NÃO HÁ O FORA...

Escerver um conto em que um psicólogo começa a ter sonhos que se repetem, como narrativas, onde seus clientes são personagens de histórias fantasticas e irreais

O psicólogo Henrique sempre acreditou que sonhos eram apenas ecos da mente — fragmentos desconexos organizados pelo inconsciente. Era isso que ensinava, repetia e escrevia em seus artigos. Até que os sonhos começaram.

NÃO HÁ O LADO DE FORA...

Na primeira noite, ele estava em um castelo antigo, cercado por paredes cobertas de hera viva que sussurrava seu nome. Diante dele, uma mulher vestida de prata chorava em silêncio. 

Quando ela levantou o rosto, Henrique reconheceu imediatamente: era Clara, sua paciente que sofria de ansiedade severa. Mas ali, naquele lugar impossível, ela não parecia frágil — parecia aprisionada.

— Você demorou — disse ela, com voz firme. — A história não pode continuar sem você.

Henrique acordou com o coração disparado. Anotou tudo, como fazia com sonhos incomuns. Coincidência, pensou.

Mas na noite seguinte, ele voltou.

O castelo estava diferente. Havia uma porta aberta, que antes não existia. Clara não estava mais lá. Em vez disso, um homem com armadura quebrada caminhava em sua direção. Era Marcos, seu paciente depressivo, que mal conseguia sair da cama na vida real.

— Eu lutei — disse Marcos, segurando uma espada partida. — Mas não sei contra o quê.

Henrique começou a perceber um padrão inquietante. A cada noite, o sonho continuava exatamente de onde havia parado. Era uma narrativa contínua, como se ele estivesse dentro de um livro que se escrevia sozinho.

E seus pacientes... não eram apenas versões deles mesmos. Eram personagens.

Clara era uma rainha presa por uma maldição invisível. Marcos, um cavaleiro derrotado por batalhas internas que ninguém via. Sofia, sua paciente obsessiva, surgiu como uma alquimista que tentava controlar o tempo — repetindo experimentos infinitamente, incapaz de aceitar erros.

Cada sessão durante o dia parecia ecoar à noite, mas transformada. Henrique começou a notar que aquilo não era apenas simbólico. As escolhas que ele fazia nos sonhos alteravam o comportamento de seus pacientes na vida real.

Quando ele ajudou Marcos a reconstruir sua espada no sonho, Marcos apareceu na consulta dizendo que, pela primeira vez em meses, conseguiu sair para caminhar.

Quando ele libertou Clara do castelo — ao convencê-la de que a prisão não tinha portas porque ela nunca tentou sair — Clara começou a questionar seus próprios medos.

Henrique passou a temer dormir.

Porque, aos poucos, percebeu algo ainda mais perturbador: ele também estava mudando.

No sonho, começou a existir uma figura que o observava — um narrador invisível, uma presença que corrigia o rumo das histórias quando Henrique interferia demais.

Numa noite, finalmente ouviu a voz:

— Você não é o autor.

— Então o que eu sou? — perguntou Henrique, sentindo o peso da resposta antes mesmo de ouvi-la.

— Você é só mais um personagem que esqueceu disso.

Na manhã seguinte, Henrique acordou diferente. Seus pacientes estavam lá, como sempre. Mas algo havia mudado em seus relatos.

— Doutor — disse Clara, com um leve sorriso —, eu tive um sonho estranho com um castelo… e você estava lá.

Henrique ficou em silêncio.

Pela primeira vez, ele não sabia distinguir quem estava ajudando quem — ou se havia, de fato, alguma diferença.

E naquela noite, quando fechou os olhos, ele não entrou na história.

Ele foi chamado por ela.


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Naquela noite, Antonio não conseguiu dormir.

Virava de um lado para o outro, como se o corpo recusasse o repouso e a mente se recusasse ao silêncio. As palavras do diário não o deixavam — não como lembranças, mas como presenças. Cada frase parecia continuar sendo pensada dentro dele, como se Henrique tivesse apenas iniciado raciocínios que agora se completavam em outra consciência.

Ele se sentou na beira da cama, os pés tocando o chão frio.

Algo estava errado.

Não era apenas inquietação. Era uma espécie de chamado sem som.

Levantou-se.

Caminhou até a janela.

E então viu.

As luzes da casa estavam acesas.

Não uma.

Todas.

A chácara, que durante semanas fora um bloco escuro e silencioso, agora brilhava como se estivesse em pleno funcionamento. Não havia movimento visível, nenhuma sombra passando pelas janelas — apenas a iluminação constante, firme demais para ser casual.

Antonio ficou imóvel.

A primeira reação foi lógica: alguém entrou na casa.

Mas essa hipótese não se sustentou por muito tempo. Não havia sinais durante o dia. Nenhum carro. Nenhuma mudança.

E, ainda assim…

as luzes estavam acesas.

Ele sentiu o mesmo desconforto de antes, mas agora mais definido. Não era apenas presença.

Era atividade.

Sem perceber exatamente quando decidiu, Antonio já estava do lado de fora. Caminhando. Atravessando o terreno escuro, guiado pela luz distante.

Cada passo parecia inevitável.

A casa estava igual.

E completamente diferente.

A porta, antes entreaberta, agora estava fechada.

Mas não trancada.

Ele a empurrou.

Desta vez, o interior não estava mergulhado em abandono.

A poeira parecia… perturbada. Como se o ar tivesse sido movimentado recentemente. As luzes iluminavam tudo com uma clareza quase excessiva, eliminando sombras, mas não o desconforto.

Antonio entrou.

E então percebeu.

O silêncio não era ausência de som.

Era contenção.

Como uma sala onde algo importante está prestes a ser dito.

Ele caminhou até a mesa.

O caderno ainda estava lá.

Mas não como ele havia deixado.

Estava aberto.

Na última página.

E havia algo novo.

Uma anotação que não estava ali antes.

A caligrafia era familiar.

Mas não idêntica à de Henrique.

Mais firme.

Mais… estável.

Antonio leu:

Escrita

“Paciente apresenta resistência moderada.

Contato inicial bem-sucedido.

Reconhecimento em fase de transição.

Intervenção direta iminente.”

O coração de Antonio acelerou.

Ele não precisava ler o nome.

Sabia.

Mesmo assim, seus olhos desceram pela página.

E lá estava.

Antonio fechou o caderno de uma vez, como se o gesto pudesse interromper algo maior.

Mas não interrompeu.

Porque, atrás dele, uma voz — calma, precisa, profissional — quebrou o silêncio contido:

— Você decidiu voltar.

Antonio não se virou imediatamente.

Dessa vez, não foi o medo que o deteve.

Foi a compreensão.

Lenta. Incômoda. Irreversível.

Ele havia passado a vida inteira acreditando que observava o mundo de fora.

Agora começava a suspeitar…

que nunca estivera realmente fora de nada.

Quando finalmente se virou, a sala parecia a mesma.

Mas a pergunta já estava feita.

E, de algum modo, respondida.

As luzes não estavam acesas para iluminar a casa.

Estavam acesas para ele.


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Antonio não voltara a ser o mesmo.

Antonio não voltara a ser o mesmo.

A mudança não foi brusca, nem evidente para quem o encontrava casualmente. Ele continuava cumprimentando os vizinhos, comprando pão nas manhãs quentes, caminhando devagar pelas ruas de terra. Mas havia algo deslocado nele — não no comportamento, mas no modo como ocupava o próprio silêncio.

Antes, Antonio observava o mundo.

Agora, parecia escutá-lo.

Com atenção excessiva.

Como se cada pausa escondesse uma continuidade que os outros não percebiam.

As noites tornaram-se seu verdadeiro território. Dormir deixou de ser descanso; era acesso. E, ao contrário de Henrique, Antonio não resistia mais. Havia aprendido algo essencial ao ler aquele caderno, ao ouvir aquela voz, ao ver as luzes se acenderem sem causa visível:

A resistência não interrompia o processo.

Apenas o tornava mais confuso.

Então ele parou de resistir.

Na terceira noite após voltar à casa, o sonho veio com clareza inédita.

Ele não “entrou” nele.

Já estava lá.

A sala.

Simples. Iluminada. Familiar de uma forma que não dependia da memória.

Desta vez, havia duas cadeiras ocupadas.

Antonio reconheceu imediatamente.

Henrique estava sentado de um lado, postura calma, olhar atento — não mais fragmentado, não mais perdido. Havia nele uma estabilidade que beirava o inquietante.

Do outro lado… um espaço vazio.

Esperando.

— Sente-se — disse Henrique, com naturalidade.

Antonio não hesitou.

Sentou.

Por um instante, nada foi dito. O silêncio não era desconfortável. Era estrutural, como se fosse parte necessária daquilo.

Então Henrique falou:

— Quando você entrou na casa, achou que estava investigando.

Antonio assentiu, lentamente.

— Mas já estava sendo observado.

Antonio não respondeu.

Porque sabia.

Sentia isso agora com uma clareza quase dolorosa.

— A diferença entre nós — continuou Henrique — é que você percebeu mais rápido.

— Percebi o quê? — perguntou Antonio, finalmente.

Henrique inclinou levemente a cabeça, como se a pergunta fosse esperada.

— Que não há “fora”.

O silêncio voltou.

Mas, dessa vez, Antonio entendeu algo que antes lhe escapava.

Não era uma explicação.

Era um ajuste.

Uma reorganização interna.

Como se sua mente estivesse sendo reposicionada dentro de algo maior.

— E você? — perguntou Antonio. — O que aconteceu com você?

Henrique não respondeu de imediato.

Quando o fez, sua voz era neutra demais para ser tranquilizadora:

— Eu parei de tentar sair.

Antonio sentiu um leve aperto no peito.

Não de medo.

Mas de reconhecimento.

Na manhã seguinte, ele acordou sentado na própria cadeira da cozinha.

O sol já alto.

Um caderno aberto à sua frente.

Não o de Henrique.

Outro.

Novo.

Com sua própria caligrafia.

Ele não lembrava de ter escrito, mas reconhecia cada traço.

Na página, uma anotação simples:

Escrita

“Primeiro contato estabelecido sem resistência significativa.

Paciente demonstra adaptação progressiva.

Estrutura permanece estável.

Sessão continuará.”

Antonio fechou o caderno devagar.

Respirou fundo.

E, pela primeira vez, não tentou explicar.

Porque algo dentro dele já sabia:

A casa não estava vazia.

Nunca estivera.

E agora…

também não estava mais fora dele.


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vendeu a chácara, e desapareceu.

Antonio vendeu a chácara, e desapareceu.

A negociação foi rápida demais para um lugar que, até pouco tempo, ninguém queria sequer mencionar. Um comprador apareceu sem muita barganha, sem perguntas, interessado apenas na escritura, na localização, na posse imediata.

Antonio não discutiu preço.

Não discutiu nada.

Assinou.

Os vizinhos acharam estranho, mas não surpreendente. Já não era o mesmo homem. Havia nele uma pressa silenciosa, não de fugir, mas de concluir algo.

Nos últimos dias antes da venda, foi visto poucas vezes. Sempre sozinho. Sempre com um caderno nas mãos.

Diferente do de Henrique.

Mais espesso.

Mais usado.

Depois disso, sumiu.

Sem despedidas. Sem aviso. Sem rastros claros.

Mas deixou uma última coisa.

O novo proprietário, ao entrar na casa pela primeira vez, encontrou-a limpa demais. Como se tivesse sido preparada — não para abandono, mas para continuidade.

Sobre a mesa, havia um caderno.

Não era antigo.

Não tinha poeira.

E estava aberto.

Na primeira página, uma anotação em caligrafia firme:

Escrita

“Transferência concluída sem intercorrências.

Ambiente preservado.

Novo observador integrado ao ciclo.”

O comprador leu sem entender.

Virou a página.

Uma lista de nomes.

Endereços.

Perfis.

Entre eles, um que lhe causou um desconforto imediato — embora não soubesse explicar por quê.

O seu próprio.

Abaixo, uma observação:

“Ceticismo funcional. Curiosidade latente. Tendência à permanência.”

Ele fechou o caderno com um gesto seco, como se pudesse interromper algo antes que começasse.

Mas, ao erguer os olhos, teve a estranha sensação de que a casa já não era apenas um lugar.

Era um ponto.

De passagem.

De continuidade.

Naquela mesma noite, ao deitar-se pela primeira vez no quarto ainda estranho, demorou a dormir.

Mas quando dormiu…

não houve transição.

A sala estava lá.

A luz.

O silêncio estruturado.

E, desta vez, três cadeiras ocupadas.

Henrique.

Antonio.

E alguém que ainda não compreendia completamente o próprio papel.

— Bem-vindo — disse Antonio, com a mesma calma que um dia ouvira de Henrique.

O homem tentou falar, mas hesitou.

Porque, no fundo, algo já começava a se organizar dentro dele.

Não como medo.

Mas como reconhecimento.

A casa nunca precisou de moradores.

Apenas de participantes.

E, em algum lugar distante, impossível de localizar no mapa ou na memória…

Antonio continuava.

Não como quem fugiu.

Mas como quem seguiu adiante dentro daquilo que nunca teve começo claro — e talvez nunca tenha fim.

mario moura

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