A REALIDADE OCULTA DA FICÇÃO
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escrever um conto sobre famoso escritor, com obras premiadas, decide afastar-se dos círculos literários, recolhendo-se em um pequeno sítio. Após algum tempo, passa a se sentir perseguido por um dos seus personagens, que na narrativa do romance, herdara uma fortuna, adoece e morre. Inconformado, passa a perseguir seu criador, intererogando-o sobre sua decisão de condená-lo à morte, impedindo-o de gozar da fortuna.
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A REALIDADE OCULTA DA FICÇÃO
O escritor já tivera tudo: prêmios, traduções, aplausos em auditórios lotados. Seu nome circulava como referência incontornável da literatura contemporânea. Ainda assim, numa manhã sem alarde, recusou um convite para uma conferência internacional, ignorou mensagens de editores e, sem aviso, retirou-se para um pequeno sítio no interior.
A casa era simples, cercada por árvores antigas e um silêncio que, a princípio, parecia cura. Levou consigo apenas alguns livros, um caderno e a intenção de não escrever mais. Durante semanas, caminhou pelos arredores, consertou cercas, observou o céu. Sentia-se, enfim, livre da expectativa alheia.
Mas a liberdade começou a se desfazer em detalhes quase imperceptíveis.
Primeiro, foram sonhos vívidos — sempre o mesmo homem, elegante, de olhar cansado. Depois, a sensação de estar sendo observado. Portas rangiam sem vento, passos pareciam ecoar no assoalho durante a noite. O escritor atribuía tudo ao isolamento, até que, certa tarde, ao voltar da horta, encontrou alguém sentado na varanda.
O homem do sonho.
Vestia-se com sobriedade, como um herdeiro de antiga fortuna. O rosto, porém, tinha uma palidez inquietante, como se a vida lhe tivesse sido retirada antes do tempo.
— Demorou — disse o visitante, com voz firme. — Eu esperava mais de você.
O escritor não perguntou quem era. No fundo, já sabia.
Era o personagem.
Aquele que criara anos antes — o homem que herdava uma fortuna inesperada, apenas para adoecer e morrer sem jamais desfrutá-la. Um final que fora amplamente elogiado pela crítica como “trágico e inevitável”.
— Você não pode estar aqui — murmurou o escritor.
— Não posso? — o personagem levantou-se lentamente. — Você me fez existir. Devo aceitar também como me apagou?
Os dias seguintes tornaram-se um confronto constante. O personagem aparecia em diferentes cantos da casa, sempre com a mesma pergunta:
— Por quê?
O escritor tentava racionalizar, explicar estrutura narrativa, necessidade dramática, coerência temática. Falava de simbolismo, de como a morte dava sentido à história.
O personagem não aceitava.
— Sentido para quem? — insistia. — Para você? Para leitores que nunca viveram o que eu vivi?
Com o tempo, a presença tornou-se mais intensa. O personagem tossia — a mesma doença que o consumira no livro — deixando marcas invisíveis no ar. Sua figura enfraquecia, mas sua revolta crescia.
— Você me deu riqueza — disse certa noite — e me negou o tempo. Que tipo de crueldade é essa?
O escritor começou a duvidar de si mesmo. Passava horas relendo o antigo romance, tentando encontrar justificativas. Cada frase, antes admirada, agora parecia uma sentença fria.
Até que, numa madrugada silenciosa, tomou uma decisão.
Sentou-se à mesa, abriu o caderno que jurara não usar mais e começou a escrever.
O personagem observava, imóvel.
Linha após linha, o escritor reescreveu o destino daquele homem. Removeu a doença, prolongou seus dias, deu-lhe viagens, amores, erros, redenções. Deu-lhe, sobretudo, tempo.
Quando terminou, o sol já surgia no horizonte.
O personagem parecia diferente. Mais leve.
— Então é isso? — perguntou ele, com uma expressão quase serena.
O escritor assentiu, exausto.
— Agora você pode viver.
O personagem sorriu — pela primeira vez — e começou a desaparecer, como se fosse dissolvido pela luz da manhã.
Antes de sumir por completo, deixou uma última frase:
— Cuidado com os outros.
O escritor ficou sozinho novamente.
Mas não em paz.
Pois, ao fechar o caderno, ouviu, vindo de algum lugar da casa, outro passo.
E percebeu, com um arrepio lento, que havia criado muitos personagens.
E nem todos estavam satisfeitos.
A noite caiu pesada sobre o sítio, como se o céu tivesse decidido se aproximar da terra apenas para escutar melhor. O escritor já não confiava no silêncio — aprendera que ele escondia presenças.
Estava à mesa, relendo o que escrevera na madrugada anterior — a nova vida concedida ao herdeiro — quando ouviu o som seco de algo sendo arrastado do lado de fora. Não era o vento. Não era um animal.
Era intenção.
A porta não rangeu desta vez. Abriu-se com firmeza, como se obedecesse a alguém acostumado a ser atendido.
Bob entrou.
O escritor o reconheceu de imediato, embora sua criação fosse menos detalhada do que a do herdeiro. Ainda assim, havia algo nele que se impunha: o olhar duro, a postura rígida, a presença carregada de uma raiva antiga, cuidadosamente cultivada.
— Então é verdade — disse Bob, avançando alguns passos. — Você o trouxe de volta.
O escritor respirou fundo.
Bob não era apenas um personagem secundário. Era o contraponto. O inimigo visceral de Renato — o herdeiro. Aquele que jamais aceitara sua ascensão repentina, sua fortuna inesperada, sua mudança de círculo social.
— Eu corrigi uma injustiça — respondeu o escritor, tentando sustentar a própria voz.
Bob riu, mas não havia humor ali.
— Injustiça? — aproximou-se mais. — Você o fez herdar tudo. Fez com que nos desprezasse, abandonasse o grupo, nos tratasse como se fôssemos poeira. E depois… matou-o.
Ele inclinou a cabeça, analisando o escritor como quem avalia uma peça defeituosa.
— Aquilo era justiça.
O escritor sentiu o peso das palavras.
— Era uma história — insistiu. — Eu precisava de um arco, de consequências.
— Consequências? — Bob agora estava perto demais. — Eu vivi as consequências. Fui deixado para trás enquanto ele desfilava entre ricos, fingindo ser o que nunca foi. Você o elevou… e depois o puniu.
Fez uma pausa.
— E agora o absolve?
O silêncio que se seguiu não era vazio — era acusação.
— Eu dei a ele uma segunda chance — disse o escritor.
— E a mim? — retrucou Bob, imediatamente.
A pergunta ficou suspensa no ar, como algo que jamais fora considerado.
O escritor hesitou.
Bob começou a caminhar pela casa, observando tudo, tocando nos objetos como se testasse sua realidade.
— Sabe o que acontece quando você muda o destino de um personagem? — disse, sem olhar diretamente para o escritor. — Você não altera apenas uma vida. Você desorganiza todas as outras.
Parou diante da janela.
— Se ele vive… — continuou — então eu continuo sendo o homem que ele desprezou. O homem que assistiu sua ascensão. O homem que foi deixado para trás.
Virou-se lentamente.
— Meu ressentimento não morreu com ele. Você acha que pode simplesmente apagá-lo?
O escritor não respondeu.
Porque sabia que não podia.
Bob se aproximou mais uma vez, agora com uma calma ainda mais perturbadora do que a raiva.
— Você não escreveu meu fim — disse em tom baixo. — Não me deu doença. Não me deu redenção. Nem sequer me deu compreensão.
Seus olhos fixaram-se nos do criador.
— Eu fui condenado a continuar.
O escritor sentiu um frio profundo.
— O que você quer?
Bob sorriu, mas era um sorriso vazio.
— Equilíbrio.
A palavra caiu como uma sentença.
— Se ele vive… — disse Bob — então algo em mim precisa mudar. Ou alguém precisa pagar o preço.
O vento finalmente atravessou a casa, fazendo as páginas do caderno se agitarem. O escritor olhou para ele, para a história que alterara com tanto esforço — e percebeu que ela não lhe pertencia mais.
Quando voltou os olhos, Bob já não estava na porta.
Estava atrás dele.
— Você começou isso — sussurrou.
O escritor fechou os olhos por um instante, compreendendo, tarde demais, que não bastava reescrever finais.
Era preciso enfrentar tudo o que vinha antes deles.
E talvez já fosse impossível.
Nos dias que se seguiram ao encontro com Bob, o escritor abandonou qualquer tentativa de descanso. Dormia pouco, comia menos ainda. A mesa tornou-se trincheira, e o caderno — agora acompanhado por pilhas de folhas soltas — transformou-se em campo de batalha.
Seus personagens já não eram criações: eram presenças.
E exigiam.
A solução que encontrou foi radical.
Reviu todo o romance.
Linha por linha, cena por cena, começou a reescrever a narrativa com um único objetivo: eliminar aqueles que o confrontavam. Não apenas Bob — cuja sombra ainda parecia rondar os cantos da casa — mas todos os personagens que, de alguma forma, carregavam perguntas, dúvidas, tensões mal resolvidas.
Cortou diálogos inteiros. Apagou encontros. Reduziu histórias paralelas a menções vagas ou simplesmente as fez desaparecer. Onde antes havia conflito, deixou silêncio. Onde havia consciência, deixou vazio.
O herdeiro permaneceu — agora mais isolado do que nunca. Rico, saudável, vivo… mas cercado por figuras rasas, quase decorativas. Pessoas que não questionavam, não resistiam, não exigiam nada além de existir na margem de sua trajetória.
O romance tornou-se mais simples.
Limpo.
Controlável.
Quando terminou, o escritor sentiu algo próximo de alívio. Pela primeira vez em dias, a casa parecia quieta. Nenhum passo, nenhuma voz, nenhuma pergunta atravessava o ar.
— Resolvido — murmurou para si mesmo.
Mas a tranquilidade durou pouco.
Naquela noite, ao reler a nova versão, algo começou a incomodá-lo.
A história… não respirava.
Faltava tensão, faltava vida. Os acontecimentos seguiam sem resistência, como se nada estivesse realmente em jogo. O herdeiro vivia, sim — mas sua existência parecia oca, desprovida de significado.
O escritor folheou mais rápido, buscando alguma centelha do que antes fizera o romance pulsar.
Não encontrou.
Então percebeu.
Não eram os personagens que o incomodavam.
Era o conflito que eles traziam.
E, ao eliminá-los, eliminara também aquilo que dava sentido à narrativa.
Um arrepio percorreu sua espinha.
Porque, naquele instante, um pensamento mais perturbador surgiu:
Se os personagens só existiam plenamente quando podiam confrontá-lo… então o silêncio atual não era paz.
Era ausência.
E ausência… também é uma forma de morte.
Ele fechou o caderno lentamente.
A casa continuava quieta.
Mas dessa vez, o silêncio não parecia ameaçador.
Parecia vazio demais.
E o vazio, percebeu com um peso crescente no peito, talvez fosse pior do que qualquer perseguição.
Sentado à mesa, diante do caderno agora silencioso, o escritor permaneceu longos minutos sem escrever uma única palavra. Não havia mais passos pela casa, nem vozes, nem presenças a desafiá-lo. Ainda assim, sentia-se menos em paz do que quando era confrontado.
Passou os dedos pelas páginas, como se procurasse vestígios do que fora perdido. Então, quase sem perceber, começou a pensar — não como autor, mas como alguém que já não tinha certeza do próprio papel.
“Valia a pena?”, perguntou a si mesmo.
Dar vida àqueles personagens fora, durante anos, um gesto natural, quase inevitável. Criar significava expandir o mundo, explorar conflitos, dar forma a inquietações que não cabiam apenas nele. Mas em nenhum momento havia considerado que essas figuras — nascidas de sua imaginação — pudessem, de algum modo, voltar-se contra ele.
E no entanto, voltaram.
Não com armas, nem com violência, mas com algo mais incômodo: perguntas.
Perguntas que ele mesmo evitara.
“O que é existir dentro de uma história?”, pensou. “E quem decide o limite dessa existência?”
Sempre acreditara que o autor era soberano. Que podia conceder ou retirar destinos, moldar vidas conforme a necessidade da narrativa. Mas agora, diante da lembrança daqueles encontros, essa certeza parecia frágil.
Porque seus personagens não pediam apenas para existir.
Eles pediam coerência.
Pediam sentido.
E, sobretudo, pediam justiça — não a justiça literária, que serve ao impacto da obra, mas uma justiça interna, própria, que fizesse suas trajetórias parecerem legítimas dentro do mundo que habitavam.
O escritor apoiou a testa nas mãos.
“Talvez o erro não tenha sido criá-los”, murmurou. “Mas acreditar que eles não tinham nada a dizer depois de criados.”
Eliminar personagens fora fácil, tecnicamente. Bastava apagar, reescrever, ajustar. Mas o que o inquietava agora não era a técnica — era a implicação.
Se criar uma consciência, ainda que fictícia, gera conflito… então o ato de escrever não é controle.
É responsabilidade.
Ele ergueu o olhar para o caderno.
Ali, nas páginas reescritas, estava uma história sem resistência, sem questionamento, sem exigência. Uma história obediente.
E, por isso mesmo, sem vida.
Talvez — pensou — o verdadeiro valor daqueles personagens estivesse justamente no incômodo que provocavam. Na capacidade de tensionar suas decisões, de expor fragilidades, de exigir mais do que soluções fáceis.
“Eles não queriam existir apenas”, concluiu em silêncio. “Queriam existir bem.”
E isso — percebeu com um leve desconforto — era algo que nem mesmo ele, fora da ficção, tinha certeza de conseguir.
Fechou o caderno, mas não com a sensação de encerramento.
Desta vez, havia uma escolha diante dele.
Poderia continuar escrevendo histórias silenciosas, seguras, onde nada o desafiava.
Ou poderia aceitar o risco de criar personagens que, de algum modo, também o criassem de volta.
Ficou ali, entre uma possibilidade e outra, sem decidir.
Porque, pela primeira vez, escrever já não era apenas um ato de criação.
Era um diálogo.
E ele ainda não sabia se estava pronto para escutar.
O primeiro traço desse novo romance não veio como frase, mas como renúncia.
O escritor abriu o caderno sem impor tema, sem definir enredo, sem sequer escolher um protagonista. Pela primeira vez, recusou o impulso de decidir antes que algo existisse. Limitou-se a escrever um início neutro, quase vazio — um espaço onde alguém pudesse surgir.
E alguém surgiu.
Não como antes, moldado, descrito, conduzido. Mas como presença que se afirmava.
Uma mulher apareceu primeiro. Não esperou que ele a vestisse: escolheu roupas leves, de cores que o escritor não teria pensado em combinar. Sentou-se à beira de uma rua que ainda não existia completamente e começou a comer algo simples — pão com fruta — como se aquilo fosse suficiente para definir seu dia.
O escritor hesitou em descrevê-la melhor.
Ela não permitiu.
Cada tentativa de adjetivá-la era recusada, como se fosse uma imposição indevida. Aos poucos, ele entendeu: não cabia a ele dizer quem ela era. Cabia a ela revelar-se — ou não.
Outros vieram.
Um homem que decidiu ser músico, mas não por talento: por insistência. Um jovem que mudou de profissão três vezes em poucas páginas, sem justificativa, apenas porque queria experimentar possibilidades. Dois personagens se apaixonaram sem qualquer preparação narrativa — e, da mesma forma, decidiram se afastar, não por conflito, mas por escolha.
O romance começou a se formar como um território instável.
Não havia estrutura tradicional, nem progressão clara. Eventos não obedeciam a causas evidentes. O tempo parecia flexível, às vezes avançando, às vezes se dobrando conforme a vontade de quem o habitava.
O escritor tentava acompanhar.
Mas frequentemente se perdia.
— Isso não faz sentido — escreveu certa vez, quase como protesto.
Uma resposta surgiu na margem, com uma caligrafia que não era a sua:
— Para quem?
Ele parou.
A partir dali, compreendeu que sua função havia mudado radicalmente. Não era mais criador no sentido clássico. Tornara-se registrador, talvez intérprete — alguém que observava e traduzia, mas não decidia.
E isso trouxe um novo tipo de inquietação.
Se antes seus personagens o confrontavam por decisões tomadas, agora o desafiavam pela ausência delas.
Havia beleza nessa autonomia. Os personagens respiravam de maneira mais livre, mais imprevisível. Suas escolhas, ainda que caóticas, carregavam uma autenticidade que ele jamais conseguira fabricar sozinho.
Mas havia também um custo.
Sem limites claros, algumas histórias se desfaziam antes de ganhar forma. Relações surgiam e desapareciam sem deixar marcas. Certos personagens simplesmente abandonavam o romance, como se pudessem sair de cena quando quisessem — e podiam.
O escritor começou a perceber que liberdade absoluta não garantia profundidade.
Numa noite particularmente silenciosa, escreveu uma pergunta no centro da página:
“Vocês realmente querem isso?”
Desta vez, não houve resposta imediata.
As páginas permaneceram quietas por algum tempo, como se até os personagens precisassem refletir.
Quando a resposta veio, não foi em palavras, mas em movimento.
A mulher do início retornou. Sentou-se novamente, desta vez em um espaço mais definido. Olhou ao redor, como se reconhecesse algo incompleto. Então, pela primeira vez, hesitou.
E chamou alguém.
Outro personagem se aproximou. Depois outro. Aos poucos, começaram a interagir de forma mais duradoura, não porque o escritor determinara, mas porque perceberam que certas escolhas ganhavam mais sentido quando compartilhadas.
O romance começou, lentamente, a adquirir alguma forma.
Não imposta.
Negociada.
O escritor observava, atento.
Talvez — pensou — autonomia não significasse ausência total de estrutura, mas a possibilidade de construí-la de dentro para fora.
Ele voltou a escrever, agora com mais cuidado.
Não para controlar.
Mas para sustentar.
E, pela primeira vez desde que tudo começara a ruir, sentiu que talvez houvesse um equilíbrio possível — um ponto em que criar e escutar não fossem opostos, mas parte do mesmo gesto.
O romance não era mais apenas dele.
Mas também não deixara de ser.
Era algo novo.
Algo vivo.
E, como tudo que vive, ainda incerto.
Com o tempo, a casa voltou a ser apenas casa.
Os passos cessaram. As portas já não se abriam sozinhas. Nenhuma voz atravessava a madrugada com perguntas incômodas. No lugar da tensão constante, instalou-se uma quietude diferente — não o vazio opressivo de antes, mas um silêncio habitado à distância.
Os personagens continuavam ali.
Mas agora conversavam entre si.
O escritor os percebia como quem escuta um murmúrio vindo de outro cômodo: diálogos que se desenrolavam sem sua intervenção, escolhas que se encadeavam por vontade própria, vínculos que se formavam sem a necessidade de serem autorizados. Já não exigiam respostas, nem explicações. Haviam encontrado entre si aquilo que antes buscavam nele.
E isso bastava.
Ele voltou ao caderno pela última vez, não para alterar, nem para corrigir. Apenas para encerrar.
Pensou em tudo o que atravessara: a ilusão inicial de controle, o confronto com suas próprias criações, a tentativa de silenciá-las, o fracasso desse silêncio, e, por fim, a entrega.
Então escreveu:
“O que é, afinal, este processo que chamamos de criação?”
A pergunta não era retórica. Era quase um reconhecimento tardio de ignorância.
Durante anos, acreditara que escrever era um ato de domínio — um exercício de vontade em que personagens nasciam, viviam e morriam conforme a necessidade de uma ideia. Mas essa experiência recente havia deslocado essa certeza.
Porque, em algum ponto difícil de precisar, a ficção deixara de parecer inteiramente ficção.
Os personagens, ainda que frutos de sua imaginação, haviam demonstrado uma espécie de coerência interna que não dependia apenas dele. Como se, uma vez iniciados, passassem a obedecer a regras próprias — invisíveis, mas consistentes.
“Até onde isso é invenção?”, escreveu.
E mais:
“Até onde é descoberta?”
O escritor apoiou a caneta.
Talvez criar não fosse dar origem a algo do nada, mas acessar possibilidades que já existiam em um plano menos evidente — um território onde histórias, vozes e conflitos aguardavam apenas um meio de se manifestar.
Se fosse assim, seu papel não seria o de um soberano.
Mas o de um intermediário.
Alguém que escuta, organiza, traduz.
Alguém que oferece forma, mas não essência.
Essa ideia não o diminuía, como poderia ter acontecido antes. Havia, nela, uma estranha serenidade. Como se escrever deixasse de ser um ato solitário de imposição e se tornasse uma colaboração com algo maior — ainda que indefinido.
Ele fechou o caderno.
Não havia mais nada a acrescentar.
O romance estava completo, não porque ele decidira, mas porque já não havia tensão a resolver, nem vozes a contestar. Os personagens seguiam, autônomos, dentro daquele mundo que agora lhes pertencia.
E o escritor… permanecia do lado de fora.
Não excluído.
Mas consciente de seu lugar.
Talvez secundário.
Talvez essencial.
Talvez ambos.
Saiu para a varanda. O céu estava limpo, silencioso, vasto.
E, pela primeira vez, não sentiu necessidade de explicar nada.
mario moura
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