A INTERNAÇÃO

Escrever um conto sobre "a internação de um escritor em um hospício,    após sofrer uma crise nervosa, meses após o falecimento de sua esposa. feita por parentes próximos, interessados em sua fortuna.

No hospício, Sandro Olivieri passa o tempo observando as estranhas manias e comportamentos dos internos, enquanto seu advogado providencia sua saída, suspendendo sua interdição. Anotando as extravagâncias mais notáveis, Sandro estabelece conexões com as práticas ditas "normais" na sociedade, apontando semelhanças psicológicas e comportamentais das pessoas, com aquela população considerada "infratores ameaçadores da normalidade".


A INTERNAÇÃO

Sandro Olivieri nunca confiara inteiramente na família. Confiava menos ainda nos sorrisos demorados dos primos, nas mãos excessivamente dóceis da irmã mais velha e no cuidado repentino do cunhado, homem que jamais lera um único livro seu, de hábitos estranhos, mas que, nos últimos meses, passara a chamá-lo de “gênio” diante das visitas.

A crise aconteceu numa terça-feira abafada de novembro, quando Sandro  

Sandro estava havia três dias sem dormir, escrevendo febrilmente um romance sobre juízes corruptos e santos canibais, quando afirmou, durante o jantar, que os relógios da casa haviam começado a atrasar juntos. Não era verdade — ou talvez fosse. Afirmou também que sua família falava com frases ensaiadas, como atores medíocres interpretando parentes.

Riram dele.

Na madrugada seguinte, encontraram-no no jardim, descalço, tentando arrancar do chão os canos do sistema de irrigação porque, segundo dizia, “a casa estava respirando por tubos”.

Dois médicos foram chamados.

Depois vieram os papéis.

Depois a assinatura da irmã.

Depois a ambulância.

No caminho para o hospício, Sandro percebeu que ninguém discutira sua internação. Fora tudo organizado com uma eficiência burocrática, quase elegante. Seu advogado, doutor Álvaro Mendes, só soube do ocorrido dois dias depois, quando recebeu uma carta truncada escrita às pressas:

“Fui removido da realidade oficial. Venha armado de leis.”

O Hospício Santa Dária erguia-se sobre uma colina seca, cercado por ciprestes imóveis. Tinha corredores longos, pisos verdes e um cheiro persistente de água sanitária misturada com sopa rala.

Nos primeiros dias, Sandro resistiu.

Afirmava não ser louco.

Gritava.

Exigia telefones.

Citou artigos jurídicos que não conhecia.

Depois se cansou.

Passou então a observar.

Descobriu que os internos eram menos absurdos do que pareciam.

Havia um homem magro chamado Batista, convencido de que era perseguido por pássaros diplomatas. Passava horas escrevendo cartas ao Ministério da Aeronáutica denunciando pombos espiões.

Sandro anotou:

“Batista acredita em conspirações invisíveis. A diferença entre ele e os jornais é que Batista não usa gravata.”

Havia também dona Alzira, que lavava as mãos exatamente cento e vinte vezes por dia porque temia contaminar o mundo com pensamentos impuros.

Sandro escreveu:

“A sociedade chama isso de doença. Mas chama de higiene quando executado em escritórios luxuosos por homens que lavam as mãos após apertarem mãos pobres.”

Outro interno, um ex-banqueiro chamado Esteves, escondia pedaços de pão sob o colchão. Dizia estar “protegendo capital alimentar para o futuro”.

Sandro gargalhou ao ouvi-lo.

“Quando um miserável guarda comida, chamam desespero. Quando um banqueiro acumula bilhões, chamam prudência.”

Seu caderno começou a crescer.

Não era exatamente um diário.

Tampouco um romance.

Parecia um inventário moral da insanidade coletiva.

Ele anotava compulsivamente:

“O hospício apenas concentra aquilo que a cidade espalha.”

“Há homens aqui que conversam com paredes. Lá fora, homens conversam com mercados.”

“Os internos repetem frases sem sentido. Os políticos também, porém recebem aplausos.”

Com o tempo, os médicos passaram a gostar dele. Sandro era educado, tomava os remédios sem reclamar e ouvia atentamente os delírios alheios.

O diretor da instituição dizia:

— O senhor está melhorando.

Sandro respondia:

— Não. Apenas estou aprendendo o idioma local.

Enquanto isso, doutor Álvaro investigava.

Descobriu que a irmã de Sandro movera uma ação de interdição alegando incapacidade mental grave. Descobriu também transferências bancárias suspeitas, procurações recém-assinadas e tentativas discretas de vender direitos autorais das obras do escritor.

A fortuna de Sandro, acumulada ao longo de vinte anos de sucesso literário, começava lentamente a mudar de mãos.

Certa tarde, sentado no pátio do hospício, observando um interno que passava horas fingindo reger uma orquestra invisível, Sandro teve uma espécie de revelação amarga.

Talvez toda sociedade funcionasse assim.

Uns fingiam reger.

Outros fingiam ouvir.

E a música inexistente chamava-se normalidade.

Anotou isso cuidadosamente.

Na semana seguinte, doutor Álvaro apareceu com documentos, testemunhas e uma expressão triunfante.

A interdição fora suspensa.

Sandro receberia alta.

O diretor apertou-lhe a mão com cordialidade melancólica.

— Fico feliz por sua recuperação.

Sandro sorriu.

— Eu não me recuperei, doutor. Só vou voltar para um hospício maior.

Ao deixar Santa Dária, carregava apenas uma mala pequena e o caderno negro cheio de observações.

Meses depois, publicou um livro.

Chamava-se Tratado Breve Sobre os Normais.

A crítica o considerou uma obra-prima satírica.

Os leitores riram muito.

Os parentes processaram-no.

E, durante entrevistas, quando jornalistas perguntavam se o período no hospício fora traumático, Sandro respondia calmamente:

— Traumático não foi entrar. Traumático foi descobrir que o lado de fora funciona exatamente igual.

mario moura

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