”
Pedro quase não existia na narrativa. Era desses personagens que ocupam bordas: escuta mais do que fala, aparece sem anúncio, sai sem deixar rastro. O escritor mal havia lhe dado atenção — talvez por isso mesmo ele permanecesse livre de excessos, não capturado por nenhuma função clara.
Foi numa cena aparentemente banal que Pedro falou.
Os personagens discutiam — Lina, o tirano, outros que orbitavam entre tensão e hesitação. Falavam do Estado, da liberdade, das normas. As posições já começavam a se repetir, como se cada um ocupasse um lugar previsível naquele tabuleiro.
Pedro, encostado à janela, disse quase em tom de distração:
— E se o Estado for só um reflexo da gente? Dessa necessidade de organizar… e controlar?
Ninguém respondeu de imediato.
O silêncio não era de desinteresse, mas de deslocamento. A pergunta não atacava diretamente ninguém, nem defendia algo específico. Ela dissolvia fronteiras.
O tirano foi o primeiro a reagir, mas com menos firmeza do que o habitual:
— Então você está dizendo que ele é inevitável?
Pedro deu de ombros.
— Talvez não inevitável… mas compreensível.
Lina franziu levemente o rosto. Não como quem rejeita, mas como quem reconhece um terreno mais difícil.
— Se for assim — disse ela —, o problema não está só nas instituições. Está em como a gente se relaciona. Em como a gente lida com o outro, quando ele escapa do que esperamos.
O escritor percebeu que algo sutil estava acontecendo: Pedro não enfraquecia o debate — ele o aprofundava, retirando dele qualquer possibilidade de solução simples.
Se o Estado é reflexo, combatê-lo sem se transformar seria inútil. Se o controle nasce também do humano, nenhuma reorganização externa bastaria.
Mas Pedro não desenvolvia teorias. Permanecia econômico, quase ausente. Sua pergunta, porém, continuava operando.
Outro personagem, antes calado, arriscou:
— Então a gente cria o que depois diz que nos oprime?
Pedro não respondeu diretamente.
— A gente cria… e depois esquece que criou.
O escritor parou nessa frase.
Havia ali uma inversão poderosa: o Estado não apenas organiza a vida coletiva, mas também cristaliza impulsos humanos — dando-lhes forma, permanência, legitimidade. O que em um indivíduo é gesto, em uma estrutura vira regra. O que é desejo de controle vira sistema.
O tirano, nesse momento, pareceu menor — não porque perdeu poder, mas porque deixou de ser origem. Tornou-se sintoma.
Lina, por sua vez, não abandonou sua posição, mas a deslocou:
— Então talvez a questão não seja destruir o Estado — disse ela —, mas impedir que ele congele aquilo que deveria estar sempre em movimento.
Pedro esboçou um leve sorriso, quase imperceptível.
O escritor percebeu que, diferente dos outros, Pedro não buscava conduzir a narrativa. Ele introduzia fissuras e recuava. Não queria vencer o debate — queria torná-lo impossível de encerrar-se.
E isso, de forma paradoxal, era uma das intervenções mais profundas até então.
Ao reler a cena, o escritor entendeu que havia dado voz a algo essencial: a ideia de que o poder não é apenas imposto ou resistido, mas produzido — continuamente — pelas próprias formas de ser e de conviver.
Pedro voltou ao silêncio depois disso. Mas já não era invisível.
Sua pergunta permanecia, ecoando além das páginas:
Se o Estado é reflexo, o que estamos dispostos a ver quando olhamos para ele?
O escritor hesitou antes de responder — não como narrador, mas como alguém implicado na própria pergunta que ecoava agora entre seus personagens.
A questão de Pedro não permitia atalhos: se o Estado é reflexo de impulsos humanos — organizar, prever, controlar, proteger — então a pergunta sobre sua inevitabilidade não pode ser separada da pergunta sobre nós mesmos.
Na narrativa, isso começou a se desdobrar em camadas.
O tirano foi o primeiro a reivindicar a inevitabilidade:
— Sempre que há muitos, alguém precisa decidir. Sempre que há conflito, alguém precisa arbitrar. Sem isso, o que sobra é desordem.
Mas dessa vez, sua fala não encerrava o assunto. Parecia mais uma tentativa de fixar algo que começava a escapar.
Lina respondeu com cautela, como quem pisa em terreno instável:
— Talvez a organização seja inevitável. Mas isso não significa que precise assumir sempre a forma de um Estado centralizado, rígido, permanente.
O escritor percebeu então um deslocamento importante: a discussão deixava de ser “Estado ou não Estado” e passava a ser “que formas de organização emergem — e por quê?”.
Pedro, como de costume, não tomou partido. Apenas acrescentou:
— A gente confunde o que aparece com o que é necessário.
Essa frase abriu outra fissura.
Talvez o Estado, como o conhecemos, não seja inevitável — mas recorrente. Uma resposta frequente a problemas reais: coordenação, organização, controle, convivência em larga escala. Ele surge porque resolve algo… mas também porque cristaliza certas tendências humanas, como o desejo de estabilidade e o medo do imprevisível.
O escritor começou a enxergar que a inevitabilidade pode estar menos na instituição e mais na tensão que a produz: entre liberdade e ordem, entre autonomia e coordenação, entre diferença e convivência.
Na narrativa, isso se refletiu em pequenos experimentos. Grupos de personagens tentavam se organizar sem hierarquia fixa. Em alguns momentos, funcionava — havia cooperação, escuta, fluidez. Em outros, surgiam impasses, decisões adiadas, conflitos difíceis de resolver.
E, quase sem perceber, alguém começava a assumir mais responsabilidade. Outro passava a ser mais ouvido. Estruturas informais emergiam.
— Está vendo? — disse o tirano, com um meio sorriso — sempre volta.
Mas Lina não recuou:
— Volta… mas não precisa voltar igual.
O escritor entendeu que essa era talvez a resposta mais honesta que a narrativa podia oferecer: não uma afirmação categórica sobre inevitabilidade, mas o reconhecimento de padrões — e da possibilidade de transformá-los.
O Estado pode ser uma forma recorrente de organizar a vida coletiva porque responde a necessidades humanas profundas. Mas isso não o torna imutável, nem único, nem acima de questionamento.
Pedro, ao final da cena, acrescentou algo que soou menos como conclusão e mais como provocação:
— Talvez a pergunta não seja se ele é inevitável… mas o quanto estamos dispostos a reinventá-lo.
O escritor fechou o capítulo sem resolver a questão. E percebeu que isso não era falha — era fidelidade à complexidade do tema.
Porque algumas perguntas não pedem resposta definitiva.
Pedem vigilância constante.
mario moura
REFLEXÕES SOBRE A CASUALIDADE DO DESTINO
Após trinta anos entrando no mesmo prédio, cumprimentando as mesmas pessoas e tomando café no mesmo copo gasto, Augusto jamais imaginou que sua rotina teria um fim tão abrupto.
Numa terça-feira qualquer, foi chamado à sala da gerência. As palavras vieram frias e diretas: “reestruturação”, “corte de custos”, “agradecemos sua dedicação”.
Em poucos minutos, três décadas foram reduzidas a um aperto de mão e uma caixa de papelão com seus pertences.
Nos dias seguintes, o tempo pareceu se expandir de forma desconfortável. Augusto acordava cedo por hábito, mas não tinha para onde ir.
Caminhava pela casa como um visitante, tentando se reconhecer naquele novo silêncio. A identidade que havia construído ao longo dos anos — a de funcionário exemplar, pontual e confiável — parecia ter sido arrancada junto com seu crachá.
Numa tarde abafada, decidiu sair para espairecer. Entrou em uma pequena lotérica de bairro, mais por impulso do que por esperança.
Comprou um bilhete qualquer, sem escolher números com cuidado, sem fazer promessas ao destino. Guardou o papel no bolso e voltou para casa, esquecendo-se dele quase imediatamente.
Os dias passaram. Entre currículos enviados e respostas que nunca vinham, Augusto começou a sentir o peso da incerteza. Até que, uma noite, enquanto assistia distraidamente à televisão, ouviu os números sorteados. Algo o fez levantar-se, quase sem pensar, e procurar o bilhete amassado.
Um a um, conferiu os números. No início, duvidou da própria visão. Depois, conferiu novamente. E mais uma vez. Quando a realidade finalmente se impôs, suas mãos começaram a tremer. Augusto havia ganhado um prêmio milionário.
O choque inicial deu lugar a uma mistura de alívio, incredulidade e, curiosamente, medo. Dinheiro, percebeu ele, não resolvia tudo de imediato. Nos dias seguintes, enquanto cuidava da burocracia e mantinha o segredo, Augusto teve tempo para pensar — algo que não fazia há anos.
Com o passar das semanas, tomou decisões que surpreenderam até a si mesmo. Não comprou uma mansão extravagante nem carros de luxo. Em vez disso, reformou a própria casa, ajudou discretamente alguns familiares e, sobretudo, decidiu investir em algo que sempre quis, mas nunca teve coragem: abriu uma pequena biblioteca comunitária no bairro onde cresceu.
Ali, entre estantes simples e livros cuidadosamente escolhidos, Augusto reencontrou um tipo de propósito que o emprego nunca lhe dera. Conversava com crianças curiosas, orientava jovens e redescobria o prazer das pequenas coisas.
Certo dia, ao organizar alguns livros, encontrou no bolso de um casaco antigo o crachá da antiga empresa. Observou-o por alguns segundos e sorriu. Percebeu que perder o emprego havia sido, paradoxalmente, o que lhe permitiu encontrar a própria vida.
E, pela primeira vez em muito tempo, Augusto não sentia falta da rotina que um dia pensou ser insubstituível.
Augusto passou a notar que o dinheiro não chegou como um simples recurso — ele chegou como uma lente. Uma lente que ampliava certas coisas e distorcia outras.
Antes, ele era invisível. Não no sentido literal, mas naquela forma silenciosa em que a sociedade aprende a não ver quem não tem poder de compra, influência ou status. Durante anos, ele esteve presente em filas, repartições, ônibus e corredores — sempre correto, sempre educado — e, ainda assim, facilmente ignorado. Agora, com a notícia do prêmio circulando, algo havia mudado de forma inquietante.
“Então era isso”, pensava ele, sentado na varanda ao entardecer. “Eu não mudei. O mundo ao meu redor é que decidiu me enxergar.”
O dinheiro, refletia, não criava virtudes nem defeitos — ele os revelava, tanto nos outros quanto nele próprio. Pessoas que antes mal lembravam seu nome agora o chamavam com entusiasmo exagerado. Convites surgiam. O tom de voz mudava. Havia sempre um interesse implícito, mesmo quando cuidadosamente disfarçado de gentileza.
Isso o incomodava menos pelo oportunismo em si e mais pela constatação do que vinha antes: a indiferença.
“Se a atenção pode ser comprada, então o que exatamente ela vale?”, questionava-se.
Ele começou a perceber que a súbita mudança social não era apenas externa. Havia um deslocamento interno acontecendo. Em certos momentos, sentia-se tentado a corresponder às expectativas que o dinheiro parecia impor — como se agora precisasse ocupar um novo papel, falar de determinada forma, frequentar certos lugares.
E isso o assustava.
“Se eu deixar, o dinheiro não só muda como me veem… muda como eu me vejo.”
Augusto entendeu que o maior risco não era perder o dinheiro, mas perder a referência de quem ele era antes dele. Porque, na vida de quem sempre teve recursos limitados, cada conquista vinha acompanhada de esforço, cada escolha tinha peso real. O dinheiro, agora abundante, suavizava as consequências — e isso, paradoxalmente, podia tornar tudo mais vazio.
Outra coisa o inquietava profundamente: os relacionamentos.
Ele começou a separar, quase como um exercício silencioso, as pessoas em categorias que nunca quis criar. Quem estava ali antes. Quem chegou depois. Quem pedia. Quem oferecia. Quem olhava nos olhos — e quem olhava para o que ele poderia dar.
Mas essa divisão também o incomodava, porque trazia um tipo de desconfiança constante.
“O dinheiro me tirou da invisibilidade… mas será que também me tirou a capacidade de confiar sem cálculo?”
Ainda assim, havia um lado luminoso em tudo aquilo. Pela primeira vez, Augusto tinha liberdade. Liberdade real. Não apenas de comprar coisas, mas de escolher. Escolher onde estar, com quem estar, o que fazer com o próprio tempo.
E, pouco a pouco, sua reflexão se tornou mais clara:
“O dinheiro não é um fim. Ele é um amplificador. Ele amplia o que já existe — dentro e fora.”
Se a pessoa carrega vazio, o dinheiro amplia esse vazio.
Se carrega generosidade, ele amplia o alcance dela.
Se carrega insegurança, ele pode transformá-la em isolamento.
Naquela mesma varanda, olhando o movimento simples da rua — crianças correndo, vizinhos conversando — Augusto chegou a uma conclusão que não era confortável, mas era honesta:
“Ser invisível doía. Mas ser visto pelos motivos errados também tem um preço.”
A diferença, agora, era que ele podia escolher como responder a isso.
E então decidiu algo que guiaria seus próximos anos: não usaria o dinheiro para se tornar alguém novo, mas para proteger — com mais consciência — aquilo que sempre teve valor e quase ninguém via.
Porque, no fim, percebeu que a maior riqueza que poderia perder não estava na conta bancária.Estava na forma como ele se reconhecia no espelho.
As reflexões de Augusto têm um potencial quase inevitável de levá-lo ao afastamento social — não por arrogância, mas por lucidez incômoda.
Quando alguém passa a enxergar certos mecanismos sociais com clareza, torna-se difícil “desver”. Augusto começou a perceber que muitas interações, que antes pareciam neutras ou naturais eram, na verdade, mediadas por interesse, aparência e conveniência. O problema não é apenas a existência disso — que é, em certa medida, humana — mas a constatação de que esses critérios frequentemente se sobrepõem ao valor genuíno das pessoas.
Essa percepção cria um ruído interno. Conversas triviais passam a soar ensaiadas. Elogios parecem carregados de segundas intenções. Relações novas exigem um esforço constante de interpretação: “isso é sincero ou estratégico?”. Esse tipo de vigilância emocional cansa — e o cansaço afasta.
Além disso, Augusto agora carrega uma espécie de “consciência social ampliada”. Ele não consegue mais participar com a mesma leveza, de ambientes onde status, consumo e aparência são tratados como medidas de valor humano. O que antes era apenas cenário, agora se torna incômodo ético.
E aí surge um ponto delicado: o risco de generalização.
Ao identificar padrões de hipocrisia, ele pode começar a enxergá-los em tudo e em todos. Isso pode levá-lo a um isolamento progressivo, não porque todas as pessoas sejam superficiais ou interesseiras, mas porque sua régua interna ficou mais rígida — talvez até defensiva.
Existe também um mecanismo psicológico importante aí: afastar-se pode parecer uma forma de preservar autenticidade. Como se ele dissesse, ainda que silenciosamente:
“Se o jogo é esse, prefiro não jogar.”
Mas toda escolha tem um custo. O isolamento pode proteger da frustração, mas também limita experiências genuínas que ainda existem — embora sejam mais raras, ou menos óbvias.
Outro fator é o deslocamento de identidade. Augusto não pertence mais completamente ao mundo de antes, mas também não se reconhece no novo. Esse “entre-lugar” social pode gerar uma sensação de não pertencimento que reforça o afastamento.
No entanto, há uma diferença crucial entre afastamento consciente e isolamento reativo.
Se Augusto se afasta por desprezo ou desilusão total, ele corre o risco de endurecer — transformando sua percepção crítica em cinismo. Mas se ele usa essa clareza para selecionar melhor suas conexões, pode construir uma vida social menor em quantidade, porém mais consistente em qualidade.
A chave está em reconhecer que, embora a sociedade muitas vezes valorize o que é superficial, isso não anula a existência de relações autênticas. Elas apenas exigem mais discernimento — e, talvez, mais vulnerabilidade para serem encontradas.
No fim, o distanciamento de Augusto não precisa ser um rompimento com o mundo, mas uma reorganização de como ele se insere nele.
Porque enxergar a hipocrisia pode afastar — mas também pode ensinar a escolher melhor onde ficar.
O dinheiro não tornou tudo mais fácil — apenas tornou tudo mais explícito. Foi com essa constatação que Augusto começou a escrever. Não por ambição literária, nem por desejo de reconhecimento, mas por uma necessidade quase íntima de organizar aquilo que havia compreendido.
O pequeno tratado nasceu em silêncio, nas manhãs longas em que ele já não precisava correr. Sentado à mesa simples de casa, escrevia como quem conversa consigo mesmo, tentando dar forma a ideias que antes eram apenas desconfortos difusos.
Primero definira o conteúdo, depois perdera-se em conjeturas para encontrar um título que resumisse, sinteticamente, seus escritos. Algum tempó levou em busca de um nome, finalmente, entre tantos, agarrou-se a um, que lhe pareceu mais fidedigno aos aforismosque norteavam suas ideias: "GUIA PARA REVELAR O PODER OCULTO DO DINHEIRO".
Ou seria melhor, apenas "O PODER OCULTO DO DINHEIRO"? Sim... Expressava, certamente, com fidelidade, suas reflexões.
Ele começou com uma afirmação direta:
“O dinheiro não transforma relações. Ele revela sua estrutura.”
Para Augusto, as relações humanas sempre estiveram atravessadas por forças invisíveis — necessidade, interesse, medo, admiração, conveniência. O dinheiro, ao entrar em cena de forma abundante, não cria essas forças, mas remove o disfarce que as tornava socialmente aceitáveis.
Em outro trecho, ele escreveu:
“A escassez ensina a valorizar. A abundância testa o que, de fato, tem valor.”
Ele refletia que, quando tudo é limitado, as escolhas carregam peso.
Há um vínculo quase inevitável entre esforço e significado. Mas, quando os limites desaparecem, surge uma questão mais difícil: o que ainda importa quando quase tudo é possível?
Augusto percebeu que muitas pessoas ao seu redor não sabiam lidar com essa pergunta — e talvez ele mesmo ainda estivesse aprendendo.
Sobre o poder, suas palavras eram cautelosas:
“O poder não está apenas em possuir recursos, mas em influenciar comportamentos — inclusive os próprios.”
Ele notava que o dinheiro alterava dinâmicas sutis: pessoas cediam mais facilmente, ouviam com mais atenção, discordavam com mais cuidado. Isso poderia ser conveniente, mas também perigoso. Porque, aos poucos, a realidade começava a se curvar — não à verdade, mas à posição de quem fala.
E então ele se perguntou:
“Se ninguém me contraria com honestidade, como saberei quando estou errado?”
Esse foi um dos pontos centrais do tratado: o dinheiro pode isolar não pela ausência de pessoas, mas pela ausência de franqueza.
Sobre valores sociais, Augusto foi mais incisivo:
“Uma sociedade que mede valor humano por sinais externos de sucesso não apenas é injusta — é frágil.”
Ele argumentava que, quando o reconhecimento depende de status, riqueza ou aparência, ele deixa de ser um reflexo de quem a pessoa é e passa a ser um reflexo do que ela representa. E isso, para ele, era uma forma sofisticada de desumanização.
Ainda assim, seu texto não era amargo. Havia uma tentativa clara de equilíbrio. Em certo ponto, ele escreveu:
“Não se trata de rejeitar o dinheiro, mas de recusar sua autoridade sobre o sentido das coisas.”
O tratado não trazia soluções grandiosas, nem pretendia reformar o mundo. Era, acima de tudo, um mapa pessoal — uma tentativa de não se perder em meio àquilo que poderia facilmente desorientá-lo.
Nas últimas páginas, Augusto deixou uma reflexão que, para ele, sintetizava tudo:
“A verdadeira medida de valor talvez esteja naquilo que permanece quando o dinheiro deixa de ser relevante — seja por falta, seja por excesso.”
Quando terminou de escrever, não sentiu triunfo. Sentiu clareza. E isso, percebeu, era mais raro — e mais útil — do que qualquer fortuna.
Mario Moura
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QUANDO EU CRESCER...
Ele tinha vinte e oito anos, mas ainda dizia “quando eu crescer” com uma naturalidade quase comovente.
O nome dele era Rafael, embora poucos o chamassem assim. Entre os amigos — os mesmos desde o ensino médio — ele era apenas Rafa. E naquele pequeno universo que insistia em preservar, o tempo parecia não ter avançado. As conversas ainda giravam em torno de memes, jogos, planos vagos e promessas que nunca ultrapassavam a madrugada.
Rafa morava no mesmo quarto desde os quinze. As paredes, ainda cobertas de pôsteres desbotados, guardavam uma espécie de resistência silenciosa contra o mundo lá fora. A cama desarrumada, o videogame ligado por horas, a pilha de roupas que nunca chegava ao armário — tudo conspirava para manter intacta uma adolescência que já não lhe cabia.
Sua mãe, cansada de repetir as mesmas perguntas, já não perguntava mais. O pai, quando aparecia na porta do quarto, apenas suspirava — um som breve, pesado, que dizia mais do que qualquer discurso.
— Você não acha que já está na hora? — ele disse uma vez, sem especificar exatamente o quê. A que momento se referia, embora fosse óbvio...
Rafa riu.
— Hora de quê?
E voltou os olhos para a tela.
Não era exatamente preguiça. Nem incapacidade. Era uma espécie de recusa íntima, quase filosófica. Crescer, para ele, parecia uma traição. Uma adesão silenciosa a um pacto que nunca assinara: acordar cedo, trabalhar em algo que não amava, pagar contas, fingir maturidade em conversas vazias.
Ele via os outros — antigos colegas agora com empregos, filhos, boletos — e sentia uma mistura de estranhamento e superioridade. Como se tivesse descoberto algo que eles não perceberam.
— Vocês viraram adultos — dizia, meio rindo, meio sério. — Eu não.
Mas havia momentos, breves e perigosos, em que o silêncio se tornava mais denso. Quando a casa dormia. Quando o videogame desligava. Quando o celular não vibrava.
Nesses intervalos, Rafa percebia pequenas fissuras.
O corpo já não respondia com a mesma leveza. Os amigos começavam a desaparecer em compromissos. As conversas ficavam mais curtas. Os convites, mais raros.
E havia também aquele incômodo difícil de nomear — uma sensação de estar parado enquanto tudo ao redor seguia.
Certa madrugada, olhando o teto, ele se lembrou de si mesmo aos dezessete anos. Lembrou da pressa que tinha de viver, da ansiedade pelo futuro, das ideias grandiosas que pareciam inevitáveis.
“O que aconteceu?”, pensou.
Mas afastou o pensamento como quem fecha uma janela em dia de vento.
No dia seguinte, acordou ao meio-dia. Ligou o videogame. Pediu comida. Riu de vídeos curtos. Respondeu mensagens sem profundidade.
A rotina era confortável. Familiar. Protegida.
Ainda assim, algo havia mudado.
Não fora o mundo — esse já vinha mudando há muito tempo.
Era ele que, pela primeira vez, começava a perceber o peso da escolha que fazia todos os dias: permanecer.
E permanecer, descobriu aos poucos, também era uma forma de movimento — só que em direção oposta.
Naquela noite, quando o pai passou pela porta do quarto, Rafa não fingiu não ouvir.
— Pai — chamou, antes que ele fosse embora.
O homem parou, surpreso.
— Oi, filho...
Silêncio. Rafa hesitou. Olhou ao redor, não como se visse o quarto pela primeira vez, mas com a insólita sensação de se perceber como um estranho, alguém exilado em um mundo desconhecido.
— Como é que a gente… começa?
O pai não respondeu de imediato. Apenas entrou, sentou-se na beira da cama e, por um instante, ambos ficaram em silêncio — não o silêncio vazio das madrugadas, mas um outro, mais denso, quase inaugural.
Rafa não havia crescido ainda.
Mas, talvez pela primeira vez, deixara de se recusar. Algo se quebrara, sem ruído, sem alarde... Iniciava-se a coleta dos cacos.
mario moura
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O barulho nunca ia embora.
Não era o das sirenes — esse ele já nem ouvia mais. Nem o estampido seco dos disparos, que seu corpo aprendera a absorver antes mesmo que a mente pudesse reagir. O som que persistia era outro: um eco irregular, feito de vozes interrompidas, passos apressados, pedidos de socorro que chegavam tarde demais.
O nome dele era Augusto, inspetor há mais de quinze anos. O tipo de homem que, à primeira vista, parecia sólido — postura firme, olhar contido, poucas palavras. Mas por dentro, havia algo em constante desgaste, como uma peça girando sem descanso.
Ele não sonhava. Ou melhor, não dormia o suficiente para que os sonhos se organizassem. Quando fechava os olhos, vinham fragmentos. Um rosto. Um corredor mal iluminado. Um grito. Sempre incompleto. Sempre inacabado.
Na delegacia, era respeitado. Resolvia casos. Sabia onde procurar, o que perguntar, quando pressionar. Não hesitava. Não tremia. Não desviava o olhar.
— Você tem sangue frio — disse um colega certa vez, admirado.
Augusto não respondeu. Sabia que não era frieza. Era saturação.
A cidade lhe mostrava o pior todos os dias. Corpos descartados em terrenos baldios. Crianças com medo demais para chorar. Histórias que se repetiam com pequenas variações, como se a violência tivesse um roteiro próprio, insistente.
E havia algo pior do que ver. Era remoer os destroços, as sobras, era mastigar pequenas emoções, que se sente repentinamente, diante da desconstrução da vida.
Era lembrar. E como doía lembrar...
Ele lembrava de tudo. Não conseguia escapar das assombrações que perseguiam sua mente. Não havia portas abertas para paisagens amenas.
Não como narrativa — começo, meio e fim —, mas como estilhaços, cacos de um espelho quebrado. Um detalhe insignificante que não devia importar, mas ficava. O sapato de uma vítima fora do lugar. A televisão ainda ligada numa casa vazia. Um relógio parado na hora exata em que tudo terminou.
Os pequenos indícios que antecederam a crueldade, que contavam mais do que as tragédias em si, e tinham a permanência insistente dos resíduos que assinalam as maldades, o caráter sombrio da perversidade, do sadismo.
Não sabia como entender os segredos doentios da alma humana, se devia compadecer-se ou condenar. Era tomado por pensamentos paradoxais...
Esses detalhes voltavam sem aviso, no meio de uma conversa, durante um café, ao parar no sinal. Assombrava-se muitas vezes com a possibilidade de sentir odores de corpos inertes e ensanguentados. Tinha medo de ser traído pela possibilidade desses odores chegarem a ele.
E, às vezes, vinham acompanhados de uma pergunta silenciosa:
“Em que momento isso deixou de me afetar?”
A resposta nunca vinha.
Certa noite, após uma ocorrência particularmente brutal, Augusto voltou para casa mais tarde que o habitual. Lavou as mãos demoradamente, como sempre fazia, embora soubesse que não havia sujeira visível.
Sentou-se no sofá. A televisão piscava imagens que ele não via.
Foi então que percebeu algo diferente.
Silêncio.
Não o silêncio da ausência de som, mas a ausência momentânea daquele eco interno que o perseguia. Um vazio breve, quase impossível.
Durou poucos segundos.
Logo, uma memória se impôs — nítida, intrusiva.
Um garoto. Não devia ter mais de dez anos. Olhos arregalados. Não de dor, mas de surpresa. Como se não entendesse o que estava acontecendo.
Augusto fechou os olhos com força, como se pudesse empurrar a imagem para longe.
Mas ela não obedecia mais. Ganhara vida própria.
Passou as mãos na vasta cabeleira grisalha, murmurando palavras ininteligíveis, para ninguém.
Levantou-se abruptamente, caminhou pela casa, abriu janelas, respirou fundo. O ar da madrugada era pesado, mas ainda assim diferente daquele que carregava dentro de si.
Naquele instante, algo lhe ocorreu — não como solução, mas como constatação:
Ele não estava apenas lembrando. Estava sendo habitado por tudo aquilo.
A violência não ficava nas ruas, nem nos relatórios, nem nos arquivos encerrados. Ela encontrava espaço. Instalava-se. Permanecia. Apossava-se dos seus sentidos, do seu espírito, derramava-se como água, invadindo todos os recantos da sua memória.
Ele, de alguma forma, havia permitido, sem se dar conta de que durante anos construira um cotidiano de violência. Tecera a trama de um vasto painel de sofrimento e angústia.
Ou talvez não houvesse escolha.
No dia seguinte, voltou ao trabalho.
A rotina o esperava, intacta. Chamados, relatórios, urgências. O mundo não pausava para que ele reorganizasse o que estava quebrado.
Mas algo havia se deslocado, ainda que minimamente.
Quando entrou na sala de interrogatório, não foi o suspeito que chamou sua atenção primeiro.
Foi o espelho.
Por um breve instante, viu a si mesmo — não como o policial experiente, eficiente, respeitado, temido.
Mas como alguém cansado. Profundamente cansado.
E, talvez pela primeira vez, essa percepção não veio acompanhada de resistência.
Augusto puxou a cadeira, sentou-se e apoiou as mãos sobre a mesa.
Lá fora, a cidade continuava produzindo histórias que ele ainda ouviria.
Mas ali, naquele espaço pequeno e fechado, ele percebeu que havia outra investigação em curso — uma que não constava em nenhum relatório.
E dessa, ele ainda não sabia como sair.
mario moura
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Analice Vieira era um nome que ocupava vitrines, listas de mais vendidos e mesas de debates literários. Seus romances eram conhecidos pela precisão emocional, pela forma como capturavam silêncios, ausências, aquilo que não se dizia. Diziam que ela escrevia como quem escuta algo muito antigo.
Ninguém sabia exatamente o quê.
No apartamento amplo, de janelas altas voltadas para a cidade, Analice mantinha uma rotina disciplinada. Café às seis, leitura às sete, escrita às oito. Às nove, o primeiro bloqueio.
Ela o reconhecia como se fosse uma visita antiga — não inesperada, mas nunca bem-vinda.
Sentava-se diante da página em branco e esperava. Às vezes, uma frase surgia, hesitante. Duas, talvez. Mas logo algo se impunha, não como pensamento, mas como presença.
Uma memória.
Não vinha inteira. Nunca vinha. Era sempre um fragmento — uma porta entreaberta, o cheiro de madeira antiga, um som abafado que não conseguia nomear. E, sobretudo, uma sensação: a de estar presa em um tempo que não avançava.
Analice afastava-se da mesa, caminhava pela casa, tentava reorganizar o corpo no presente. Mas a lembrança não obedecia a limites. Instalava-se com uma familiaridade cruel, como se tivesse direito àquele espaço.
Ela aprendera, ao longo dos anos, a contornar. A transformar. Seus primeiros livros nasceram assim — deslocando aquilo que não podia ser dito diretamente para personagens, cenários, conflitos que, à primeira vista, pareciam distantes.
O público chamava de talento. A crítica, de profundidade.
Mas, com o tempo, algo mudou.
As histórias começaram a resistir.
Os personagens paravam no meio do caminho, como se também evitassem atravessar certos territórios. Os enredos se desmanchavam antes de alcançar o ponto de tensão. E Analice, que antes encontrava saídas na ficção, agora se via cercada.
Certa manhã, escreveu uma cena que não reconheceu como sua.
Uma menina parada diante de uma porta. A mão suspensa no ar, indecisa. O texto não avançava, mas também não retrocedia. Ficava ali, fixo, como uma fotografia.
Analice leu e releu.
Havia algo diferente.
Não era metáfora. Não era deslocamento. Era direto demais.
Ela fechou o laptop com brusquidão.
O coração acelerado não correspondia ao gesto simples. Era como se o corpo tivesse entendido algo antes da mente.
Passou o dia evitando voltar àquela cena. Ligou para a editora, respondeu e-mails, tentou ocupar o tempo com tarefas menores. Mas, por trás de tudo, havia uma espécie de insistência silenciosa.
À noite, sem conseguir dormir, abriu novamente o arquivo.
A menina ainda estava lá.
Esperando.
Analice aproximou-se da tela com cautela, como quem se aproxima de algo vivo. Seus dedos pairaram sobre o teclado.
E então percebeu: o que a paralisava não era a falta de história.
Era a proximidade.
Durante anos, ela escrevera em torno daquilo. Nunca através.
Sempre houvera uma distância segura — personagens que carregavam dores semelhantes, mas nunca idênticas; cenários que diluíam o impacto; finais que ofereciam algum tipo de resolução, ainda que parcial.
Agora, essa distância desaparecera.
A memória não aceitava mais ser transformada.
Queria ser vista.
Analice respirou fundo, sentindo o peso daquela constatação.
Escrever sempre fora, para ela, uma forma de controle — escolher palavras, organizar o caos, dar forma ao informe. Mas havia algo naquela experiência que resistia à linguagem. Algo que escapava, que não se deixava capturar sem distorção.
Talvez fosse por isso que voltava.
Não por insistência cruel, mas por inacabamento.
Ela começou a digitar.
Não com a segurança de antes, nem com a fluidez que a tornara conhecida. As frases vinham irregulares, por vezes truncadas, como se precisassem atravessar uma matéria densa antes de se formar.
A menina tocou a porta.
Analice parou.
O gesto, tão simples na superfície, carregava um peso desproporcional. Ela sabia disso. Sentia isso.
Mas, pela primeira vez, não recuou.
Continuou.
As palavras não resolviam. Não explicavam. Não suavizavam. Mas também não fugiam.
E, naquele processo imperfeito, algo começou a se deslocar.
Não era alívio. Nem superação.
Era, talvez, um tipo diferente de presença.
Menos invasiva. Mais nomeável.
Quando o sol começou a nascer, Analice ainda estava escrevendo. O texto à sua frente não se parecia com nada que ela já tivesse publicado. Não havia ali o acabamento que o público esperava, nem a elegância que a crítica elogiava.
Mas havia algo novo.
Uma espécie de honestidade que não dependia de forma.
Ela recostou-se na cadeira, exausta.
Sabia que aquele livro não seria fácil. Nem para ela, nem para quem o lesse.
Mas também sabia que, pela primeira vez em muito tempo, não estava apenas evitando.
Estava atravessando.
E talvez — pensou, fechando os olhos por um instante — fosse esse o começo real de sua escrita.
mario moura
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TRAIÇÃO
O primeiro indício foi o silêncio.
Não o silêncio comum — aquele que se instala com o cansaço do dia —, mas um outro, mais denso, quase calculado. Clara percebeu numa terça-feira qualquer, enquanto os dois jantavam. Henrique respondia às perguntas com frases curtas, como se cada palavra fosse pesada antes de sair.
— Está tudo bem? — ela perguntou.
— Está — respondeu ele, sem levantar os olhos.
E voltou ao prato.
Nos dias seguintes, vieram outros sinais. O celular que antes ficava esquecido sobre a mesa passou a acompanhá-lo até o banheiro. As notificações, antes abertas sem pressa, agora eram apagadas com rapidez. As chegadas tardias, justificadas por reuniões que Clara não conseguia confirmar.
Nada concreto. Apenas pequenas distorções.
Mas Clara sempre acreditara que a verdade não se revelava nos grandes gestos — e sim nas mínimas alterações de ritmo.
Uma noite, enquanto Henrique tomava banho, o celular vibrou sobre a cama.
Ela hesitou.
Não era a primeira vez que sentia vontade de olhar. Mas até então, havia resistido. Havia algo de definitivo naquele gesto, como cruzar uma linha invisível.
O aparelho vibrou novamente.
Na tela, apenas um nome: “L...”
Sem foto. Sem contexto.
Clara sentiu um frio preciso, quase cirúrgico.
Pegou o celular.
A conversa estava aberta. Não havia mensagens explícitas, nenhuma confissão, nenhum vestígio inequívoco. Mas havia um tom. Um tipo de intimidade difícil de nomear.
“Você chegou bem?”
“Sim. E você?”
“Agora sim.”
Clara leu e releu. As palavras eram neutras, mas havia algo entre elas — um espaço carregado, como se dissessem mais do que mostravam.
Ela devolveu o celular ao lugar exatamente como estava.
Quando Henrique saiu do banho, encontrou Clara sentada na beira da cama.
— Quem é L.? — ela perguntou, sem rodeios.
Ele parou por um instante. Apenas um segundo — mas foi suficiente.
— Uma colega do trabalho.
— Colega de quê?
— De projeto.
A resposta veio rápida demais.
Clara assentiu lentamente.
— Vocês se falam bastante.
Henrique deu de ombros.
— Coisas de trabalho.
O silêncio que se seguiu não era mais o mesmo de antes. Havia agora uma tensão que não se dissipava, como um fio esticado ao limite.
Nos dias seguintes, Clara passou a observar.
Não confrontava. Não acusava. Apenas reunia fragmentos.
O perfume diferente na camisa. A mudança súbita de humor. A atenção dispersa.
E, ao mesmo tempo, havia momentos em que Henrique parecia exatamente o mesmo de sempre — presente, atento, até carinhoso.
Essa oscilação era o que mais a desestabilizava.
Se houvesse certeza, haveria também uma direção.
Mas a dúvida… a dúvida se espalhava.
Certa noite, ele voltou mais tarde do que o habitual. Disse que o trânsito estava ruim. Clara não respondeu.
Enquanto ele se movia pela casa, tirando os sapatos, largando as chaves, ela o observava, como se fosse um estranho que tentava imitar alguém conhecido.
— Você não vai dizer nada? — ele perguntou, por fim.
Clara levantou-se devagar.
— Eu não sei o que dizer — respondeu.
E era verdade.
Porque qualquer acusação exigia uma prova que ela não tinha. E qualquer absolvição exigia uma confiança que já não possuía.
Na madrugada, Clara acordou com um movimento ao lado. Henrique não estava na cama. Levantou-se em silêncio e caminhou até a sala.
A luz do celular iluminava o rosto dele. Ele estava de costas, mas a postura era inequívoca — inclinado, concentrado, como quem fala baixo para não ser ouvido.
Clara não avançou. Ficou parada no corredor, na fronteira entre ver e não ver. O coração batia rápido, mas não havia pânico. Havia uma clareza estranha.
Ela poderia dar mais um passo. Poderia ouvir. Poderia, finalmente, saber. Mas também sabia que o que encontrasse ali — qualquer que fosse — não devolveria o que já havia sido perdido.
Recuou. Voltou para o quarto. Deitou-se novamente, olhando o teto escuro.
Quando Henrique retornou, minutos depois, ela manteve os olhos fechados.
Na manhã seguinte, o café foi silencioso.
Henrique tentou iniciar uma conversa trivial. Clara respondeu com a mesma neutralidade que ele usara dias antes.
— Você está estranha — ele disse, por fim.
Clara o encarou. Por um instante, pensou em perguntar tudo. Em exigir respostas, em expor cada detalhe, cada indício.
Mas as palavras não vieram. No lugar delas, surgiu uma pergunta diferente — uma que não dependia dele.
— Se eu te perguntasse — começou, com a voz calma — você diria a verdade?
Henrique sustentou o olhar.
— Diria.
Ela assentiu. Mas não perguntou.
O silêncio que se seguiu não era vazio. Era uma decisão.
Naquela noite, enquanto arrumava uma mala pequena, Clara percebeu que a dúvida tinha se tornado mais pesada, do que qualquer certeza possível.
Não importava mais se houve traição. O que importava era que ela já não conseguia habitar aquele espaço sem se fragmentar.
Henrique a observava da porta, confuso, inquieto.
— Você vai embora por causa de uma suspeita? — perguntou.
Clara fechou a mala. Pensou por um instante.
— Não — respondeu. — Eu vou embora por causa da dúvida.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, não havia hesitação em sua voz.
A porta se fechou atrás dela, com um som seco, definitivo.
Do lado de dentro, Henrique ficou parado, cercado por respostas que talvez nunca precisasse dar.
E do lado de fora, Clara caminhou sem olhar para trás — não porque tivesse certeza, mas porque, finalmente, aceitara que talvez nunca tivesse.
mario moura
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Quando o primeiro livro saiu, disseram que era original.
Quando o segundo veio, disseram que era voz.
No terceiro, já falavam em estilo — algo raro, quase impossível de fabricar.
E foi exatamente aí que Daniel começou a desconfiar. Não de si mesmo como escritor, mas de si como origem.
A suspeita não surgiu como uma ideia clara. Veio como um ruído — um incômodo leve, quase imperceptível, que se infiltrava enquanto escrevia. Uma sensação de déjà vu, mas não de algo vivido. De algo... captado.
Ele estava acostumado ao processo: sentar, esperar, e então, de algum lugar indefinido, as frases vinham. Não como esforço, mas como recepção. Sempre fora assim. Mas, com o tempo, aquilo deixou de parecer natural.
Certa noite, escrevendo uma cena crucial de seu novo romance, Daniel parou no meio de um parágrafo. Não por falta de palavras, mas por excesso de familiaridade.
Ele conhecia aquela cena. Não no sentido de tê-la criado, mas de tê-la reconhecido.
Um homem, numa estação vazia, segurando uma carta que nunca seria entregue. A descrição era precisa demais, carregada de uma melancolia que não pareci a construída — parecia lembrada.
Daniel fechou o laptop lentamente.
— De onde veio isso? — murmurou.
A pergunta não encontrou resposta.
Nos dias seguintes, começou a reler suas próprias obras, com um olhar diferente. Não como autor, mas como investigador. Buscava padrões. Repetições. Fragmentos que pudessem indicar uma fonte externa. E encontrou.
Personagens que apareciam, com variações mínimas, em livros diferentes. Situações que ecoavam outras, como se fossem versões de uma mesma história, tentando se contar de formas distintas.
Era sutil. Mas persistente. Como um sinal atravessando frequências.
A ideia, então, tomou forma:
E se ele não estivesse criando? E se estivesse apenas sintonizando?
A hipótese parecia absurda à primeira vista. Mas, quanto mais pensava, mais coerente se tornava.
O cérebro como receptor. A mente como antena.
E o que ele chamava de imaginação seria, na verdade, uma espécie de escuta. Uma captação de narrativas dispersas — memórias coletivas, desejos não realizados, histórias que nunca foram escritas, mas que insistiam em existir.
Daniel tentou resistir à ideia.
— É só inspiração — disse a si mesmo. — Todo escritor sente isso.
Mas a explicação não o satisfazia mais. Porque inspiração não explicava a precisão. Nem a recorrência.
Nem aquela estranha sensação de que algumas passagens já estavam prontas antes mesmo de ele começar a escrevê-las.
Decidiu testar.
Durante uma semana, não escreveu nada. Evitou qualquer contato com livros, filmes, conversas profundas. Queria silenciar o suposto “sinal”.
Nos primeiros dias, sentiu apenas vazio. Depois, inquietação. E então, na quinta noite, aconteceu.
Estava deitado, no escuro, quando uma imagem surgiu — nítida, completa.
Uma mulher caminhando por uma cidade inundada. Não havia pânico, apenas aceitação. Ela carregava uma mala pequena, como se soubesse que não havia mais para onde ir.
Daniel levantou-se imediatamente.
— Não — disse em voz alta.
Mas a imagem não se dissipou. Pelo contrário — ganhou detalhes. Sons. Cheiros.
Era como assistir a algo que já estava acontecendo em algum outro lugar.
Ele caminhou até o escritório, mas não abriu o laptop.
Ficou parado diante da mesa, respirando fundo.
Se escrevesse, estaria confirmando. Se não escrevesse, estaria negando algo que claramente existia. A dúvida se instalou com força total.
Nos dias seguintes, as “captações” se intensificaram.
Cenas surgiam sem aviso. Diálogos completos, com vozes distintas. Histórias que pareciam pedir passagem.
E Daniel, cada vez mais, sentia que não era o autor. Era o meio.
Essa percepção começou a afetar tudo.
Entrevistas tornaram-se desconfortáveis. Como explicar um processo que ele mesmo já não compreendia? Como reivindicar autoria de algo que talvez não lhe pertencesse?
— De onde vêm suas ideias? — perguntavam.
Ele sorria, evasivo.
— De muitos lugares.
Era a resposta mais honesta que conseguia dar. Mas, por dentro, a pergunta ecoava com outra intensidade:
De quem são essas histórias?
Certa madrugada, exausto, decidiu confrontar a questão de forma definitiva.
Sentou-se à mesa. Abriu um documento em branco.
E escreveu:
“Se eu não sou o autor, então quem escreve através de mim?”
A pergunta ficou ali, pulsando na tela.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
Então, lentamente, as palavras começaram a surgir.
Não como antes — fluidas e naturais —, mas com uma resistência estranha, como se algo precisasse atravessar uma barreira.
“Você já sabe.”
Daniel congelou. As mãos pairaram sobre o teclado.
O coração acelerou. Ele não lembrava de ter pensado aquela frase. Mas ela estava ali.
Continuou.
“Você sempre soube.”
Daniel recuou na cadeira. O quarto parecia menor. O ar, mais denso.
— Isso sou eu — disse, tentando se convencer.
Mas a frase seguinte surgiu antes que pudesse formular qualquer pensamento.
“Somos muitos.”
Ele fechou o laptop com força. O som ecoou no silêncio da casa.
Ficou ali, imóvel, tentando reorganizar a própria percepção.
Era impossível.
Se aquilo era fruto de sua mente, então sua mente era mais vasta — e mais fragmentada — do que imaginava.
Se não era… então a alternativa era ainda mais perturbadora.
Na manhã seguinte, Daniel não abriu o computador.
Nem no dia seguinte. Nem no outro.
As histórias continuavam vindo. Mas ele não as registrava mais.
Com o tempo, começaram a se dissipar — como sinais que perdem força quando não encontram receptor.
Meses depois, seu editor ligou.
— Precisamos do novo livro.
Daniel hesitou.
Olhou para o escritório, agora silencioso.
Para a mesa vazia. Para o laptop fechado.
— Acho que… — começou, mas não terminou.
Porque, naquele instante, uma nova imagem surgiu.
Mais forte do que todas as anteriores.
Um homem sentado diante de uma página em branco, tentando decidir se escreve ou não.
Daniel sentiu um arrepio. A cena era detalhada demais. Familiar demais.
Ele entendeu. Lentamente, caminhou até a mesa. Abriu o laptop.
E, antes mesmo de começar a digitar, teve a estranha — e inevitável — sensação de que aquela história já estava sendo contada.
Em algum lugar. Por alguém. Ou por muitos.
mario moura
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O frade Thomás não escolheu Judas.
Foi Judas quem permaneceu no seu imaginário religioso, após a leitura da eterna traição.
No mosteiro, as leituras seguiam o ciclo das horas, como sempre haviam seguido. Salmos, cartas, evangelhos. As palavras repetidas moldavam o tempo, davam-lhe contorno e ritmo. Thomás conhecia cada passagem como quem reconhece um caminho já percorrido muitas vezes.
Mas, havia meses, algo se desviara.
Toda vez que o nome surgia — Judas —, não era apenas mais um personagem na narrativa sagrada. Havia uma pausa, quase imperceptível, um intervalo que não existia antes. Como se aquela palavra abrisse uma fresta.
No início, Thomás resistiu.
Não por falta de fé, mas por excesso dela. Sabia o lugar de Judas na tradição: o traidor, o que vendeu o Mestre, o que não suportou o peso do próprio ato.
Era simples. Ou deveria ser.
Mas a simplicidade começou a incomodá-lo.
Certa tarde, durante a leitura solitária no scriptorium, deteve-se em uma frase que sempre lhe parecera secundária: “E Judas saiu, e era noite.”
Thomás repetiu mentalmente.
“Era noite.”
Havia algo ali. Não uma justificativa — isso ele recusava —, mas uma densidade que nunca havia considerado. Como se aquela noite não fosse apenas externa, mas também interna. Um estado. Uma condição.
Fechou o livro.
Pela primeira vez, não pensou em Judas como função — o traidor necessário —, mas como homem.
E isso complicava tudo.
Nos dias seguintes, passou a buscar as passagens em que Judas aparecia. Lia devagar, quase com cautela, como quem teme alterar algo ao observar com atenção demais.
O que encontrou não foi clareza.
Foi silêncio.
Pouco se dizia sobre ele. Pouco se explicava. E, nesse pouco, cabia quase tudo.
— Por que você faz isso? — perguntou o irmão Mateus, ao perceber a insistência de Thomás.
— Isso o quê?
— Ficar voltando a ele.
Thomás hesitou.
— Não sei — respondeu, por fim. — Talvez porque ninguém mais volte.
Mateus franziu a testa.
— Ele fez o que fez.
— Sim.
— E isso basta.
Thomás assentiu, mas não se convenceu.
Porque, para ele, já não bastava.
Havia uma inquietação que não se dissipava. Não era dúvida sobre a traição — essa permanecia inegável —, mas sobre o modo como ela era compreendida.
E, sobretudo, sobre o lugar que restava para quem falhava.
Numa noite de vigília, enquanto os outros dormiam, Thomás permaneceu na capela. A chama das velas oscilava suavemente, projetando sombras que pareciam se mover por vontade própria.
Ele se ajoelhou.
— Senhor — disse em voz baixa —, não quero justificar o erro.
A frase ficou suspensa.
— Mas também não consigo aceitar que um homem seja apenas o seu pior momento.
O silêncio respondeu.
Ou talvez não tenha respondido.
Thomás fechou os olhos.
E, pela primeira vez, imaginou Judas não no ato da traição, mas depois. No intervalo entre o gesto e a consciência plena do que havia feito.
A percepção.
O peso.
A impossibilidade de voltar atrás.
Sentiu um aperto no peito.
Porque reconheceu algo.
Não a escala, não o evento — mas a estrutura.
A falha humana.
A decisão tomada no escuro.
O arrependimento que chega tarde demais.
Abriu os olhos rapidamente, como se tivesse ido longe demais.
— Não — murmurou. — Não é a mesma coisa.
Mas a distinção já não era tão nítida.
Nos dias que se seguiram, sua oração mudou.
Menos segura. Mais interrogativa.
E, sem perceber, começou a incluir Judas — não como exemplo do que evitar, mas como presença a ser compreendida.
Isso o assustava.
Não pelo que Judas representava, mas pelo que essa aproximação revelava sobre si mesmo.
Certa manhã, o abade o chamou.
— Tenho ouvido coisas — disse, com voz serena.
Thomás abaixou a cabeça.
— Não estou negando nada, padre.
— Eu sei.
O abade caminhou lentamente pelo pequeno aposento.
— Mas você está se aproximando de um terreno delicado.
— Eu sei.
— E por quê?
Thomás demorou a responder.
— Porque… — começou, mas parou.
Como explicar algo que ainda não estava totalmente claro nem para si?
— Porque, se não houver lugar para ele — continuou, finalmente —, não sei se há lugar para nós.
O abade o observou longamente.
Não havia reprovação em seu olhar.
Mas havia preocupação.
— Há coisas que não nos cabe resolver — disse.
Thomás assentiu.
— Talvez.
Saiu dali sem alívio.
Naquela noite, voltou à capela. Não levou livro.
Não levou palavras prontas.
Sentou-se no banco de madeira e permaneceu em silêncio.
Pensou em Judas.
Pensou no beijo.
Pensou na escolha.
E pensou, sobretudo, no que vinha depois.
O arrependimento.
O desespero. A figueira... Ou a olaia, conhecida popularmente como "árvore- de-judas". Finalmente o fim. O enforcamento.
O fim. A maldição eterna...
Mas, dessa vez, não tentou concluir. Não tentou decidir se estava certo ou errado.
Permaneceu na dúvida.
E, pela primeira vez, percebeu que a dúvida não era ausência de fé. Muito ao contrário, era uma forma mais exigente dela.
Ao sair da capela, o céu começava a clarear.
Não era mais noite.
Mas também ainda não era dia. Os primeiros cantos de pássaros dispersos despertavam a madrugada.
Thomás parou por um instante, olhando o horizonte, iniciando o tom de cores que se misturavam numa paisagem de múltiplos desenhos indefinidos. Um lugar mágico, que ocultava um silêncio que o ser humano desconhecia.
E compreendeu que talvez Judas habitasse exatamente ali — nesse intervalo incômodo entre a condenação e a compreensão de um mistério que não se subordinava à razão. Misturava-se a face oculta do sacrifício de Jesus.
Um lugar onde nenhuma resposta era definitiva.
E onde, ainda assim, era preciso permanecer.
mario moura
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E ASSIM A VIDA ACONTECE...
O psicólogo Henrique sempre acreditou que sonhos eram apenas ecos da mente — fragmentos desconexos organizados pelo inconsciente. Era isso que ensinava, repetia e escrevia em seus artigos. Até que os sonhos começaram.
NÃO HÁ O LADO DE FORA...
Na primeira noite, ele estava em um castelo antigo, cercado por paredes cobertas de hera viva, que sussurrava seu nome. Diante dele, uma mulher vestida de preto chorava em silêncio.
Quando ela levantou o rosto, Henrique reconheceu imediatamente: era Joana, sua paciente que sofria de ansiedade severa. Mas ali, naquele lugar impossível, ela não parecia frágil — parecia aprisionada.
— Você demorou — disse ela, com voz firme.
— A história não pode continuar sem você.
Henrique acordou com o coração disparado. Anotou tudo, como fazia com sonhos incomuns. Coincidência, pensou.
Mas na noite seguinte, ele voltou.
O castelo estava diferente. Havia uma porta aberta, que antes não existia. Joana não estava mais lá. Em vez disso, um homem com armadura quebrada caminhava em sua direção. Era Marcos, seu paciente depressivo, que mal conseguia sair da cama, na vida real.
— Eu lutei — disse Marcos, segurando uma espada partida. — Mas não sei contra o quê.
Henrique começou a perceber um padrão inquietante. A cada noite, o sonho continuava, exatamente de onde havia parado. Era uma narrativa contínua, como se ele estivesse dentro de um livro, que se escrevia sozinho.
E seus pacientes... não eram apenas versões deles mesmos. Eram personagens.
Joana era uma rainha presa por uma maldição invisível. Marcos, um cavaleiro derrotado por batalhas internas que ninguém via. Sofia, sua paciente obsessiva, surgiu como uma alquimista que tentava controlar o tempo — repetindo experimentos infinitamente, incapaz de aceitar erros.
Cada sessão durante o dia, parecia ecoar à noite, mas transformada. Henrique começou a notar que aquilo não era apenas simbólico. As escolhas que ele fazia nos sonhos, alteravam o comportamento de seus pacientes na vida real.
Quando ele ajudou Marcos a reconstruir sua espada no sonho, Marcos apareceu na consulta dizendo que, pela primeira vez em meses, conseguiu sair para caminhar.
Quando ele libertou Joana do castelo — ao convencê-la de que a prisão não tinha portas, e por que ela nunca tentou sair?
— Clara começou a questionar seus próprios medos.
Henrique passou a ter medo de dormir.
Porque, aos poucos, percebeu algo ainda mais perturbador: ele também estava mudando.
No sonho, começou a existir uma figura que o observava — um narrador invisível, uma presença que corrigia o rumo das histórias, quando Henrique interferia demais.
Numa noite, finalmente ouviu a voz:
— Você não é o autor.
— Então o que eu sou? — perguntou Henrique, sentindo o peso da resposta antes mesmo de ouvi-la.
— Você é só mais um personagem, que se esqueceu disso.
Na manhã seguinte, Henrique acordou diferente. Seus pacientes estavam lá, como sempre. Mas algo havia mudado em seus relatos.
— Doutor — disse Joana, com um leve sorriso —, eu tive um sonho estranho com um castelo… e você estava lá.
Henrique ficou em silêncio.
Pela primeira vez, ele não sabia distinguir quem estava ajudando quem — ou se havia, de fato, alguma diferença.
E naquela noite, quando fechou os olhos, ele não entrou na história.
Ele foi chamado por ela.
Naquela noite, Antonio não conseguiu dormir.
Virava de um lado para o outro, como se o corpo recusasse o repouso e a mente se recusasse ao silêncio. As palavras do diário não o deixavam — não como lembranças, mas como presenças. Cada frase parecia continuar sendo pensada dentro dele, como se Henrique tivesse apenas iniciado raciocínios que agora se completavam em outra consciência.
Ele se sentou na beira da cama, os pés tocando o chão frio.
Algo estava errado.
Não era apenas inquietação. Era uma espécie de chamado sem som.
Levantou-se. Caminhou até a janela.E então viu. As luzes da casa estavam acesas.
Não uma. Todas.
A chácara, que durante semanas fora um bloco escuro e silencioso, agora brilhava como se estivesse em pleno funcionamento. Não havia movimento visível, nenhuma sombra passando pelas janelas — apenas a iluminação constante, firme demais para ser casual.
Antonio ficou imóvel.
A primeira reação foi lógica: alguém entrou na casa.
Mas essa hipótese não se sustentou por muito tempo. Não havia sinais durante o dia. Nenhum carro. Nenhuma mudança.
E, ainda assim… as luzes estavam acesas.
Ele sentiu o mesmo desconforto de antes, mas agora mais definido. Não era apenas presença. Era atividade.
Sem perceber exatamente quando decidiu, Antonio já estava do lado de fora. Caminhando. Atravessando o terreno escuro, guiado pela luz distante.
Cada passo parecia inevitável.
A casa estava igual.
E completamente diferente.
A porta, antes entreaberta, agora estava fechada. Mas não trancada.
Ele a empurrou.
Desta vez, o interior não estava mergulhado em abandono.
A poeira parecia… perturbada. Como se o ar a tivesse movimentado recentemente. As luzes iluminavam tudo com uma clareza quase excessiva, eliminando sombras, mas não o desconforto.
Antonio entrou.
E então percebeu. O silêncio não era ausência de som. Era contenção.
Como uma sala onde algo importante está prestes a ser dito.
Ele caminhou até a mesa. O caderno ainda estava lá. Mas não como ele o havia deixado.
Estava aberto. Na última página. E havia algo novo. Uma anotação que não estava ali antes.
A caligrafia era familiar. Mas não idêntica à de Henrique.Mais firme. Mais… estável.
Antonio leu:
“Paciente apresenta resistência moderada. Contato inicial bem-sucedido.
Reconhecimento em fase de transição. Intervenção direta iminente.”
O coração de Antonio acelerou.
Ele não precisava ler o nome.
Sabia.
Mesmo assim, seus olhos desceram pela página.
E lá estava.
Antonio fechou o caderno de uma vez, como se o gesto pudesse interromper algo maior.
Mas não interrompeu.
Porque, atrás dele, uma voz — calma, precisa, profissional — quebrou o silêncio contido:
— Você decidiu voltar.
Antonio não se virou imediatamente.
Dessa vez, não foi o medo que o deteve. Foi a compreensão.
Lenta. Incômoda. Irreversível.
Ele havia passado a vida inteira, acreditando que observava o mundo de fora.
Agora começava a suspeitar… que nunca estivera realmente fora de nada.
Quando finalmente se virou, a sala parecia a mesma.
Mas a pergunta já estava feita.
E, de algum modo, respondida.
As luzes não estavam acesas para iluminar a casa. Estavam acesas para ele.
A mudança não foi brusca, nem evidente para quem o encontrava casualmente. Ele continuava cumprimentando os vizinhos, comprando pão nas manhãs quentes, caminhando devagar pelas ruas de terra.
Mas havia algo deslocado nele — não no comportamento, mas no modo como ocupava o próprio silêncio.
Antes, Antonio observava o mundo. Agora, parecia escutá-lo. Com atenção excessiva. Como se cada pausa, escondesse uma continuidade que os outros não percebiam.
As noites tornaram-se seu verdadeiro território. Dormir deixou de ser descanso; era acesso. E, ao contrário de Henrique, Antonio não resistia mais. Havia aprendido algo essencial ao ler aquele caderno, ao ouvir aquela voz, ao ver as luzes se acenderem sem causa visível:
A resistência não interrompia o processo. Apenas o tornava mais confuso.
Então ele parou de resistir.
Na terceira noite, após voltar à casa, o sonho veio com clareza inédita.
Ele não “entrou” nele. Já estava lá.
A sala. Simples. Iluminada. Familiar de uma forma que não dependia da memória.
Desta vez, havia duas cadeiras ocupadas.
Antonio reconheceu imediatamente.
Henrique estava sentado de um lado, postura calma, olhar atento — não mais fragmentado, não mais perdido. Havia nele uma estabilidade que beirava o inquietante.
Do outro lado… um espaço vazio. Esperando.
— Sente-se — disse Henrique, com naturalidade.
Antonio não hesitou. Sentou. Por um instante, nada foi dito. O silêncio não era desconfortável. Era estrutural, como se fosse parte necessária daquilo.
Então Henrique falou:
— Quando você entrou na casa, achou que estava investigando.
Antonio assentiu, lentamente.
— Mas já estava sendo observado.
Antonio não respondeu, porque sabia. Sentia isso agora com uma clareza quase dolorosa.
— A diferença entre nós — continuou Henrique — é que você percebeu mais rápido.
— Percebi o quê? — perguntou Antonio, finalmente.
Henrique inclinou levemente a cabeça, como se a pergunta fosse esperada.
— Que não há lá “fora”.
O silêncio voltou.
Mas, dessa vez, Antonio entendeu algo que antes lhe escapava. Não era uma explicação. Era um ajuste. Uma reorganização interna. Como se sua mente estivesse sendo reposicionada dentro de algo maior.
— E você? — perguntou Antonio.
— O que aconteceu com você?
Henrique não respondeu de imediato.
Quando o fez, sua voz era neutra demais para ser tranquilizadora:
— Eu parei de tentar sair.
Antonio sentiu um leve aperto no peito.
Não de medo. Mas de reconhecimento.
Na manhã seguinte, ele acordou sentado na própria cadeira da cozinha.
O sol já alto.
Um caderno aberto à sua frente. Não o de Henrique. Outro. Novo. Com sua própria caligrafia.
Ele não se lembrava de ter escrito, mas reconhecia cada traço.
Na página, uma anotação simples:
“Primeiro contato estabelecido sem resistência significativa.
Paciente demonstra adaptação progressiva. Estrutura permanece estável.
Sessão continuará.”
Antonio fechou o caderno devagar. Respirou fundo.
E, pela primeira vez, não tentou explicar, porque algo dentro dele já sabia:
A casa não estava vazia.
Nunca estivera.
E agora… também não estava mais fora dele.
Antonio vendeu a chácara, e desapareceu.
A negociação foi rápida demais para um lugar que, até pouco tempo, ninguém queria sequer mencionar. Um comprador apareceu sem muita barganha, sem perguntas, interessado apenas na escritura, na localização, na posse imediata.
Antonio não discutiu preço. Não discutiu nada. Assinou.
Os vizinhos acharam estranho, mas não surpreendente. Já não era o mesmo homem. Havia nele uma pressa silenciosa, não de fugir, mas de concluir algo.
Nos últimos dias antes da venda, foi visto poucas vezes. Sempre sozinho. Sempre com um caderno nas mãos.
Diferente do de Henrique. Mais espesso. Mais usado.
Depois disso, sumiu. Sem despedidas. Sem aviso. Sem rastros claros.
Mas deixou uma última coisa.
O novo proprietário, ao entrar na casa pela primeira vez, encontrou-a limpa demais. Como se tivesse sido preparada — não para abandono, mas para continuidade.
Sobre a mesa, havia um caderno.
Não era antigo. Não tinha poeira. E estava aberto.
Na primeira página, uma anotação em caligrafia firme:
“Transferência concluída sem intercorrências. Ambiente preservado.
Novo observador integrado ao ciclo.”
O comprador leu sem entender. Virou a página. Uma lista de nomes, endereços, perfis.
Entre eles, um que lhe causou um desconforto imediato — embora não soubesse explicar por quê: o seu próprio nome.
Abaixo, uma observação:
“Ceticismo funcional. Curiosidade latente. Tendência à permanência.”
Ele fechou o caderno com um gesto seco, como se pudesse interromper algo antes que começasse.
Mas, ao erguer os olhos, teve a estranha sensação de que a casa já não era apenas um lugar. Era um ponto, de passagem, de continuidade.
Naquela mesma noite, ao deitar-se pela primeira vez no quarto ainda estranho, demorou a dormir.
Mas quando dormiu… não houve transição.
A sala estava lá. A luz. O silêncio estruturado.
E, desta vez, três cadeiras ocupadas.
Henrique, Antonio... E alguém que ainda não compreendia completamente o próprio papel.
— Bem-vindo — disse Antonio, com a mesma calma que um dia ouvira de Henrique.
O homem tentou falar, mas hesitou, porque, no fundo, algo já começava a se organizar dentro dele.
Não como medo, mas como reconhecimento.
A casa nunca precisou de moradores, apenas de participantes.
E em algum lugar distante, impossível de localizar no mapa ou na memória…
Antonio continuava, não como quem fugiu, mas como quem seguiu adiante dentro daquilo, que nunca teve começo claro — e talvez nunca tenha fim.
mario moura
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APENAS UM HOMEM SOLITÁRIO
Naquela rua quase esquecida pelo tempo, a casa de janelas azuis permanecia sempre fechada, como se guardasse um segredo antigo. Ali vivia Anselmo, um homem que aprendera a medir o tempo não pelos relógios, mas pelos silêncios.
Viúvo há muitos anos, ele encontrara em Cícero — um cão de olhar atento e paciência quase humana — a única companhia constante. Conversavam longamente. Ou, ao menos, era o que Anselmo dizia a si mesmo. Sentado na poltrona gasta da sala, com um livro aberto sobre os joelhos, ele lia trechos em voz alta:
— Veja, Cícero, o que dizem sobre a natureza do ser... — pausava, ajustava os óculos, e olhava o cão. — Não lhe parece que estamos sempre à procura de algo que nem sabemos nomear?
Cícero, deitado ao seu lado, inclinava levemente a cabeça, como se ponderasse. Era o suficiente.
Os dias seguiam em uma rotina quase ritualística. Pela manhã, caminhava lentamente até a padaria da esquina. Era o único momento em que sua solidão se abria ao mundo. O dono, um português de fala arrastada e entusiasmo vibrante, sempre o recebia com um sorriso:
— Hoje lembrei de uma passagem magnífica de Eça! — dizia, enquanto embrulhava o pão.
Anselmo escutava, às vezes sorria, e raramente respondia além de um comentário breve. Gostava daquelas conversas, ainda que nunca admitisse. Havia nelas algo de previsível, e isso lhe trazia conforto.
Mas era ao entardecer que sua alma realmente despertava.
A varanda tornava-se palco de suas memórias. Com uma taça de vinho nas mãos — às vezes duas — ele se acomodava na cadeira de balanço, enquanto a música preenchia o ar. Os noturnos ecoavam suaves, quase como se viessem de dentro dele.
— Ah, Cícero... — murmurava — há coisas que só a música entende.
E então vinham as lembranças.
Os amores que não se cumpriram. Os encontros que chegaram tarde demais. O rosto da esposa, que às vezes surgia nítido, às vezes dissolvido como um sonho ao acordar. Ele não chorava. Apenas observava essas imagens com a serenidade de quem já fez as pazes com a perda.
Certa noite, após um desses entardeceres, contou ao cão sobre um sonho estranho:
— Estávamos num barco, você e eu... mas o mar era feito de páginas de livros. E cada onda trazia uma história diferente. — riu baixo.
— Nunca consegui chegar ao fim de nenhuma história...
Cícero levantou-se, aproximou-se e apoiou o focinho em seu joelho.
— Talvez não seja preciso chegar ao fim — disse Anselmo, pensativo. — Talvez baste navegar.
O vento soprou leve, e as folhas de uma árvore próxima sussurraram algo que ele não conseguiu entender. Ou talvez tenha entendido, mas preferiu guardar para si.
Naquela casa de janelas azuis, o mundo era pequeno, mas profundo. E, entre livros, memórias e diálogos improváveis, Anselmo seguia vivendo — não à margem da vida, mas em um ritmo próprio, onde cada silêncio tinha significado e cada palavra, quando dita, era necessária.
E assim, noite após noite, ao som de sua música preferida — gostava dos Noturnos, de Chopin — ele continuava sua travessia invisível, sempre acompanhado. Sempre com Cícero.
Anselmo nunca admitiria, nem a si mesmo, mas havia um certo cuidado na escolha do horário em que ia à padaria. Nem cedo demais, para evitar os vizinhos apressados; nem tarde, quando o movimento cessava.
Ele sabia exatamente quando encontraria o português sozinho atrás do balcão, ouvindo rádio, como se ambos tivessem, silenciosamente, combinado aquele encontro cotidiano.
O sino da porta tilintava, e o dono, Joaquim, erguia os olhos com um brilho imediato de reconhecimento.
— Ora, senhor Anselmo! Chegou em boa hora. Hoje amanheci com Eça na cabeça!
Anselmo apenas assentia, aproximando-se do balcão.
— Um pão, como de costume.
Mas Joaquim já estava embalado.
— Sabe, há uma ironia fina em Eça que poucos percebem... aquela maneira de expor as fraquezas humanas como quem descreve o clima. Natural, inevitável! — inclinava-se sobre o balcão — Já leu Os Maias mais de uma vez?
— Mais do que deveria — respondia Anselmo, com um meio sorriso. — E cada leitura parece menos sobre os personagens... e mais sobre nós.
Joaquim batia levemente na madeira do balcão, satisfeito.
— Exatamente! É isso! — fazia uma pausa dramática, como se estivesse prestes a mudar de assunto, o que de fato acontecia.
— Mas veja, meu caro, nada se compara às histórias do mar. Aquilo sim é literatura viva!
Anselmo permanecia em silêncio, como quem permite que o outro continue.
— Imagine os navegadores portugueses — prosseguia Joaquim, com os olhos distantes — dias e dias sem ver terra, enfrentando tempestades, monstros que nem sabiam se eram reais... — baixava a voz — ou o próprio medo, que às vezes é pior que qualquer criatura.
— O desconhecido sempre foi o maior dos oceanos — comentou Anselmo.
Joaquim sorriu largo.
— Ora, veja só! O senhor fala pouco, mas quando fala... — apontou para ele com o embrulho do pão — parece que traz consigo um pedaço desses mares.
Anselmo pegou o pão, mas não se moveu para sair.
— E diga-me — continuou Joaquim — o que acha que movia aqueles homens? Era coragem? Ganância? Fé?
Anselmo demorou a responder. Olhou para a rua, como se buscasse algo que já não estava lá.
— Talvez uma inquietação... — disse enfim — aquela sensação de que ficar é, de certo modo, desaparecer.
Joaquim ficou em silêncio por um instante, algo raro.
— Nunca pensei assim — murmurou.
— Nem eu, até agora — respondeu Anselmo, quase para si mesmo.
Havia momentos como aquele, em que a conversa deixava de ser apenas entusiasmo de um lado e escuta do outro. Tornava-se algo mais sutil, como um encontro breve entre duas solidões que se reconhecem.
Mas Joaquim logo retomava seu tom habitual.
— Ah! E as caravelas! Já leu descrições detalhadas? Aquilo era engenho e coragem! Pequenas, frágeis... e ainda assim cruzaram o mundo! — ergueu as mãos — Hoje temos tudo e não saímos do lugar!
Anselmo ajeitou o casaco.
— Às vezes, viajar demais também é uma forma de não chegar.
Joaquim riu.
— O senhor sempre complica o simples!
— Ou simplifico o complicado.
Os dois trocaram um olhar breve. Era o máximo de cumplicidade que permitiam.
— Até amanhã, senhor Anselmo?
— Talvez.
E saía, sempre com a mesma calma, como se carregasse mais do que pão nas mãos.
Ao retornar para casa, Cícero o esperava na porta, abanando o rabo com discrição — como se soubesse que havia ali algo importante, embora invisível.
— Hoje falamos de mares, meu amigo — dizia Anselmo, entrando. — Mas curiosamente... sinto que foi de nós que tratávamos.
Cícero o acompanhava até a sala, onde o silêncio retomava seu lugar. Mas não era mais o mesmo silêncio.
Havia nele ecos de palavras, de ideias, de histórias que atravessavam séculos.
E, naquele pequeno trajeto entre a casa e a padaria, Anselmo talvez navegasse mais do que jamais admitiria.
O cotidiano de Anselmo não se organizava por compromissos, mas por estados de espírito. Havia dias em que a manhã se alongava demais, e ele permanecia sentado com um livro aberto sem realmente ler — apenas percorrendo com os olhos frases que já conhecia de memória. Em outros, levantava-se cedo, como se tivesse sido chamado por algo indefinido, e caminhava pela casa em silêncio, seguido de perto por Cícero.
O nome do cão não fora escolhido ao acaso.
— Você carrega um peso, meu caro — dizia-lhe, enquanto coçava atrás de suas orelhas. — Não qualquer nome, mas o de um homem que dominava as palavras como poucos.
Às vezes, declamava trechos inteiros, com a voz firme, quase solene, como se ainda houvesse uma plateia invisível à sua frente. Cícero o observava com atenção paciente.
—"Quosque tandem, Catilina, abutere patientia nostra?" - (“Até quando, afinal, abusarás da nossa paciência?”) — recitava, erguendo levemente a mão, como se interpelasse um inimigo ausente. Em seguida, relaxava e sorria de leve. — Veja, Cícero… há perguntas que atravessam os séculos sem perder a força.
De Catão, o Velho, gostava de repetir, com ênfase, como um refrão, sempre que acontecia algo desagradável, a frase frequentemente repetida pelo senador romano, para finalizar os seus discursos - "Delenda est Carthago" - (Cartago deve ser destruída!). Traduzida em bom português, sem muita retórica: "para o diabo, com tudo!". E isso aliviava Anselmo, de algum sentimento menos nobre!
O cão piscava lentamente, e isso bastava para que o diálogo se sustentasse.
Mas era ao entardecer que o mundo de Anselmo adquiria outra densidade.
A varanda tornava-se seu refúgio absoluto. A luz dourada do sol em declínio, tocava os móveis antigos, desenhando sombras longas e melancólicas.
Ele servia o vinho com cuidado, como quem respeita um ritual silencioso. A primeira taça era sempre mais contemplativa; a segunda, mais confessional.
Cícero deitava-se ao seu lado, com mansidão, que dclarava amor e paciência.
— Há algo no entardecer que não existe em nenhum outro momento — começava Anselmo, girando lentamente o vinho na taça.
— Não é exatamente tristeza… mas também não é paz. É como se o dia estivesse pensando sobre si mesmo antes de partir.
Ficava em silêncio por alguns instantes, ouvindo a música que preenchia o ar com uma delicadeza quase palpável.
— Sabe… — continuava — há lembranças que escolhem esse horário para voltar. Como se fosse um encontro marcado com determinadas emoções, que somente se revelam nesse momento, que parece pairar entre a vida e a morte...
E então elas surgem, mansas, misteriosas, esotericamente, como símbolos intraduzíveis.
Não como uma dor aguda, mas como uma presença suave e inevitável. Um amor da maturidade, tardio e intenso, daqueles que não prometem eternidade, mas ainda assim a insinuam. Ele nunca dizia seu nome em voz alta, como se temesse quebrar algo frágil.
— Não fomos jovens — dizia, olhando para o horizonte — e talvez por isso tenhamos sido mais verdadeiros.
Contava a Cícero pequenos episódios, quase insignificantes: o modo como ela segurava a xícara com as duas mãos, como ria de coisas simples, como certa vez discordaram sobre um livro e passaram horas defendendo pontos opostos apenas pelo prazer da conversa.
— Era uma presença… — pausava — não uma necessidade.
O silêncio que se seguia era diferente dos outros. Mais denso, mais cheio.
— E então, de repente… ausência.
Nunca descrevia o momento da perda. Esse permanecia intocado, como uma ferida que ele aprendera a não tocar diretamente.
Cícero, como se percebesse a mudança, aproximava-se mais.
— Não se preocupe — dizia Anselmo, com um leve gesto — a dor muda de forma com o tempo. Já não pesa… mas também não desaparece.
Havia dias, porém, em que ele deixava a varanda antes do escurecer completo e caminhava até o mar.
Ali, tudo parecia mais simples.
Tirava os sapatos e deixava que a água fria tocasse seus pés. Caminhava devagar, acompanhando o ritmo das marolas que avançavam e recuavam com uma paciência infinita. O verde esmeralda do mar, sob a luz suave, tinha algo de hipnótico.
— Veja, Cícero — dizia, olhando para a linha do horizonte — aqui não há perguntas difíceis.
O cão corria um pouco à frente, depois voltava, como se marcasse o caminho.
— O mar não exige respostas… apenas presença.
Havia uma paz ali que não encontrava em nenhum livro, por mais profundo que fosse. Uma sensação de dissolução suave, como se por alguns instantes ele deixasse de ser apenas um homem carregando memórias, e se tornasse parte de algo maior, mais antigo, mais indiferente — e, justamente por isso, mais acolhedor.
Ao retornar para casa, a noite já havia tomado conta da rua. A varanda permanecia lá, silenciosa, aguardando o próximo entardecer.
E assim, entre palavras antigas, memórias persistentes e o ritmo calmo do mar, Anselmo seguia habitando seus dias.
Não em busca de respostas.
Mas em companhia das perguntas certas — e de um cão que, mesmo sem falar, parecia compreendê-las todas.
Havia uma solidão em Anselmo que não era abrupta nem desesperada. Não chegava como tempestade, nem exigia ser notada. Instalava-se devagar, como uma névoa que se infiltra pelos cantos da casa ao cair da tarde. Mesmo com Cícero ao seu lado — presença fiel, quase humana — havia momentos em que o silêncio entre um pensamento e outro se alargava demais.
— Curioso, meu amigo… — dizia, sem olhar diretamente para o cão — como alguém pode estar acompanhado e, ainda assim, sentir-se distante de tudo.
Cícero permanecia ali, atento, mas havia territórios onde nem mesmo sua lealdade podia alcançar.
Esses instantes surgiam, sobretudo, quando o vinho já aquecera levemente o corpo e a música parecia vir de um lugar muito interior. Não era tristeza declarada. Era antes uma espécie de suspensão — como se o mundo perdesse um pouco de sua densidade, tornando-se mais leve, porém também mais vazio.
As lembranças, nesses momentos, deixavam de ser narrativas organizadas. Tornavam-se fragmentos. Um gesto. Um olhar. Um riso interrompido. E, entre esses fragmentos, surgia algo mais sutil e inquietante: a percepção do que não aconteceu.
— Não é apenas o que perdemos… — murmurava — mas o que poderia ter sido.
As nuvens de pensamento vinham assim, sem violência. Pairavam. E com elas, um fio quase imperceptível de melancolia, que não sufocava, mas também não se dissipava completamente.
Ele aprendera a não resistir.
— Talvez seja isso, Cícero… — dizia, passando a mão lentamente sobre o dorso do cão — aceitar que a vida não se completa. Ela apenas se encerra.
Havia, nesses momentos, uma lucidez que beirava o desconforto. Não era pessimismo. Era uma clareza silenciosa, como se ele enxergasse as bordas das coisas com mais nitidez do que antes.
E então vinha o corpo.
Um cansaço leve, porém constante. Uma pontada aqui, outra ali. Nada suficientemente grave para alarmar, mas também nada que pudesse ser ignorado por completo.
Ele nunca falava disso diretamente, nem mesmo com Cícero. Mas ajustava-se. Caminhava um pouco menos. Sentava-se um pouco mais cedo. Servia apenas uma taça quando antes seriam duas.
— O corpo tem sua própria linguagem… — disse certa vez, quase em tom de descoberta — e, ao contrário das palavras, ele não mente.
Havia dias em que, ao caminhar pela areia, precisava parar por alguns instantes. Observava o mar, respirava fundo, e seguia. Não com dificuldade evidente, mas com uma consciência nova de cada passo.
A brevidade da vida deixara de ser uma ideia filosófica. Tornara-se uma sensação. Ganhara um novo sentido temporal, como se a eternidade fosse breve, mas intensa. Sim... por que a eternidade é uma percepção humana.
E, no entanto, não havia desespero.
Se algo mudara em Anselmo, fora a forma como habitava o tempo. Já não o via como uma extensão indefinida, mas como um espaço finito — e, por isso mesmo, mais denso, mais precioso em seus detalhes mínimos.
Na varanda, certa noite, enquanto a música se dissolvia no ar e o vinho repousava intocado na taça, ele falou com uma serenidade incomum:
— Sabe, Cícero… acredito que sempre soube. — fez uma pausa — Há algo em mim que se despede aos poucos.
O cão ergueu a cabeça, como se pressentisse a gravidade daquele instante.
— Não é dor. Nem medo. — continuou — é apenas… um aviso discreto.
Olhou para o horizonte, já escuro.
— Como o entardecer. Ele nunca nos surpreende. Sabemos que virá. E, ainda assim, há algo de profundamente comovente em cada vez que acontece.
Cícero aproximou-se, encostando-se em sua perna. Anselmo pousou a mão sobre ele, com um gesto lento, quase agradecido.
— Talvez a vida seja isso — murmurou — uma sucessão de despedidas suaves.
E ali, entre a presença silenciosa do cão, a memória dos amores vividos e a consciência tranquila de sua própria finitude, Anselmo não parecia um homem vencido pela solidão.
Mas alguém que aprendera a escutá-la.
E, ao escutá-la, transformá-la em companhia.
Do ponto de vista psicológico, Anselmo revela uma estrutura interior marcada por introspecção profunda e elaboração afetiva contínua. Sua solidão não é patológica no sentido clássico, mas limítrofe: oscila entre escolha e condição.
Ele construiu uma vida de contenção emocional, onde os vínculos são poucos, porém intensamente significativos. A perda — especialmente a do amor tardio — não foi reprimida, mas integrada de forma contemplativa, o que explica sua capacidade de recordar sem colapsar.
Contudo, há sinais de um processo mais silencioso: uma possível somatização da finitude. Seu corpo, com seus pequenos alertas, funciona como mediador entre a consciência e o inevitável. Não há negação, mas também não há enfrentamento direto.
Trata-se de uma aceitação progressiva, quase estética, da própria transitoriedade.
Anselmo não luta contra o tempo. Ele o observa.
E, nesse gesto, revela tanto sua lucidez quanto sua fragilidade.
mario moura
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A INVEJA, um ponto obscuro nas nossas vulnerabilidades
Havia uma vila onde todos pareciam viver em harmonia — exceto por um detalhe silencioso que crescia nas sombras: a inveja.
Isabel era conhecida por sua habilidade de transformar qualquer pedaço de tecido em vestidos encantadores. Suas criações faziam as pessoas sorrirem, e isso, mais do que o talento em si, era o que mais chamava atenção. Mas nem todos sorriram por muito tempo.
Lina, que morava na casa ao lado, observava tudo pela janela. No início, admirava Isabel. Depois, começou a se comparar. Por fim, passou a se incomodar.
“Por que ela, e não eu?”, repetia para si mesma.
A inveja, sorrateira, não chegou como um trovão — veio como um sussurro constante. Lina começou a criticar as roupas de Isabel em segredo, depois em público. Espalhou rumores, diminuiu conquistas, até que, aos poucos, o brilho ao redor de Isabel começou a vacilar.
Mas algo inesperado aconteceu.
Isabel, ao perceber a mudança, não respondeu com raiva. Em vez disso, bateu à porta de Lina numa manhã tranquila. Levava consigo tecidos e linhas.
— Eu sempre vi você observando — disse Isabel, com calma. — Quer aprender comigo?
Lina ficou sem palavras. Toda a energia que havia gastado cultivando ressentimento parecia, de repente, pesada e inútil. Pela primeira vez, ela percebeu que a inveja não a aproximava do que queria — apenas a afastava.
Com o tempo, Lina aceitou. Aprendeu a costurar, mas, mais importante, aprendeu a reconhecer o próprio valor sem precisar diminuir o de ninguém.
E na vila, onde antes havia um sussurro amargo, passou a existir algo mais raro: pessoas que celebravam umas às outras sem medo.
Porque, no fim, a inveja só cresce no terreno onde falta propósito — e desaparece quando alguém decide plantar algo melhor.
A inveja é mais complexa do que parece à primeira vista.
Não é apenas “querer o que o outro tem”. No fundo, ela envolve comparação, identidade e uma sensação incômoda de insuficiência. Quando alguém sente inveja, não está só olhando para o outro — está, sobretudo, confrontando uma imagem de si mesmo, que considera menor, incompleta ou atrasada.
Há dois movimentos principais dentro da inveja.
O primeiro é o reconhecimento: “o outro tem algo que eu valorizo”.
O segundo, mais difícil de admitir, é: “eu sinto que me falta isso — e isso me diminui”.
É essa segunda parte que torna a inveja desconfortável, porque mexe com autoestima e identidade.
Por isso, muitas pessoas não se reconhecem como invejosas. A inveja costuma se disfarçar.
Em vez de aparecer como “eu queria isso também”, ela surge como:
- crítica excessiva (“nem é tudo isso”),
- desvalorização (“teve sorte”),
- comparação constante (“se eu tivesse as mesmas oportunidades…”),
- ou até um certo prazer silencioso quando o outro falha.
Esses mecanismos funcionam como uma proteção psicológica. Admitir a inveja exige encarar vulnerabilidades — algo que nem sempre é fácil. Então a mente cria justificativas para manter a autoimagem intacta.
Quando alguém começa a se perceber como invejoso, geralmente isso acontece em momentos de honestidade mais profunda. Pode ser ao notar um padrão: sempre que certa pessoa aparece, surge irritação. Ou ao perceber que o sucesso alheio incomoda mais do que deveria. Esse reconhecimento costuma vir acompanhado de desconforto, até vergonha — mas também é um ponto de virada importante.
A partir daí, a inveja pode seguir dois caminhos.
Se negada, ela tende a se transformar em ressentimento. A pessoa passa a se afastar, criticar ou competir de forma desgastante. Isso corrói relações e, ironicamente, afasta ainda mais daquilo que ela desejava.
Se reconhecida, pode virar uma espécie de bússola. A inveja aponta para desejos não atendidos, potenciais não explorados, ou valores importantes. Em vez de “eu odeio que o outro tenha isso”, a pergunta muda para: “o que isso revela sobre o que eu quero para mim?”
Essa mudança é sutil, mas poderosa. A inveja deixa de ser uma emoção vergonhosa e passa a ser uma informação útil — ainda que desconfortável.
No fim, sentir inveja é humano. O problema não é a emoção em si, mas o que se faz com ela. Pessoas que conseguem se perceber invejosas sem se destruir por isso, dão um passo raro: transformam comparação em autoconhecimento, e incômodo em direção.
Imagine dois amigos de longa data, Rafael e Bruno.
Rafael sempre teve facilidade com palavras. Em conversas mais profundas, ele organizava ideias com clareza, conectava conceitos e se fazia entender com naturalidade. Não era algo forçado — simplesmente fluía. As pessoas prestavam atenção quando ele falava.
Bruno, por outro lado, pensava muito, mas tinha dificuldade em transformar esse pensamento em fala. Quando tentava explicar algo mais complexo, se perdia, voltava atrás, esquecia pontos importantes. Muitas vezes sabia o que queria dizer — mas não conseguia dizer.
No começo, isso não era um problema. Bruno admirava Rafael. Até se sentia orgulhoso de tê-lo como amigo. Mas, com o tempo, algo mudou.
Em rodas de conversa, Bruno começou a se calar mais. Quando tentava falar e travava, alguém naturalmente olhava para Rafael, que completava a ideia com facilidade. Ninguém fazia isso por mal — mas, para Bruno, cada episódio parecia uma confirmação silenciosa: “ele consegue, eu não”.
A inveja nasceu nesse espaço.
Não como raiva imediata, mas como um incômodo recorrente. Bruno passou a sentir uma tensão sempre que Rafael começava a falar. Por fora, concordava, sorria. Por dentro, comparava.
“Ele nem pensa tanto assim… só fala bonito.”
“As pessoas exageram.”
“Se eu tivesse mais prática, faria melhor.”
Esses pensamentos não eliminavam o desconforto — apenas o mascaravam.
Com o tempo, o sentimento se aprofundou. Bruno começou a evitar conversas mais complexas quando Rafael estava presente. Em alguns momentos, sentia até um alívio estranho quando o amigo se confundia, ou não se expressava tão bem. Logo depois, vinha a culpa.
O ponto mais difícil não era a habilidade de Rafael. Era o que ela fazia Bruno sentir sobre si mesmo: limitado, menos interessante, inferior.
A percepção da inveja surgiu numa situação simples. Um terceiro elogiou Rafael na frente dele: “Você explica as coisas muito bem.” Bruno sentiu um aperto imediato — quase automático. Não era só discordância. Era algo mais direto, mais íntimo.
Ali, pela primeira vez, ele nomeou o que estava sentindo: inveja.
E isso trouxe um choque, porque a imagem que tinha de si mesmo não combinava com isso. Ele se via como um bom amigo, alguém que torcia pelos outros. Admitir a inveja era admitir uma fissura nessa identidade.
Mas também abriu uma possibilidade.
Ao observar melhor o próprio incômodo, Bruno percebeu que não invejava apenas Rafael — invejava o que aquela habilidade representava: ser ouvido, ser compreendido, ter presença nas conversas.
Ou seja, não era só sobre o outro. Era sobre um desejo próprio, mal resolvido.
A partir daí, duas escolhas ficaram claras: continuar se comparando em silêncio, ou usar esse desconforto como direção.
Com o tempo, Bruno começou a fazer pequenos movimentos. Passou a se preparar antes de conversas importantes, a escrever ideias antes de falar, a aceitar que sua forma de expressão podia ser diferente — talvez mais lenta, mas não menos válida.
E algo mudou na relação.
Quando a inveja deixou de ser negada, ela perdeu força como ressentimento. Rafael continuava eloquente — isso não mudou. Mas Bruno já não se media apenas por esse critério.
A amizade, que antes estava sendo corroída por comparações silenciosas, começou a se reorganizar em um terreno mais honesto: onde admiração e desconforto podiam coexistir sem se transformar em hostilidade.
Esse tipo de inveja entre amigos é comum justamente porque há proximidade. Quanto mais semelhante alguém se parece com você — em idade, contexto, oportunidades — mais a comparação ganha força. E quanto mais próxima a relação, mais difícil é admitir sentimentos negativos.
Mas, quando reconhecida, essa inveja deixa de ser um veneno escondido e pode se tornar um ponto de partida para crescimento — não contra o outro, mas a favor de si mesmo.
Gosto de fábulas. Elas são capazes de lançar luzes sobre relações obscuras, ou fatos, acontecimentos. Até mesmo, e principalmente, sobre emoções! Escolho uma fábula, que trabalhará o sentimento da inveja, sob o prima das virtudes que faltam a alguém...
Havia, numa clareira cercada de árvores antigas, dois pássaros que eram amigos desde filhotes: o Rouxinol e o Corvo.
O Rouxinol encantava todos com seu canto. Suas notas eram fluidas, quase mágicas, e quando ele se expressava, a floresta silenciava para ouvir. Já o Corvo não cantava assim. Sua voz era áspera, suas pausas eram longas, e muitas vezes ele parecia se perder no meio do próprio som.
No início, o Corvo admirava o amigo.
— Como você consegue cantar tão bem? — perguntava.
— Eu só canto o que sinto — respondia o Rouxinol, sem esforço.
Mas, com o tempo, a admiração começou a se transformar. Sempre que o Rouxinol abria as asas e cantava, os outros animais se aproximavam. Quando o Corvo tentava, alguns escutavam, outros se dispersavam.
O Corvo começou a se calar.
E, em silêncio, passou a pensar:
“Meu canto é falho.”
“Ninguém quer ouvir o que tenho a dizer.”
“O Rouxinol nasceu com algo que eu nunca terei.”
A inveja pousou em seu peito, como uma sombra persistente.
Certo dia, após uma tentativa frustrada de cantar, o Corvo voou para longe, até um galho alto onde vivia uma Coruja antiga, conhecida por observar mais do que falar.
— Por que você não canta como antes? — perguntou a Coruja.
O Corvo hesitou, mas respondeu:
— Porque não adianta. Meu canto nunca será como o do Rouxinol.
A Coruja inclinou a cabeça.
— E quem disse que deveria ser?
O Corvo não respondeu.
A Coruja continuou:
— Você passa tanto tempo ouvindo o canto dele que esqueceu de escutar o seu. O Rouxinol canta o vento leve. Mas você… você carrega a noite, as distâncias, as coisas que não são ditas de imediato.
O Corvo franziu as penas.
— Mas ninguém presta atenção.
— Talvez porque você mesmo não acredita no valor do que traz — disse a Coruja.
O corvo remexeu-se no ramo, inquieto.
— Você tenta cantar como quem pede licença, como quem se desculpa por existir.
Aquelas palavras ficaram ecoando.
Nos dias seguintes, o Corvo não tentou imitar o Rouxinol. Em vez disso, começou a observar o mundo do seu jeito: os movimentos silenciosos, os padrões escondidos, os detalhes que passavam despercebidos.
Seu canto não ficou mais “bonito”. Mas ficou mais verdadeiro.
Quando voltou à clareira e cantou, não houve o mesmo silêncio encantado que o Rouxinol provocava. Mas alguns animais pararam — não por magia, e sim por curiosidade. Havia algo diferente ali: profundidade, intenção, um ritmo próprio.
O Corvo percebeu, então, que não precisava competir com o Rouxinol. Eles não cantavam a mesma coisa.
A inveja, que antes o fazia olhar para fora, começou a perder força quando ele voltou o olhar para dentro.
E assim, na mesma floresta, dois cantos passaram a coexistir — não como rivais, mas como expressões distintas de um mesmo mundo.
Moral da história: A inveja nasce quando esquecemos quem somos ao olhar demais para o outro. Ela diminui, quando transformamos comparação em caminho — e encontramos uma voz que não precisa ser melhor, apenas ser nossa.
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UM FENÔMENO SURPREENDENTE
Uma simples costureira, modesta e humilde, um aprendizado da infâcia pobre e sofrida pela escassez, que impedia até mesmo sonhar, com um filho excepcional, Pedro, que possuia uma memória notável, gravou quase uma enciclopédia, de informações que começavam com a letra G.
Uma curiosidade que despertava a atenção de todos ao redor.
Ainda pequeno, o menino surpreendia professores e vizinhos ao recitar, com precisão impressionante, palavras, conceitos e até fatos históricos que começavam com a letra G — de “geografia” a “galáxias”, de “gramática” a “genética”.
A mãe, com suas mãos marcadas pelo trabalho silencioso da costura, observava tudo com um misto de orgulho e espanto.
Não compreendia totalmente a dimensão daquele dom, mas sabia que havia algo especial ali. Mesmo com poucos recursos, fazia o possível para incentivar o filho, reaproveitando cadernos, buscando livros usados e, acima de tudo, oferecendo o que tinha de mais valioso: apoio e amor.
Não podia dar-lhe um bom colégio, e sem opção, conseguiu com muito sacrifício, matricula-lo em uma escola pública do bairro.
Moravam na periferia da Capital. Um bairro proletário, carente dos mínimos recursos de saneamento, água, energia, transporte... Enfim, as características próprias de um bairro de pessoas de baixa renda, ou do 'entorno', como era costume seus moradores o classificarem.
O menino, por sua vez, parecia encontrar refúgio no conhecimento.
Não tinha interesse nas brincadeiras de rua, que aconteciam diariamente, com a presença da garotada: "peladas" na terra, "pipas" no céu, jogo de "bafo-bafo" de figurinhas, "carniça" etc...*
Seu interesse centrava-se nos poucos livros interessantes da biblioteca local, uma iniciativa da comunidade. Livros que chegavam como doação dos moradores e de professoras, que se mobilizam para conseguir ampliar o acervo.
E assim, Pedrinho passava as tardes no banco rude da improvisada biblioteca, lendo e muitas vezes relendo, livros que lhe despertavam curiosidade: Geografia, História, Biografias, até ciências como Arqueologia, Biologia etc.
Cada nova palavra era uma descoberta, cada conceito, uma porta que se abria para um mundo muito maior do que aquele em que vivia.
A escassez que marcara sua infância, não limitava sua mente — pelo contrário, parecia impulsioná-la.
E assim, entre linhas de costura e páginas desgastadas, começava a se desenhar uma história improvável: a de uma mãe simples e um filho extraordinário, excepcional, unidos pela esperança silenciosa de que o saber poderia, um dia, transformar seus destinos.
Um professor, que notara essa condição especial, resolveu aproximar-se do menino, e estudar essa estranha habilidade, de imediato inexplicável. Levou o caso a um psiquiatria amigo, que se interessou por uma situação tão esdrúxula, inusitada, tão estranha e desconhecida.
O psiquiatra ouviu o relato com atenção incomum.
Quando finalmente conheceu o garoto, optou por não tratá-lo como um caso clínico, mas como alguém a ser compreendido. Começou com perguntas simples:
— “Se eu disser a letra G, o que vem à sua mente?”
O menino não hesitou. Seus olhos ganharam brilho, e ele começou a falar com fluidez surpreendente: “Gravidade, galáxias, genética, glicose, geometria…” — e não apenas listava palavras, mas explicava conceitos com uma clareza incomum para sua idade.
O psiquiatra trocou um olhar silencioso com o professor. Aquilo não parecia um transtorno, mas talvez uma forma rara de organização cognitiva. Algo próximo do que a ciência começava a reconhecer como memória associativa extrema — uma capacidade de agrupar e recuperar informações por padrões muito específicos.
Decidiram então propor pequenos testes. Pediram ao menino outra letra.
— “A”.
Novamente, ele mergulhou em um fluxo contínuo:
O mais curioso, porém, não era apenas a quantidade de informações, mas a coerência entre elas. Não era uma repetição mecânica. Havia compreensão.
O psiquiatra começou a levantar hipóteses: poderia ser uma forma incomum de sinestesia cognitiva, ou um tipo raro de memória eidética estruturada por linguagem. Mas nenhuma explicação parecia suficiente.
Enquanto isso, o menino permanecia alheio às teorias.
O professor, cada vez mais convencido de que estava diante de algo extraordinário, passou a se perguntar, não apenas o que era aquela habilidade, mas até onde ela poderia chegar.
E talvez a questão mais inquietante de todas começava a surgir:
— Aquela mente estava apenas memorizando o mundo… ou começando a reorganizá-lo?
Os primeiros meses de estudo trouxeram dados. Os meses seguintes trouxeram dúvidas. E então… vieram os eventos que ninguém conseguiu explicar.
Tudo começou com uma nova letra.
O garoto ficou em silêncio. Pela primeira vez, não houve resposta imediata. Seus olhos se fixaram em um ponto vazio, como se estivesse tentando acessar algo… que não estava lá — ou que estava longe demais.
Segundos se passaram. Depois minutos.
Até que ele falou, em um tom mais baixo do que o habitual:
— “Isso… não é uma letra. É um fim… e um começo ao mesmo tempo.”
A sala ficou imóvel.
Mudança de padrão
Depois daquele dia, algo mudou.
O menino começou a apresentar respostas que não estavam em nenhum livro que havia lido:
Ao ouvir “G”, mencionou uma teoria sobre gravidade que não correspondia nem à física clássica nem à moderna
Com “T”, descreveu estruturas de tempo que lembravam conceitos ainda em debate na física teórica
Em “C”, falou sobre consciência, como se fosse uma propriedade mensurável do universo
Os especialistas inicialmente suspeitaram de confabulação — a criação involuntária de informações. Mas havia um problema:
As ideias eram coerentes demais.
O fenômeno se expande
Testes mais ousados começaram.
Um matemático da equipe sugeriu:
— “Peça a ele algo que ainda não tenha resposta.”
O psiquiatra hesitou, mas concordou.
— “Letra ‘P’. Problema.”
O menino fechou os olhos.
E então disse:
— “Primos… eles não são aleatórios. Eles seguem uma dobra… como um eco.”
O matemático anotou, sem entender totalmente.
Semanas depois, ao revisar os registros, percebeu algo inquietante: a descrição do menino lembrava vagamente, padrões estudados na distribuição dos números primos — algo próximo de hipóteses ainda não comprovadas.
A hipótese proibida
A junta, antes cautelosa, começou a se dividir.
Uma parte defendia explicações ainda dentro da ciência:
intuição extrema
recombinação inconsciente de conhecimento
genialidade fora da curva
Mas outro grupo começou a considerar algo mais radical:
“E se o cérebro dele não estiver apenas armazenando informação… mas acessando padrões fundamentais da realidade?”
Não como algo místico — mas como se sua mente tivesse uma sensibilidade incomum, para estruturas profundas do universo.
O colapso do controle
O problema surgiu quando o menino perdeu o controle do próprio sistema.
As letras começaram a surgir espontaneamente, sem estímulo externo.
Ele dizia coisas como:
— “Hoje está tudo em ‘E’… energia… entropia… erro…”
Sua mãe percebeu primeiro.
Ele já não descansava como antes. Às vezes, acordava no meio da noite, murmurando sequências de palavras e conceitos que pareciam… avançados demais.
O momento decisivo
O psiquiatra decidiu fazer uma última tentativa de compreender o limite daquilo tudo.
— “Escolha você uma letra.”
O menino pensou.
E respondeu:
— “Não é uma letra.”
— “Então o que é?”
Ele olhou diretamente para o psiquiatra, com uma expressão que misturava calma e algo impossível de definir.
— “É antes das letras.”
Silêncio.
— “Se eu falar… vocês não vão conseguir esquecer.”
E então surge a pergunta central da história:
O conhecimento que aquele menino acessa, pertence à humanidade… ou ainda não deveria ser alcançado?
O problema do conhecimento
Após meses de observação, o psiquiatra começou a abandonar uma pergunta antiga:
“Como ele sabe?”
E passou a se concentrar em outra, mais desconfortável:
“O que é, afinal, saber?”
Até então, todo conhecimento humano seguia um princípio básico: ele era construído — acumulado, testado, transmitido.
Mas o menino parecia acessar algo que não passava por esse processo.
Ele não aprendia no sentido tradicional. Ele revelava.
Conhecimento como descoberta… ou lembrança?
Um filósofo convidado para a junta trouxe uma ideia antiga:
“E se conhecer não for adquirir algo novo, mas lembrar de algo que sempre esteve lá?”
Essa noção, que ecoa pensamentos clássicos da filosofia, ganhou um novo peso diante do menino. Porque, quando ele falava, não parecia estar criando — nem copiando.
Parecia… reconhecer.
Como alguém que encontra algo familiar em um lugar onde nunca esteve.
A linguaem como limite
Outro ponto começou a emergir.
Tudo no fenômeno dependia de letras. Símbolos. Linguagem.
Mas e se a linguagem não fosse apenas uma ferramenta…
e sim uma limitação?
Um linguista da equipe argumentou:
“Talvez ele não esteja preso à linguagem como nós. Talvez ele a use como interface para algo maior.”
Ou seja: as letras não seriam a origem do conhecimento, mas apenas portas de entrada imperfeitas.
Isso explicaria por que, diante de “Ω”, ele hesitou.
Talvez porque ali… a linguagem começava a falhar.
O risco de compreender demais
Com o tempo, uma preocupação ética começou a crescer.
Se aquele menino realmente acessava estruturas profundas da realidade, havia um perigo implícito:
O que acontece quando a mente humana ultrapassa os limites para os quais foi moldada?
O psiquiatra escreveu em seu diário:
“Talvez o problema não seja o que ele pode descobrir… mas o que isso pode fazer com ele.”
Porque o conhecimento não é neutro.
Ele transforma quem conhece.
A solidão do entendimento
O menino começou a mudar.
Não por sofrimento visível, mas por distância.
Conversas simples já não o interessavam.
Perguntas comuns pareciam… pequenas.
Certo dia, sua mãe perguntou:
— “Você está feliz?”
Ele demorou para responder.
— “Eu sei muitas coisas… mas não sei isso.”
Essa frase ecoou entre os especialistas, como nenhum dado científico havia feito.
A hipótese mais profunda
No ponto mais avançado das discussões, surgiu uma ideia quase impossível de aceitar:
“E se a consciência humana não for o ápice… mas apenas um filtro?”
Um filtro que limita o quanto da realidade conseguimos perceber.
E o menino?
Talvez tivesse nascido com esse filtro… parcialmente aberto.
Diante de tudo, ele abandonou relatórios formais por um momento e escreveu algo pessoal:
“Passamos séculos tentando expandir o conhecimento humano.
Mas nunca perguntamos seriamente:
quanto conhecimento uma mente pode suportar sem se perder?”
E a pergunta que encerra — ou inicia — tudo:
O verdadeiro limite do ser humano está naquilo que ele ainda não sabe…
ou naquilo que talvez nunca devesse saber?
Então o fim não vem como uma resposta — mas como um símbolo.
Com o passar do tempo, os testes cessaram.
Não por decisão formal, mas porque perderam o sentido.
O menino já não respondia da mesma forma.
Quando perguntavam por letras, ele sorria levemente — como quem já ultrapassou aquela etapa.
Certo dia, pediu algo incomum:
— “Quero aprender a costurar.”
A mãe estranhou, mas ensinou. Linha, agulha, tecido.
No início, seus movimentos eram desajeitados.
Depois… precisos demais.
Ele não apenas costurava.
Ele combinava.
Tecidos diferentes, cores improváveis, padrões que não seguiam lógica aparente — mas que, ao final, formavam algo… harmonioso.
O psiquiatra foi chamado para ver.
Observou em silêncio enquanto o menino trabalhava.
— “O que você está fazendo?” — perguntou.
O garoto respondeu sem olhar:
— “O mesmo de antes.”
— “Memorizando?”
— “Não… juntando.”
A última peça
Dias depois, o menino terminou algo.
Um tecido único, grande, formado por centenas de retalhos.
Cada pedaço parecia aleatório, mas nenhum estava fora do lugar.
Ele chamou o psiquiatra, a mãe e o professor.
— “Aqui.”
Estenderam o tecido sobre a mesa.
As formas, cores e costuras sugeriam padrões que lembravam:
espirais de galáxias
redes neurais
estruturas microscópicas
símbolos que pareciam letras… mas não eram...
Era como se todas as escalas da realidade, estivessem ali, sobrepostas.
A revelação silenciosa
— “O que isso significa?” — perguntou o professor.
O menino pensou por um instante.
— “Vocês usam letras para separar as coisas.”
Silêncio.
— “Mas tudo… já está junto.”
O desaparecimento do método
Depois disso, ele nunca mais respondeu a testes.
Não porque perdeu a habilidade — mas porque deixou de usá-la da mesma forma.
As letras desapareceram.
Ou talvez tenham se dissolvido em algo maior.
O último registro do psiquiatra
Anos depois, já distante do caso, ele escreveu:
“Tentamos entender um sistema. Mas o que vimos foi uma transição.
De organizar o mundo… para perceber que ele nunca esteve desorganizado.”
A imagem final
O tecido permaneceu. Guardado, estudado, admirado — e nunca plenamente compreendido.
Alguns diziam que era arte. Outros, ciência codificada. Outros ainda, apenas coincidência.
Mas, para a mãe, era outra coisa.
Era o momento em que o filho deixou de tentar entender o mundo…
e passou, silenciosamente, a fazer parte dele.
E talvez o enigma não esteja no que ele sabia.
Mas no que ele deixou de precisar saber.
Um professor de filosofia, já próximo de aposentar-se, sentado à sombra de ma frondosa árvore, no Campus Universitário, dialoga com um de seus alunos, sobre o sentido da vida, da existência de Deus e da vida pós-morte
O sol filtrava-se pelas folhas da grande árvore no centro do campus universitário, desenhando manchas douradas no chão de pedra. O professor, já de cabelos quase todos brancos e com a voz marcada por anos de sala de aula, repousava num banco de madeira. Ao seu lado, um aluno folheava um caderno cheio de anotações, mas com o olhar mais perdido do que atento.
— Professor… — começou o aluno, hesitante. — Às vezes eu me pergunto se tudo isso faz mesmo sentido. A vida, os estudos, as escolhas… e até a ideia de Deus. E a vida depois da morte… será que existe algo?
O professor sorriu de leve, sem pressa de responder. Olhou para as folhas se movendo com o vento antes de falar.
— Essa é uma pergunta antiga demais para ter uma resposta única — disse ele. — E, ao mesmo tempo, é tão nova quanto cada pessoa que a faz pela primeira vez.
O aluno franziu a testa.
— Mas o senhor, depois de tantos anos pensando nisso… chegou a alguma conclusão?
O professor encostou-se no banco, como quem organiza as ideias antes de soltá-las no ar.
— Eu aprendi que há três tipos de pessoas quando se trata dessas questões. As que têm certeza absoluta de tudo. As que dizem que nada faz sentido. E as que convivem com o mistério sem precisar destruí-lo.
Ele fez uma pausa breve.
— Eu já fui das duas primeiras. Hoje… fico mais confortável na terceira.
O aluno ficou em silêncio, esperando.
— E Deus? — insistiu.
O professor respirou fundo.
— Talvez a pergunta não seja apenas se Deus existe, mas o que essa ideia provoca em nós. Para alguns, ela dá sentido e direção. Para outros, é um desafio intelectual. E há aqueles que a veem como uma necessidade humana de não se sentir sozinho no universo.
Ele olhou para o aluno com gentileza.
— Mas note: nenhuma dessas respostas elimina a pergunta. Elas apenas mudam a forma como você caminha com ela.
O aluno baixou os olhos para o caderno.
— E a vida depois da morte?
O professor deu um leve sorriso, quase melancólico.
— Essa talvez seja a pergunta mais honesta de todas, porque nasce do nosso medo mais humano: o fim. Mas veja… ninguém volta para confirmar. Então, o que temos são crenças, esperanças, tradições e interpretações.
Ele apontou discretamente para a árvore acima deles.
— Esta árvore, por exemplo. Ela perde folhas, parece morrer no inverno, mas retorna. Nós olhamos isso e criamos metáforas. Alguns veem promessa. Outros veem apenas ciclos naturais.
O professor voltou-se ao aluno.
— Talvez a verdadeira questão não seja apenas “o que acontece depois”, mas “como viver agora sabendo que isso é incerto”.
O silêncio entre os dois não era vazio; era cheio de pensamento.
O aluno finalmente disse:
— Então o sentido da vida não é uma resposta?
O professor sorriu, agora com mais calor.
— Para mim, não. É um processo. Algo que se constrói enquanto você vive, ama, erra, aprende e se transforma. O sentido não está escondido como um objeto perdido. Ele vai sendo tecido.
O vento passou mais uma vez pela árvore, e algumas folhas caíram lentamente, como se também participassem da conversa.
O professor concluiu:
— E talvez isso já seja o bastante: não ter todas as respostas, mas continuar perguntando com honestidade.
O aluno fechou o caderno, sem frustração, mas com uma estranha sensação de leveza.
E, por um instante, o silêncio entre os dois pareceu uma forma de entendimento.
O campus já estava mais silencioso. O vento parecia ter diminuído, e a luz da tarde começava a ganhar um tom mais inclinado, como se o tempo também estivesse desacelerando para ouvir melhor a conversa.
O aluno ainda estava ao lado do professor, mas agora com o caderno fechado sobre o colo. Havia algo diferente no seu olhar: menos ansiedade, mais inquietação organizada.
— Professor… — ele retomou — o senhor falou de “conviver com o mistério”. Mas diferentes filósofos não diriam coisas completamente opostas sobre isso?
O professor assentiu lentamente.
— Dirão. E não apenas opostas… às vezes irreconciliáveis. Mas isso é parte da filosofia: não como um tribunal que decide vencedores, mas como um espaço onde ideias respiram.
Ele se ajeitou no banco, como quem muda de assunto sem abandonar o anterior.
— Veja os antigos gregos. Para Platão, por exemplo, esta vida aqui seria quase uma sombra de algo mais real. O sentido estaria fora daqui, num mundo inteligível, perfeito.
O aluno interrompeu:
— Então, para ele, a vida aqui não é o verdadeiro “lugar” do sentido?
— Exato — respondeu o professor. — É um mundo de passagem. Já Aristóteles discordaria em parte. Ele diria: o sentido está aqui mesmo, na realização daquilo que somos. A felicidade — a eudaimonia — não é fuga do mundo, mas plenitude dentro dele.
O aluno refletiu por um momento.
— Então um colocaria o sentido “fora” e o outro “dentro” da vida?
— Muito bem resumido.
O professor sorriu de leve.
— Agora, se avançarmos muitos séculos, encontraremos Tomás de Aquino, que tenta reconciliar razão e fé. Para ele, a existência de Deus não contradiz a razão, mas a completa. E a vida pós-morte não é hipótese vaga, mas parte de uma ordem maior do ser.
O aluno franziu o cenho.
— Isso parece dar muita segurança… mas também parece exigir crença.
— Sim — disse o professor. — E por isso, em outro extremo, temos o pensamento moderno mais cético. Nietzsche, por exemplo, diria que essa busca por um sentido transcendente pode ser uma forma de negar a vida como ela é. Ele falaria da “morte de Deus” como um acontecimento cultural: o colapso de uma garantia externa de sentido.
O vento voltou, fazendo a árvore ranger suavemente.
— E depois dele — continuou o professor — Sartre e os existencialistas diriam algo ainda mais exigente: se não há um sentido dado, então somos nós que o construímos. Mas isso não é conforto. É responsabilidade.
O aluno respirou fundo.
— Isso parece pesado… como se estivéssemos condenados a criar sentido sem ajuda.
— Sartre diria exatamente isso: “condenados à liberdade”.
Houve uma pausa longa. O professor então acrescentou:
— Mas há ainda outras formas de olhar. O budismo, por exemplo, não coloca o centro da questão num “sentido final”, mas na experiência do sofrimento e sua superação. O apego à ideia de um “eu fixo” ou de um “sentido absoluto” pode ser justamente o que gera sofrimento.
O aluno olhou para o chão.
— Então até a busca por sentido pode ser um problema?
— Em algumas tradições, sim — respondeu o professor com calma. — Não porque o sentido não importe, mas porque o apego rígido a uma única resposta pode nos prender.
O silêncio voltou a se instalar, mas agora não era vazio. Era como se várias vozes estivessem presentes ao mesmo tempo, cada uma dizendo algo diferente sobre a mesma vida.
O aluno finalmente falou:
— Professor… com tantas respostas diferentes, como alguém vive sem se perder?
O professor olhou para a árvore, demorando-se um pouco antes de responder.
— Talvez ninguém viva sem se perder em algum momento. A questão é o que você faz quando isso acontece.
Ele voltou o olhar ao aluno.
— Alguns se agarram a uma certeza e fecham o mundo. Outros se desesperam e dizem que nada vale a pena. E há aqueles que aprendem a caminhar com perguntas abertas, sem transformar dúvida em paralisia.
O aluno apertou o caderno entre as mãos.
— Mas o senhor… em qual dessas posições está hoje?
O professor sorriu com honestidade tranquila.
— Se eu disser que estou em uma só, estarei mentindo. Em mim, esses filósofos todos ainda conversam. Platão me lembra de não reduzir tudo ao imediato. Aristóteles me lembra de não fugir da vida concreta. Nietzsche me impede de me esconder atrás de respostas fáceis. Sartre me cobra responsabilidade. E as tradições espirituais me lembram que nem tudo precisa ser controlado pela razão.
Ele fez uma pausa breve.
— Eu diria que, com o tempo, deixei de procurar uma voz que cale as outras. Passei a ouvir a polifonia.
O aluno ficou em silêncio por alguns segundos.
— E isso não o deixa inseguro?
O professor respondeu sem hesitar:
— Às vezes sim. Mas é uma insegurança viva. Não é o vazio do desespero. É o espaço onde ainda posso pensar.
O vento passou novamente pela árvore. Agora algumas folhas caíram mais lentamente, quase como se o tempo tivesse decidido não interromper a conversa.
O aluno fechou os olhos por um instante.
— Acho que entendo… não é ter uma resposta final, mas não deixar de conversar com as perguntas.
O professor assentiu.
— Exatamente. E, no fundo, talvez a filosofia seja isso: não um lugar de chegada, mas uma forma de caminhar com mais lucidez.
Os dois ficaram em silêncio. Não havia mais urgência em concluir nada.
A tarde seguia, indiferente e ao mesmo tempo cúmplice.
E naquele espaço entre uma pergunta e outra, a vida continuava sendo pensada.
Em casa, já mais tarde, o professor sentou-se perto da janela com uma xícara de café que esfriava lentamente. O silêncio do apartamento contrastava com o ritmo da cidade ao fundo. Ainda assim, sua mente permanecia no campus, na sombra daquela árvore e na conversa com o aluno.
“Curioso…”, pensava ele, “como alguns jovens chegam às perguntas mais antigas da humanidade com uma seriedade que muitos adultos nunca desenvolvem.”
Ele se recostou na cadeira, olhando para o reflexo fraco da própria imagem no vidro.
Não era exatamente uma crítica aos outros estudantes. O professor conhecia bem a diversidade das juventudes. Alguns se dedicavam à filosofia, outros à ciência, outros à arte, outros apenas ao cotidiano imediato — redes sociais, planos de fim de semana, preocupações práticas, distrações rápidas que preenchiam o tempo sem exigir muita profundidade.
Ele não via isso como algo “errado”. Apenas como parte do modo humano de viver em diferentes ritmos.
Mas havia algo naquele aluno específico que lhe chamou atenção: uma inquietação que não parecia querer se satisfazer com respostas prontas.
O professor sorriu sozinho, lembrando da forma como o jovem perguntava, sem ironia, sem pressa, quase como quem teme perder algo essencial se não entender logo.
“Talvez isso seja raro… ou talvez não seja”, pensou.
Ele então se levantou e caminhou lentamente até a estante. Passou os dedos por alguns livros antigos: Platão, Nietzsche, Sartre, Tomás de Aquino. Volumes marcados pelo tempo, sublinhados por décadas de leitura e aulas.
“Durante anos”, refletiu, “eu acreditei que ensinar filosofia era transmitir problemas bem formulados. Hoje começo a suspeitar que é, sobretudo, preservar a capacidade de se espantar.”
Sentou-se novamente.
Lembrou-se de outras turmas, de outros alunos. Alguns profundamente engajados. Outros totalmente distantes dessas questões. E percebeu que sempre havia uma espécie de tensão entre o pensamento profundo e a vida imediata — não como inimigos, mas como forças diferentes disputando atenção dentro de cada pessoa.
O professor tomou um gole do café já frio.
“Talvez não seja que a maioria não se preocupe com o sentido da vida…”, pensou ele. “Talvez essas preocupações apenas apareçam em momentos diferentes, de formas diferentes, às vezes silenciosamente.”
Ele olhou novamente pela janela.
A cidade seguia seu fluxo normal, indiferente às reflexões filosóficas de um professor aposentando-se aos poucos da rotina, mas não do pensamento.
E então ele voltou à imagem do aluno.
Havia algo reconfortante naquelas perguntas. Não por terem resposta, mas por indicarem que o espanto ainda estava vivo em alguém.
O professor fechou os olhos por um instante.
“Enquanto houver perguntas assim sendo feitas…”, pensou, “talvez a filosofia não esteja em perigo.”
E ficou ali, em silêncio, sem pressa de concluir nada.
A campainha soou.
Álvaro levantou-se devagar, ainda com a mente meio presa nas reflexões da tarde. Ao abrir a porta, um sorriso espontâneo apareceu antes mesmo da confirmação racional.
— Henrique…
O homem à sua frente carregava a familiaridade de décadas. O mesmo olhar vivo, embora agora marcado por pequenas rugas que não existiam nos tempos da universidade. Entrou sem esperar convite — como sempre fizera — já empurrando levemente a porta com o ombro, como se a casa também fosse um pouco dele.
— Você ainda demora pra abrir a porta — disse Henrique, com um tom de brincadeira.
— E você ainda entra como se fosse dono dela — respondeu Álvaro, sorrindo.
Henrique largou a mochila numa cadeira, olhou ao redor e percebeu o café sobre a mesa.
— Filosofando sozinho de novo?
Álvaro deu de ombros.
— Não exatamente sozinho. Hoje tive uma conversa interessante com um aluno.
Henrique ergueu as sobrancelhas, curioso.
— Isso é novidade? Ou foi uma daquelas perguntas eternas: Deus, sentido da vida, morte?
Álvaro hesitou por um instante, depois assentiu.
— Exatamente isso.
Henrique soltou uma leve risada enquanto se sentava.
— Esses jovens… sempre achando que vão reinventar a roda.
Álvaro não respondeu de imediato. Sentou-se também, apoiando as mãos sobre a mesa.
— Não diria isso com tanta pressa — disse ele, com calma. — Às vezes eles não estão reinventando nada. Estão apenas fazendo as perguntas que a gente aprendeu a evitar.
Henrique cruzou os braços.
— Ou estão apenas sem outras preocupações mais práticas.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável, mas denso o suficiente para marcar diferença de visões.
Álvaro olhou para o amigo com tranquilidade.
— Você ainda pensa assim?
Henrique deu de ombros.
— Eu penso que a vida é mais simples do que a gente tenta fazer parecer. Trabalhar, viver, aproveitar o que dá. O resto… é filosofia demais.
Álvaro sorriu, sem ironia.
— E mesmo assim você veio aqui, depois de tantos anos, conversar comigo sobre nada disso?
Henrique riu.
— Eu venho porque você nunca mudou. Sempre tentando complicar o simples.
Álvaro recostou-se na cadeira.
— Ou talvez tentando não simplificar demais o que pode ser profundo.
Henrique ficou em silêncio por alguns segundos, depois mudou de tom.
— Mas me conta… qual foi a pergunta de hoje? Deus existe? Vida após a morte? O sentido da existência humana em três atos?
Álvaro olhou pela janela por um instante antes de responder.
— Tudo isso.
Henrique balançou a cabeça, como quem já esperava.
— E você respondeu o quê?
Álvaro demorou um pouco.
— Eu não respondi. Eu conversei.
Henrique franziu a testa.
— Isso é fuga?
— Não — disse Álvaro com firmeza suave. — É reconhecer que algumas perguntas não são portas com fechadura, mas caminhos que se percorrem.
Henrique soltou um leve suspiro.
— Você continua o mesmo filósofo de sempre.
Álvaro sorriu.
— E você continua o mesmo homem que acha que tudo isso é exagero.
Henrique pegou o café frio da mesa, tomou um gole e fez uma careta.
— E é mesmo.
Álvaro riu.
Mas, por um instante, o riso de ambos se misturou com algo mais antigo — a lembrança de quando eram jovens, sentados em bancos parecidos, discutindo exatamente as mesmas coisas, como se o tempo não fosse capaz de encerrar aquelas perguntas.
E talvez não fosse.
A conversa seguiu, agora menos sobre respostas e mais sobre o simples fato de ainda estarem ali, continuando a falar.
Álvaro ficou alguns segundos em silêncio, como se organizasse não apenas as ideias, mas também o tom com que iria compartilhá-las. Henrique ainda segurava a xícara de café frio, observando-o com aquela expressão meio cética, meio curiosa de quem conhece o outro há tempo demais para fingir indiferença.
— Sabe… — começou Álvaro, finalmente — o que me chamou atenção hoje não foi exatamente a pergunta do aluno. Essas eu já ouvi centenas de vezes. Deus, sentido da vida, morte, tudo isso já passou pela minha sala em diferentes vozes.
Henrique arqueou levemente uma sobrancelha.
— Então o que foi?
Álvaro apoiou os cotovelos na mesa.
— Foi a forma como ele perguntava. Não era provocação, nem repetição de algo lido. Era como se ele estivesse realmente incomodado com o fato de não ter respostas prontas… como se esperasse que alguém tivesse a chave que resolvesse tudo de uma vez.
Ele fez uma breve pausa.
— Mas ao mesmo tempo, não havia arrogância nisso. Havia uma espécie de urgência sincera. Uma vontade de organizar o mundo por dentro antes de simplesmente atravessá-lo.
Henrique soltou um leve suspiro pelo nariz, como quem não quer se deixar impressionar, mas também não consegue ignorar completamente.
— Jovem sempre acha que existe uma chave — comentou ele. — Uma frase, uma ideia, um livro que resolve o caos.
Álvaro assentiu devagar.
— Sim… e isso me fez pensar em nós mesmos, quando éramos estudantes.
Henrique desviou o olhar por um segundo, como se a lembrança tivesse tocado algo que ele não planejava acessar.
— Lá vem você com nostalgia filosófica…
Álvaro sorriu, sem se ofender.
— Não é nostalgia. É reconhecimento. Nós também queríamos uma chave. Só que cada um de nós escolheu uma forma diferente de lidar com a frustração de não encontrá-la.
Henrique girou a xícara entre os dedos.
— E você acha que eu desisti cedo demais?
Álvaro não respondeu imediatamente. Escolheu as palavras com cuidado.
— Não. Eu acho que você escolheu viver sem precisar dessa chave. Você resolveu chamar de “exagero” aquilo que não cabia na sua forma de viver.
Henrique riu, mas sem agressividade.
— E você resolveu transformar tudo em pergunta.
— Talvez — admitiu Álvaro. — Mas veja, o curioso é que esse aluno não parece estar nem em um extremo nem no outro. Ele não rejeita as perguntas como você, nem aceita viver apenas dentro delas como alguns filósofos fazem. Ele está… no meio. Inquieto.
Henrique apoiou o cotovelo na mesa.
— E isso te preocupa?
Álvaro negou com a cabeça.
— Não. Me chama atenção. Porque ele ainda acredita que existe uma resposta total. Algo que organize tudo de uma vez.
Henrique olhou para ele com um meio sorriso.
— E você não acredita mais nisso.
Álvaro demorou um pouco antes de responder.
— Eu acredito que, se existe alguma “chave”, ela não abre uma única porta. Talvez ela abra várias ao mesmo tempo… ou talvez o próprio ato de procurar já seja parte do que chamamos de sentido.
Henrique soltou uma leve risada.
— Você continua perigoso, Álvaro. Ainda faz as coisas parecerem mais complicadas do que precisam ser.
Álvaro respondeu com calma.
— Ou talvez eu só não queira simplificar algo que, quando simplificado demais, perde o que tem de humano.
O silêncio que se seguiu não foi de discordância, mas de convivência antiga entre duas formas diferentes de olhar o mundo.
Henrique terminou o resto do café frio e colocou a xícara na mesa.
— Ainda assim… eu preferia ser aluno seu do que amigo seu nessas horas.
Álvaro sorriu.
— E eu preferia que você fosse aluno meu nessas horas.
Os dois riram, como quem reconhece que certas diferenças não precisam ser resolvidas para serem suportáveis.
E a conversa continuou, não para chegar a uma conclusão, mas porque ambos, à sua maneira, ainda gostavam do caminho.
Henrique ficou alguns segundos em silêncio. Não era um silêncio defensivo, mas o tipo de pausa de quem percebe que a pergunta não é leve, mesmo vinda em tom calmo.
Ele apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando as mãos.
— Você foi direto… — disse ele, finalmente, com um leve sorriso torto. — Isso não é mais aquela filosofia de sala de aula. Isso é quase interrogatório existencial.
Álvaro não desviou o olhar.
— Talvez porque não seja mais sala de aula.
Henrique assentiu devagar, perdendo um pouco da ironia inicial.
— Conviver com a falta de respostas… — repetiu ele, como se testasse o peso das palavras. — Você acha mesmo que eu não convivo com isso?
Álvaro não respondeu de imediato. Apenas esperou.
Henrique então respirou fundo.
— Eu convivo, sim. Só que de outro jeito.
Ele olhou para a janela por um instante, como se buscasse uma imagem mais precisa.
— Eu não passei a vida inteira tentando encontrar uma resposta total. Eu aceitei mais cedo que certas coisas não fecham. Deus, sentido da vida, essas grandes perguntas… elas são como horizonte: você anda, anda, e elas continuam lá.
Fez uma pausa curta.
— No começo isso incomoda. Depois… você aprende a não esperar que incomode menos. Só aprende a continuar andando.
Álvaro observava em silêncio, sem interromper.
Henrique continuou:
— Mas não se engane. Isso não é indiferença. Eu já tive minhas crises também. Já fiquei noites pensando se tudo era acaso, se havia algo além, se eu estava desperdiçando a vida por não buscar respostas mais “profundas”.
Ele soltou um leve riso, sem alegria.
— Só que, com o tempo, eu percebi uma coisa meio simples e meio dura: se eu esperasse resolver essas perguntas para viver, eu não teria vivido nada.
O ambiente ficou mais quieto, não por tensão, mas por densidade.
Álvaro inclinou a cabeça.
— Então você trocou resposta por funcionamento?
Henrique olhou para ele, reconhecendo a precisão da frase.
— Pode colocar assim… mas eu diria diferente. Eu troquei a exigência de certeza pela possibilidade de viver mesmo sem ela.
Álvaro cruzou as mãos sobre a mesa.
— E isso nunca te incomoda?
Henrique hesitou, desta vez mais honestamente.
— Incomoda. Às vezes sim. Principalmente quando você para e não está distraído com nada. Quando não tem trabalho, conversa, barulho… só você e a pergunta.
Ele deu de ombros.
— Mas eu aprendi a não transformar esse incômodo em centro da vida.
Álvaro observou com atenção.
— E o aluno que te contei… ele ainda não sabe fazer isso.
Henrique assentiu lentamente.
— Não… ele está na fase perigosa.
— Perigosa?
— Sim — disse Henrique, mais sério agora. — A fase em que você acha que existe uma resposta escondida e que, se procurar direito, alguém vai te entregar.
Fez uma pequena pausa.
— Depois vem outra fase. A de achar que não existe resposta nenhuma e isso ser desesperador. E, se tudo der certo, vem a terceira… quando você entende que viver não depende de fechar essas perguntas.
Álvaro ficou em silêncio por alguns segundos.
— E você acha que essa terceira fase é maturidade?
Henrique pensou antes de responder.
— Eu acho que é sobrevivência com menos ilusão. Não sei se é maturidade. Mas funciona.
Álvaro olhou para o amigo com algo entre respeito e inquietação.
— E se o aluno nunca chegar lá?
Henrique deu de ombros.
— Ele vai chegar em algum lugar. Todo mundo chega. A questão é o custo emocional do caminho.
O silêncio voltou, mas agora parecia diferente: menos confronto, mais reconhecimento de duas formas de lidar com o mesmo abismo.
Álvaro finalmente disse, mais baixo:
— Eu ainda não consigo desistir tão facilmente da ideia de que há algo a ser compreendido.
Henrique sorriu, quase com carinho.
— E eu não consigo mais acreditar que tudo precisa ser compreendido para ser vivido.
Os dois se olharam por um instante.
Não havia acordo completo. Mas havia entendimento suficiente para manter a conversa de pé.
E isso, entre eles, já era muito.
Dias depois, o campus parecia o mesmo — árvores, bancos, o vento leve atravessando os corredores — mas algo no professor havia mudado desde a conversa com Henrique. Não era uma mudança visível, mas uma espécie de deslocamento interno: ele já não carregava as perguntas do aluno como quem precisa respondê-las, e sim como quem aprende a sustentá-las.
Foi nesse estado que ele o encontrou novamente.
O aluno aproximou-se com o mesmo caderno de sempre, mas desta vez sem a urgência anterior no olhar. Havia inquietação, sim, mas mais contida — como se algo tivesse sido reorganizado por dentro, ainda que sem solução.
— Professor… — disse ele, sentando-se no banco sob a árvore. — Eu pensei muito na nossa conversa.
Álvaro assentiu, esperando.
O aluno hesitou.
— E também pensei no que o senhor disse… e no que talvez o senhor não tenha dito claramente.
O professor inclinou a cabeça, curioso.
— E o que você acha que eu não disse?
O aluno respirou fundo.
— Que existem pelo menos duas formas de viver com essas perguntas.
Ele abriu o caderno, mas não escreveu.
— Uma parece a sua… a de continuar perguntando, tentando entender, como se o sentido estivesse em algum nível mais profundo que ainda não alcançamos.
Fez uma pausa.
— E outra… que parece a do seu amigo. Aceitar que talvez não haja uma resposta final, e mesmo assim viver.
O professor não interrompeu.
O aluno continuou, mais lentamente:
— Mas o que me confundiu foi perceber que nenhuma delas parece errada… e ao mesmo tempo nenhuma parece suficiente.
Silêncio.
As folhas da árvore se moveram acima deles.
— Eu voltei para casa com uma sensação estranha — disse o aluno. — Como se a pergunta tivesse deixado de ser “qual é a resposta?” e tivesse virado “que tipo de pessoa eu estou me tornando enquanto procuro ou desisto dela?”
O professor sorriu discretamente.
— Isso já é uma mudança importante.
O aluno franziu o cenho.
— Mas não resolveu nada.
Álvaro respondeu com calma:
— Talvez porque não era para resolver.
O aluno olhou para ele com atenção.
— Então qual é a diferença entre essas duas posições, afinal?
O professor pensou por alguns segundos antes de responder.
— A diferença não está nas respostas… está na relação com a ausência delas.
Ele se ajeitou no banco.
— Uma posição transforma a falta de resposta em algo temporário: “ainda não encontrei”. A outra transforma em algo estrutural: “talvez não exista uma resposta final, e isso precisa ser vivido assim mesmo”.
O aluno ficou em silêncio, absorvendo.
— E o senhor… — perguntou ele — em qual delas está hoje?
O professor demorou mais do que o habitual.
— Eu acho que estou entre as duas — respondeu finalmente. — Ou melhor… eu deixei de tentar escolher uma só.
O aluno pareceu surpreso.
— Isso é possível?
Álvaro sorriu.
— Não como sistema fechado. Mas como experiência. Em alguns dias, penso como se houvesse algo a ser compreendido até o fim. Em outros, como se a vida fosse exatamente o que acontece quando aceitamos que não há fim para essa compreensão.
O aluno fechou o caderno lentamente.
— E isso não o confunde?
O professor olhou para a árvore acima deles.
— Confunde. Mas não paralisa.
O aluno respirou fundo.
— Meu amigo diria que isso é apenas uma forma sofisticada de não escolher lado.
Álvaro soltou um leve sorriso.
— E ele estaria parcialmente certo. Mas talvez a vida não peça sempre que a gente escolha lados. Talvez peça que a gente aprenda a suportar tensões sem destruí-las imediatamente.
O aluno ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu acho que o que mais me inquieta não é não ter respostas… — disse ele finalmente — é ter que viver mesmo assim.
O professor assentiu.
— Isso é o ponto mais honesto de todos.
O vento passou novamente, mais suave.
O aluno olhou para o professor com menos urgência e mais compreensão.
— Acho que agora entendo um pouco mais… não o sentido da vida, mas o fato de que ele não vem separado da vida que a gente leva enquanto tenta entender.
Álvaro sorriu com leveza.
— Isso já é filosofia acontecendo, não apenas sendo pensada.
Eles ficaram em silêncio.
Não havia conclusão.
Mas havia algo mais raro: continuidade.
E, sob a árvore, a pergunta deixou de ser um problema a ser resolvido e passou a ser um modo de caminhar.
Na biblioteca de casa, a luz da tarde já enfraquecia entre as estantes. Os livros, alinhados como antigas testemunhas de muitas versões do mesmo problema, pareciam observar Álvaro em silêncio. Ele estava sentado em sua poltrona habitual, mas não lia. O olhar vagueava entre as lombadas, sem realmente repousar em nenhuma.
A conversa com o aluno insistia em voltar.
Não eram as perguntas em si que o perturbavam — essas ele conhecia bem, tinha convivido com elas por toda a vida. O que lhe incomodava era outra coisa: a sensação de não ter conseguido oferecer ao jovem algum tipo de serenidade.
Ele suspirou.
“Ele ainda está no início”, pensava. “No limiar em que a pergunta não é apenas curiosidade, mas vertigem.”
E isso, para Álvaro, tinha um peso particular.
Porque ele reconhecia aquele lugar.
Reconhecia a forma como o incognoscível — aquilo que não se deixa fechar em resposta — pode deixar o espírito em estado de alerta permanente, como se a vida inteira fosse um problema ainda sem solução.
Ele fechou lentamente um livro que estava aberto no colo, sem ter lido uma linha sequer.
“Talvez eu tenha sido honesto demais”, pensou. “Ou insuficientemente tranquilizador.”
A lembrança do olhar do aluno voltava com nitidez: não havia ali apenas sede de compreensão, mas também um pedido silencioso de amparo. Como se dissesse, sem palavras, “diga-me que isso não me destruirá por dentro”.
E Álvaro não dissera isso.
Ele oferecera complexidade onde talvez fosse esperada alguma forma de repouso.
Levantou-se e caminhou devagar pela biblioteca.
“Henrique teria sido mais direto”, pensou, quase com um leve sorriso. “Ter-lhe-ia dito para viver, simplesmente. Sem complicar.”
Mas logo o sorriso se dissolveu.
Porque Álvaro sabia que não era tão simples.
E foi justamente aí que a culpa começou a se insinuar com mais clareza.
Não uma culpa moral, objetiva — mas uma culpa pedagógica, quase existencial: a de ter aberto uma porta sem garantir que o outro encontraria chão do outro lado.
Ele parou diante da janela.
“Talvez eu tenha lançado o jovem cedo demais na ausência de respostas”, pensou. “Sem lhe oferecer ainda um modo de habitar essa ausência.”
E isso o inquietava.
Porque ele sabia que há diferenças entre despertar alguém para o pensamento e deixá-lo à deriva nele.
Sentou-se novamente.
As mãos repousaram sobre os braços da poltrona, mas o corpo parecia ainda em movimento interno.
“Mas seria melhor ter dito o quê?”, perguntou-se. “Uma falsa segurança? Uma resposta que eu mesmo não sustento mais?”
Ele sabia que não.
E, ainda assim, a inquietação permanecia.
A culpa de Álvaro não vinha daquilo que disse, mas daquilo que não pôde oferecer: um solo firme onde a dúvida não se tornasse desespero.
Ele olhou para os livros ao redor.
Quantos deles, pensou, tinham sido escritos justamente para tentar fazer isso — transformar vertigem em forma, pergunta em caminho, abismo em linguagem?
E mesmo assim…
o abismo continuava.
Ele fechou os olhos por um instante.
“Talvez ensinar filosofia seja isso”, pensou. “Não evitar que alguém encontre o incognoscível… mas tentar impedir que ele o confunda imediatamente com solidão.”
Quando abriu os olhos novamente, a luz já era mais fraca.
E, pela primeira vez desde a conversa, ele aceitou que talvez não tivesse falhado.
Talvez apenas tivesse feito parte de um início.
E inícios, ele sabia, raramente são serenos.
A noite já tinha caído quando a campainha soou novamente.
Álvaro, que ainda estava na biblioteca, não precisou adivinhar quem era. Levantou-se com aquela familiaridade silenciosa de quem reconhece certos hábitos como parte da própria paisagem da vida.
Abriu a porta.
Henrique estava ali, como de costume — sem cerimônia, com uma garrafa de vinho sob o braço e aquele ar de quem atravessa o mundo como se ele não exigisse justificativas.
Alvaro sorriu.
— Seja benvindo ao "castelo assombrado das perguntas sem respostas", brincou.
— Você sempre escolhe o mesmo horário para invadir minha paz — disse Álvaro, já sorrindo.
— E você sempre finge que não gosta — respondeu Henrique, entrando sem esperar convite.
Álvaro fechou a porta atrás dele e observou a garrafa.
— Veio preparado.
— Sempre. Se vamos discutir o sentido da existência, pelo menos que seja com algo que ajude a tolerar a ausência dele.
Álvaro riu, breve, e fez um gesto em direção à sala.
Enquanto caminhavam, ele não resistiu ao tom leve, quase teatral:
— Seja bem-vindo ao castelo assombrado das perguntas sem respostas.
Henrique parou por um instante, olhando ao redor como se realmente avaliasse o ambiente.
— Assombrado? — repetiu, fingindo preocupação. — Eu diria mais… habitado por fantasmas educados.
Álvaro soltou uma risada mais aberta desta vez.
— Os piores tipos.
Foram até a mesa da sala. Henrique colocou a garrafa com cuidado, como se estivesse depositando algo ritualístico. Enquanto isso, Álvaro trouxe dois copos.
— Você parece mais sério hoje — observou Henrique, reparando nele com atenção.
Álvaro hesitou por um segundo antes de responder.
— Tive mais uma conversa com o aluno.
Henrique já estava abrindo a garrafa.
— Ah… o jovem do “sentido da vida”.
— Ele mesmo.
O vinho foi servido. Um pequeno som líquido preencheu o espaço entre eles.
Henrique sentou-se.
— E? Ele já desistiu de tudo ou ainda está tentando resolver o universo em uma tarde?
Álvaro segurou o copo, mas não bebeu de imediato.
— Não. Ele está pior.
Henrique ergueu uma sobrancelha.
— Pior?
— Ele está começando a perceber que talvez não haja uma resposta única — disse Álvaro, com calma. — E isso o deixou… suspenso.
Henrique girou o vinho no copo.
— Bem-vindo ao clube.
Álvaro o observou.
— E foi isso que me incomodou.
Henrique franziu levemente o cenho.
— Ele não surtou, não desistiu, não virou cínico… então qual o problema?
Álvaro demorou um pouco antes de responder.
— O problema é que eu não consegui oferecer nenhum tipo de chão.
Henrique o olhou com mais seriedade agora.
— Chão?
— Sim — disse Álvaro. — Algo que não fosse resposta, mas também não fosse apenas queda livre.
Henrique tomou um gole de vinho.
— Você está se cobrando demais.
Álvaro negou suavemente.
— Ou talvez de menos.
Henrique soltou um riso curto.
— Lá vem você de novo tentando assumir responsabilidade pelo peso do universo nos ombros de um estudante.
Álvaro sorriu, mas havia algo mais sério por trás.
— Não é o universo. É a forma como alguém começa a lidar com ele.
Henrique apoiou o copo na mesa.
— Álvaro… escuta.
O tom dele mudou um pouco.
— Você não desorganizou aquele jovem. Você apenas não mentiu para ele.
Silêncio.
A palavra “mentir” ficou no ar sem dureza, mas com precisão.
Henrique continuou:
— O que você chama de “chão” muitas vezes é só uma forma educada de dizer “certeza confortável”. E você não acredita mais nisso.
Álvaro olhou para o vinho no próprio copo.
— Eu sei.
Henrique inclinou-se levemente para frente.
— Então por que essa culpa?
Álvaro demorou.
— Porque eu vi nele algo que me lembrou… nós dois no começo. E eu não sei se fui suficientemente cuidadoso com isso.
Henrique sorriu de canto.
— Nós dois não tínhamos cuidado nenhum. Só coragem e confusão.
Álvaro riu baixinho.
— Talvez isso já fosse suficiente.
Henrique ergueu o copo.
— Continua sendo. Só que agora você quer transformar coragem em segurança. E isso não existe.
Álvaro finalmente tomou um gole.
O vinho desceu lentamente.
A casa ficou mais quente, não pela temperatura, mas pela presença da conversa.
Henrique encostou-se na cadeira.
— E o aluno?
Álvaro olhou para ele.
— Vai continuar perguntando.
— Ótimo — disse Henrique. — Então ele está exatamente onde deveria estar.
Álvaro sorriu, agora mais leve.
— E nós?
Henrique ergueu o copo.
— Nós estamos bebendo vinho e fingindo que já resolvemos alguma coisa.
Os dois riram.
E, por um momento, o castelo das perguntas sem respostas pareceu menos assombrado — não porque os fantasmas haviam desaparecido, mas porque já não estavam sozinhos na sala.
mario moura
UM OLHAR SOBRE A ORIGEM DA FAMÍLIA
No fim de uma tarde abafada, quando o céu parecia suspenso entre o ouro e a fumaça, Olavo caminhava lentamente pela praça antiga da cidade. As árvores inclinavam-se sobre os bancos de pedra, e os vendedores já recolhiam suas mercadorias. Sentado próximo ao coreto, Pedro lia um livro gasto, marcado por anotações nas margens.
— Sempre lendo como se procurasse uma resposta definitiva — disse Olavo, aproximando-se.
Pedro ergueu os olhos e sorriu.
— E você sempre aparecendo como quem traz uma nova pergunta.
Olavo sentou-se ao lado do amigo. Durante alguns instantes, ambos observaram o movimento silencioso da praça. Crianças corriam atrás de uma bola, enquanto uma senhora chamava os netos para casa.
— Tenho pensado sobre a origem da sociedade — disse Olavo. — Sobre o que veio primeiro: a família ou os costumes que a criaram.
Pedro fechou o livro lentamente.
— Essa é uma pergunta antiga. Alguns diriam que a família surgiu apenas como convenção social. Outros afirmam que ela nasceu da necessidade material, especialmente da preservação da propriedade privada.
Olavo cruzou os braços.
— Mas isso me parece incompleto. Antes de existir propriedade, já havia pai, mãe, filhos. Já existia o impulso de proteger os seus.
Pedro inclinou a cabeça.
— Talvez. Porém há quem sustente que os primeiros agrupamentos humanos eram fluidos, quase coletivos. Que a ideia de família organizada apareceu quando o homem começou a acumular bens e precisou garantir herdeiros legítimos.
O sino distante da igreja interrompeu a conversa por um instante. Olavo observou um casal atravessando a praça com uma criança adormecida nos braços.
— Não consigo acreditar que algo tão profundo tenha nascido apenas do desejo de conservar terras ou animais — disse ele. — A família parece anterior à economia. Quase natural.
Pedro passou os dedos pela capa do livro.
— Natural em que sentido?
— No sentido de ser a primeira experiência humana de pertencimento. Antes do Estado, antes das leis, antes das moedas, havia alguém cuidando de alguém. A criança dependia da mãe; os pais dependiam uns dos outros; os velhos dependiam dos filhos. Isso cria vínculos inevitáveis.
Pedro permaneceu em silêncio, como se pesasse cada palavra.
— Você vê a família como fundamento da sociedade — concluiu.
— Exatamente. Não apenas uma instituição criada pela sociedade, mas aquilo que tornou a própria sociedade possível.
Pedro apoiou o livro no colo.
— Mas então como explicar os diferentes modelos familiares ao longo da história? Alguns povos organizaram-se em clãs, outros em tribos, outros em famílias patriarcais.
Olavo sorriu discretamente.
— A forma muda. O princípio permanece. Assim como as casas mudam de arquitetura, mas continuam servindo de abrigo.
Uma rajada de vento espalhou folhas secas pela praça. O céu agora mergulhava num azul escuro, e as primeiras luzes da cidade começavam a surgir.
Pedro retomou:
— Há pensadores que argumentam que a família tradicional consolidou-se para proteger heranças. O pai precisava saber quem eram seus filhos para transmitir propriedade. Nesse caso, a economia teria moldado a moral.
— Pode ter moldado certas estruturas — respondeu Olavo —, mas não criado a essência. A propriedade privada talvez tenha fortalecido determinados modelos familiares, porém não inventou o afeto, o cuidado ou a necessidade de continuidade entre gerações.
Pedro observou novamente as crianças brincando.
— Então você acredita que a sociedade nasce da família, e não o contrário?
— Sim. Uma cidade é apenas uma ampliação da casa. Uma nação é um conjunto de famílias. Quando elas enfraquecem, tudo acima delas também vacila.
Pedro sorriu, desta vez com certa melancolia.
— Há algo de belo nisso. Pensar que a civilização inteira repousa sobre vínculos tão simples.
Olavo levantou-se devagar.
— Talvez seja justamente por serem simples que são tão fundamentais.
Os dois começaram a caminhar pela praça já quase vazia. As vozes diminuíam, as lojas fechavam as portas, e a noite tomava conta das ruas.
Pedro então perguntou:
— E se um dia a sociedade deixar de acreditar na família?
Olavo demorou alguns segundos antes de responder.
— Então ela continuará existindo por algum tempo, sustentada por estruturas antigas. Mas será como uma árvore que ainda permanece de pé mesmo depois que suas raízes começam a apodrecer.
Nenhum dos dois falou mais nada. Apenas seguiram andando sob as luzes amarelas da cidade, enquanto ao longe ainda ecoava o riso das crianças — como uma lembrança persistente da origem de todas as coisas.
A notícia chegara numa manhã discreta, quase sem solenidade. Durante semanas, o manuscrito de A Família e as Origens Morais do Estado Burguês permanecera nas mãos de uma pequena, porém respeitada editora da cidade, conhecida por publicar ensaios filosóficos e obras de crítica social. Olavo já começava a habituar-se ao silêncio — aquele silêncio característico do mundo editorial, onde a ausência de resposta muitas vezes parecia equivaler a uma sentença.
Mas então veio o convite.
O encontro fora marcado para o início da tarde, num edifício antigo do centro histórico. A editora ocupava o segundo andar de um casarão reformado, cujas paredes altas eram cobertas por quadros de autores, primeiras edições emolduradas e fotografias amareladas de antigos lançamentos literários.
Olavo chegou alguns minutos antes do horário combinado.
Enquanto aguardava na recepção, observava as prateleiras repletas de livros. Havia ali algo que lhe despertava simultaneamente admiração e inquietação: a percepção de que todo autor, ao publicar uma obra, entrega parte de sua intimidade intelectual ao julgamento impessoal do mundo.
Pouco depois, uma secretária conduziu-o até a sala do gerente editorial.
Cássio levantou-se para cumprimentá-lo. Era um homem de meia-idade, de postura sóbria e olhar experiente. Tinha o hábito de unir as pontas dos dedos enquanto falava, como alguém acostumado a avaliar cuidadosamente cada palavra antes de pronunciá-la.
Sobre a mesa repousava o manuscrito de Olavo, agora marcado por pequenos papéis coloridos e anotações laterais.
— Senhor Olavo — disse Cássio —, li seu ensaio com bastante atenção.
Olavo sentou-se sem conseguir esconder completamente a tensão.
Cássio abriu algumas páginas do texto.
— Trata-se de um trabalho incomum para o nosso tempo. Filosófico, denso, mas também claramente escrito. Isso é raro.
Olavo permaneceu em silêncio.
— Seu argumento central é provocativo — continuou o gerente. — Principalmente porque dialoga criticamente com tradições intelectuais ainda muito influentes. Há rigor no texto, mas também personalidade. E um livro sem personalidade dificilmente sobrevive.
A observação pareceu aliviar parcialmente a tensão de Olavo.
Cássio então retirou os óculos lentamente.
— A editora está disposta a publicar a obra.
Por um breve instante, Olavo apenas observou o homem diante dele, como se precisasse confirmar que ouvira corretamente.
— Contudo — prosseguiu Cássio —, existem algumas condições contratuais.
Ele abriu uma pasta e deslizou alguns documentos pela mesa.
As exigências eram relativamente simples: revisão editorial compartilhada, adequação de determinados trechos excessivamente acadêmicos para ampliar o alcance do público leitor, divisão proporcional dos lucros nas primeiras edições e participação obrigatória do autor em alguns debates e eventos de lançamento.
Olavo leu tudo com atenção.
Não encontrou ali nenhuma tentativa de mutilar suas ideias ou transformar o ensaio em algo superficial. As sugestões editoriais lhe pareceram razoáveis. Em certos pontos, inclusive, coincidiam com preocupações que ele próprio tivera durante as últimas revisões do manuscrito.
Cássio observava-o em silêncio, como quem já conhecia a hesitação típica dos autores diante do primeiro contrato.
— Veja bem — disse o gerente calmamente —, um livro filosófico precisa preservar sua integridade intelectual. Mas também precisa ser legível. O leitor não deve sentir que está atravessando um labirinto para compreender uma ideia importante.
Olavo ergueu os olhos do documento.
Aquela frase lhe pareceu sensata.
Talvez porque, no fundo, repetisse exatamente uma preocupação que o acompanhara durante todo o processo de escrita: como expressar ideias complexas sem sufocá-las em excesso de abstração.
— Concordo — respondeu finalmente.
Cássio sorriu discretamente.
— Então temos um acordo.
Os dois apertaram as mãos.
Ao sair da editora, Olavo caminhou lentamente pela rua movimentada. Sentia um estranho misto de satisfação e vulnerabilidade. Até então, o ensaio pertencera apenas ao espaço íntimo de seu escritório, às conversas com Pedro, às madrugadas silenciosas de reflexão.
Agora começava a deixar de ser apenas seu.
Em breve, outras pessoas leriam aquelas páginas. Algumas concordariam; outras as atacariam violentamente. Haveria críticas, interpretações equivocadas, talvez até hostilidade.
Mas essa era a condição inevitável de toda ideia que deseja existir publicamente.
Naquela tarde, ao atravessar a praça onde tantas reflexões haviam começado, Olavo percebeu que seu manuscrito já não era apenas um exercício intelectual.
Tornara-se parte do mundo.
E isso o assustava quase tanto quanto o fascinava.
Olavo caminhava lentamente pelas ruas do centro, as mãos nos bolsos do sobretudo, o olhar perdido muito além das fachadas, das vitrines e das pessoas que passavam apressadas ao seu redor. Havia nele uma espécie de distração contemplativa, como se sua mente estivesse suspensa noutro lugar, incapaz de regressar completamente ao presente.
Andava à toa, sem rumo definido.
O som dos automóveis, os vendedores ambulantes, os jornais anunciando manchetes políticas — tudo lhe chegava abafado, distante, quase irrelevante. Estava nas nuvens.
Três meses haviam se passado desde a assinatura do contrato com a editora. Três meses de revisões finais, preparação gráfica, reuniões editoriais, escolhas tipográficas, debates sobre capa e divulgação. Todo aquele universo prático do mercado editorial, que antes lhe parecera tão estranho, agora desembocava numa realidade concreta.
O livro existia.
A Família e as Origens Morais do Estado Burguês encontrava-se finalmente nas livrarias.
Naquela manhã, Olavo ainda hesitara antes de entrar numa das maiores livrarias da cidade. Havia algo de intimidador em encontrar a própria obra exposta ao lado de tantos autores que admirara durante a vida inteira.
Mas entrou.
E lá estava.
Empilhado numa mesa de lançamentos, sob a luz amarelada do salão principal.
A capa sóbria trazia apenas o título em letras austeras sobre um fundo escuro, quase sem ornamentos. A editora evitara exageros gráficos. Cássio insistira que a força do livro estava precisamente em sua seriedade intelectual.
Olavo aproximou-se devagar.
Tocou discretamente um dos exemplares, como se precisasse confirmar sua materialidade.
Na abertura do volume, logo após a folha de rosto, encontrava-se o prefácio assinado por Artur Valença, um sociólogo conhecido nacionalmente por seus estudos sobre instituições modernas e teoria política. Sua participação surpreendera muitos leitores ainda antes do lançamento.
No prefácio, Artur escrevia:
“Olavo realiza um raro exercício intelectual: recusa simultaneamente o sentimentalismo conservador e o economicismo reducionista. Seu ensaio recoloca a família no centro da discussão política moderna, não como nostalgia, mas como problema estrutural da civilização contemporânea.”
A quarta capa trazia um resumo igualmente elogioso:
“Neste ensaio original e provocador, Olavo investiga as relações entre família, moralidade e formação do Estado moderno. Dialogando criticamente com a tradição materialista e com a sociologia clássica, o autor propõe uma interpretação inovadora da família como fundamento invisível da ordem burguesa. Uma obra destinada a tornar-se referência obrigatória nas discussões sobre modernidade, política e civilização.”
Olavo lembrava-se perfeitamente da sensação estranha que experimentara ao ler aquelas palavras pela primeira vez durante a revisão editorial.
Pareciam descrever o livro de outra pessoa.
Enquanto caminhava pelas ruas naquela tarde, essa sensação ainda persistia. Não era exatamente orgulho — ou pelo menos não apenas isso. Era algo mais complexo: uma espécie de deslocamento interior.
Durante meses, o ensaio existira apenas como problema íntimo, quase secreto. Agora tornara-se objeto público, submetido à leitura, interpretação e julgamento de desconhecidos.
Alguns jornais já haviam publicado pequenas resenhas. Professores universitários começavam a mencioná-lo em debates. Certos críticos elogiavam sua coragem filosófica; outros acusavam o livro de idealizar excessivamente a família tradicional.
Olavo sabia que as controvérsias cresceriam.
E talvez isso fosse inevitável.
Uma obra só permanece completamente tranquila quando não possui nenhuma consequência.
Ao atravessar novamente a velha praça onde tudo começara, avistou ao longe Pedro sentado próximo ao coreto, segurando um exemplar do livro já bastante marcado por anotações.
Olavo sorriu involuntariamente.
Pedro ergueu o livro assim que o viu aproximar-se.
— Então agora você virou autor publicado — disse, em tom quase irônico.
Olavo sentou-se ao lado dele.
— Ainda não me acostumei com a ideia.
Pedro folheou algumas páginas.
— As pessoas estão discutindo seu ensaio.
— Sim.
— E isso o incomoda?
Olavo observou as árvores balançando lentamente com o vento da tarde.
— Não exatamente. Mas é estranho perceber que pensamentos que nasceram em silêncio agora circulam entre desconhecidos.
Pedro fechou o livro.
— Talvez esse seja o destino inevitável das ideias importantes.
Olavo não respondeu imediatamente.
Seu olhar perdeu-se novamente na praça, enquanto a cidade seguia seu movimento indiferente ao redor deles.
No fundo, ele compreendia que o livro já não lhe pertencia inteiramente.
Pertencia agora ao debate, à crítica, à história imprevisível das interpretações humanas.
E havia nisso algo profundamente inquietante — mas também irrevogavelmente belo.
A noite descia lentamente sobre a cidade. As luzes dos postes começavam a acender-se uma a uma, desenhando círculos dourados sobre o chão da praça. O movimento diminuía aos poucos; os vendedores recolhiam suas barracas, crianças eram chamadas de volta para casa, e o vento frio carregava consigo o murmúrio distante dos automóveis.
Olavo e Pedro permaneciam sentados em silêncio.
O exemplar de A Família e as Origens Morais do Estado Burguês repousava entre eles no banco de madeira, já marcado por dobras, anotações e pequenos papéis presos entre as páginas. Não parecia mais um objeto recém-publicado, mas algo que começava lentamente a adquirir vida própria.
Depois de algum tempo, Pedro falou:
— Você percebe que sua ideia central talvez não seja apenas política?
Olavo voltou os olhos para o amigo.
— Como assim?
Pedro apoiou as mãos sobre o livro.
— Seu ensaio fala da família, do Estado, da burguesia… mas, no fundo, trata de algo mais simples e mais difícil ao mesmo tempo: a necessidade humana de pertencer a alguma coisa antes de enfrentar o mundo.
Olavo permaneceu imóvel.
A frase atingira algo profundo dentro dele.
Durante meses estivera mergulhado em conceitos, estruturas históricas, críticas filosóficas e análises sociais. Contudo, talvez Pedro tivesse alcançado aquilo que permanecia escondido sob todas aquelas páginas: o problema essencial não era apenas institucional, mas existencial.
O homem nasce vulnerável.
Nenhuma teoria política consegue apagar esse fato.
Antes de qualquer ideologia, existe a infância; antes de qualquer cidadania, existe a dependência; antes de qualquer liberdade abstrata, existe alguém que sustenta, protege e ensina.
Talvez toda civilização fosse construída justamente sobre a tentativa de organizar essa fragilidade primordial.
Olavo observou as janelas iluminadas dos prédios ao redor da praça. Em cada uma delas havia vidas silenciosas acontecendo: famílias jantando, casais discutindo, crianças dormindo, velhos esperando. Pequenos mundos invisíveis sustentando discretamente o peso inteiro da sociedade.
Então compreendeu algo que não escrevera explicitamente em seu ensaio, embora estivesse presente em cada página.
A família não sobrevivera através dos séculos apenas por utilidade econômica, imposição religiosa ou convenção jurídica.
Ela sobrevivera porque respondia a uma necessidade permanente da condição humana: a necessidade de transformar a solidão biológica em continuidade moral.
E talvez fosse exatamente por isso que nenhuma civilização conseguira substituí-la completamente.
Os regimes políticos mudavam.
As economias transformavam-se.
As ideologias surgiam e desapareciam.
Mas o homem continuava nascendo pequeno, frágil e dependente.
Pedro levantou-se lentamente.
— E então? — perguntou. — Sobre o que vai escrever agora?
Olavo sorriu discretamente.
Pela primeira vez em muitos meses, não tinha certeza da resposta.
Talvez porque certas reflexões importantes nunca terminem realmente. Apenas mudem de forma e continuem acompanhando silenciosamente aqueles que um dia ousaram pensá-las até o fim.
Os dois começaram a caminhar pela praça quase vazia.
Atrás deles, o vento folheava lentamente as páginas esquecidas de um jornal abandonado num banco — como se a própria cidade continuasse, indiferente e eterna, sua longa conversa sobre o homem, o tempo e as frágeis estruturas que sustentam a vida humana.
E foi assim, entre o silêncio da noite e o rumor distante da cidade, que Olavo compreendeu finalmente que nenhum livro encerra uma verdade definitiva.
Os livros apenas prolongam perguntas que atravessam gerações.
mario moura
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