ARCHIBALDO, UM SUJEITO PROVEBIAL E AFORÍSTICO

 Archibaldo era um sujeito tranquilo, pacato, gostava de boas conversas, e tinha um hábito interessante: sempre pontuava alguma observação com aforismos, provérbios e citações latinas.                                                            Seu amigo Geraldo, vizinho de alma, admirava a precisão dessa sabedoria, sempre oportuna, ou nem sempre.                                                                            Eram velhos amigos e todas as tardes, no pequeno Bar Camões, do português Joaquim, eles estavam lá numa conversa interminável. Joaquim, já bem abrasileirado, gostava da erudição dos aforismos da curiosidade dos provérbios e das citações latinas, citados por Archibaldo, que considerava de alta cultura e sabedoria. Estava sempre próximo, e algumas vezes dava um palpite, nem sempre muito coerente ou oportuno.

Seu texto cria muito bem a atmosfera de uma amizade antiga, com um toque de humor e um personagem marcado por uma característica muito própria. Uma possível continuação seria:

Numa dessas tardes mornas, enquanto o sol atravessava os vidros empoeirados do Bar Camões, Geraldo comentava sobre um pequeno problema que tivera com o telhado de casa.

— Choveu a noite inteira. A goteira voltou justamente em cima da minha poltrona favorita.

Archibaldo, que saboreava lentamente um cafezinho, ergueu o indicador como quem anunciava uma verdade universal.

— "Gutta cavat lapidem", meu caro.

Joaquim, atento atrás do balcão, arregalou os olhos.

— Isso é latim dos bons.

Geraldo suspirou.

— E o que significa?

— A gota escava a pedra. A persistência vence a resistência.

— No meu caso — respondeu Geraldo — a persistência da goteira venceu a resistência do meu telhado.

Joaquim achou a observação brilhante e riu sozinho por alguns segundos.

Animado, Archibaldo prosseguiu:

— Há também um provérbio antigo: água mole em pedra dura...

— Tanto bate até que o dono chama o pedreiro — interrompeu Geraldo.

Os três riram.

Joaquim aproximou-se da mesa com uma garrafa de cerveja.

— Sabe, senhor Archibaldo, essas frases servem para tudo.

— Nem sempre — respondeu ele. — A sabedoria consiste em saber quando aplicá-las.

Nesse instante, ouviu-se um estrondo vindo da cozinha. Um prato havia escorregado das mãos do ajudante e se espatifado no chão.

Joaquim correu para verificar o ocorrido. Ao voltar, ainda um pouco aflito, encontrou Archibaldo com um sorriso tranquilo.

— "Sic transit gloria mundi."

— E o que quer dizer agora?

— Assim passa a glória do mundo.

— Era só um prato, homem! — protestou Joaquim.

— Justamente. Hoje é um prato. Amanhã pode ser uma travessa. A impermanência não faz distinções.

Geraldo balançou a cabeça.

— Um dia ainda vou descobrir uma situação em que você não tenha um aforismo pronto.

Archibaldo tomou o último gole de café, olhou para o amigo e respondeu:

— "Numquam dicere numquam."

— E isso quer dizer?

— Nunca diga nunca.

Joaquim ficou alguns segundos pensativo.

— Então ainda há esperança de eu aprender latim?

— Há esperança para tudo — respondeu Archibaldo.

— Até para o Benfica ser campeão? — perguntou Joaquim.

Pela primeira vez naquela tarde, Archibaldo permaneceu em silêncio.

O encerramento com o silêncio de Archibaldo, ajuda a preservar o tom bem-humorado da narrativa e reforça a personalidade dos três personagens.

A partir da chegada de Matilde, as tardes do Bar Camões adquiriram uma nova dinâmica.

Até então, Archibaldo reinava absoluto, no vasto território dos aforismos, das máximas e das citações latinas.

Agora havia oposição.

Uma oposição elegante.

Educada.

Mas oposição.

Joaquim, naturalmente, transformou o fenômeno em evento esportivo.

Atrás do balcão, onde antes havia apenas uma lista de fiados e o calendário de uma distribuidora de bebidas, surgiu um quadro improvisado.

No topo lia-se:

"TORNEIO INTERNACIONAL DE LATIM DO BAR CAMÕES"

Logo abaixo:

Archibaldo — 17

Matilde — 17

Geraldo descobriu a tabela numa manhã.

— Você está pontuando as conversas?

— Evidentemente.

— Segundo quais critérios?

— Ainda não defini.

— Então os números não significam nada.

— Exatamente.

— E por que estão aí?

— Porque toda competição precisa de placar.

Numa tarde de muito calor, discutiam os desconfortos da idade.

Geraldo reclamava dos joelhos.

— Quando eu era jovem subia escadas correndo.

Hoje faço planejamento estratégico.

Archibaldo assentiu.

— "Senectus ipsa morbus."

Matilde ergueu uma sobrancelha.

— Cícero.

— Correto.

— Embora ele próprio não concordasse inteiramente com a frase.

Joaquim quase derrubou uma bandeja.

— Ela respondeu com uma nota de rodapé!

— O que significa? — perguntou Geraldo.

— A própria velhice é uma doença — explicou Archibaldo.

— Discordo — disse Matilde.

— Eu também — respondeu Geraldo.

— Eu não.

— Claro que não — comentou Joaquim. — O senhor transforma qualquer problema em latim.

Alguns dias depois, o tema da conversa era a sorte.

Um cliente havia ganhado um prêmio numa rifa.

— Coisa rara — observou Geraldo.

— "Fortuna caeca est" — declarou Archibaldo.

— A sorte é cega.

— Sim.

Matilde tomou um gole de café.

— Mas os romanos também diziam "Fortes fortuna adiuvat".

— Os fortes são favorecidos pela sorte — completou Archibaldo.

— Então a sorte é cega ou escolhe os fortes? — perguntou Joaquim.

Seguiu-se um silêncio.

— Excelente questão — admitiu Matilde.

— Muito pertinente — concordou Archibaldo.

Joaquim abriu um sorriso.

— Ponto para mim.

E escreveu seu nome no placar.

Ninguém conseguiu convencê-lo a apagar.

Certa tarde chuvosa, Matilde apareceu carregando três livros.

Archibaldo imediatamente reconheceu as obras.

Sêneca.

Horácio.

Tácito.

— Vejo que veio armada.

— Apenas prevenindo eventualidades.

Joaquim levou a mão ao coração.

— Meu Deus... ela trouxe reforços.

A conversa girou em torno da felicidade.

Tema perigoso.

Geraldo afirmava que felicidade consistia em ter saúde, amigos e uma conta de luz razoável.

Archibaldo refletiu.

— "Beatus ille."

— Horácio — respondeu Matilde imediatamente.

— O homem feliz.

— Mais precisamente aquele que vive longe das ambições excessivas.

— Concordo.

— Eu também.

— Eu só queria pagar menos imposto — disse Geraldo.

— Também é uma forma de filosofia — observou Matilde.

Joaquim anotou a frase.

Achou profunda.

Não sabia exatamente por quê.

Foi nessa época que começou a surgir entre Archibaldo e Matilde algo curioso.

Eles passaram a provocar um ao outro.

Sempre educadamente.

Sempre com elegância.

Mas provocar.

Numa tarde, Matilde chegou alguns minutos atrasada.

Archibaldo consultou o relógio.

— "Punctualitas est regina virtutum."

Matilde sentou-se.

— Frase bonita.

— Sim.

— Pena que não seja latina clássica.

Geraldo cuspiu o café.

Joaquim ficou branco.

— Não é?

— Não exatamente.

Archibaldo sorriu.

— Eu estava testando você.

— Claro que estava.

— Naturalmente.

— Naturalmente.

Joaquim anotou no placar:

Matilde +1.

Archibaldo protestou.

Mas foi ignorado.

Com o tempo, os fregueses passaram a frequentar o bar para assistir aos duelos.

Havia quem chegasse mais cedo para conseguir mesa próxima.

Um advogado.

Dois professores.

Um farmacêutico.

Até o açougueiro apareceu.

Embora entendesse apenas metade das conversas.

— Não compreendo o latim — confessava.

— Então por que vem?

— Porque parece importante.

Numa sexta-feira particularmente movimentada, Joaquim teve uma ideia.

Uma ideia perigosa.

Como quase todas as suas ideias.

Anunciou solenemente:

— Semana que vem haverá o Primeiro Desafio Oficial de Erudição do Bar Camões.

Archibaldo levantou os olhos.

Matilde também.

— O que seria isso? — perguntou ela.

— Uma disputa.

— Não estamos disputando nada.

— Agora estarão.

— Quem decidiu?

— Eu.

— E quais serão as regras?

— Ainda não existem.

— Então como funcionará?

— Improvisaremos.

Geraldo caiu na gargalhada.

— Isso é a coisa mais portuguesa que já ouvi.

Durante uma semana inteira, Joaquim preparou o evento.

Confeccionou cartazes.

Reservou mesas.

Comprou um sino.

Ninguém sabia para que serviria o sino.

Nem ele.

Finalmente chegou o grande dia.

O bar estava lotado.

Archibaldo e Matilde sentaram-se frente a frente.

Geraldo assumiu o papel de observador imparcial.

Joaquim tornou-se mestre de cerimônias.

Bateu o sino.

O som foi decepcionante.

Mas ninguém comentou.

— Primeira questão! — anunciou.

— Qual questão? — perguntou Matilde.

— Ainda vou pensar.

— Você organizou tudo sem perguntas?

— Sim.

— Admirável — comentou Archibaldo.

— "Audaces fortuna iuvat" — respondeu Joaquim orgulhoso.

O bar inteiro explodiu em aplausos.

Pela primeira vez, ele usara a frase correta.

Sem ajuda.

Sem consulta.

Sem erro.

Archibaldo e Matilde se entreolharam.

Depois sorriram.

E pela primeira vez compreenderam algo que talvez já estivesse acontecendo havia meses.

A verdadeira vencedora daquela disputa não era a erudição.

Era a amizade.

E, talvez, o velho Bar Camões, onde o latim continuava encontrando abrigo entre cafés, cervejas, gargalhadas e tardes que pareciam não ter fim.

Mas Joaquim não estava disposto a encerrar o campeonato.

Ao contrário.

Naquela mesma noite começou a estudar um pequeno manual de expressões latinas.

Porque alimentava um plano secreto.

Um plano absolutamente improvável.

No próximo torneio, não queria ser árbitro.

Queria competir.

E essa decisão de Joaquim — estudar latim às escondidas para surpreender Archibaldo e Matilde — pode abrir uma fase ainda mais divertida da história, porque seu entusiasmo certamente será maior que seu conhecimento, produzindo interpretações memoráveis e confusões épicas.

vamos continuar

Se havia uma característica que definia Joaquim, era a obstinação.

Se havia outra, era a capacidade de se meter em projetos para os quais não possuía a menor qualificação.

Assim, durante semanas, o português dedicou-se secretamente ao estudo do latim.

Comprou um pequeno dicionário.

Adquiriu uma gramática usada.

Passou a assistir vídeos educativos.

Leu artigos.

Fez anotações.

E confundiu metade do conteúdo.

Todas as noites, depois de fechar o Bar Camões, sentava-se numa mesa próxima à janela e estudava.

Certa vez, o padeiro que fazia entregas de madrugada encontrou-o mergulhado em livros.

— O que está fazendo?

— Estudando latim.

— Para quê?

Joaquim pensou alguns segundos.

— Ainda não sei.

O padeiro assentiu.

— Parece um excelente motivo.

Enquanto isso, Archibaldo e Matilde ignoravam completamente o plano.

Continuavam seus duelos amistosos.

Numa tarde, discutiam os caprichos do destino.

— A vida é imprevisível — observou Geraldo.

— "Homo proponit, sed Deus disponit" — comentou Archibaldo.

Matilde concordou.

— O homem propõe, Deus dispõe.

Joaquim ouviu atentamente.

Anotou.

Decorou.

Repetiu mentalmente.

Naquela noite praticou vinte vezes diante do espelho.

Na manhã seguinte, uma cliente perguntou se ainda havia pastel de carne.

Joaquim respondeu solenemente:

— Homo proponit, sed Deus disponit.

— Então acabou?

— Acabou.

A cliente foi embora sem entender.

Joaquim considerou o uso satisfatório.

Dias depois, surgiu uma oportunidade inesperada.

O professor Álvaro apareceu no bar.

Ao entrar, encontrou Joaquim estudando atrás do balcão.

— Vejo que o senhor continua dedicado.

— Estou evoluindo.

— Posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Qual a diferença entre ablativo e dativo?

Joaquim ficou imóvel.

Piscou uma vez.

Depois outra.

Por fim respondeu:

— Carpe diem.

O professor riu durante quase dois minutos.

A notícia espalhou-se rapidamente.

No bairro inteiro já se comentava o projeto acadêmico do dono do Bar Camões.

Alguns fregueses passaram a ajudá-lo.

O farmacêutico emprestou livros.

O advogado trouxe um manual de expressões jurídicas romanas.

O açougueiro ofereceu incentivo moral.

Embora ninguém soubesse exatamente em que consistia tal incentivo.

Então chegou o dia do Segundo Torneio de Erudição.

Joaquim havia preparado tudo.

Cartazes.

Sino.

Tabela.

Até medalhas.

Feitas de papelão.

Mas medalhas.

O bar estava lotado.

Matilde chegou primeiro.

Archibaldo veio logo depois.

Geraldo assumiu sua posição habitual.

Joaquim bateu o sino.

Desta vez o som foi ainda pior.

— Senhores e senhoras!

Todos se voltaram para ele.

— Hoje teremos uma novidade.

— Qual? — perguntou Geraldo.

— Eu participarei.

Fez-se silêncio.

Archibaldo retirou lentamente os óculos.

Matilde arregalou os olhos.

O professor Álvaro deixou cair um guardanapo.

— Participará de quê? — perguntou.

— Da competição.

— Contra nós?

— Exatamente.

Geraldo começou a rir.

Depois tentou parar.

Mas não conseguiu.

Cinco minutos depois ainda ria.

Joaquim esperou pacientemente.

— Já terminou?

— Ainda não.

— Eu espero.

Finalmente o amigo recuperou o fôlego.

— Desculpe. Continue.

Joaquim assumiu uma postura solene.

— Estou preparado.

Archibaldo sorriu.

— Muito bem.

Matilde assentiu.

— Será um prazer.

O primeiro desafio consistia em completar citações.

Joaquim surpreendeu a todos.

Acertou várias.

Reconheceu Horácio.

Identificou Sêneca.

Traduzira corretamente algumas expressões.

Até Archibaldo demonstrou respeito.

— Está estudando seriamente.

— Eu avisei.

— Estou impressionada — admitiu Matilde.

Joaquim quase flutuou de felicidade.

Mas a glória durou pouco.

Muito pouco.

Na rodada seguinte, o professor Álvaro perguntou:

— Joaquim, poderia traduzir "pecunia non olet"?

O português sorriu.

Finalmente conhecia aquela.

— Claro.

Todos aguardaram.

— Significa: dinheiro não fica sozinho.

Seguiu-se um silêncio monumental.

Até as moscas pareceram parar no ar.

Matilde fechou os olhos.

Archibaldo apoiou a testa na mão.

Geraldo começou a rir novamente.

O professor tentou manter a compostura.

Fracassou.

— Não explicou Matilde. — Significa "o dinheiro não cheira".

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Então aprendi errado.

— Onde leu isso?

— Numa anotação minha.

— Ah...

— O problema talvez esteja aí — comentou Archibaldo.

A plateia inteira caiu na gargalhada.

Mesmo Joaquim acabou rindo.

Era impossível não rir.

Pouco depois, ao final da disputa, Archibaldo e Matilde empataram mais uma vez.

Joaquim ficou muito atrás.

Mas recebeu uma salva de palmas espontânea.

O português levantou-se emocionado.

— Gostaria de agradecer.

— Pelo quê? — perguntou Geraldo.

— Pela paciência.

— Merecida.

— Pela amizade.

— Merecida também.

— E pelo apoio intelectual.

— Esse foi mais difícil — observou Matilde.

Novas gargalhadas.

Joaquim ergueu seu copo.

— Quero dizer uma frase em latim.

Todos ficaram atentos.

Ele respirou fundo.

Consultou discretamente um papel escondido no bolso.

E declarou:

— "Non scholae sed vitae discimus."

Archibaldo sorriu.

Matilde também.

— Muito bem — disse ela.

— Excelente — concordou ele.

Joaquim abriu um sorriso enorme.

— Acertei?

— Acertou.

— E o que significa?

— Não aprendemos para a escola, mas para a vida.

Joaquim permaneceu em silêncio por alguns instantes.

Depois olhou para os amigos.

Para os fregueses.

Para o velho balcão.

Para os livros acumulados ao longo dos meses.

E disse:

— Então finalmente entendi por que estou estudando.

Pela primeira vez naquela noite, ninguém riu.

Porque todos compreenderam exatamente o que ele queria dizer.

Até Geraldo.

O que já era um acontecimento raro.

Mas foi justamente nesse instante, que a porta do Bar Camões se abriu.

Entrou um senhor magro, de barba branca, chapéu antigo e bengala elegante.

Observou o ambiente.

As medalhas de papelão.

Os livros espalhados.

O quadro de pontuação.

E perguntou:

— Por acaso alguém aqui sabe latim?

Archibaldo sorriu.

Matilde endireitou-se na cadeira.

Joaquim empalideceu.

Porque havia algo naquele olhar, que sugeria uma possibilidade inquietante:

Talvez, pela primeira vez, todos eles estivessem prestes a encontrar alguém que realmente soubesse.

Essa figura misteriosa pode elevar a narrativa a um novo nível, tornando-se uma espécie de "mestre involuntário" do grupo, alguém capaz de desmontar certezas, corrigir elegâncias excessivas e, ao mesmo tempo, aproximar ainda mais Archibaldo, Matilde, Geraldo e Joaquim.

continuar

O silêncio que se seguiu à pergunta do recém-chegado foi tão completo que até o velho relógio pendurado na parede pareceu fazer mais barulho.

— Por acaso alguém aqui sabe latim?

Archibaldo foi o primeiro a recuperar a compostura.

— Sabemos um pouco.

O homem observou a mesa.

Depois observou os livros.

Em seguida observou o placar.

Por fim, observou as medalhas de papelão.

Seu olhar demorou-se alguns segundos nelas.

— Fascinante.

Joaquim não conseguiu conter-se.

— O senhor é professor?

— Fui.

— De latim?

— Entre outras coisas.

— Em universidade?

— Durante muitos anos.

Joaquim sentiu as pernas enfraquecerem.

Aquilo era pior do que imaginava.

Muito pior.

O visitante aproximou-se da mesa.

— Permitem?

— Claro — respondeu Matilde.

O homem sentou-se.

Tirou o chapéu.

Apoiou a bengala ao lado da cadeira.

E sorriu.

— Meu nome é Afonso.

— Prazer — disse Archibaldo.

— Igualmente.

— Sou Archibaldo.

— Sei.

A resposta causou estranheza.

— Sabe?

— O senhor é relativamente famoso no bairro.

Geraldo soltou uma gargalhada.

— Relativamente famoso é uma classificação perfeita.

— Há quem diga que o senhor consegue transformar qualquer assunto em latim.

— Exageros populares.

— Sem dúvida.

Joaquim trouxe um café.

Por conta da casa.

Afonso agradeceu.

Tomou um gole.

Fechou os olhos.

Aprovou.

— Excelente.

Joaquim quase emoldurou o elogio.

Durante alguns minutos conversaram sobre trivialidades.

O clima parecia agradável.

Quase amistoso.

Até que Archibaldo comentou:

— "In vino veritas."

Afonso assentiu.

— Sim.

Silêncio.

Joaquim aguardava alguma continuação.

Nada.

Matilde também percebeu.

— O senhor não vai comentar?

— O quê?

— A frase.

— Está correta.

— Só isso?

— Só isso.

Aquilo era novo.

Todos estavam acostumados a explicações.

Complementos.

Referências históricas.

Afonso simplesmente aceitava a frase e seguia adiante.

Era desconcertante.

Alguns minutos depois, Matilde citou:

— "Sapere aude."

— Horácio.

— Exato.

— Muito bem empregado.

— Obrigada.

E o assunto terminou ali.

Joaquim aproximou-se de Geraldo.

— Estou nervoso.

— Por quê?

— Ele não se impressiona.

— Nem um pouco.

— Nem arregala os olhos.

— Nem um pouco.

— Isso não é natural.

A situação tornou-se ainda mais curiosa nas semanas seguintes.

Afonso passou a frequentar o bar.

Chegava sempre à mesma hora.

Pedia café.

Conversava.

Ouvia mais do que falava.

E jamais exibia conhecimento.

Quando alguém citava um autor clássico, ele apenas sorria.

Quando alguém mencionava um episódio histórico, apenas assentia.

Quando surgia uma frase latina, limitava-se a concordar.

Aquilo começou a incomodar Joaquim.

Profundamente.

Numa tarde, não resistiu.

— Senhor Afonso.

— Sim?

— O senhor sabe muito latim?

— Um pouco.

— Quanto é um pouco?

— O suficiente.

— O suficiente para quê?

— Para ler.

— Só isso?

— Só isso.

Joaquim olhou para Archibaldo.

— Ele fala como um oráculo.

— De fato — concordou Matilde.

O mistério aumentou.

Até que aconteceu.

Numa tarde chuvosa, discutiam uma passagem de Sêneca.

Matilde citou um trecho.

Archibaldo discordou da interpretação.

Os dois começaram um debate amigável.

Logo estavam consultando livros.

Comparando traduções.

Buscando argumentos.

Joaquim assistia fascinado.

Afonso permaneceu em silêncio.

Por quase vinte minutos.

Finalmente, Matilde voltou-se para ele.

— O senhor não tem opinião?

— Tenho.

— E qual é?

— Ambos estão certos.

— Isso é impossível.

— Nem sempre.

— Como assim?

Afonso pousou a xícara.

— Porque estão discutindo uma tradução.

Não o texto.

Fez-se silêncio.

— Explique — pediu Archibaldo.

Pela primeira vez desde que chegara ao Bar Camões, Afonso falou longamente.

Não levantou a voz.

Não assumiu tom professoral.

Não demonstrou vaidade.

Apenas explicou.

Mostrou nuances.

Contextos.

Mudanças de significado.

Diferenças entre épocas.

Sentidos possíveis.

Sentidos perdidos.

Sentidos recuperados.

Durante quinze minutos ninguém interrompeu.

Nem Joaquim.

Quando terminou, o silêncio voltou.

Matilde foi a primeira a falar.

— Extraordinário.

Archibaldo assentiu.

— Concordo.

Geraldo observava tudo sem compreender metade do assunto.

Mas percebeu algo importante.

Pela primeira vez, desde que conhecera o amigo, Archibaldo parecia verdadeiramente aluno.

Joaquim também percebeu.

E ficou maravilhado.

Na saída, quando todos já se despediam, perguntou:

— Senhor Afonso.

— Sim?

— Onde o senhor estudou?

Afonso colocou o chapéu.

Sorriu.

— Em muitos lugares.

— Quais?

— Alguns já nem existem.

— Como assim?

— O tempo leva tudo.

— Mas o senhor foi professor de quê exatamente?

Afonso pensou alguns segundos.

— De línguas antigas.

— Apenas isso?

— Apenas isso.

— Durante quanto tempo?

— Quarenta e sete anos.

Joaquim sentiu um arrepio.

Quarenta e sete anos.

Aquilo explicava muita coisa.

Mas não tudo.

Já na porta, Afonso virou-se novamente.

— Posso fazer uma observação?

— Claro — respondeu Archibaldo.

— Vejo que todos gostam muito das frases latinas.

— Sim.

— São belas.

— Concordo.

— Mas cuidado.

— Com o quê?

Afonso sorriu.

— Às vezes passamos tanto tempo admirando a chave, que esquecemos de abrir a porta.

Ninguém respondeu imediatamente.

Porque aquela frase não era latina.

Nem estava em nenhum livro.

Mas talvez tivesse sido a coisa mais sábia dita naquela mesa em muito tempo.

Quando ele saiu, Joaquim permaneceu imóvel.

Pensativo.

Depois olhou para os amigos.

— Isso estava em latim?

— Não — respondeu Matilde.

— Então por que pareceu tão importante?

Archibaldo observou a porta por onde Afonso desaparecera.

E respondeu calmamente:

— Porque a sabedoria não escolhe idioma.

Pela primeira vez em muitos anos, ninguém teve uma citação pronta para acrescentar.

E, curiosamente, aquilo tornou a conversa ainda melhor.


A partir desse momento, Afonso pode tornar-se uma espécie de mentor discreto do grupo, alguém que começa a mostrar que a verdadeira erudição não está em colecionar frases, mas em compreender profundamente as ideias por trás delas — o que criará situações divertidas, especialmente para Joaquim, e transformadoras para Archibaldo e Matilde.


Essa mudança poderia acontecer de forma quase imperceptível no início.

Afonso não corrigia ninguém diretamente. Quando Joaquim citava alguma frase grandiosa — muitas vezes sem compreender inteiramente o seu significado — ele apenas fazia uma pergunta simples:

— E o que isso quer dizer, exatamente?

Era uma pergunta devastadora.

Joaquim, acostumado a impressionar os outros com sentenças de filósofos, poetas e estadistas, descobria que repetir palavras era muito mais fácil do que explicá-las. Em várias ocasiões, começava um discurso confiante e terminava enrolado em definições contraditórias, para divertimento silencioso dos demais.

— Como dizia o grande pensador...

— Sim — interrompia Afonso com gentileza. — Mas o que ele queria dizer com isso?

Seguia-se um longo silêncio.

Matilde foi a primeira a perceber que havia algo diferente naquele homem. Enquanto muitos exibiam conhecimento, como quem exibe uma joia rara, Afonso parecia interessado apenas, em compreender.                                      Não demonstrava necessidade de vencer discussões, nem de parecer mais inteligente do que os outros. Quando não sabia algo, admitia-o sem constrangimento. Quando sabia, explicava com clareza surpreendente.

— Curioso — comentou Matilde certa vez. — Quanto mais o senhor sabe, menos faz questão de mostrar.

— Talvez porque o conhecimento sirva para iluminar as coisas, não para iluminar quem o possui — respondeu ele.

A frase permaneceu com ela durante dias.

Já Archibaldo viveu uma transformação mais profunda. Durante anos, confundira erudição com acumulação. Livros lidos, nomes memorizados, referências citadas.                                                                                              Afonso, porém, mostrava-lhe outro caminho: voltar às ideias centrais, examinar suas consequências, questioná-las.

Numa tarde, após uma longa conversa, Archibaldo fechou um dos seus volumosos tratados e suspirou.

— Passei metade da vida colecionando respostas.

— E a outra metade?

— Talvez eu devesse começar a fazer perguntas melhores.

Afonso sorriu.

— Agora está a estudar de verdade.

Enquanto isso, Joaquim tornava-se, involuntariamente, a principal fonte de humor do grupo. Cada nova citação era recebida com expectativa.

— Tenho aqui uma frase extraordinária de um filósofo alemão...

— Excelente — dizia Afonso. — Explique-nos.

Os demais escondiam o sorriso.

Pouco a pouco, o grupo inteiro começou a mudar. As conversas tornaram-se menos ornamentadas e mais profundas. Havia menos competição e mais curiosidade. Menos exibição e mais reflexão.

E sem jamais assumir oficialmente o papel de mestre, Afonso tornou-se exatamente isso: um mentor discreto, cuja maior lição consistia em lembrar aos outros que a sabedoria começa quando deixamos de querer parecer sábios.

mario moura

(do livro Pequenas histórias sem testemunhas   Ensaios   Vagas anotações)

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