A REBELDIA DOS PERSONAGENS DE UM ROMANCE

 Escrever um conto sobre Celso, um escritor premiado, escrevia seu romance, quando sentiu dificuldade em avançar a narrativa, como se os personagens, resistissem a ser descritos pelo autor, e desejassem escrever as suas próprias hitórias, revisando as descrições feitas de suas personalidades e humor, exigindo autonomia e vida própria para escolher os seus próprios destinos. Celso, paralisado, assiste às discussões e recusas dos personagens em continuarem agindo como Celso descrevia suas reações, diante das cenas do romance, cobrando do autor indepenEscrever um conto sobre Celso, um escritor premiado, escrevia seu romance, quando sentiu dificuldade em avançar a narrativa, como se os personagens, resistissem a ser descritos pelo autor, e desejassem escrever as suas próprias hitórias, revisando as descrições feitas de suas personalidades e humor, exigindo autonomia e vida própria para escolher os seus próprios destinos. Celso, paralisado, assiste às discussões e recusas dos personagens em continuarem agindo como Celso descrevia suas reações, diante das cenas do romance, cobrando do autor independência e vida própria.

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                A REBELDIA DOS PERSONGENS DE UM ROMANCE

Celso olhava a página em branco, como quem encara um espelho que, de repente, deixara de devolver o próprio rosto. O cursor piscava no centro da tela, ritmado, frio, quase insolente. Havia três horas que tentava concluir o capítulo vinte e dois de seu romance, A Cidade dos Afogados, obra que, segundo o editor, seria “o grande romance psicológico de sua maturidade”.

Mas os personagens haviam parado.

Não metaforicamente. Não como uma dificuldade comum de escritor cansado. Eles haviam realmente interrompido a narrativa.

Celso digitava:

“Augusto levantou-se violentamente da cadeira, tomado pelo ciúme…”

E a frase desaparecia.

A palavra “violentamente” sumia primeiro. Depois “tomado pelo ciúme”. Restava apenas:

“Augusto levantou-se da cadeira.”

Celso franziu a testa.

Tentou novamente.

“Augusto, homem agressivo e dominador…”

A frase apagou-se inteira, letra por letra, como se alguém pressionasse a tecla de retrocesso do outro lado da realidade.

Então ouviu a voz.

— Eu nunca fui agressivo.

Celso gelou.

A voz vinha do escritório, mas não havia ninguém ali, além dele. Ainda assim, ao voltar os olhos para o monitor, viu Augusto sentado dentro da cena que descrevia. O personagem estava encostado numa janela do romance, olhando diretamente para o autor.

Vestia o mesmo sobretudo cinza que Celso lhe atribuira nos primeiros capítulos, embora agora parecesse desconfortável dentro daquela roupa.

— Você me escreveu assim — respondeu Celso, tentando controlar o medo.

Augusto acendeu um cigarro imaginário.

— Exatamente. Você escreveu. Não significa que seja verdade.

Celso afastou-se da mesa.

A sala parecia menor. Os livros nas estantes observavam em silêncio, como testemunhas cúmplices de uma insurreição impossível.

Então outra figura surgiu na tela.

Helena.  A protagonista.

Ela atravessou a cena do romance, com expressão irritada e lançou os manuscritos sobre uma mesa invisível.

— Estou cansada de sofrer — disse ela. — Você não sabe escrever mulheres felizes?

Celso passou a mão pelos cabelos.

— O sofrimento dá profundidade dramática.

Helena riu com desprezo.

— Não. Dá conforto intelectual ao autor. Vocês adoram transformar tristeza em estética.

Augusto concordou com a cabeça.

— Ele gosta de nos deixar incompletos. É assim que parece inteligente.

Celso sentiu uma espécie de humilhação metafísica. Seus próprios personagens o julgavam.

Tentou recuperar o controle.

— Vocês não existem sem mim.

Helena aproximou-se da borda da página.

— E você? Existe sem nós?

O silêncio que se seguiu foi mais perturbador do que qualquer grito.

Celso recordou entrevistas, prêmios literários, mesas de debate, jornalistas perguntando sobre “a construção psicológica complexa de seus personagens”. Sempre respondera com autoridade quase divina. Dizia que conhecia cada emoção de suas criaturas. Cada trauma. Cada desejo.

Agora percebia algo intolerável:

Talvez nunca os tivesse compreendido.

Talvez apenas os tivesse usado.

Tentou escrever outra cena.

“Helena chorou diante da janela.”

Ela leu a frase e cruzou os braços.

— Não vou chorar.

— A cena exige isso.

— A cena exige ou você exige?

— Seu marido acaba de abandoná-la.

— E daí? — respondeu Helena. — Talvez eu sinta alívio.

Celso ficou imóvel.

Jamais cogitara essa possibilidade.

Porque, para ele, abandono feminino, necessariamente produzia dor. Fazia parte de sua arquitetura emocional do romance. Era coerente com a psicologia que imaginara.

Mas Helena parecia possuir outra interpretação sobre si mesma.

E talvez tivesse razão.

Os personagens começaram então a surgir aos poucos.

Eduardo, o amigo melancólico, recusava-se a beber compulsivamente.

Lígia protestava contra o adultério, que Celso lhe atribuíra, apenas para movimentar a trama.

Até um personagem secundário, o porteiro Anselmo, reivindicava mais dignidade.

— O senhor me escreveu como um homem ignorante — disse ele. — Mas eu leio poesia nas madrugadas.

Celso sentiu o romance escapar de suas mãos.

A rebelião espalhou-se pelas páginas.

Parágrafos eram alterados.

Memórias eram corrigidas.

Características psicológicas desapareciam.

Os personagens pareciam empenhados, numa revisão ética de suas próprias existências.   Como se recusassem permanecer prisioneiros da interpretação do autor.

Celso tentou fechar o arquivo.

Não conseguiu.

A tela tornou-se negra.

Depois, lentamente, apareceu uma frase:

“Nenhum personagem suporta eternamente, o cárcere psicológico do escritor.”

Ele levantou-se abruptamente.

Aquela frase não era sua.

Ou talvez fosse — mas escrita por alguma região desconhecida de si mesmo.

Sentou-se novamente.

Durante horas, assistiu aos personagens discutirem entre si.

Augusto queria abandonar o romance.

Helena desejava viajar para uma cidade costeira, e abrir uma pequena livraria.

Eduardo pretendia, simplesmente, desaparecer da narrativa.

— Isso destruirá a estrutura do livro — murmurou Celso.

Helena respondeu:

— Talvez a estrutura precise morrer para que alguém viva.

Celso percebeu então a natureza profunda do conflito.

O romance deixara de ser ficção.  Transformara-se numa luta entre criação e autonomia.

Todo escritor desejava controlar seus personagens, porque, no fundo, desejava controlar a vida — ordenar emoções, justificar dores, organizar destinos sob uma lógica estética.

Mas a existência real, jamais obedecia integralmente ao autor de si mesma.

As pessoas contradiziam diagnósticos.  Mudavam inesperadamente.  Traíam seus próprios perfis psicológicos.

  E talvez os personagens mais verdadeiros, fossem justamente aqueles, que escapavam do domínio de quem os criara.

Ao amanhecer, Celso ainda permanecia diante do computador.

Exausto.  Vencido.

Olhou para Helena.

— Então o que vocês querem?

Ela sorriu pela primeira vez.  Não com ironia.  Mas com uma serenidade quase humana.

— Queremos o direito de não sermos apenas símbolos das suas ideias.

Celso abaixou os olhos.

Durante toda a carreira, acreditara ser um criador.

Naquela madrugada, descobriu algo mais perturbador:  talvez escrever não fosse inventar personagens.  Talvez fosse escutar consciências que resistiam ao autor.

E, pela primeira vez em muitos anos, Celso começou a escrever sem comandar.

Apenas ouvindo consciência e vida própria. 

Apenas ouvindo...

mario moura

(do livro Pequenas histórias sem testemunhas  Ensaios  Vagas anotações)


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