A HISTÓRIA DE ABANDONO E AMOR DO GATO FUBÁ

A HISTÓRIA DE ABANDONO E AMOR DO GATO FUBÁ 

Um pequeno romance sobre amizade, cuidado e amor verdadeiro 

Capítulo 1 

A Caixa na Praça 

 A noite estava fria. O vento atravessava as árvores da pequena praça do bairro São Miguel, carregando folhas secas e o cheiro distante da chuva. 

Os postes lançavam círculos amarelados sobre os bancos vazios, enquanto os cachorros de rua procuravam abrigo debaixo dos carros. No canto mais escuro da praça, perto do velho coreto abandonado, havia uma caixa de papelão molhada pela garoa. 

 Dentro dela, encolhido sobre um pano velho, estava um gatinho negro. Pequeno. Frágil. Recém-nascido. Seu pelo era tão escuro quanto a própria noite. Apenas os olhos, ainda meio fechados, brilhavam como duas pequenas estrelas acesas. Ele miava baixinho. Um miado quase sem força. Como quem pedia ao mundo uma chance de viver. 

 As horas passavam lentamente. Algumas pessoas cruzavam a praça apressadas, protegendo-se da chuva. Ninguém percebia a caixa. 

Ninguém escutava aquele miado perdido no vento. O gatinho tremia. Tinha fome. Tinha frio. Tinha medo. E estava sozinho... Muito sozinho. Até que, perto das sete da manhã, uma menina apareceu. Seu nome era Aninha. Ela tinha nove anos, cabelos cacheados, presos em duas tranças e um olhar curioso, que parecia enxergar o que os outros não viam. 

 Naquele dia, Aninha atravessava a praça a caminho da escola, segurando uma sombrinha azul, cheia de pequenas estrelas desenhadas. Foi então que ouviu. 

 — Miau... Miau... 

 Ela parou. Olhou ao redor. Escutou novamente. 

 — Miiiaaau... 

 O som vinha do canto escuro perto do coreto. Aninha caminhou devagar até a caixa. Quando afastou o papelão molhado, viu o pequenino gato negro encolhido. Os olhos da menina se encheram de tristeza. 

 — Quem fez isso com você? 

 O gatinho ergueu a cabeça devagar. E olhou para ela. Naquele instante, alguma coisa aconteceu. Como se os dois se reconhecessem. Como se a solidão de um, tivesse encontrado abrigo no coração do outro. 

 Aninha tirou o casaco do uniforme e envolveu o filhote com cuidado.

O gatinho parou de tremer. Pela primeira vez naquela longa noite, sentiu calor. Sentiu segurança. Sentiu amor. 

 — Calma, pequenininho... eu vou cuidar de você. E assim, sem saber, Aninha mudava para sempre a vida daquele pequeno gato abandonado. 

 Capítulo 2 

O Nome de Fubá 

 Quando chegou em casa, Aninha entrou correndo pela cozinha. 

 — Mãe! Mãe! Olha o que eu encontrei! 

Dona Helena, que preparava café, virou-se assustada. 

 — Meu Deus, Aninha! O que é isso? 

 A menina abriu o casaco devagar. O gatinho negro apareceu, ainda trêmulo. Dona Helena suspirou. 

 — Coitadinho... 

 Aninha aproximou-se. 

 — Posso ficar com ele? 

 — Filha... 

 — Por favor, mãe. Ele estava sozinho na chuva. 

 Dona Helena olhou para o pequeno animal. O gatinho abriu os olhos brilhantes e soltou um miado fraquinho. Foi impossível resistir. 

 — Tudo bem. 

 Aninha sorriu tão forte, que parecia iluminar a cozinha inteira. 

 Naquele mesmo dia, o gatinho ganhou uma caixa limpa, uma manta quentinha e uma mamadeira improvisada.  Aninha cuidava dele, como se fosse um bebê. Acordava cedo. Dava leite morno. Fazia carinho. Conversava baixinho. E o gatinho parecia entender cada palavra. 

 Os dias passaram. O pequeno gato começou a crescer. Seu pelo ficou macio e brilhante, negro como carvão polido. Seus olhos tornaram-se grandes, vivos e dourados. Cheios de inteligência. Cheios de amor. 

 Foi numa manhã ensolarada, que Dona Helena perguntou: 

 — E então? Já escolheu o nome dele? 

 Aninha pensou por alguns segundos. O gato estava sentado na mesa, observando um saco amarelo de farinha de milho. 

 — Acho que já sei. Ela sorriu. 

 — O nome dele vai ser Fubá. 

 — Fubá? — Dona Helena riu. 

 — Sim. Porque ele é pretinho por fora, mas quentinho e querido por dentro. Como um bolo de fubá da vovó. 

 Fubá miou alto, como se tivesse aprovado. E daquele dia em diante, o pequeno gato abandonado passou a ter nome. Passou a ter casa. Passou a ter família. 

 Capítulo 3 

Onde Estava Aninha 

Fubá cresceu rápido. Em poucos meses, já corria pela casa inteira, como um pequeno raio negro. Subia nos armários. Dormia nas cadeiras. Escondia-se atrás das cortinas. E seguia Aninha por toda parte. 

 Onde estava Aninha... Lá estava Fubá. 

 Se ela fazia lição de casa, ele deitava sobre os cadernos. Se ela assistia televisão, ele dormia em seu colo. Se ela chorava, Fubá aparecia silenciosamente, e encostava a cabeça em sua mão. Parecia entender tudo. 

Principalmente a tristeza. 

 À noite, o gato dormia aos pés da menina. E sempre que algum barulho estranho vinha da rua, Fubá levantava as orelhas imediatamente. Atento. Protetor. Como um pequeno guardião negro. 

 Aninha contava segredos para ele. Falava sobre a escola. Sobre os sonhos. Sobre os medos. E Fubá escutava, com os olhos brilhando no escuro. Muitas vezes, Dona Helena observava os dois em silêncio. E sorria. 

Porque existiam amizades que não precisavam de palavras. 

 Capítulo 4 

O Primeiro Perigo 

 Numa tarde de verão, Aninha brincava de bicicleta na rua. Fubá caminhava atrás dela, como sempre. Algumas crianças riam. 

 — Olha o gato dela! 

 — Parece sombra! 

 Mas Aninha não se importava. Para ela, Fubá era o gato mais bonito do mundo. 

 Enquanto pedalava distraída, uma bola atravessou a rua. Aninha virou o guidão rapidamente. Nesse instante, um carro apareceu na esquina. Tudo aconteceu depressa. Muito depressa. Dona Helena, observando da janela, gritou: 

 — ANINHA! 

 Mas antes que qualquer coisa pudesse acontecer, Fubá saltou. O gato negro correu na frente da bicicleta, assustando Aninha, que freou imediatamente. O carro passou veloz diante dela. Por centímetros. 

 O silêncio tomou conta da rua. Aninha desceu da bicicleta tremendo. Fubá aproximou-se calmamente, e esfregou a cabeça em sua perna. Como se dissesse: “Você está segura.” 

 A menina ajoelhou-se e abraçou o gato com força. 

 — Você salvou minha vida... 

Os olhos dourados de Fubá brilhavam sob o sol. Naquele dia, todos perceberam, que aquele gato não era apenas um animal de estimação. Ele era família. 

 Capítulo 5 

Dias Felizes 

 Os anos passaram suaves. A casa parecia mais viva por causa de Fubá. Ele transformava os dias comuns em memórias felizes. Corria atrás de bolinhas de papel. Dormia dentro das caixas do mercado. Tentava caçar borboletas no quintal. E adorava deitar ao sol da manhã, perto da janela. 

 Aninha crescia. Fubá também. Mas nada mudava entre os dois. O amor continuava o mesmo. Talvez até maior. Nos dias de chuva, Aninha sentava perto da janela com um livro. Fubá deitava em seu colo, enquanto o som da água preenchia a casa. 

 Às vezes, ela lia histórias em voz alta para ele. E jurava que o gato prestava atenção. Quando Dona Helena fazia bolo de fubá, o gato aparecia imediatamente na cozinha. O cheiro parecia hipnotizá-lo. 

 — Acho que ele sabe que ganhou esse nome por causa do bolo — dizia Dona Helena. 

 Aninha ria. 

 — Claro que sabe. 

 Fubá então miava orgulhoso. Como se realmente entendesse. 

 Capítulo 6 

A Noite da Tempestade 

 Certa noite, uma tempestade caiu sobre o bairro. Os trovões sacudiam as janelas. Os relâmpagos riscavam o céu. Aninha já tinha doze anos. Mesmo crescendo, ainda tinha medo de tempestades. 

 Naquela noite, a luz acabou. A casa mergulhou na escuridão. Aninha sentou-se na cama, abraçando os joelhos. Foi então que viu dois pequenos pontos dourados, surgindo no escuro. Fubá. O gato pulou na cama e encostou-se nela. Seu corpo quente parecia afastar o medo. Aninha acariciou o pelo negro. 

 — Ainda bem que você está aqui. 

 Fubá fechou os olhos lentamente. Lá fora, o mundo parecia assustador. Mas ali, naquele quarto silencioso, existia paz. Porque eles estavam juntos. 

 Capítulo 7 

O Mistério do Quintal 

 Uma manhã, Dona Helena percebeu algo estranho. Passarinhos desapareciam do quintal. Flores apareciam quebradas. E algumas plantas estavam reviradas. 

 — Deve ser algum bicho entrando aqui à noite — comentou. 

 Aninha ficou preocupada. Mas Fubá parecia atento. Muito atento. 

 Naquela madrugada, enquanto todos dormiam, o gato permaneceu acordado perto da janela. As orelhas erguidas. Os olhos acesos. Então ouviu. Um barulho no muro. Silencioso como uma sombra, Fubá saltou para o quintal. 

 Era um gambá procurando comida. O animal revirava vasos e derrubava flores. Fubá arqueou o corpo. Soltou um miado forte. O gambá assustou-se e fugiu. 

 Na manhã seguinte, o quintal estava intacto. Aninha encontrou Fubá sentado perto das flores. Orgulhoso. Como um vigilante cumprindo seu dever. 

 — Você protege nossa casa, não é? 

 Fubá piscou devagar. E Aninha entendeu aquilo como um sim. 

 Capítulo 8 

O Tempo Passa 

 O tempo é estranho. Às vezes parece correr. Às vezes parece parar. Aninha já tinha quinze anos. Fubá agora era um gato adulto. Grande. Elegante. 

Seu pelo negro, continuava brilhando sob a luz do sol. Mas alguns fios brancos, começavam a surgir perto do focinho. Mesmo assim, ele ainda seguia Aninha por toda parte. Sempre. 

Na escola, os amigos da menina conheciam as histórias sobre Fubá. — Parece que ele entende tudo — dizia uma amiga. 

 — E entende mesmo — respondia Aninha. 

 À noite, enquanto estudava para as provas, Fubá permanecia deitado ao seu lado. Como fazia desde pequeno. Companheiro. Fiel. Presente. Aninha, às vezes, pensava naquela manhã chuvosa da praça. 

E sentia um aperto no peito. Como alguém pôde abandonar um ser tão cheio de amor? Ela nunca entenderia. 

 Capítulo 9 

A Festa da Escola 

 Na escola de Aninha, haveria uma apresentação importante. Ela estava nervosa. Precisaria cantar diante de muitas pessoas. Na noite anterior, sentou-se no quintal abraçando Fubá. 

 — E se eu esquecer a letra? 

 O gato a observava em silêncio. 

 — E se todo mundo rir de mim? 

 Fubá aproximou-se e encostou a cabeça em sua mão. Aninha sorriu. 

 — Você sempre sabe, quando eu preciso de coragem. 

 No dia seguinte, antes de sair, ela abraçou o gato. 

 — Me deseja sorte. 

 Fubá soltou um miado comprido. 

 Na apresentação, Aninha ainda sentia medo. Mas então lembrou-se dos olhos dourados de Fubá. Lembrou-se de tudo que viveram juntos. E cantou. Cantou lindamente. 

 Quando voltou para casa, encontrou o gato esperando na porta. Como sempre. Onde estava Aninha... Lá estava Fubá. 

 Capítulo 10 

O Silêncio da Velhice 

Os anos continuaram passando. Aninha tornou-se uma jovem mulher. 

 Fubá envelheceu. Já não corria pela casa como antes. Dormia mais. Subia devagar nos móveis. E gostava de ficar longos períodos, observando o jardim. 

 Mas seus olhos continuavam brilhando. Cheios de amor. 

A história de Aninha e Fubá é, acima de tudo, uma celebração da compaixão humana. Em um mundo tantas vezes apressado e indiferente, uma menina foi capaz de parar diante de uma caixa esquecida numa praça e enxergar ali, não apenas um animal abandonado, mas uma vida pedindo socorro. 

 Enquanto muitos passaram sem perceber o pequeno gato negro, tremendo de frio e fome, Aninha ouviu o miado fraco, que parecia chamar diretamente o seu coração. 

 Existe uma pureza muito profunda no amor das crianças pelos animais. É um amor sem cálculo, sem interesse, sem reservas. Aninha não viu sujeira, trabalho ou dificuldade; viu sofrimento. E diante do sofrimento, abriu os braços. Seu gesto simples, transformou o destino de Fubá. O abandono, que parecia condená-lo a um futuro cruel e incerto, foi vencido pelo acolhimento, pelo cuidado e pela ternura. 

Talvez haja, nessa cena delicada, a invisível presença de São Francisco de Assis, o santo que enxergava os animais como nossos irmãos menores, criaturas igualmente dignas do amor divino. 

Francisco ensinava que toda vida merece respeito, carinho e proteção. E é bonito imaginar que o espírito de sua bondade, tenha soprado suavemente no coração de Aninha, naquela manhã chuvosa, conduzindo seus passos até a velha caixa de papelão. 

 Ao acolher Fubá, Aninha não salvou apenas um gatinho indefeso. Ela revelou a grandeza escondida nos pequenos gestos. Mostrou que a verdadeira humanidade nasce, quando somos capazes de cuidar dos mais frágeis. 

 E como tantas vezes acontece, o amor oferecido voltou multiplicado. Fubá cresceu cercando Aninha de fidelidade, companhia e proteção silenciosa, como se passasse a vida inteira, agradecendo por ter sido escolhido.

 Histórias assim nos lembram, que os animais não precisam de palavras para amar. Eles respondem ao carinho, com uma devoção pura, sincera e eterna. E talvez seja exatamente isso, que torna tão sagrado, o encontro entre um coração humano cheio de compaixão e um bichinho abandonado, que só precisava de uma chance para viver e amar. 

 mario moura 

 (do Livro Pequenas histórias sem testemunhas)


(Este conto foi relido e revisado, valendo assim como o original)

......................................................................................................

.......................................................................................................


A História de Abandono e Amor do Gato Fubá

Um pequeno romance sobre amizade, cuidado e amor verdadeiro

Capítulo 1 — A Caixa na Praça

A noite estava fria.
O vento atravessava as árvores da pequena praça do bairro São Miguel, espalhando folhas secas pelo chão úmido e trazendo no ar o cheiro da chuva que ainda insistia em cair. Sob a luz amarelada dos postes, os bancos permaneciam vazios, enquanto alguns cachorros de rua buscavam abrigo debaixo dos carros estacionados.

No canto mais escuro da praça, perto do velho coreto abandonado, havia uma caixa de papelão encharcada pela garoa.

Dentro dela, encolhido sobre um pano velho, estava um gatinho negro.

Pequeno.
Frágil.
Recém-nascido.

Seu pelo era tão escuro quanto a própria noite. Apenas os olhos, ainda meio fechados, brilhavam como duas pequenas estrelas tímidas.

Ele miava baixinho.
Um som fraco, quase perdido no vento.

Como se estivesse pedindo ao mundo apenas uma chance de continuar vivo.

As horas passaram lentamente.

Algumas pessoas atravessavam a praça apressadas, tentando fugir da chuva. Nenhuma delas percebeu a caixa. Nenhuma ouviu aquele miado tão pequeno e solitário.

O gatinho tremia.

Tinha fome.
Tinha frio.
Tinha medo.

E, acima de tudo, estava sozinho.

Muito sozinho.

Até que, perto das sete da manhã, uma menina apareceu.

Seu nome era Aninha.

Ela tinha nove anos, cabelos cacheados presos em duas tranças e um olhar curioso — daqueles que conseguem enxergar o que quase todo mundo ignora.

Naquela manhã, Aninha atravessava a praça a caminho da escola, segurando uma sombrinha azul cheia de pequenas estrelas desenhadas.

Foi então que ouviu:

— Miau... miau...

Ela parou imediatamente.

Olhou ao redor.

Escutou outra vez.

— Miiiaaau...

O som vinha do canto escuro perto do coreto.

Aninha caminhou devagar até a caixa.

Quando afastou o papelão molhado, encontrou o pequeno gato negro encolhido no fundo.

Os olhos da menina se encheram de tristeza.

— Quem fez isso com você?

O gatinho ergueu a cabeça lentamente.

E olhou para ela.

Naquele instante, algo silencioso aconteceu entre os dois.

Como se se reconhecessem.

Como se a solidão de um tivesse encontrado abrigo no coração do outro.

Aninha tirou o casaco do uniforme e envolveu o filhote com cuidado.

O gatinho parou de tremer.

Pela primeira vez naquela longa noite, sentiu calor.

Sentiu segurança.

Sentiu amor.

— Calma, pequenininho... eu vou cuidar de você.

E assim, sem perceber, Aninha mudava para sempre a vida daquele pequeno gato abandonado.

Capítulo 2 — O Nome de Fubá

Quando chegou em casa, Aninha entrou correndo pela cozinha.

— Mãe! Mãe! Olha o que eu encontrei!

Dona Helena, que preparava o café, virou-se assustada.

— Meu Deus, Aninha... o que é isso?

A menina abriu o casaco devagar.

O gatinho apareceu, ainda trêmulo.

Dona Helena levou a mão ao peito.

— Coitadinho...

Aninha aproximou-se.

— Posso ficar com ele?

— Filha...

— Por favor, mãe. Ele estava sozinho na chuva.

Dona Helena olhou para o pequeno animal.

O gatinho abriu os olhos brilhantes e soltou um miado fraquinho.

Foi impossível resistir.

— Tudo bem.

O sorriso de Aninha pareceu iluminar a cozinha inteira.

Naquele mesmo dia, o gatinho ganhou uma caixa limpa, uma manta quentinha e uma mamadeira improvisada.

Aninha cuidava dele como se fosse um bebê.

Acordava cedo.
Dava leite morno.
Fazia carinho.
Conversava baixinho.

E o gatinho parecia entender cada palavra.

Os dias passaram.

O pequeno gato começou a crescer.

Seu pelo ficou macio e brilhante, negro como carvão polido. Os olhos tornaram-se grandes, vivos e dourados.

Cheios de curiosidade.
Cheios de carinho.

Numa manhã ensolarada, Dona Helena perguntou:

— E então? Já escolheu o nome dele?

Aninha pensou por alguns segundos.

O gato estava sentado sobre a mesa, observando um saco amarelo de farinha de milho.

Então ela sorriu.

— Já sei. O nome dele vai ser Fubá.

— Fubá? — Dona Helena riu.

— Sim. Porque ele é pretinho por fora, mas quentinho e querido por dentro. Igual bolo de fubá da vovó.

Fubá soltou um miado alto, como se tivesse aprovado a ideia.

E, daquele dia em diante, o pequeno gato abandonado passou a ter nome.

Passou a ter casa.

Passou a ter família.

Capítulo 3 — Onde Estava Aninha

Fubá cresceu rápido.

Em poucos meses, corria pela casa inteira como um pequeno raio negro.

Subia nos armários.
Dormia nas cadeiras.
Escondia-se atrás das cortinas.

E seguia Aninha para todos os lados.

Onde estava Aninha...

Lá estava Fubá.

Se ela fazia lição de casa, ele deitava sobre os cadernos.

Se assistia televisão, ele dormia em seu colo.

Se chorava, Fubá aparecia em silêncio e encostava a cabeça em sua mão.

Parecia entender tudo.

Principalmente a tristeza.

À noite, dormia aos pés da cama da menina.

E sempre que algum barulho estranho surgia na rua, suas orelhas se erguiam imediatamente.

Atento.
Protetor.

Como um pequeno guardião negro.

Aninha contava segredos para ele.

Falava da escola.
Dos sonhos.
Dos medos.

E Fubá escutava tudo com os olhos brilhando no escuro.

Muitas vezes, Dona Helena observava os dois em silêncio.

E sorria.

Porque existem amizades que não precisam de palavras.

Capítulo 4 — O Primeiro Perigo

Numa tarde quente de verão, Aninha brincava de bicicleta na rua.

Fubá caminhava atrás dela, como sempre.

Algumas crianças apontavam e riam:

— Olha o gato dela!

— Parece uma sombra!

Mas Aninha não ligava.

Para ela, Fubá era o gato mais bonito do mundo.

Enquanto pedalava distraída, uma bola atravessou a rua.

Aninha virou o guidão rapidamente.

Naquele instante, um carro surgiu na esquina.

Tudo aconteceu depressa.

Muito depressa.

Dona Helena, olhando pela janela, gritou:

— ANINHA!

Mas antes que qualquer coisa acontecesse, Fubá saltou.

O gato correu na frente da bicicleta, assustando a menina, que freou imediatamente.

O carro passou veloz diante dela.

Por centímetros.

O silêncio tomou conta da rua.

Aninha desceu da bicicleta tremendo.

Fubá aproximou-se calmamente e esfregou a cabeça em sua perna.

Como se dissesse:

“Você está segura.”

A menina ajoelhou-se e abraçou o gato com força.

— Você salvou minha vida...

Os olhos dourados de Fubá brilhavam sob o sol.

Naquele dia, todos entenderam que ele não era apenas um animal de estimação.

Ele era parte da família.

Capítulo 5 — Dias Felizes

Os anos passaram suavemente.

E a casa parecia mais viva por causa de Fubá.

Ele transformava dias comuns em pequenas lembranças felizes.

Corria atrás de bolinhas de papel.
Dormia dentro das caixas do mercado.
Tentava caçar borboletas no quintal.

E adorava deitar perto da janela para tomar sol.

Aninha crescia.

Fubá também.

Mas nada mudava entre os dois.

O amor continuava igual.

Talvez até maior.

Nos dias de chuva, Aninha sentava perto da janela com um livro nas mãos.

Fubá deitava em seu colo enquanto o som da água preenchia a casa.

Às vezes, ela lia histórias em voz alta para ele.

E jurava que o gato prestava atenção.

Quando Dona Helena fazia bolo de fubá, ele aparecia imediatamente na cozinha.

O cheiro parecia hipnotizá-lo.

— Acho que ele sabe que ganhou esse nome por causa do bolo — dizia Dona Helena.

Aninha ria.

— Claro que sabe.

Então Fubá miava orgulhoso, como se realmente entendesse.

Capítulo 6 — A Noite da Tempestade

Certa noite, uma tempestade caiu sobre o bairro.

Os trovões faziam as janelas tremerem.
Os relâmpagos riscavam o céu sem parar.

Aninha já tinha doze anos.

Mesmo crescendo, ainda sentia medo de tempestades.

Naquela noite, a luz acabou.

A casa mergulhou na escuridão.

Aninha sentou-se na cama abraçando os joelhos.

Foi então que viu dois pequenos pontos dourados surgindo no quarto escuro.

Fubá.

O gato pulou na cama e encostou-se nela.

Seu corpo quente parecia afastar todo o medo.

Aninha acariciou o pelo negro.

— Ainda bem que você está aqui.

Fubá fechou os olhos lentamente.

Lá fora, o mundo parecia assustador.

Mas naquele quarto silencioso existia paz.

Porque eles estavam juntos.

Final

A história de Aninha e Fubá é, acima de tudo, uma celebração da compaixão.

Em um mundo tão apressado e distraído, uma menina foi capaz de parar diante de uma caixa esquecida numa praça e enxergar ali não apenas um animal abandonado, mas uma vida pedindo ajuda.

Enquanto muitos passaram sem perceber o pequeno gato negro tremendo de frio e fome, Aninha ouviu o miado fraco que parecia chamar diretamente o seu coração.

Existe algo profundamente puro no amor das crianças pelos animais.

É um amor sem interesse.
Sem cálculo.
Sem reservas.

Aninha não viu trabalho, sujeira ou dificuldade.

Ela viu sofrimento.

E, diante do sofrimento, abriu os braços.

Seu gesto simples transformou completamente o destino de Fubá.

O abandono, que parecia condená-lo a uma vida cruel e solitária, foi vencido pelo acolhimento, pelo cuidado e pela ternura.

Talvez exista nessa cena delicada a presença invisível de São Francisco de Assis, que enxergava os animais como irmãos menores, criaturas igualmente dignas de amor e proteção.

É bonito imaginar que a bondade ensinada por ele tenha soprado suavemente no coração de Aninha naquela manhã chuvosa, guiando seus passos até a velha caixa de papelão.

Ao acolher Fubá, Aninha não salvou apenas um gatinho indefeso.

Ela revelou a grandeza escondida nos pequenos gestos.

Mostrou que a verdadeira humanidade nasce quando somos capazes de cuidar dos mais frágeis.

E, como quase sempre acontece, o amor oferecido voltou multiplicado.

Fubá cresceu cercando Aninha de companhia, lealdade e proteção silenciosa — como se passasse todos os dias agradecendo por ter sido escolhido.

Histórias assim nos lembram que os animais não precisam de palavras para amar.

Eles respondem ao carinho com uma devoção sincera, pura e eterna.

E talvez seja exatamente isso que torna tão especial o encontro entre um coração humano cheio de compaixão e um bichinho abandonado que só precisava de uma chance para viver e amar.

Mario Moura
(do livro Pequenas Histórias sem Testemunhas)

Texto revisado 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SOBRE O GATO AGENOR

SUMÁRIO DO LIVRO PEQUENAS HISTÓRIAS SEM TESTEMUNHAS ENSAIOS E VAGAS ANOTAÇÕES

UM CONTO SOBRE UM POUCO DA NOSSA HISTORIA (conto original revisado)