A PRAÇA SEMPRE OCULTARÁ LEMBRANÇAS...

Escrever um conto sob a forma de diálogo, (apresentando primeiro uma interpretação da velhice consciente e independente, entre dois idosos), num banco de praça, sobre as regras sociais, sob as quais viveram a vida inteira, mas que agora, na velhice não mais precisavam obedecer ou seguis tais normas. A velhice lhes dava a liberdade de escolha, pouco importando a opinião alheia. Eram livres, porque os velhos vivem uma outra circunstancia, numa nova dimensão.


A PRAÇA SEMPRE OCULTARÁ LEMBRANÇAS...

A praça sempre foi um ponto de encontro entre os velhos e crianças.  Local que sempre desperta amenidades, lembranças de meninices, namoros antigos.  Toda praça, com suas velhas árvores, carrega a sombra da antiguidade. Sempre apreresentaram algo misterioso em meio a paisagem urbana. Uma espécie de retiro, um intervalo de silêncio e recolhimento, mesmo quando as crianças estão alegrando o seu espaço.

Outro dia, no fim da tarde, a praça respirava devagar, quando a atravessei, disponível para o silêncio, e observar as pessoas que sempre chegavam, devagar, como quem chega para ficar.  A hora em que a tarde ganha suas cores mais belas, me atraem... É o momento, em que um bom observador, repara nas pessoas que a ocupam, para olhar o tempo, lentamente atravessando os anos... 

As crianças já tinham ido embora, os pombos disputavam migalhas perto do coreto, e o vento morno balançava as folhas das árvores antigas. Num banco de madeira, dois velhos dividiam o silêncio, como quem divide um segredo antigo.

De longe, observei um casal.  Já os conhecia, trocávamos cumprimentos, pois sempre compareciam, como eu, ao cair da tarde.  Eram Amélia e Sebastião.  Conversavam animadamente, atentos ao que se passava aos arredores.

Amélia ajeitava o lenço azul nos cabelos brancos e observou um casal atravessar a praça de mãos dadas.

— Passei cinquenta anos preocupada com o que os outros pensavam — disse ela, quase sorrindo. — E agora descubro que os outros, estavam ocupados demais pensando neles mesmos.

Sebastião soltou uma risada baixa, rouca pelo tempo.

— Descoberta tardia, mas útil.

Ela olhou para ele.

— Você também sente isso? Como se a velhice tivesse arrancado uma cerca invisível?

— Arrancado não. Enferrujado. A cerca ainda existe para os outros. Nós é que já não temos obrigação de respeitá-la.

Ficaram alguns segundos ouvindo o ranger de um balanço vazio ao longe.

— Lembra das regras? — perguntou Amélia. — Homem não chora. Mulher não envelhece. Casamento é eterno, mesmo quando morre por dentro. Filhos sempre têm razão. Vizinho precisa aprovar. Família precisa concordar. Igreja precisa permitir. Sociedade precisa aceitar...

Sebastião apoiou as mãos na bengala.

— Passei a vida inteira usando gravata em calor de quarenta graus, porque diziam que homem sério se veste assim.

— E eu usando salto alto, para servir jantar em festa de família — respondeu ela. — Os pés ardiam, mas elegância era o sofrimento silencioso.

Ele a observou com ternura.

— A juventude é escrava do espelho dos outros.

Amélia assentiu lentamente.

— A velhice é diferente. A gente já enterrou pessoas demais, para continuar vivendo de aparência.

Uma senhora passou usando um vestido vermelho espalhafatoso. Um grupo de moças cochichou e riu. Amélia acompanhou a cena com os olhos.

— Antigamente eu teria achado ridículo.

— E agora?

— Agora acho coragem.

Sebastião sorriu.

— Isso é porque envelhecer não é diminuir. É atravessar.

Ela gostou da frase.

— Atravessar o quê?

— O medo.

O vento trouxe cheiro de café vindo da padaria da esquina.

— Quando somos jovens — continuou ele — vivemos pedindo licença. Licença para amar, para mudar, para discordar, para existir. Na velhice, algo curioso acontece: ninguém mais espera nada de nós. E nisso existe uma liberdade enorme.

Amélia cruzou as pernas devagar.

— Invisíveis.

— Sim. E justamente por isso livres.

Ela riu.

— Engraçado… passei a vida inteira tentando ser notada. Agora adoro quando esquecem de mim.

Sebastião apontou discretamente para um homem engravatado falando sozinho ao celular, aflito.

— Veja aquele ali. Deve estar correndo atrás de aprovação, dinheiro, status, respeito. Eu conheço essa corrida. Passei décadas nela.

— E venceu?

Ele demorou para responder.

— Não existe vitória numa corrida que nunca termina.

Amélia ficou em silêncio. Depois falou baixinho:

— Sabe do que sinto falta?

— Do quê?

— De ter entendido isso antes.

Sebastião balançou a cabeça.

— Não entenderíamos. A juventude acredita que a vida é construção. A velhice descobre que também é demolição.

Ela olhou para as próprias mãos manchadas pelo tempo.

— Demolir expectativas…

— Medos.

— Obrigações inúteis.

— Vergonhas herdadas.

Um menino passou correndo e quase esbarrou neles. A mãe gritou de longe:

— Pede desculpas aos idosos!

O garoto voltou sem vontade.

— Desculpa.

Sebastião inclinou-se levemente.

— Está desculpado. Mas não tenha medo de envelhecer, ouviu?

O menino arregalou os olhos sem entender, e saiu correndo outra vez.

Amélia sorriu.

— Você fala como quem descobriu um país secreto.

— Talvez seja isso mesmo. A velhice é um território escondido dos jovens.

Ela respirou fundo.

— E qual é a lei desse lugar?

Sebastião olhou o céu ficando alaranjado.

— A única lei é não desperdiçar o tempo restante vivendo a vida dos outros.

Os primeiros postes se acenderam na praça.

Amélia levantou-se com dificuldade. Sebastião também. Caminharam devagar pela calçada, sem pressa alguma, como dois sobreviventes que finalmente haviam saído da multidão.

E, pela primeira vez em muitas décadas, nenhum dos dois sentia necessidade de explicar quem era.

A praça estava mais cheia naquele dia. Crianças corriam em volta da fonte, vendedores ambulantes gritavam ofertas de pipoca e sorvete, e os ônibus passavam tossindo fumaça na avenida próxima.

Amélia e Sebastião ocupavam o mesmo banco de sempre.

Havia entre eles a intimidade silenciosa de quem já não precisava preencher todos os espaços com palavras.

Foi Amélia quem falou primeiro.

— Ontem me chamaram de “fofinha”.

Sebastião arqueou as sobrancelhas.

— Isso parece elogio.

— Não daquele jeito. Foi aquele tom… aquele tom que usam quando deixam de enxergar a pessoa inteira, e passam a ver só a idade.

Ele assentiu devagar.

— Como se envelhecer transformasse alguém numa criança de volta.

— Exatamente. A moça falou comigo alto demais. Devagar demais. Como se eu tivesse desaprendido as palavras.

Sebastião suspirou.

— Existe uma violência escondida nisso.

Amélia concordou.

— Acham que velhice é deficiência. Que velho não entende tecnologia, não aprende, não trabalha, não ama, não deseja, não produz.

Ela apontou para um grupo de homens sentados perto do coreto jogando dominó.

— Olham para nós e enxergam o fim. Nunca o percurso.

Sebastião apoiou as mãos sobre a bengala.

— O mundo moderno cultua o novo, como se novidade fosse sinônimo de sabedoria.

— E juventude virou valor moral — completou Amélia. — Como se envelhecer fosse falha de caráter.

Um rapaz passou correndo pela praça usando fones de ouvido, relógio inteligente, roupas esportivas impecáveis. Nem percebeu os dois idosos no banco.

Sebastião acompanhou o rapaz com os olhos.

— Eles têm velocidade.

— Nós temos profundidade — respondeu Amélia.

Ele sorriu discretamente.

— Boa frase.

Ela deu de ombros.

— A idade ensina algumas coisas.

Ficaram observando o movimento.

Depois Sebastião falou:

— O curioso é que ninguém nasce velho. Mas quase todos discriminam aquilo que desejam secretamente alcançar.

— Porque têm medo.

— Sim. Medo da decadência. Da morte. Da perda de importância.

Amélia virou-se para ele.

— Só que confundem envelhecimento com inutilidade.

— E são coisas completamente diferentes.

Ela respirou fundo.

— Conheci um homem de trinta anos completamente velho. Sem curiosidade. Sem coragem. Sem vontade de mudar. E já conheci mulheres de oitenta começando vidas inteiras.

Sebastião riu.

— A maturidade nunca foi cronológica.

— Nunca.

Ela apontou para a própria cabeça.

— Tem gente que envelhece aos vinte. E gente que permanece viva por dentro até o último suspiro.

O vento espalhou folhas secas aos pés deles.

Sebastião observou:

— O problema é que a sociedade mede valor pela utilidade econômica. Quando o velho se aposenta, muitos acham que ele perdeu função.

— Como se um ser humano fosse ferramenta.

— Exato. Mas esquecem que um velho carrega bibliotecas invisíveis.

Amélia gostou da imagem.

— Bibliotecas invisíveis…

— Quantas perdas atravessamos? Quantas guerras íntimas? Quantos recomeços? Quantas vezes tivemos coragem, mesmo tremendo de medo?

Ela ficou em silêncio.

O rosto endureceu um pouco antes, de responder.

— Enterrei um filho aos trinta e dois anos.

Sebastião baixou os olhos respeitosamente.

— E continuei vivendo — ela disse. — Tem gente que chama isso apenas de velhice. Eu chamo de coragem.

Um grupo de adolescentes passou por eles. Um dos meninos comentou, sem perceber que eram ouvidos:

— Eu morreria se ficasse velho assim.

Amélia observou o garoto se afastar.

— Eles não entendem ainda.

— Não.

— Acham que a velhice é uma queda.

Sebastião sorriu melancolicamente.

— Quando às vezes é uma libertação.

Ela inclinou a cabeça.

— Sabe o que descobri? O corpo envelhece muito antes da alma aceitar ficar pequena.

— Porque a alma não mede tempo do mesmo jeito.

— Exatamente.

Um silêncio confortável se acomodou entre os dois.

Depois Amélia voltou a falar:

— O preconceito contra os velhos, nasce da ilusão de que experiência pode ser substituída por informação.

Sebastião bateu levemente a bengala no chão.

— Mas informação não consola ninguém às três da manhã.

— Não ensina resistência.

— Nem humanidade.

Ela olhou para as próprias mãos.

— Estas rugas aqui não são decadência. São testemunho.

— São mapas.

— São cicatrizes da existência.

O sol começava a descer atrás dos prédios.

Sebastião então disse algo quase num sussurro:

— O velho incomoda, porque ele prova uma coisa que o mundo tenta esconder o tempo inteiro.

— O quê?

— Que viver de verdade, deixa marcas.

Amélia sorriu lentamente.

— E talvez seja justamente isso que nos torna bonitos.

Levantaram-se devagar.

Duas figuras lentas, entre pessoas apressadas.

Mas havia algo neles, que a juventude ainda não possuía: a serenidade de quem atravessou incêndios, e compreendeu que maturidade, não nasce dos anos acumulados, mas da coragem de permanecer humano apesar deles.

mario moura

(do livro Pequenos histórias sem testemunhas  Ensaios  Vagas anotações)

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