UM ESCRITOR, SEUS PERSONAGENS E UM CONFLITO

Um conto sobre um escritor que se debate na construção de um dos seus personagens, que se desenhava com um perfil que dominava tiranicamente os demais, na narrativa. A inquietação de construir um tirano, leva-o a refletir sobre o poder nas relações familiares e sociais.

(TEXTO REVISADO)

UM ESCRITOR, SEUS PERSONAENS E UM CONFLITO

O escritor já não sabia se era ele quem criava o personagem, ou se era o personagem que o escrevia. Sentado diante da tela em branco, com o cursor piscando como um coração impaciente, ele tentava domar aquela figura que surgira quase por acaso — um homem de presença esmagadora, cuja vontade dobrava todos ao redor.

No início, parecia simples. Seria apenas um antagonista: alguém rígido, autoritário, talvez até cruel. Mas, conforme as páginas avançavam, o personagem crescia de forma desproporcional. Invadia cenas que não lhe pertenciam, silenciava vozes que deveriam ter importância, reorganizava a história ao seu bel-prazer. Tornava-se, pouco a pouco, o eixo de tudo.

O escritor fechou o arquivo, inquieto.

“Por que ele precisa dominar tanto?”, murmurou.

A pergunta ecoou além da ficção. Ele começou a perceber que aquela tirania não era apenas narrativa — era familiar. Recordou-se do pai, cuja palavra era lei à mesa; das reuniões em que ninguém ousava discordar do tio mais velho; das relações profissionais onde o poder se disfarçava de competência, mas operava como controle.

O personagem não era invenção. Era síntese.

De volta ao texto, o escritor tentou enfraquecê-lo. Introduziu falhas, hesitações, pequenos momentos de vulnerabilidade. Mas o tirano reagia — não aceitava ser diminuído. Em cada diálogo, encontrava formas de recuperar o domínio, de manipular, de impor sua visão.

“Talvez o problema não seja ele”, pensou o escritor. “Talvez sejam os outros.”

E então percebeu: os demais personagens haviam sido construídos para ceder. Tinham sido moldados para evitar conflito, para aceitar, para sobreviver à força do outro. Não era apenas o tirano que precisava mudar — era o mundo ao redor dele.

Reescreveu tudo.

Deu voz a quem antes se calava. Criou resistência onde havia submissão. Introduziu confronto, não como violência, mas como afirmação. E, pela primeira vez, o tirano hesitou. Sua força já não era absoluta. Seu poder encontrava limites.

O escritor respirou fundo.

Não havia eliminado o personagem — apenas o colocado em relação. E nisso encontrou uma estranha paz: o poder, afinal, não existe sozinho. Ele se sustenta nas estruturas que o permitem.

Ao salvar o arquivo, percebeu que sua inquietação não era sobre escrever um tirano, mas sobre entender por que, tantas vezes, permitimos que existam.

E, talvez, como na ficção, a resposta começasse em dar voz a quem sempre foi escrito em silêncio.

O escritor, já imerso demais em suas próprias construções, começou a suspeitar que havia deslocado demais a responsabilidade. Durante capítulos inteiros, o controle parecia nascer do Estado, das normas, das estruturas. Mas algo não fechava. Havia momentos — pequenos, quase invisíveis — em que o controle surgia mesmo na ausência de qualquer regra explícita.

Foi isso que o fez parar.

E se o impulso de controlar não fosse apenas político, mas humano?

Ele voltou ao texto com outro olhar. Passou a observar não apenas o tirano, nem apenas o Estado difuso, mas os gestos cotidianos entre os personagens. Um corrigia a fala do outro. Outro decidia por alguém “para o seu bem”. Pequenas interferências, justificadas por cuidado, eficiência, amor.

Lina, que antes parecia uma força de desestabilização externa, também não escapou desse novo enquadramento. Em uma cena, ao tentar abrir espaço para que um personagem se expressasse, ela interrompe outro. Quase imperceptível — mas ali estava: a tentativa de conduzir, de direcionar, de moldar o fluxo.

O escritor hesitou ao escrever isso.

Seria incoerente? Ou inevitável?

Começou então a perceber que o controle podia ser menos uma imposição consciente e mais uma inclinação profunda — uma forma de lidar com a incerteza. Controlar o outro, a situação, o ambiente… talvez fosse, em parte, uma tentativa de organizar o caos, de reduzir o imprevisível que tanto inquieta.

O tirano, nesse novo recorte, deixava de ser uma exceção monstruosa e se tornava uma intensificação. Ele não era diferente em natureza — apenas em grau. Onde outros sugeriam, ele impunha. Onde outros influenciavam, ele dominava.

Essa percepção desconcertou o escritor.

Se o controle é um dado da personalidade humana, então nenhuma estrutura — nem mesmo as mais libertárias — estaria completamente livre dele. Ideologias poderiam deslocá-lo, disfarçá-lo, redistribuí-lo… mas dificilmente eliminá-lo.

Na narrativa, isso começou a aparecer como uma espécie de tensão permanente. Mesmo nos espaços criados por Lina, onde as hierarquias eram questionadas, surgiam disputas sutis: quem fala mais, quem define os temas, quem interpreta melhor o que é “liberdade”.

— Até a recusa em controlar pode virar uma forma de controle — escreveu o autor, quase como uma nota para si mesmo.

O silêncio que se seguiu a essa frase foi diferente. Não era mais o silêncio imposto pelo medo ou pela norma, mas um silêncio reflexivo, incômodo. Como se os personagens — e o próprio escritor — estivessem confrontando algo que não podia ser facilmente resolvido.

Ele percebeu então que talvez o objetivo não fosse erradicar o controle, mas torná-lo visível. Reconhecer quando ele emerge, como se manifesta, a quem serve. Talvez a ética não estivesse em negá-lo, mas em interrogá-lo constantemente.

O tirano continuava existindo. O Estado também. Lina, com todas as suas contradições, permanecia ativa. Mas agora havia algo mais difuso, atravessando todos: uma consciência incipiente de que o poder não é apenas uma estrutura externa, mas uma possibilidade interna.

Ao fechar o capítulo, o escritor não sentiu alívio. Sentiu algo mais complexo — uma espécie de lucidez desconfortável.

E escreveu, como última linha:

“O problema não é apenas quem nos controla, mas o quanto desejamos controlar — e o que fazemos com esse desejo quando o reconhecemos.”

Um personagem secundário, Pedro, obscuro e silencioso, pergunta como quem não quer nada: e se o Estado for apenas um reflexo da natureza humana de organizar e controlar?

Pedro quase não existia na narrativa. Era desses personagens que ocupam bordas: escuta mais do que fala, aparece sem anúncio, sai sem deixar rastro. O escritor mal havia lhe dado atenção — talvez por isso mesmo ele permanecesse livre de excessos, não capturado por nenhuma função clara.

Foi numa cena aparentemente banal que Pedro falou.

Os personagens discutiam — Lina, o tirano, outros que orbitavam entre tensão e hesitação. Falavam do Estado, da liberdade, das normas. As posições já começavam a se repetir, como se cada um ocupasse um lugar previsível naquele tabuleiro.

Pedro, encostado à janela, disse quase em tom de distração:

— E se o Estado for só um reflexo da gente? Dessa necessidade de organizar… e controlar?

Ninguém respondeu de imediato.

O silêncio não era de desinteresse, mas de deslocamento. A pergunta não atacava diretamente ninguém, nem defendia algo específico. Ela dissolvia fronteiras.

O tirano foi o primeiro a reagir, mas com menos firmeza do que o habitual:

— Então você está dizendo que ele é inevitável?

Pedro deu de ombros.

— Talvez não inevitável… mas compreensível.

Lina franziu levemente o rosto. Não como quem rejeita, mas como quem reconhece um terreno mais difícil.

— Se for assim — disse ela —, o problema não está só nas instituições. Está em como a gente se relaciona. Em como a gente lida com o outro, quando ele escapa do que esperamos.

O escritor percebeu que algo sutil estava acontecendo: Pedro não enfraquecia o debate — ele o aprofundava, retirando dele qualquer possibilidade de solução simples.

Se o Estado é reflexo, combatê-lo sem se transformar seria inútil. Se o controle nasce também do humano, nenhuma reorganização externa bastaria.

Mas Pedro não desenvolvia teorias. Permanecia econômico, quase ausente. Sua pergunta, porém, continuava operando.

Outro personagem, antes calado, arriscou:

— Então a gente cria o que depois diz que nos oprime?

Pedro não respondeu diretamente.

— A gente cria… e depois esquece que criou.

O escritor parou nessa frase.

Havia ali uma inversão poderosa: o Estado não apenas organiza a vida coletiva, mas também cristaliza impulsos humanos — dando-lhes forma, permanência, legitimidade. O que em um indivíduo é gesto, em uma estrutura vira regra. O que é desejo de controle vira sistema.

O tirano, nesse momento, pareceu menor — não porque perdeu poder, mas porque deixou de ser origem. Tornou-se sintoma.

Lina, por sua vez, não abandonou sua posição, mas a deslocou:

— Então talvez a questão não seja destruir o Estado — disse ela —, mas impedir que ele congele aquilo que deveria estar sempre em movimento.

Pedro esboçou um leve sorriso, quase imperceptível.

O escritor percebeu que, diferente dos outros, Pedro não buscava conduzir a narrativa. Ele introduzia fissuras e recuava. Não queria vencer o debate — queria torná-lo impossível de encerrar-se.

E isso, de forma paradoxal, era uma das intervenções mais profundas até então.

Ao reler a cena, o escritor entendeu que havia dado voz a algo essencial: a ideia de que o poder não é apenas imposto ou resistido, mas produzido — continuamente — pelas próprias formas de ser e de conviver.

Pedro voltou ao silêncio depois disso. Mas já não era invisível.

Sua pergunta permanecia, ecoando além das páginas:

Se o Estado é reflexo, o que estamos dispostos a ver quando olhamos para ele?

Seria o Estado uma condição inevitável da existência humana?

O escritor hesitou antes de responder — não como narrador, mas como alguém implicado na própria pergunta que ecoava agora entre seus personagens.

A questão de Pedro não permitia atalhos: se o Estado é reflexo de impulsos humanos — organizar, prever, controlar, proteger — então a pergunta sobre sua inevitabilidade não pode ser separada da pergunta sobre nós mesmos.

Na narrativa, isso começou a se desdobrar em camadas.

O tirano foi o primeiro a reivindicar a inevitabilidade:

— Sempre que há muitos, alguém precisa decidir. Sempre que há conflito, alguém precisa arbitrar. Sem isso, o que sobra é desordem.

Mas dessa vez, sua fala não encerrava o assunto. Parecia mais uma tentativa de fixar algo que começava a escapar.

Lina respondeu com cautela, como quem pisa em terreno instável:

— Talvez a organização seja inevitável. Mas isso não significa que precise assumir sempre a forma de um Estado centralizado, rígido, permanente.

O escritor percebeu então um deslocamento importante: a discussão deixava de ser “Estado ou não Estado” e passava a ser “que formas de organização emergem — e por quê?”.

Pedro, como de costume, não tomou partido. Apenas acrescentou:

— A gente confunde o que aparece com o que é necessário.

Essa frase abriu outra fissura.

Talvez o Estado, como o conhecemos, não seja inevitável — mas recorrente. Uma resposta frequente a problemas reais: coordenação, organização, controle, convivência em larga escala. Ele surge porque resolve algo… mas também porque cristaliza certas tendências humanas, como o desejo de estabilidade e o medo do imprevisível.

O escritor começou a enxergar que a inevitabilidade pode estar menos na instituição e mais na tensão que a produz: entre liberdade e ordem, entre autonomia e coordenação, entre diferença e convivência.

Na narrativa, isso se refletiu em pequenos experimentos. Grupos de personagens tentavam se organizar sem hierarquia fixa. Em alguns momentos, funcionava — havia cooperação, escuta, fluidez. Em outros, surgiam impasses, decisões adiadas, conflitos difíceis de resolver.

E, quase sem perceber, alguém começava a assumir mais responsabilidade. Outro passava a ser mais ouvido. Estruturas informais emergiam.

— Está vendo? — disse o tirano, com um meio sorriso — sempre volta.

Mas Lina não recuou:

— Volta… mas não precisa voltar igual.

O escritor entendeu que essa era talvez a resposta mais honesta que a narrativa podia oferecer: não uma afirmação categórica sobre inevitabilidade, mas o reconhecimento de padrões — e da possibilidade de transformá-los.

O Estado pode ser uma forma recorrente de organizar a vida coletiva porque responde a necessidades humanas profundas. Mas isso não o torna imutável, nem único, nem acima de questionamento.

Pedro, ao final da cena, acrescentou algo que soou menos como conclusão e mais como provocação:

— Talvez a pergunta não seja se ele é inevitável… mas o quanto estamos dispostos a reinventá-lo.

O escritor fechou o capítulo sem resolver a questão. E percebeu que isso não era falha — era fidelidade à complexidade do tema.

Porque algumas perguntas não pedem resposta definitiva.

Pedem vigilância constante.

mario moura

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