SOMOS APENAS PASSAGEIROS DESSE PEQUENO PLANETA AZUL (CONTO AINDA EM REVISÃO)
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SOMOS APENAS PASSAGEIROS DESTE PEQUENO PLANETA AZUL
A ideia de que somos apenas passageiros neste “pequeno planeta azul”, atravessa a história do pensamento humano e ganha diferentes interpretações conforme as épocas, culturas e cosmovisões de mundo.
A morte, embora inevitável, raramente ocupa o centro da consciência cotidiana. Vivemos como se o tempo fosse elástico, quase infinito, até que a perda de alguém próximo, rompe essa ilusão e nos confronta com a nossa própria finitude.
Na Antiguidade, a morte era frequentemente encarada como parte natural da ordem cósmica. Para os filósofos gregos, como Platão, morrer podia significar a libertação da alma, ao abandonar corpo. Já os estoicos, como Sêneca e Marco Aurélio, defendiam que a morte não deveria ser temida, pois fazia parte da natureza, e estava além do nosso controle. A sabedoria consistia em aceitar o destino com serenidade, valorizando o presente e vivendo com virtude.
Não questionaram Marco Aurélio, sobre o que seria a virtude... desprezando todas as outras condições que a existéncia nos proporciona. Essa preocupação de ser "virtuoso", parece que sempre dificultou a liberdade de organizar outras formas de existir, praticando outros prazeres, que possam representar estados de felicidade.
No pensamento medieval, profundamente marcado pela religiosidade, a morte assumia um papel central na organização da vida. A existência terrena era vista como uma preparação para a eternidade. A finitude do corpo, contrastava com a promessa de salvação, ou condenação da alma. Essa visão reforçava a ideia de que a vida tinha um propósito maior, ainda que fora do mundo material.
Um momento da civilização, em que existir com o corpo e seus sentidos, tornavam-se fonte de "pecados", excluindo dos sentidos a sua natureza de sempre buscar o prazer que o corpo nos desperta. Um impulso natural...
Com a modernidade, especialmente a partir do Iluminismo, a morte passou a ser mais afastada do cotidiano. O avanço da ciência e da medicina, criou uma expectativa de controle sobre a vida, prolongando-a e, de certo modo, ocultando a morte.
Ela deixou de acontecer em casa, no convívio familiar, e passou a ser institucionalizada em hospitais. Isso contribuiu para um distanciamento emocional e simbólico: fala-se menos sobre a morte, como se ignorá-la pudesse adiá-la.
Nos tempos contemporâneos, essa negação convive com uma profunda angústia existencial. Filósofos como Heidegger colocaram a morte no centro da reflexão, afirmando que a consciência da finitude é o que torna a vida autêntica. Saber que somos limitados no tempo nos obriga a fazer escolhas significativas. A morte, nesse sentido, não é apenas um fim biológico, mas uma condição que dá forma ao próprio viver.
Ao mesmo tempo, a sociedade atual tende a buscar distrações constantes — consumo, entretenimento, produtividade — como formas de evitar esse confronto. No entanto, momentos de perda rompem essa barreira e nos lembram da fragilidade da existência. Essas experiências podem gerar sofrimento, mas também têm o potencial de despertar uma percepção mais lúcida da vida.
Refletir sobre a morte não significa cultivar pessimismo, mas reconhecer a condição humana. Somos passageiros, sim — e é justamente essa transitoriedade que torna cada instante significativo. A consciência da finitude pode nos levar a valorizar mais as relações, o tempo e as escolhas que fazemos. Em vez de negar a morte, integrá-la ao pensamento pode ser um caminho para viver de forma mais plena e consciente.
A reflexão sobre a morte nas antigas tradições religiosas e filosóficas não se limita ao fim biológico da vida, mas mergulha em questões fundamentais: o sentido da existência, a natureza da alma, o destino após a morte e a relação entre o humano e o absoluto. Em muitas dessas tradições, a morte não é vista como ruptura definitiva, mas como passagem, transformação ou retorno.
Nas tradições religiosas do Oriente, por exemplo, a morte está profundamente ligada à ideia de ciclo. No hinduísmo, ela não representa um fim, mas uma transição dentro do samsara — o ciclo contínuo de nascimento, morte e renascimento. A alma (atman) é eterna, e o que morre é apenas o corpo. O objetivo maior é libertar-se desse ciclo por meio da iluminação (moksha), rompendo com a ignorância e o apego. O budismo, embora rejeite a noção de uma alma permanente, mantém a ideia de continuidade através do karma. A morte é apenas um momento dentro de um fluxo contínuo de existência condicionada, e o nirvana surge como a superação definitiva do sofrimento e da repetição cíclica.
Já nas tradições religiosas do antigo Egito, a morte era cuidadosamente preparada ao longo da vida. A existência terrena era apenas uma etapa diante da eternidade. O julgamento da alma, simbolizado pela pesagem do coração, determinava o destino do indivíduo. A preocupação com rituais funerários e preservação do corpo revela uma tentativa de garantir continuidade e ordem após a morte, integrando-a a uma visão cósmica de equilíbrio.
Na filosofia grega, encontramos múltiplas interpretações. Para Platão, a morte é libertação: o corpo é uma prisão para a alma, e morrer é permitir que ela retorne ao mundo das ideias, onde reside a verdade. Essa visão valoriza a filosofia como preparação para a morte — um exercício de desapego do sensível. Já para os epicuristas, a morte não deve ser temida porque, quando ela chega, já não estamos mais presentes para experimentá-la. O medo da morte nasce da imaginação, não da realidade.
Os estoicos oferecem uma perspectiva ética poderosa: a morte é natural e inevitável, portanto, não deve ser motivo de angústia. O que importa não é evitá-la, mas viver de acordo com a razão e a virtude. Aceitar a morte é aceitar a ordem do universo. Nesse sentido, a consciência da finitude não paralisa, mas orienta uma vida mais lúcida e alinhada com o essencial.
Nas tradições abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo), a morte assume um significado moral e escatológico. Ela marca o fim da vida terrena e o início de um julgamento divino. A existência ganha um peso ético intenso, pois as ações em vida repercutem na eternidade. A morte, portanto, não é apenas biológica, mas um ponto de transição decisivo, carregado de sentido espiritual.
O que atravessa todas essas tradições é a tentativa de dar inteligibilidade à morte, de integrá-la a uma narrativa maior. Seja como libertação, julgamento, transformação ou dissolução, ela nunca é tratada como um simples evento físico isolado. Ao contrário, é uma chave interpretativa da própria vida.
Refletir profundamente sobre a morte nessas tradições nos leva a perceber que o medo contemporâneo muitas vezes nasce do vazio de significado. Quando a morte deixa de estar inserida em uma visão mais ampla, ela se torna absurda e ameaçadora. Já nas tradições antigas, pensar a morte era, acima de tudo, uma forma de aprender a viver — com mais consciência, responsabilidade e profundidade.
Essa ideia toca num ponto central da experiência humana contemporânea: não é apenas a morte que assusta, mas o fato de ela parecer destituída de sentido.
Nas tradições antigas, a morte estava sempre “amarrada” a uma narrativa maior — cósmica, moral ou espiritual. Ela tinha um lugar: era passagem, julgamento, retorno, dissolução ou libertação. Isso não eliminava o sofrimento da perda, mas oferecia uma moldura simbólica capaz de sustentar a experiência. Havia um “para quê”, mesmo que misterioso.
Quando chegamos à modernidade, especialmente com o enfraquecimento das grandes narrativas religiosas e metafísicas, a morte começa a se destacar como um evento bruto. Sem um horizonte transcendente claro, ela pode parecer apenas interrupção — um corte definitivo num universo que não oferece respostas. É aí que surge o que muitos filósofos chamam de “escândalo da morte”: não apenas o fim, mas o fim sem explicação.
Esse vazio de significado gera um tipo específico de angústia. Não é o medo de sofrer ao morrer, mas o desconforto diante da possibilidade de que tudo seja, em última instância, contingente e sem finalidade. A morte, nesse contexto, ameaça não só a vida, mas o próprio sentido da vida.
Por outro lado, essa ausência de sentido dado pode abrir um espaço novo: o da construção de sentido. Se não há uma narrativa pré-estabelecida que explique a morte, então o significado da vida — e, por consequência, da morte — passa a depender da forma como vivemos. A finitude deixa de ser apenas um problema e se torna também uma condição de possibilidade: é porque o tempo é limitado que escolhas importam, que relações têm valor, que experiências são únicas.
O paradoxo é que aquilo que parece tornar a morte mais absurda — a falta de uma explicação universal — também pode torná-la mais pessoalmente significativa. A questão deixa de ser “o que a morte significa em si?” e passa a ser “o que a minha vida, finita, significa dentro do tempo que tenho?”.
Nesse sentido, o medo contemporâneo pode ser reinterpretado não como fraqueza, mas como sinal de uma consciência mais aguda da liberdade e da responsabilidade. Sem um roteiro pronto, somos confrontados com a tarefa de dar forma à própria existência — sabendo que ela terminará.
A morte continua sendo um mistério, talvez inevitavelmente. Mas a maneira como nos relacionamos com esse mistério define, em grande parte, a qualidade da nossa vida. Integrá-la ao pensamento não elimina a angústia, mas pode transformá-la em lucidez: viver não apesar da finitude, mas à luz dela.
A reflexão contemporânea sobre a morte acontece num cenário muito diferente daquele das tradições antigas: não há mais um único horizonte de sentido compartilhado, mas uma multiplicidade de interpretações que coexistem, às vezes em tensão aberta. Esse pluralismo revela tanto riqueza quanto desorientação.
Em correntes filosóficas contemporâneas, especialmente aquelas influenciadas pelo existencialismo, a morte é vista como o limite absoluto que dá forma à vida. Em Martin Heidegger, por exemplo, a morte não é apenas um evento futuro, mas uma presença constante que estrutura a existência. O ser humano é um “ser-para-a-morte”: alguém que só pode viver autenticamente quando reconhece sua finitude e assume a responsabilidade por suas escolhas. Aqui, o sentido não vem de fora (de Deus ou da tradição), mas é construído a partir da consciência do fim.
Já em Albert Camus, a morte está ligada ao absurdo. O ser humano busca sentido num universo que permanece silencioso. A morte, nesse contexto, reforça esse desencontro: tudo o que fazemos pode ser interrompido sem explicação. A resposta de Camus não é o desespero, mas a revolta lúcida — viver intensamente mesmo sem garantias de significado último.
Por outro lado, há correntes contemporâneas que tentam “neutralizar” a morte por meio da ciência e da tecnologia. Movimentos ligados ao transumanismo apostam na possibilidade de prolongar indefinidamente a vida ou até superar a morte biológica. A morte deixa de ser um destino inevitável e passa a ser vista como um problema técnico a ser resolvido. Essa perspectiva, embora fascinante, levanta questões profundas: se eliminarmos a morte, o que acontece com o sentido da vida? A finitude, que antes dava urgência e valor às escolhas, desapareceria.
No campo das crenças, observa-se um fenômeno interessante: ao mesmo tempo em que as religiões tradicionais perdem força em alguns contextos, cresce uma espiritualidade mais difusa e individualizada. Ideias como reencarnação, energia, continuidade da consciência e conexão com o universo reaparecem em novas formas. Essas crenças frequentemente tentam recuperar um sentido para a morte sem recorrer a instituições rígidas. A morte volta a ser vista como passagem, mas agora reinterpretada de maneira mais pessoal e menos dogmática.
É nesse ponto que surge o confronto com uma civilização profundamente marcada por ideologias materialistas e consumistas. Quando o valor da vida é medido principalmente por produção, desempenho e aquisição, a morte se torna quase um escândalo econômico e simbólico. Ela interrompe o ciclo de consumo, rompe a lógica de progresso contínuo e expõe a fragilidade de tudo aquilo que parecia sólido.
O consumismo, em certo sentido, funciona como uma tentativa de negar a morte. Acumular bens, buscar prazer constante, manter-se ocupado — tudo isso pode servir como distração diante da finitude. A lógica implícita é: viver como se a morte não existisse. No entanto, essa negação tem um custo. Quando a morte finalmente irrompe — na perda de alguém ou na consciência da própria mortalidade — o indivíduo pode se ver despreparado, sem recursos simbólicos para lidar com a experiência.
Além disso, o materialismo estrito tende a reduzir a morte a um fenômeno puramente biológico: o fim das funções do organismo. Embora isso seja cientificamente correto, pode ser existencialmente insuficiente. O ser humano não vive apenas de fatos, mas de significados. Quando a morte é esvaziada de qualquer dimensão simbólica, ela pode se tornar ainda mais angustiante.
O ponto de tensão, portanto, está aqui: de um lado, uma cultura que evita a morte, escondendo-a e substituindo-a por distrações; de outro, a necessidade humana de atribuir sentido à própria finitude. Esse conflito gera uma espécie de vazio silencioso. Vive-se muito, consome-se muito, mas reflete-se pouco sobre o fim — até que ele se torne inevitável.
Talvez o desafio contemporâneo não seja escolher entre uma visão antiga e uma moderna, mas integrar lucidez e profundidade. Reconhecer os avanços da ciência sem reduzir a existência a eles; aceitar a liberdade de construir sentido sem ignorar a necessidade humana de significado. A morte, nesse contexto, pode voltar a ocupar um lugar essencial: não como algo a ser negado ou eliminado, mas como uma realidade que, quando pensada com seriedade, reorganiza nossas prioridades.
No fim, uma civilização que evita refletir sobre a morte corre o risco de empobrecer a própria vida. Encará-la de frente não resolve o mistério, mas pode devolver densidade à existência — algo que nenhuma lógica de consumo consegue oferecer.
mario moura
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A experiência cotidiana costuma nos enganar. Vivemos como se o tempo fosse abundante, como se a continuidade da vida estivesse garantida por uma espécie de pacto silencioso com o futuro. No entanto, a morte — sempre inesperada — rompe essa ilusão e nos coloca diante de uma verdade incontornável: somos passageiros. Não controlamos a duração da viagem, nem conhecemos seu destino com precisão. Essa constatação, longe de ser apenas perturbadora, sempre foi também um ponto de partida para profundas reflexões filosóficas e espirituais.
Desde a Antiguidade, diferentes tradições buscaram compreender o sentido da morte não como um fim absoluto, mas como parte de uma ordem maior. Nas tradições gregas, por exemplo, a filosofia não evitava o tema — ao contrário, o colocava no centro da existência. Para muitos pensadores, aprender a viver era, essencialmente, aprender a morrer. A morte era vista como libertação da alma em relação ao corpo, uma passagem para outra forma de realidade. Já em tradições orientais, como as indianas, a morte frequentemente aparece inserida em ciclos contínuos de nascimento e renascimento, onde o fim de uma vida representa apenas uma transição dentro de um processo maior de evolução espiritual.
Nas religiões abraâmicas, por sua vez, a morte adquire um sentido moral e escatológico. Ela não é apenas o término da vida biológica, mas o momento de passagem para um julgamento ou para uma nova condição espiritual. Nesse contexto, a vida ganha peso ético: viver bem torna-se uma preparação para o que vem depois. A morte, portanto, não é absurda — ela é carregada de significado, propósito e consequência.
Essas visões antigas têm algo em comum: a morte nunca é isolada da totalidade da existência. Ela está integrada a uma narrativa maior, seja ela cíclica, transcendental ou moral. Por isso, embora temida, não é necessariamente vista como um vazio sem sentido.
No mundo contemporâneo, entretanto, essa integração parece enfraquecida. Em muitas correntes filosóficas modernas, especialmente as de cunho existencialista, a morte aparece como um limite radical — um ponto final que dá à vida seu caráter urgente e, ao mesmo tempo, trágico. Para alguns pensadores, é justamente a finitude que confere sentido à existência: saber que vamos morrer nos obriga a escolher, a agir, a dar valor ao tempo. A morte, nesse caso, não é negada, mas assumida como elemento constitutivo da liberdade humana.
Por outro lado, em uma civilização profundamente marcada pelo materialismo e pelo consumismo, a morte tende a ser ocultada ou evitada. Ela é retirada do convívio cotidiano, deslocada para hospitais, tratada como fracasso ou interrupção indesejada.
Vive-se como se a acumulação de bens, experiências e prazeres pudesse compensar ou até adiar o inevitável. Essa postura gera um paradoxo: quanto mais se tenta ignorar a morte, mais ela se torna assustadora. Sem um horizonte simbólico ou espiritual que lhe dê sentido, ela aparece como absurdo puro — um fim sem explicação.
É justamente nesse ponto que surge o confronto entre visões de mundo. De um lado, tradições que integram a morte à vida, oferecendo narrativas que a tornam compreensível. De outro, uma cultura que valoriza o imediato, o tangível, o consumo — e que, por isso, tem dificuldade em lidar com aquilo que não pode ser controlado ou possuído. O resultado é um vazio existencial, onde o medo da morte não é apenas medo do fim, mas medo do sem sentido.
Refletir profundamente sobre a morte, portanto, não é um exercício mórbido, mas um caminho de lucidez. Ao reconhecer nossa condição de passageiros, somos convidados a reconsiderar nossas prioridades, nossos valores e a forma como habitamos o tempo. A morte, longe de ser apenas um limite, pode ser também uma chave: ela nos obriga a perguntar o que realmente importa.
E talvez seja justamente essa pergunta — mais do que qualquer resposta definitiva — que nos aproxima de uma vida mais autêntica, consciente e significativa.
André e Clara estavam sentados lado a lado, olhando o horizonte tingido pelo fim da tarde. O silêncio entre eles não era vazio — era carregado de pensamentos que pediam forma.
André:
Sabe, eu tenho pensado… essa ideia de que a gente continua depois da morte… nunca fez muito sentido pra mim. Tudo que a gente é — memória, identidade, consciência — depende do cérebro. Quando ele para, acabou. É como apagar uma chama.
Clara:
Mas você não acha curioso reduzir algo tão complexo quanto a consciência a um simples produto biológico? Como se fosse só um efeito colateral da matéria?
André:
Curioso, talvez. Mas coerente. Tudo que observamos aponta nessa direção. Lesões cerebrais mudam personalidade, memória, até valores. Se a consciência fosse independente, por que dependeria tanto de um órgão físico?
Clara:
Ou talvez o cérebro não produza a consciência… talvez funcione como um receptor. Como um rádio. Se o aparelho quebra, a música para — mas isso não significa que a transmissão deixou de existir.
André (sorri levemente):
Essa analogia é bonita, mas não temos evidência disso. É mais uma esperança do que uma explicação. Eu entendo o desejo de continuidade, de não desaparecer… mas querer não torna real.
Clara:
E confiar apenas no que pode ser medido também não garante que estamos vendo tudo. Muitas tradições falam da morte como passagem, não como fim. Não só por consolo, mas por experiência interior, por estados de consciência que vão além do cotidiano.
André:
Mas experiências internas podem enganar. Sonhos parecem reais. Alucinações também. O cérebro é capaz de criar mundos inteiros sem sair do lugar.
Clara:
Sim, mas ele também é capaz de acessar dimensões profundas da existência. Meditação, experiências místicas… há relatos consistentes ao longo de séculos. Será que tudo isso é apenas ilusão?
André:
Talvez não “apenas”, mas ainda assim explicável. O cérebro em certos estados pode gerar sensações de unidade, transcendência… isso não prova que exista algo além. Só mostra do que somos capazes por dentro.
Clara:
Mas e o sentido? Se tudo termina no nada, qual é o peso real da vida? Tudo que sentimos, construímos, amamos… simplesmente desaparece?
André:
Sim. E justamente por isso tem valor. Porque é finito. Porque não há segunda chance garantida. A morte dá urgência à vida. Torna cada escolha mais importante.
Clara:
Eu vejo diferente. Pra mim, a continuidade não tira o valor — amplia. A vida aqui, seria parte de um processo maior. Aprendizado, evolução… não um episódio isolado que termina no vazio.
André:
Mas isso não pode levar a uma certa acomodação? Tipo: “sempre haverá outra chance”?
Clara:
Só se for mal interpretado. A ideia não é adiar a vida, mas aprofundá-la. Cada experiência conta. Cada ação tem consequência — talvez até além do que podemos ver agora.
André (olhando o horizonte):
No fundo, acho que o que mais me incomoda na ideia de vida após a morte… é a falta de prova. Eu prefiro lidar com a incerteza do fim, do que acreditar em algo que não posso verificar.
Clara:
E o que mais me incomoda na ideia de fim absoluto… é o vazio de sentido. Eu preciso acreditar que a existência não é um acidente sem continuidade.
André:
Então talvez seja isso… você precisa acreditar. E eu preciso duvidar.
Clara (sorri):
Ou talvez a gente só esteja olhando para o mesmo mistério por ângulos diferentes.
O sol desaparecia lentamente. Nenhum dos dois tinha convencido o outro — mas ambos haviam aprofundado a própria compreensão.
E, naquele instante, a morte já não era apenas um fim ou uma passagem. Era uma pergunta viva entre eles.
O silêncio entre André e Clara ainda pairava quando passos leves se aproximaram. Era Miguel, um velho conhecido, alguém que costumava transitar com naturalidade entre conversas difíceis.
Miguel:
Desculpem interromper… ouvi parte da conversa. Vocês ainda estão tentando decidir se a morte é o fim ou uma passagem?
André (meio irônico):
Basicamente isso. Clara acha que continuamos. Eu acho que apagamos.
Clara:
E você, Miguel? Vai escolher um lado ou propor mais uma pergunta?
Miguel (sorri):
Talvez nenhum dos dois. Ou os dois — mas de outro jeito. Acho que vocês estão presos numa oposição que pode ser mais limitada do que parece.
André:
Limitada? Ou simplesmente objetiva?
Miguel:
Objetiva dentro de um certo modelo. Mas pense: quando você diz que a consciência acaba com o cérebro, você está assumindo que consciência é uma coisa local, produzida ali. E quando Clara fala em continuidade, ela assume que a consciência é algo que existe por si. E se ambos estiverem simplificando demais?
Clara:
Como assim?
Miguel:
E se a consciência não for nem um produto isolado da matéria, nem uma entidade separada que “sobrevive” intacta? E se for um processo — algo que emerge, se transforma, se dissolve e talvez se reconfigure de formas que nossa linguagem não consegue capturar bem?
André:
Isso parece só uma forma elegante de evitar a resposta.
Miguel:
Ou de admitir que a pergunta pode estar mal formulada. A gente pensa em termos de “continua” ou “termina” porque estamos presos à lógica das coisas sólidas. Mas a própria natureza, em muitos níveis, funciona como fluxo.
Clara:
Você está sugerindo algo como… uma continuidade sem identidade?
Miguel:
Talvez. Pense numa onda no oceano. Ela tem forma, duração, movimento — podemos até nomeá-la. Mas ela não é separada do oceano. Quando “acaba”, não desaparece no nada… ela deixa de ser aquela forma específica.
André:
Mas isso não preserva a pessoa. Não preserva memória, identidade… nada do que realmente importa pra gente.
Miguel:
Depende do que você chama de “importa”. Talvez o apego à identidade fixa seja parte do problema. A gente quer continuar sendo exatamente quem é — com nome, história, lembranças. Mas e se isso for uma construção temporária?
Clara:
Isso ecoa algumas tradições espirituais… a ideia de que o “eu” é transitório.
Miguel:
Exato. E, curiosamente, também dialoga com certas visões científicas contemporâneas, que veem o “eu” como um processo dinâmico, não uma entidade fixa. Talvez materialismo e espiritualismo estejam olhando para aspectos diferentes do mesmo fenômeno.
André:
Mas isso ainda não responde: existe experiência depois da morte?
Miguel:
Talvez a questão seja: quem exatamente estaria lá para experienciar? O mesmo “você”? Ou algo que já não pode ser descrito nesses termos?
Clara (pensativa):
Então a morte não seria nem fim absoluto, nem continuidade pessoal… mas transformação?
Miguel:
Sim, mas uma transformação tão radical que nossas categorias — fim, continuidade, alma, cérebro — começam a falhar.
André:
Confesso que isso me deixa… desconfortável. Prefiro uma resposta clara, mesmo que dura.
Miguel:
E eu desconfio das respostas claras demais para questões tão profundas. Às vezes, a honestidade está em sustentar a complexidade.
Clara:
Talvez o medo venha justamente dessa necessidade de certeza.
Miguel:
Talvez. E talvez também venha da dificuldade de aceitar que fazemos parte de algo maior, mas não controlamos sua forma nem seu destino.
Os três ficaram em silêncio por alguns instantes. O céu agora já era escuro, e as primeiras estrelas surgiam — distantes, indiferentes, e ao mesmo tempo estranhamente próximas.
André:
Então, no fim, você não resolve o debate… só amplia.
Miguel (sorri):
Às vezes ampliar é mais honesto do que resolver.
E ali, entre o fim e a continuidade, surgiu uma terceira possibilidade: a de que a morte não cabe inteiramente em nenhuma das duas.
mario moura
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