COVARDIA

 Escrever um conto sobre um velho aposentado, beirando seus novena anos, que dera para sair nu pela rua, e que fora internado pelo filho, pois sempre era agredido pela molecada, com pedradas, já tendo sido atendido diversas vezes, com ferimentos, alguns até com certa gravidade.


COVARDIA

Anselmo tinha oitenta e nove anos e um hábito novo, que aterrorizava a rua inteira: saía nu de casa.

Não era sempre. Às vezes passava uma semana tranquilo, sentado na cadeira de balanço da varanda, olhando o movimento da rua com um cobertor sobre os joelhos, mesmo no calor de novembro. Noutras vezes, porém, surgia no portão, antes do amanhecer, magro como um galho seco, a pele branca e cheia de manchas do tempo, e começava a caminhar descalço pela cidade, completamente nu, como se tivesse esquecido para que serviam as roupas.

No começo, os vizinhos tiveram pena.

— Coitado do velho… — diziam.

Depois vieram as risadas.

As crianças passaram a segui-lo. Adolescentes gravavam vídeos. Alguns homens, escondendo a crueldade atrás da palavra “brincadeira”, gritavam obscenidades das calçadas.

Anselmo não respondia. Caminhava devagar, olhando tudo com uma serenidade incompreensível. Às vezes sorria para as árvores. Às vezes, parava diante de vitrines fechadas e tocava o vidro, como quem reencontra um amigo antigo.

As primeiras pedras vieram num domingo.

Uma acertou-lhe o ombro. Outra abriu um corte atrás da orelha. Ele caiu de joelhos na rua, confuso, enquanto os meninos fugiam aos berros, excitados pela própria violência.

Foi levado ao hospital.

Depois veio outra pedrada. E outra.

Uma lhe rachou dois dentes. Outra atingiu o olho esquerdo. Houve ainda a noite, em que apareceu com a clavícula quebrada e sangue seco no peito, sem saber explicar o que acontecera.

— Eles estavam brincando — dizia ao filho.

Ricardo apertava os punhos.

Tinha sessenta e dois anos, diabetes, pressão alta e um cansaço antigo grudado nos ossos. Cuidar do pai, era como tentar segurar água nas mãos. Contratara cuidadoras. Colocara grades no portão. Escondeu roupas, trancou portas, amarrou sinos nas janelas.

Nada adiantava.

Anselmo escapava.

Sempre nu.

Sempre vulnerável.

Numa tarde chuvosa, Ricardo encontrou o pai sentado na praça central, cercado de moleques. Havia barro em suas pernas e uma pedra pequena presa entre seus dedos inchados. Não porque tivesse atacado alguém — Anselmo mal conseguia erguer os braços —, mas porque a segurava como uma criança segura um brinquedo.

Os meninos riam.

— Fala, vô pelado! Faz pose!

Um deles chutou-lhe as costas.

Ricardo avançou sobre o grupo como um animal. Agarrou um garoto pela camisa e quase o levantou do chão.

— Ele é um velho! Um velho!

Mas os meninos correram, espalhando gargalhadas pela praça molhada.

Naquela noite, enquanto limpava os arranhões do pai, Ricardo chorou pela primeira vez em anos.

— Eu não consigo mais.

Anselmo olhava a chuva pela janela.

— Sua mãe gostava de chuva forte — murmurou.

A mãe estava morta, havia vinte e sete anos.

Dois dias depois, Ricardo assinou os papéis da internação.

O asilo ficava numa antiga casa de fazenda, nos arredores da cidade, com corredores largos, cheiro de remédio e jardins silenciosos. As enfermeiras falavam baixo demais, como se todos ali fossem feitos de vidro.

Anselmo não reclamou.

Entrou no quarto, sentou-se na cama e perguntou:

— Quanto custa dormir aqui?

Ricardo não respondeu.

Passou as semanas seguintes tomado por uma culpa viscosa. Ia visitá-lo toda terça e sábado. Levava frutas, revistas velhas, às vezes broas de milho, que o pai mal tocava.

O estranho era que Anselmo parecia melhorar.

Já não tentava tirar a roupa. Conversava mais. Dormia sem calmantes. Certa vez até participou de uma roda de dominó, embora esquecesse as regras a cada cinco minutos.

Então, numa manhã de dezembro, uma enfermeira telefonou.

— O senhor precisa vir.

Ricardo chegou imaginando o pior.

Encontrou o pai no jardim.

Vestido.

Sentado sob uma mangueira.

Os olhos muito claros, perdidos no vento.

— Pai?

Anselmo ergueu a cabeça devagar.

— Ricardo… — disse, como se reconhecê-lo exigisse esforço. — Você lembra do rio?

— Que rio?

— O da fazenda do meu pai.

Ricardo não lembrava. Ou talvez lembrasse vagamente: um curso d’água barrento da infância, antes da família mudar para a cidade.

Anselmo sorriu.

— A gente nadava nu lá.

Ficaram em silêncio.

— Sabe por que eu tirava a roupa? — perguntou o velho.

Ricardo sentiu um aperto no peito.

— Não.

— Porque eu achava que estava voltando pra lá.

A resposta caiu entre os dois como alguma coisa sagrada e terrível.

Anselmo olhou para as próprias mãos.

— Mas a cidade ficou no caminho.

Na semana seguinte, morreu dormindo.

Sem ferimentos.

Sem pedras.

Vestido com um pijama azul-claro, que a enfermeira jurava que ele detestava.

No enterro, choveu forte.

E, pela primeira vez em muitos anos, Ricardo teve raiva, não da doença do pai, nem da velhice, nem do destino — mas da cidade inteira.

Daqueles meninos.

Das pessoas que riam.

Dos que filmavam.

Dos que chamavam de loucura, aquilo que talvez fosse apenas um homem perdido, entre tempos diferentes do mundo.

No fim da cerimônia, quando todos já iam embora, Ricardo permaneceu sozinho, diante da cova.

A chuva encharcava seu terno.

Então, por um instante breve e absurdo, ele compreendeu o pai.

Compreendeu o desejo de abandonar tudo que cobre, pesa e prende.

Compreendeu a vontade impossível de regressar ao lugar, onde ninguém sente vergonha do próprio corpo, porque ainda não aprendeu a ser cruel.

E chorou como criança.

Próximo ao cemitério, numa praça quase vazia, ao fim da tarde, um frade franciscano, dividia um banco de madeira com um homem ateu. Ao redor, pessoas passavam depressa, sem olhar umas para as outras.

— O senhor acredita mesmo que o homem nasceu para o bem? — perguntou o ateu, acendendo um cigarro. — Porque tudo o que vejo é o contrário. Gente humilhando gente. Crianças violentas. Adultos piores ainda.

O frade cruzou as mãos dentro das mangas do hábito.

— Acredito que o homem nasceu para reconhecer o outro como semelhante. Mas desaprendeu.

— Desaprendeu… ou nunca quis aprender?

O frade suspirou.

— Talvez ambas as coisas. A crueldade sempre existiu. O novo é o espetáculo da crueldade. Hoje as pessoas exibem o sofrimento alheio, como entretenimento.

— E chamam isso de liberdade — respondeu o ateu. — Liberdade para odiar, insultar, esmagar os mais fracos. Há prazer em perseguir vulneráveis. Mendigos, idosos, doentes, diferentes… Parece que a sociedade inteira, virou um coliseu romano.

— Porque a indiferença destrói primeiro a imaginação moral — disse o frade. — Quando alguém deixa de enxergar a dor do outro, qualquer violência se torna possível.

O ateu soltou a fumaça lentamente.

— Curioso ouvir isso de um religioso. Sempre achei que a religião explicasse o mal pelo pecado.

— E você acha que o mal nasce de quê?

— Da ausência de empatia. Da incapacidade de perceber que o outro sente medo, vergonha, humilhação. Quando isso desaparece, qualquer atrocidade encontra justificativa.

O frade sorriu discretamente.

— Não estamos tão distantes um do outro, afinal.

O homem deu de ombros.

— A diferença é que o senhor ainda acredita em redenção. Eu não sei mais se acredito.

O sino de uma igreja próxima tocou ao longe.

O frade observou um menino que ria, enquanto chutava uma pomba na calçada.

— A redenção talvez comece, quando alguém interrompe o gesto, antes que ele vire costume — disse baixinho. — O problema é que nossa época transformou a brutalidade em hábito.

O ateu apagou o cigarro no chão.

— E o hábito, depois de algum tempo, parece normal.

— Sim — respondeu o frade. — E quando a crueldade parece normal, os bons começam a se calar. Esse é o momento mais perigoso para qualquer sociedade.

Os dois permaneceram em silêncio.

Ao redor deles, a cidade continuava correndo, indiferente

Desenvolver as reflexões que cada um fazia em silêncio, sobre o diálogo recém feito.

O sino cessara havia alguns minutos, mas o eco parecia permanecer suspenso sobre a praça, misturado ao ruído distante dos carros e ao murmúrio indistinto da cidade.

O ateu mantinha os olhos fixos no chão.

Pensava no menino que chutara a pomba.

Não no gesto em si — crianças sempre foram capazes de pequenas crueldades —, mas na naturalidade do movimento. Não havia raiva no garoto. Nem prazer evidente. Apenas distração. Como quem empurra uma lata vazia pela rua.

Aquilo o perturbava mais do que a violência explosiva dos adultos.

A brutalidade sem consciência.

Lembrou-se então de um vídeo, que assistira dias antes: um velho humilhado numa fila de supermercado, filmado por dezenas de celulares. Ninguém o ajudava. As pessoas preferiam registrar o sofrimento. Transformá-lo em conteúdo. O homem gritava confuso, enquanto vozes ao redor riam.

O ateu sentiu um peso amargo no peito.

Talvez o pior da época, não fosse o ódio declarado, pensou, mas a incapacidade de reconhecer humanidade no outro. Como se as pessoas tivessem desaprendido de imaginar a dor alheia. O semelhante desaparecera. Restavam categorias, caricaturas, inimigos abstratos.

E sem o semelhante, tudo se permitia.

Humilhar.

Ridicularizar.

Agredir.

Eliminar.

Perguntou-se quando aquilo começara.

Talvez sempre tivesse existido, apenas oculto sob convenções frágeis. Agora, porém, a crueldade perdera a vergonha. Tornara-se pública, teatral, incentivada por plateias invisíveis.

O homem passou a mão pelo rosto cansado.

Pensou também em si mesmo.

Nas vezes em que permanecera calado.

Nas ocasiões em que fingira não ver.

Na facilidade com que o sofrimento distante, se transforma em paisagem cotidiana.

Sentiu uma culpa discreta e persistente.

Talvez a indiferença não fosse ausência de maldade, concluiu. Talvez fosse uma forma lenta e confortável de participação.

Ao lado dele, o frade também silenciava.

Mas seu pensamento seguia outro caminho.

Observava as pessoas atravessando a praça sem, se olharem. Rostos iluminados por telas. Passos rápidos. Expressões endurecidas por uma fadiga coletiva.

Recordou antigos textos monásticos, que descreviam a 'accídia' — não apenas a preguiça espiritual, mas uma espécie de anestesia da alma. Uma incapacidade de amar verdadeiramente o próximo. Uma secura interior que torna o sofrimento alheio irrelevante.

Talvez aquele fosse o verdadeiro espírito do tempo.

Não o demônio furioso das antigas pinturas religiosas, mas algo muito mais frio: a erosão gradual da compaixão.

O frade pensou nos pobres que atendia na paróquia.

Nos velhos, abandonados pelos filhos.

Nos jovens, consumidos pela humilhação cotidiana.

Nas crianças, que aprendiam cedo demais que fragilidade é motivo de escárnio.

Via crescer uma geração treinada para competir, ironizar e destruir, mas raramente ensinada a cuidar.

E o mais doloroso, refletia, era perceber que muitos já não conseguiam distinguir força de crueldade.

A brutalidade passara a parecer coragem.

A ausência de sensibilidade passara a parecer lucidez.

A zombaria passara a parecer inteligência.

O frade fechou os olhos por um instante.

Perguntou-se se a fé ainda tinha alguma linguagem, capaz de alcançar aquele mundo. As palavras antigas — misericórdia, fraternidade, caridade — pareciam frágeis diante do cinismo contemporâneo.

Mesmo assim, persistiam.

Talvez porque o ser humano continue necessitando, desesperadamente, de reconhecimento.

De ser visto.

De existir para alguém.

Pensou então, que todo ato genuíno de bondade, se tornara uma espécie de resistência moral.

Algo pequeno.

Quase invisível.

Mas essencial.

Quando abriu os olhos, percebeu que o ateu olhava a mesma praça com expressão semelhante à sua.

E ambos compreenderam, sem dizer palavra, que discordavam sobre Deus,

O diálogo retorna, depois de minutos silenciosos. O tema aborda a pena de morte, para crimes que ferem a dignidade humana, como o latrocinio, o estupro, a pedofilia, a usurpação da vida, e barbaridades que escapavam ao entendeimento humano

O silêncio entre os dois durou vários minutos.

A praça escurecia devagar. Os postes começavam a acender, e a cidade assumia aquela expressão cansada das noites urbanas — buzinas ao longe, passos apressados, vozes dispersas atravessando o vento.

Foi o ateu quem voltou a falar.

— Às vezes eu penso, que certos crimes ultrapassam qualquer possibilidade de compreensão humana.

O frade voltou o rosto lentamente.

— Como quais?

— Estupro de crianças. Tortura. Latrocínio cometido por prazer. Gente que mata idosos indefesos, moradores de rua adoecidos... a usurpação da vida... barbaridades desse tipo. — Fez uma pausa breve. 

— Há momentos em que a ideia de pena de morte, me parece razoável.

O frade não respondeu de imediato.

— Porque lhe parece razoável? — perguntou por fim.

— Porque alguns indivíduos destroem aquilo que existe de mais fundamental no outro: a dignidade, a inocência, a própria condição humana. Há crimes que deixam um rastro impossível de reparar. E sinceramente… — hesitou — …não sei se certas pessoas deveriam continuar vivendo em sociedade.

O frade observou as próprias mãos envelhecidas.

— Entendo sua revolta.

— Não é só revolta. É exaustão moral. A sensação de que o mal perdeu qualquer limite.

O religioso assentiu devagar.

— O problema é que toda sociedade, acredita saber, exatamente, quem é monstruoso… até começar a errar.

O ateu cruzou os braços.

— Então o que fazemos? Apenas prendemos e esperamos? Há criminosos, que jamais demonstram arrependimento.

— Talvez alguns realmente nunca demonstrem.

— E isso não basta?

O frade respirou fundo antes de responder.

— A questão não é apenas o criminoso. É aquilo que a punição faz com a própria sociedade. Quando o Estado mata, mesmo legalmente, ele ensina algo sobre o valor da vida.

— Mas o assassino também ensinou isso, à vítima.

— Sim. E justamente por isso, a sociedade precisa decidir se responderá reproduzindo a lógica da eliminação.

O ateu ficou em silêncio por alguns segundos.

— O senhor acredita que alguém, capaz de certas atrocidades, ainda conserve humanidade?

O frade demorou a responder.

— Não sei.

A sinceridade da resposta surpreendeu o outro.

— Achei que dissesse, imediatamente, que sim.

— Eu sou padre, não ingênuo. Já ouvi confissões terríveis. Já visitei presídios. Há rostos que assombram o sono de qualquer homem.

A praça parecia mais fria agora.

— Então, talvez exista um ponto, em que alguém se torna irreparável — insistiu o ateu.

— Talvez exista um ponto, em que nós deixamos de saber como responder ao mal, sem nos deformarmos junto com ele.

O homem ateu apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Mas e as vítimas? O que dizer às famílias destruídas?

Os olhos do frade escureceram de tristeza.

— Nada que realmente console.

A resposta veio quase num sussurro.

— Nenhuma filosofia, devolve uma criança assassinada. Nenhuma lei, apaga um estupro. Nenhuma sentença, recompõe uma vida devastada.

O ateu abaixou a cabeça.

— Então, por que sinto que a morte seria justa?

— Porque o sofrimento humano pede equivalência. É quase instintivo. Quando o horror é extremo, nasce o desejo de que o culpado desapareça do mundo.

O homem fitou o vazio da praça.

— E o senhor nunca sentiu isso?

O frade hesitou.

Demorou tanto, que a resposta pareceu surgir contra sua própria vontade.

— Já.

O ateu ergueu os olhos.

— Quando?

— Depois de ouvir o relato de uma mãe, cuja filha foi violentada e assassinada. Naquela noite, pela primeira vez na vida, compreendi intimamente o desejo de execução.

O vento atravessou as árvores.

— E o que o fez mudar de ideia?

O frade fechou os olhos, por um instante.

— O medo.

— Medo de quê?

— De descobrir que o ódio também pode parecer moralmente puro, quando nasce da dor. E talvez seja exatamente aí, que ele se torna mais perigoso.

Os dois permaneceram calados novamente.

Ao longe, uma sirene cortou a noite.

E ambos sentiram, ainda que por razões diferentes, que certas perguntas jamais encontram respostas capazes de trazer paz.

mario moura

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