O PREGADOR (conto original, em revisão)



O PREGADOR 

Clarindo surgiu nas praças como surgem certos homens destinados ao espanto: sozinho, sem nome conhecido, sem igreja, sem proteção. 
Vestia roupas simples, sempre gastas pelo tempo, carregava uma Bíblia amarelada debaixo do braço e falava, como quem havia visto algo terrível atrás do horizonte. 

Ninguém sabia exatamente de onde vinha. Uns diziam que fora funcionário público; outros juravam que vivera anos isolado no interior, lendo livros de profecias e jornais velhos. 
O certo era que Clarindo apareceu de repente, numa manhã abafada de domingo, na praça principal da cidade, anunciando que o mundo já estava mudando — e que quase ninguém percebia. 

— O dinheiro vai perder seu valor! — gritava ele, de pé sobre um caixote de madeira. 

— As pessoas venderão a alma por comida! As máquinas mandarão nos homens! As famílias vão se desfazer! O povo será guiado pelo medo! 

No começo, os transeuntes apenas riam. Alguns paravam por curiosidade. Outros o chamavam de louco. Mas Clarindo continuava. Dia após dia. Sob o sol, debaixo de chuva, cercado pelo barulho dos ônibus e vendedores ambulantes. 

Com o tempo, um público fixo, passou a acompanhá-lo. Eram homens desempregados, mulheres cansadas da vida, pedintes, vendedores de bugigangas, gente esquecida pelos governos e pelas igrejas. 
Muitos não acreditavam inteiramente no que Clarindo dizia, mas gostavam da sensação de pertencer a alguma coisa. 

Havia também os espertalhões habituais: sujeitos que exploravam a boa-fé alheia, fingindo devoção para arrancar moedas dos ouvintes emocionados. Clarindo não percebia. Ou fingia não perceber. Sua voz crescia a cada semana. 
Falava de colapsos econômicos, de governos secretos, de um tempo em que as pessoas perderiam a capacidade de distinguir verdade e mentira. 
Dizia que a humanidade caminhava para um novo tipo de escravidão, invisível e silenciosa. 

— As correntes do futuro não serão de ferro! — anunciava.
 
— Serão feitas de dependência, medo e ilusão! 

Alguns choravam, ouvindo-o. Outros apenas observavam, em silêncio. 
A praça transformou-se num palco estranho, onde fé, miséria e desespero se misturavam. 
Foi então que apareceram os agitadores. Ninguém soube de onde vieram. Surgiram entre a multidão como homens comuns. 

Primeiro, ouviam calados. Depois começaram a rir durante as pregações. Em seguida passaram aos insultos. 

— Charlatão! 
— Mentiroso! 
— Vagabundo! 

Clarindo tentava continuar falando, mas os gritos cresciam. Os agitadores eram hábeis: inflamavam os ânimos, atiçavam os mais nervosos, espalhavam boatos de que o pregador recolhia dinheiro escondido, de que manipulava os pobres, de que queria formar uma seita. 

A multidão, que antes o escutava com reverência, começou a olhá-lo com desconfiança. 

Numa tarde cinzenta de sexta-feira, tudo explodiu. 
Clarindo falava sobre uma grande transformação social que, segundo ele, já estava em andamento. 
Dizia que as pessoas estavam perdendo a própria humanidade sem perceber. 

— O homem moderno já não pensa! Apenas obedece! — gritou. 

Foi quando uma pedra o atingiu no rosto. O sangue escorreu imediatamente. Os agitadores avançaram aos berros. 

— Peguem o falso profeta! 

Em poucos segundos, a praça virou um caos. 
Empurrões, socos, pontapés. Clarindo caiu no chão, tentando proteger a cabeça, com os braços magros. 
A multidão o golpeava com uma fúria antiga, como se precisasse destruir nele, alguma verdade insuportável. 
Talvez o matassem ali mesmo, diante dos camelôs e dos pombos assustados, não fosse a chegada repentina da polícia. 

Os soldados dispersaram o povo com violência. Encontraram Clarindo quase inconsciente, o rosto desfigurado, a roupa coberta de sangue e poeira. Foi levado numa ambulância sem sirene. Depois disso, nunca mais voltou à praça. 

Alguns afirmaram que morreu dias depois no hospital. Outros disseram que partira para outra cidade, continuando suas pregações em lugares distantes. 
Houve quem jurasse tê-lo visto anos depois, envelhecido e silencioso, sentado num banco de rodoviária, observando as pessoas com tristeza. 

Com o tempo, seu nome desapareceu. 
Mas certas frases permaneceram na memória de poucos: 

“Os homens só acreditam na mudança, quando ela já destruiu tudo.”

Clarindo representou o último dos pregadores anônimos. Não fundou religião, não deixou discípulos, não ergueu templos. 
Pregava apenas porque acreditava. 

E talvez tenha sido justamente isso que o tornou perigoso. 

mario moura


Seu texto constrói muito bem a figura do “profeta marginal” — alguém que fala movido por convicção, mas acaba esmagado pela própria sociedade, que tenta alertar. Há uma atmosfera quase bíblica, misturada com crítica social contemporânea, e isso dá força ao conto.

Alguns pontos que se destacam:

A construção de Clarindo é eficiente, porque mantém mistério. Você nunca explica totalmente quem ele é, e isso faz com que ele pareça mais símbolo do que homem.

A progressão da multidão está muito bem feita: curiosidade → devoção → suspeita → violência. Isso lembra movimentos históricos reais de massas.

O texto trabalha um tema forte: a sociedade costuma rejeitar quem denuncia mudanças, antes que elas sejam visíveis.

A frase final:

“E talvez tenha sido justamente isso que o tornou perigoso.”

Fecha muito bem, porque sugere que o verdadeiro perigo não era a mentira, mas a sinceridade absoluta.

Também há ecos de autores como:

George Orwell
José Saramago
Lima Barreto

Principalmente, nessa mistura de crítica social, decadência humana e tensão entre verdade e delírio.

Tecnicamente, o texto funciona muito bem por causa de:

frases curtas nos momentos de tensão;

repetição controlada (“Clarindo continuava.” / “Ou fingia não perceber.”);

imagens urbanas fortes (“camelôs e pombos assustados”);

ausência de excesso emocional — o narrador observa mais do que julga.

Se quiser elevar ainda mais o impacto literário, você poderia:

inserir um pequeno episódio concreto mostrando alguém transformado pelas falas de Clarindo;

dar um detalhe simbólico recorrente (por exemplo, a Bíblia amarelada, o caixote, ou uma frase repetida);

tornar o final ainda mais ambíguo, talvez sugerindo discretamente, que algumas profecias realmente começaram a acontecer.

Mas, do jeito que está, o conto já tem identidade própria e clima muito forte. Parece aquelas histórias urbanas, que poderiam circular oralmente como “lenda moderna”.

dando continuidade a narração, construir uma conversa ocorrida entre três expectadores, após a dissolução da multidão, que assistiam o acontecimento, e interpretavam a reação da multidão presente, a partir da provocação anonima de alguém, que griatara uma ordem de reação ao pregador.


A praça ainda cheirava a poeira, suor e confusão.

Os camelôs recolhiam mercadorias derrubadas. Um dos pombos bicava restos de papel perto do coreto. Ao longe, a ambulância já desaparecera no trânsito pesado da avenida.

Poucas pessoas permaneciam ali.

Debaixo da marquise de uma loja fechada, três homens observavam o vazio deixado pela multidão.

O primeiro era Agenor, dono de uma banca de revistas antigas. Magro, de boné encardido e voz cansada.

O segundo chamava-se Batista, cobrador aposentado, homem de fala lenta e olhos desconfiados.

O terceiro era Joel, vendedor ambulante de relógios falsificados, inquieto, sempre olhando ao redor como quem esperava problema.

Durante alguns segundos, ninguém falou.

Foi Joel quem rompeu o silêncio.

— O povo tava pronto pra bater nele faz tempo.


Agenor acendeu um cigarro.

— Não tava, não. Até aquela gritaria começar, o pessoal só tava nervoso… mas ouvindo.

Batista continuava olhando para o chão manchado de sangue perto do caixote tombado.

— Multidão não pensa sozinha — murmurou. — Basta um mandar.

Joel deu uma risada curta.

— Mandar? Aquilo ali já vinha crescendo. O homem falava umas coisas pesadas demais.

— E mentiu em quê? — perguntou Agenor.

Joel hesitou.

— Não sei… mas também não sei se tava certo.

Batista levantou os olhos devagar.

— Isso nunca importa muito.

O vento atravessou a praça carregando jornais velhos.

Ao longe, alguém fechava uma porta metálica com estrondo.

Agenor soltou fumaça pelo nariz.

— Eu vi direitinho quando começou.

— Também vi — respondeu Joel.

— Não… vocês viram a pancadaria. Eu tô falando do começo mesmo.


Os outros ficaram em silêncio.

Agenor apontou para o meio da praça.

— Tinha um sujeito perto da banca de pastel. Boné preto. Nem parecia interessado. Ficou quieto a tarde inteira.

— E daí? — perguntou Joel.

— Daí que foi ele quem gritou primeiro.


Batista estreitou os olhos.

— “Peguem o falso profeta.”

Agenor assentiu lentamente.

— Exatamente.

Joel cruzou os braços.

— Um grito só não faz aquilo tudo.

Batista respondeu sem alterar a voz:

— Faz, dependendo do momento.

O ambulante ficou calado.

A praça parecia maior agora, vazia.

Alguns curiosos ainda comentavam o ocorrido em grupos pequenos, mas já sem indignação verdadeira. A violência começava a virar apenas assunto.

Agenor pisou o cigarro no chão.

— O estranho é outra coisa.

— O quê? — perguntou Joel.

— Ninguém conhecia o homem do boné.

Batista respirou fundo.

— Nessas horas sempre aparece alguém assim.

— Como assim?


O aposentado demorou a responder.

— Alguém que dá coragem pro ódio dos outros.


Joel riu de novo, mas sem humor.

— Vocês falam como se tivesse sido combinado.

Batista olhou diretamente para ele.

— E se foi?

O silêncio voltou pesado entre os três.

Mais adiante, funcionários da limpeza começavam a lavar o chão da praça. A água escorria lentamente para os bueiros, levando sangue, barro e papéis rasgados.

Joel observou a cena com desconforto.

— Eu só sei de uma coisa… — disse baixo.

— O quê? — perguntou Agenor.


O ambulante demorou alguns segundos antes de responder.

— Tinha gente batendo nele chorando.

Ninguém comentou.

Porque todos haviam visto.

Joel ampliou o sentido do que havia, procurando deixar bem claro o que viu e o que pensava sobre o que viu

Joel passou a mão no rosto, inquieto.

Os dedos tremiam levemente.

— Vocês não entenderam o que eu quis dizer.

Batista permaneceu calado.

Agenor apenas observava.

Joel apontou para o chão molhado da praça.

— Eu vi mulher chorando enquanto chutava o homem. Vi sujeito fazendo sinal da cruz e batendo nele ao mesmo tempo. Um rapaz ali daquele poste… tava com lágrima escorrendo e gritava pra matarem o pregador.

Agenor franziu a testa.

— O povo tava nervoso…

— Não. — Joel interrompeu. — Não era só raiva.


O vento soprou mais forte entre as árvores da praça.

Joel continuou:

— Parecia medo. Mas um medo estranho… como se aquele homem tivesse dito alguma coisa que eles já pensavam escondido.

Batista cruzou os braços devagar.

— Continue.

Joel respirou fundo.

— Quando o sujeito gritou “peguem o falso profeta”, aconteceu uma coisa que eu nunca tinha visto. O povo ficou aliviado.

— Aliviado? — perguntou Agenor.

— É. Como se alguém tivesse autorizado eles a fazer o que já queriam fazer fazia tempo.

O barulho da água correndo pelo chão misturava-se aos motores dos ônibus na avenida.

Joel falava agora mais baixo.

— Enquanto Clarindo falava… ninguém conseguia ficar totalmente tranquilo. Até quem ria ficava escutando. Porque alguma parte do que ele dizia entrava na cabeça da pessoa.


Batista assentiu discretamente.

— Homem nenhum gosta de ouvir certas verdades por muito tempo.

Joel apontou para o caixote quebrado.

— Então apareceu aquele grito. E pronto. O medo virou raiva.

Agenor ficou pensativo.

— Você acha que bateram nele porque acreditaram nas mentiras sobre dinheiro e seita?

Joel soltou uma risada amarga.

— Que nada.

Olhou ao redor antes de continuar.

— Bateram porque queriam calar a sensação ruim que ele causava.

Batista ergueu os olhos.

Joel prosseguiu:

— O homem subia naquele caixote, e fazia todo mundo lembrar da própria miséria. Do medo de perder emprego. Da solidão. Da sensação de que ninguém controla mais nada. Ele falava dessas coisas sem esconder.

A voz de Joel endureceu.

— E quando alguém mostra um medo que a multidão inteira tenta esconder… basta aparecer um maluco gritando “pega ele” que o povo agradece.

Agenor ficou em silêncio.

Joel parecia enxergar novamente a cena.

— O pior não era a pancadaria.

— Então o que era? — perguntou Batista.

Joel demorou a responder.

— Era a expressão deles.

A praça pareceu ainda mais silenciosa.

— Tinha gente com cara de quem finalmente podia descarregar tudo em alguém. Não era só contra Clarindo. Era contra a vida inteira deles.

Batista baixou lentamente a cabeça.

— A multidão sempre escolhe um rosto pra culpar.

Joel concordou.

— E depois que começa… ninguém mais sabe exatamente por que tá batendo.

Os três ficaram olhando a água avermelhada desaparecer no bueiro.

Então Joel falou pela última vez, quase num sussurro:

— Acho que aquele homem morreu no instante em que a multidão percebeu que ele talvez acreditasse mesmo no que dizia.

mario moura
(do livro Pequenas histórias sem testemunhas)


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