O REENCONTRO INESPERADO (O abandono)

Escrever um conto sobre um idoso, abandonado numa instituição de longa pemanencia pela família, lá fica sem receber a visita dos filhos e outros familiares. Ficava horas com o olhar perdido, numa ansiedade silenciosa, na esperança de alguém apaecer para visita-lo. Os enfermeiros observavam à distancia, tristes com aquela situação. Um dia, recebe a visita de um velho amigo, que o convida para ir morar com ele, o que aceita de pois de relutar.

Seu Joaquim já não sabia distinguir os dias. Na instituição de longa permanência, o tempo parecia dissolver-se entre o cheiro de café morno, o ranger das cadeiras no corredor e o som distante da televisão ligada na sala comum. As manhãs chegavam silenciosas, e as tardes se arrastavam pesadas, como nuvens carregadas que nunca desabavam em chuva.

Ele ocupava sempre a mesma cadeira, ao lado da janela. Dali, observava o portão principal com uma esperança teimosa que insistia em sobreviver dentro dele. Às vezes ajeitava o cabelo ralo, passava a mão na camisa limpa e perguntava às enfermeiras:

— Hoje é domingo?

Mesmo quando não era.

Domingo significava visitas.

Nos primeiros meses, os filhos ainda apareciam de vez em quando. Vinham apressados, olhando o relógio, trazendo bolachas, frutas e promessas.

— Semana que vem voltamos, pai.

Mas as semanas viraram meses.

Depois, nem telefonemas.

Seu Joaquim nunca reclamava. Apenas esperava.

Os enfermeiros conheciam aquele olhar. Dona Célia, técnica de enfermagem há vinte anos, costumava observá-lo de longe enquanto organizava os remédios dos residentes. Via aquele homem magro, de mãos trêmulas, encarando o portão como quem espera um milagre atrasado.

Às vezes ele permanecia ali por horas, imóvel, com os olhos perdidos numa ansiedade silenciosa. Quando algum carro estacionava do lado de fora, seu corpo inteiro despertava. Endireitava-se na cadeira, o coração correndo mais depressa.

Mas nunca era para ele.

Então baixava novamente os olhos.

Certa tarde chuvosa, enquanto os outros idosos cochilavam diante da televisão, a campainha tocou. Dona Célia foi atender. Encontrou um senhor alto, de boina escura e bengala de madeira.

— Procuro Joaquim Ferreira — disse o visitante.

Seu Joaquim ergueu lentamente a cabeça ao ouvir o próprio nome.

Por alguns segundos, ficou imóvel, como se a memória precisasse atravessar décadas até reconhecer aquele rosto envelhecido.

Então seus olhos se encheram.

— Augusto?

O homem sorriu.

— Pensei que você já tivesse me esquecido, velho teimoso.

Os dois se abraçaram demoradamente. Um abraço lento, pesado de saudade e de anos perdidos.

Augusto começou a visitá-lo todos os dias. Conversavam sobre juventude, pescarias, bailes antigos e histórias que só sobrevivem na memória dos velhos amigos. Pela primeira vez em muito tempo, Seu Joaquim voltou a rir.

Os enfermeiros percebiam a mudança. Já não passava horas olhando o portão. Agora aguardava apenas o som da bengala de Augusto ecoando pelo corredor.

Até que, numa manhã clara de setembro, Augusto sentou-se ao lado dele e falou sem rodeios:

— Joaquim… vá morar comigo.

O velho arregalou os olhos.

— Está maluco? Eu só daria trabalho.

— Trabalho é abandonar um amigo sozinho esperando gente que nunca vem.

Seu Joaquim abaixou a cabeça. Os dedos tremiam sobre o colo.

— Aqui pelo menos não incomodo ninguém…

Augusto segurou firme sua mão.

— Você passou a vida inteira ajudando os outros. Está na hora de deixar alguém cuidar de você.

Durante dias, Joaquim relutou. O medo era maior que a vontade. Medo de incomodar, de adoecer, de ser rejeitado outra vez.

Mas Augusto insistiu.

E numa manhã tranquila, sob o olhar emocionado dos enfermeiros, Seu Joaquim voltou ao pequeno quarto para arrumar seus poucos pertences. Abriu lentamente a velha mala marrom sobre a cama estreita. Dobrou duas camisas gastas, um casaco de lã e guardou um barbeador antigo dentro de uma necessaire desbotada.

No quarto, sobre a cômoda antiga e gasta pelo tempo, Antonio viu a caixa com os retratos da família, que o filho um dia lhe trouxera. Olhou-a, e seus olhos não expressaram sentimentos.  

Não a colocou entre os seus pertences, mas não a esqueceu, como se podia imaginar, simplesmente desprezou-a, abandonando-a numa gaveta da velha cômoda, que contava muitas histórias de tempos passados, assim como aqueles retratos, que já soavam estranhos... Antes, pegou uma das fotos nas mãos trêmulas.  Ficou alguns segundos, olhando-a. Nenhum sentimento lhe veio, apenas um vazio cansado.  Recolocou-a na caixa...

Às vezes, o abandono não mata apenas pela ausência de cuidado.  Mata porque convence o ser humano de que já não faz falta no mundo.

Com um gesto seco, empurrou a caixa para o fundo de uma gaveta da velha cômoda, abandonando ali as lembranças, que durante anos haviam alimentado sua espera inútil.  Fechou a gaveta com desprezo silencioso, como quem finalmente enterrava uma dor antiga.

Depois segurou a mala e respirou fundo.

Ao deixar o quarto, lançou um último olhar para a porta entreaberta, porque sabia, que o último olhar encerrava parte da sua história, do seu abandono.

Não havia tristeza em seus olhos.  Apenas alívio.

Enquanto o carro de Augusto seguia lentamente pela rua, o velho amigo comentou:

— Ainda temos tempo para viver muita coisa, meu amigo.

Seu Joaquim sorriu pela janela.

E pela primeira vez em muitos anos, já não esperava mais por ninguém.


expandir o conto descrevendo melhor os hábitos de Joaquim, sua paixão pelos livros, principalmente os de História e os de Filosofia. Seu autor preferido Schopenhauer.


Seu Joaquim já não sabia distinguir os dias. Na instituição de longa permanência, o tempo parecia dissolver-se entre o cheiro de café morno, o ranger das cadeiras no corredor e o som distante da televisão ligada na sala comum. As manhãs chegavam silenciosas, e as tardes se arrastavam pesadas, como nuvens carregadas que nunca desabavam em chuva.

Tinha oitenta e dois anos, passos lentos e uma elegância antiga que o abandono ainda não conseguira destruir completamente. Todas as manhãs, antes mesmo do café, penteava cuidadosamente os poucos fios brancos diante do espelho rachado do quarto. Fazia a barba com calma, usando um barbeador antigo que guardava desde a juventude. Depois vestia sempre a mesma combinação: calça de tecido escuro, camisa bem passada e um velho suéter marrom nos dias frios.

Os enfermeiros admiravam aquele cuidado quase solene consigo mesmo.

— Seu Joaquim parece que vai receber visita importante todo dia — comentava Dona Célia.

E, de certo modo, era verdade.

Ele esperava.

Esperava desde o dia em que os filhos o deixaram ali com promessas rápidas e abraços apressados.

— É só por um tempo, pai.

Mas o tempo se tornara permanente.

Seu Joaquim ocupava sempre a mesma cadeira ao lado da janela principal. Dali observava o portão com uma esperança silenciosa que insistia em sobreviver. Quando algum carro diminuía a velocidade na rua, seus olhos imediatamente despertavam. Endireitava a postura, ajeitava a manga da camisa e aguardava.

Nunca era para ele.

Ainda assim, no domingo seguinte, voltava a esperar.

Mas havia algo que mantinha sua alma parcialmente viva: os livros.

No pequeno quarto da instituição, acima da velha cômoda de madeira escura, existia uma prateleira improvisada onde repousavam seus poucos tesouros. Livros gastos, de páginas amareladas e lombadas cansadas pelo tempo. História Antiga, guerras napoleônicas, Império Romano, filosofia alemã e clássicos gregos.

Seu Joaquim lia como quem tenta escapar.

Passava horas mergulhado na leitura, enquanto os demais residentes dormiam diante da televisão, ou repetiam conversas esquecidas. Lia devagar, sublinhando frases com um lápis pequeno que carregava no bolso do suéter.

Seu autor preferido era Arthur Schopenhauer.

Gostava especialmente das passagens mais melancólicas. Dizia que Schopenhauer compreendia a solidão humana como poucos.

Certa vez, Dona Célia perguntou:

— O senhor não acha esses livros tristes demais?

Ele fechou lentamente o exemplar gasto que tinha nas mãos e respondeu com um sorriso cansado:

— Os livros tristes são os mais honestos.

À noite, depois do jantar, tinha outro hábito. Sentava-se sozinho no jardim interno da instituição com um cobertor sobre as pernas e um livro aberto no colo. Mesmo quando já não conseguia ler por causa da luz fraca, permanecia ali, apenas segurando o volume nas mãos, como se aquilo lhe fizesse companhia.

Os enfermeiros observavam aquela rotina com uma tristeza discreta. Havia algo profundamente doloroso naquele homem culto, gentil e silencioso que parecia ter sido lentamente apagado pela própria família.

Às vezes ele permanecia horas olhando o portão, imóvel, com os olhos perdidos numa ansiedade silenciosa. Outras vezes lia trechos inteiros de História em voz baixa, como um professor falando para alunos invisíveis.

Gostava especialmente de narrar batalhas antigas.

— Os homens sempre destroem aquilo que amam… impérios, famílias, amizades… — murmurava.

Ninguém sabia exatamente, quando Seu Joaquim começara a desistir.

Talvez tenha sido no último aniversário, quando esperou o dia inteiro por uma visita, que nunca veio.

Ou talvez naquela tarde em que encontrou, por acaso, um dos filhos no supermercado próximo à instituição, e o homem fingiu não vê-lo.

Depois disso, passou a falar menos.

Apenas lia.

Certa tarde chuvosa, enquanto os outros idosos cochilavam diante da televisão, a campainha tocou. Dona Célia foi atender. Encontrou um senhor alto, de boina escura e bengala de madeira.

— Procuro Joaquim Ferreira — disse o visitante.

Seu Joaquim ergueu lentamente a cabeça ao ouvir o próprio nome.

Por alguns segundos, ficou imóvel, como se a memória precisasse atravessar décadas até reconhecer aquele rosto envelhecido.

Então seus olhos se encheram.

— Augusto?

O homem sorriu.

— Pensei que você já tivesse me esquecido, velho teimoso.

Augusto fora seu amigo de juventude. Haviam estudado juntos, frequentado bibliotecas, discutido filosofia em cafés baratos e dividido sonhos numa época em que o futuro ainda parecia vasto.

Os dois se abraçaram demoradamente. Um abraço lento, pesado de saudade e anos perdidos.

Augusto começou a visitá-lo todos os dias.

Conversavam sobre livros, guerras antigas, política, envelhecimento e morte. Discutiam Schopenhauer, Nietzsche e Marco Aurélio como dois velhos professores aposentados que ainda se recusavam a abandonar o pensamento.

Pela primeira vez em muito tempo, Seu Joaquim voltou a rir.

Os enfermeiros percebiam a mudança. Já não passava horas olhando o portão. Agora aguardava apenas o som da bengala de Augusto ecoando pelo corredor.

Até que, numa manhã clara de setembro, Augusto sentou-se ao lado dele e falou sem rodeios:

— Joaquim… vá morar comigo.

O velho arregalou os olhos.

— Está maluco? Eu só daria trabalho.

— Trabalho é abandonar um amigo sozinho esperando gente que nunca vem.

Seu Joaquim abaixou a cabeça. Os dedos tremiam sobre o colo.

— Aqui pelo menos não incomodo ninguém…

Augusto segurou firme sua mão.

— Você passou a vida inteira ajudando os outros. Está na hora de deixar alguém cuidar de você.

Durante dias, Joaquim relutou. O medo era maior que a vontade. Medo de incomodar, de adoecer, de ser rejeitado outra vez.

Mas Augusto insistiu.

E numa manhã tranquila, sob o olhar emocionado dos enfermeiros, Seu Joaquim voltou ao pequeno quarto para arrumar seus poucos pertences.

Abriu lentamente a velha mala marrom sobre a cama estreita. Dobrou duas camisas gastas, um casaco de lã e guardou o barbeador antigo dentro da necessaire desbotada.

Depois caminhou até a pequena prateleira.

Passou os dedos sobre os livros, como quem se despede de velhos companheiros de guerra. Escolheu apenas alguns: um volume sobre o Império Romano, “Meditações”, de Marco Aurélio, e seu exemplar mais amado de Schopenhauer,  "Aforismos para a sabedoria na vida", completamente marcado por anotações nas margens.

Sobre a cômoda repousava uma caixa de retratos coberta por fina camada de poeira. Fotografias dos filhos ainda crianças, aniversários, natais antigos, a esposa sorrindo numa praia distante.

Joaquim aproximou-se devagar. Pegou uma das fotos nas mãos trêmulas.

Ficou alguns segundos olhando.

Nenhuma lágrima veio.

Apenas um vazio cansado.

Com um gesto seco, empurrou a caixa para o fundo da velha cômoda, abandonando ali as lembranças, que durante anos haviam alimentado sua espera inútil. Fechou a gaveta com desprezo silencioso, como quem finalmente enterrava uma dor antiga.

Então colocou os livros dentro da mala.

Porque algumas memórias merecem ser esquecidas.

Outras, salvas.

Ao deixar o quarto, lançou um último olhar para a porta entreaberta.

Não havia tristeza em seus olhos.

Apenas alívio.

Enquanto o carro de Augusto seguia lentamente pela rua, o velho amigo comentou:

— Ainda temos tempo para viver muita coisa, meu amigo.

Seu Joaquim apoiou a mão sobre o livro de Schopenhauer em seu colo e sorriu discretamente pela janela.

E pela primeira vez em muitos anos, já não esperava mais por ninguém.


Peparar o fechamento do conto, com uma profunda reflexão sobre o abandono dos idosos, pela família, condenando-os a solidão e a perda de sua identidade familiar.

O carro seguiu lentamente pelas ruas da cidade enquanto o entardecer derramava tons dourados sobre os prédios antigos. Seu Joaquim permanecia em silêncio, segurando no colo o exemplar gasto de Schopenhauer. Augusto dirigia sem pressa, respeitando aquele silêncio que não era tristeza, mas uma espécie de despedida interior.

Pela janela, Joaquim observava pessoas caminhando apressadas pelas calçadas, filhos falando ao telefone sem olhar para os pais idosos que os acompanhavam alguns passos atrás, velhos sentados sozinhos em bancos de praça, alimentando pombos e esperando que o dia terminasse.

Pensou então em quantos homens e mulheres envelheciam daquela mesma forma: não apenas abandonados em quartos silenciosos, ou instituições esquecidas, mas lentamente apagados da memória das próprias famílias.

Porque o pior abandono não é a ausência física.  É quando alguém deixa de ser importante.

Quando o velho pai se transforma num peso inconveniente. Quando a mãe, que embalou febres, medos e infâncias, passa a ser vista como obstáculo para rotinas modernas demais, para comportar a velhice. Quando histórias, conselhos e lembranças, deixam de interessar.

O abandono destrói primeiro o pertencimento, depois destrói a identidade.

Aos poucos, muitos idosos deixam de ser chamados pelo nome. Tornam-se “o avô”, “a velha”, “o doente”, “o aposentado”. Perdem espaço nas mesas, nas fotografias recentes, nas conversas de domingo e, por fim, na própria memória afetiva da família.

Continuam vivos. Mas deixam de existir dentro da vida daqueles que amam.

Seu Joaquim conhecera homens, que morreram dias depois da última esperança de visita. Mulheres que passavam horas, penteando os cabelos brancos diante do espelho, apenas para esperar filhos que nunca apareciam. Idosos que fingiam dormir, para esconder a humilhação de ver todos receberem visitas, menos eles.

A solidão da velhice não faz barulho. Ela corrói devagar.  Silenciosamente.

Como ferrugem na alma.

E talvez por isso doa tanto.

Porque envelhecer, deveria ser chegar ao fim da vida cercado, pelas mãos que um dia seguramos para ensinar a caminhar. Mas, para muitos, a velhice transforma-se num exílio emocional, onde o afeto é substituído pela pressa, e a presença pela obrigação ocasional.

Augusto percebeu os olhos marejados do amigo.

— No que está pensando?

Seu Joaquim demorou um pouco, antes de responder.

— Que existem abandonos que acontecem muito antes da morte.

Depois apertou o livro contra o peito e fechou os olhos cansados.

Mas, naquela tarde, pela primeira vez em muitos anos, ele já não carregava a dor de esperar.

Porque às vezes a família verdadeira não é aquela que compartilha o mesmo sangue.  É aquela que permanece.

mario moura

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