O ABANDONO
O ABANDONO Numa terça-feira abafada, quando o calor parecia adoecer ainda mais as paredes da instituição, Antônio estava sentado próximo à janela da sala comum, observando distraidamente o movimento lento das folhas no jardim. Os outros internos dormiam diante da televisão ligada sem volume. O cheiro de desinfetante misturava-se ao de café requentado. Era uma tarde igual a tantas outras. Sem expectativa. Sem surpresa. Até que ouviu seu nome. — Antônio Carvalho? A voz vinha do corredor. Ele levantou os olhos devagar. Um homem alto, de cabelos completamente brancos e bengala de madeira nas mãos, permanecia parado na entrada. Vestia uma camisa simples de linho claro e carregava um velho chapéu entre os dedos. Antônio estreitou os olhos, tentando reconhecer aquele rosto que o tempo transformara. Então o visitante sorriu. — Não vai dizer que esqueceu do sujeito que te devia vinte cruzeiros desde 1968. Por um instante, Antônio ficou imóvel. Depois levantou-se abruptamente, incrédul...