O ABANDONO
O ABANDONO
Numa terça-feira abafada, quando o calor parecia adoecer ainda mais as paredes da instituição, Antônio estava sentado próximo à janela da sala comum, observando distraidamente o movimento lento das folhas no jardim.
Os outros internos dormiam diante da televisão ligada sem volume. O cheiro de desinfetante misturava-se ao de café requentado. Era uma tarde igual a tantas outras. Sem expectativa. Sem surpresa.
Até que ouviu seu nome.
— Antônio Carvalho?
A voz vinha do corredor.
Ele levantou os olhos devagar. Um homem alto, de cabelos completamente brancos e bengala de madeira nas mãos, permanecia parado na entrada. Vestia uma camisa simples de linho claro e carregava um velho chapéu entre os dedos.
Antônio estreitou os olhos, tentando reconhecer aquele rosto que o tempo transformara.
Então o visitante sorriu.
— Não vai dizer que esqueceu do sujeito que te devia vinte cruzeiros desde 1968.
Por um instante, Antônio ficou imóvel.
Depois levantou-se abruptamente, incrédulo.
— Raul?... Raul Menezes?
Os dois homens permaneceram se olhando em silêncio por alguns segundos, como se atravessassem décadas inteiras apenas com os olhos.
Então se abraçaram.
Um abraço lento, cansado, mas profundamente humano. Não havia força nele. Havia memória.
Os funcionários observaram discretamente a cena. Não estavam acostumados a visitas daquele tipo. Normalmente os parentes chegavam apressados, carregando culpa e justificativas. Mas aquele homem parecia trazer outra coisa consigo.
Presença.
Raul afastou-se um pouco e segurou os ombros do amigo.
— Você está mais feio do que eu imaginava.
Antônio riu pela primeira vez em muitos meses.
Uma risada curta, enferrujada, mas verdadeira.
Sentaram-se no jardim. E durante horas falaram como se o tempo tivesse apenas cochilado por alguns minutos. Recordaram o antigo bairro, os bailes de juventude, os trabalhos ruins, os amores fracassados, as loucuras da mocidade.
Raul contava histórias exageradas. Antônio ria até tossir.
Pela primeira vez desde sua internação, alguém não o tratava como um velho à espera do fim. Tratava-o como homem. Como amigo. Como alguém que possuía passado, voz e importância.
Quando o sol começou a cair, Raul ficou em silêncio por alguns instantes.
Observou o prédio antigo da instituição. Os corredores gastos. As janelas fechadas. Os rostos vazios caminhando lentamente atrás dos vidros.
Depois olhou novamente para Antônio.
— Quando soube que você estava aqui... não consegui dormir direito.
Antônio abaixou os olhos.
— Acontece.
— Não. Não acontece. Não deveria acontecer.
O vento balançou levemente as árvores do jardim.
Raul respirou fundo antes de continuar:
— Helena morreu há três anos.
Antônio levantou os olhos imediatamente.
— Eu não sabia...
— Nem como saberia? — respondeu com tristeza serena. — Depois que ela partiu, a casa ficou grande demais pra um homem sozinho. Grande e silenciosa.
Fez uma pausa.
— E eu pensei muito nesses últimos tempos... Nós passamos a vida inteira correndo atrás de dinheiro, obrigação, respeito... e no fim sobra o quê?
Antônio nada respondeu.
Raul então retirou os óculos lentamente.
— Sobra quem senta conosco quando o mundo inteiro resolve ir embora.
O silêncio entre os dois tornou-se pesado.
Então Raul falou de maneira simples, direta:
— Arrume suas coisas. Você vai morar comigo.
Antônio demorou a compreender.
— O quê?
— Você ouviu.
— Não diga bobagem...
— Bobagem é deixar um amigo morrer sozinho num lugar desses enquanto tenho quarto vazio em casa.
Antônio tentou sorrir, desconversar.
— Eu dou trabalho.
— Eu também dou.
— Sua família pode não gostar.
Raul soltou uma pequena risada amarga.
— Minha filha mora no Canadá. Meu filho só lembra que existo no Natal. Estamos empatados.
Os dois permaneceram em silêncio.
Antônio sentiu algo raro nascer dentro do peito.
Medo.
Porque depois de tanto abandono, a esperança assusta mais do que a tristeza.
— Não sei se consigo... — murmurou.
Raul apertou sua mão com firmeza.
— Escute, Antônio... a velhice já nos tira quase tudo. A força, o corpo, os sonhos que ficaram pelo caminho. Mas existe uma coisa que ela não deveria tirar.
— O quê?
— O direito de ainda pertencermos a alguém.
Os olhos de Antônio se encheram lentamente.
Não chorava pela família.
Nem pela solidão.
Chorava porque, depois de tanto tempo sendo tratado como peso morto, alguém ainda o enxergava como presença desejada dentro da própria vida.
Na manhã seguinte, os funcionários observaram algo incomum.
Antônio arrumava suas poucas roupas numa pequena mala antiga, enquanto Raul discutia com a administração detalhes da saída.
No quarto, sobre uma cômoda antiga e gasta pelo tempo, Antonio viu a caixa com os retratos da família, que o filho um dia lhe trouxera. Olhou-a, e seus olhos não expressaram sentimentos. Não a colocou entre os seus pertences, mas não a esqueceu, como se podia imaginar, simplesmente desprezou-a, abandonando-a, naquela cômoda, que contava muitas histórias de tempos passados. Assim como aqueles retratos, que já soavam estranhos...
Ao deixar a instituição, Antônio olhou uma última vez para o prédio cinzento.
Muitos idosos observavam das janelas.
E naquele instante compreendeu algo doloroso:
Às vezes, o abandono não mata apenas pela ausência de cuidado.
Mata porque convence o ser humano de que já não faz falta no mundo.
Raul abriu a porta do carro.
— Vamos?
Antônio demorou um segundo antes de entrar.
Depois respondeu baixinho:
— Vamos... antes que a vida mude de ideia.
mario moura
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