FODA-SE

Escrever um conto sobre um observador dos costumes, psicólogo Renato Comburla, que organiza anotações sobre as ilusões organizadas pelo

FODA-SE

Renato Comburla dizia que não era psicólogo clínico, embora tivesse diploma, consultório abandonado e uma gaveta cheia de receitas nunca assinadas. Preferia se apresentar como “observador dos costumes”, expressão que anotava em cartões amarelados e distribuía apenas para pessoas que jamais voltavam a encontrá-lo. Caminhava pelas ruas como quem recolhe detritos invisíveis: frases interrompidas, risos automáticos, gestos de falsa indignação, silêncios treinados diante da miséria.

Morava num apartamento estreito, acima de uma relojoaria decadente. O velho relojoeiro, senhor Balthus, acreditava consertar o tempo. Renato acreditava catalogar ilusões. Os dois se respeitavam por isso.

Todas as noites, depois de percorrer cafés, igrejas, repartições públicas e corredores de supermercados, Renato voltava para casa e organizava suas anotações em pastas classificadas por títulos inquietantes:

— “Ilusões de Grandeza Cotidiana”
— “Fingimentos de Bondade Espontânea”
— “Sofrimentos Exibidos em Ambientes Públicos”
— “Pequenas Tirânias Domésticas”
— “Esperanças Produzidas Industrialmente”

A maior pasta, porém, carregava apenas uma palavra escrita em tinta azul:

“O”.

Ninguém sabia o que significava. Nem mesmo Renato parecia saber completamente.

Foi numa terça-feira abafada que ele começou a suspeitar da existência concreta daquele “O”. Estava sentado num café perto da praça ferroviária quando percebeu algo estranho: quatro pessoas em mesas diferentes repetiam frases semelhantes, embora falassem de assuntos distintos.

— “Precisamos acreditar em alguma coisa.”
— “Sem isso ninguém aguenta.”
— “O importante é manter funcionando.”
— “Todo mundo faz de conta.”

Renato anotou imediatamente.

À noite, relendo os registros antigos, percebeu que aquelas frases apareciam há anos em suas observações. Mudavam apenas as roupas, as épocas, os rostos. Havia uma estrutura invisível organizando as ilusões humanas com precisão burocrática.

Naquela madrugada, abriu pela primeira vez a pasta “O”.

Dentro dela havia centenas de folhas sem ordem aparente: recortes de jornais, nomes de desconhecidos, diagramas, desenhos de espirais, horários de ônibus, sermões religiosos copiados à mão, propagandas de apartamentos e frases recolhidas em velórios.

No centro da pasta, preso por um clipe enferrujado, um papel antigo continha uma única frase:

“O organiza o conforto das ilusões para impedir o colapso.”

Renato sentiu um frio violento.

Passou semanas investigando a hipótese de que existia uma espécie de sistema informal — não exatamente uma instituição, nem uma conspiração — dedicado a manter as pessoas anestesiadas por narrativas suportáveis. Não importava se eram ideologias, romances, patriotismos, promessas de sucesso ou espiritualidades rápidas. Tudo servia ao mesmo mecanismo.

Observava casais discutindo em restaurantes e anotava:

“Preferem destruir um ao outro a admitir o vazio.”

Assistia políticos sorrindo em inaugurações:

“A mentira coletiva é mais confortável que a verdade individual.”

Via crianças repetindo slogans escolares:

“O treinamento começa cedo.”

Mas, lentamente, Renato começou a perceber algo mais perturbador: ele próprio talvez fosse parte do sistema que denunciava.

Afinal, o que eram suas anotações senão outra forma de organizar o caos?

Certa noite, diante do espelho do banheiro, encarou o próprio rosto cansado e murmurou:

— Talvez o observador seja apenas mais uma ilusão sofisticada.

Dormiu mal. Sonhou com corredores infinitos cheios de arquivos. Homens sem rosto carimbavam sentimentos humanos em papéis cinzentos. Medo aprovado. Esperança autorizada. Revolta adiada. Amor temporário.

Ao despertar, encontrou uma folha nova sobre sua mesa.

Não havia sinais de invasão no apartamento.

A frase datilografada dizia:

“Obrigado pelas contribuições, Renato Comburla.”

Sem assinatura.

Na manhã seguinte, desceu até a relojoaria. O senhor Balthus desmontava um relógio de bolso.

— O senhor já teve a sensação — perguntou Renato — de que alguém organiza tudo para que ninguém perceba nada?

O relojoeiro não levantou os olhos.

— Claro. É para isso que servem os relógios.

Renato ficou em silêncio.

Naquela tarde, queimou metade das anotações. A fumaça subiu lenta pela janela do apartamento, misturando-se ao céu cinzento da cidade. Mas não conseguiu destruir a pasta “O”. Guardou-a novamente na gaveta.

Porque, no fundo, suspeitava de uma última verdade:

As ilusões não eram apenas prisões.

Eram também o que impedia os homens de enlouquecer completamente.

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a pasta havia sido poupada, porque Renato não conseguira concluir a ambígua situação, que confrontava o processo de alienação programado, e a condição de bem-estar que o processo, de alguma forma, induzia as pessoas a um certo estado de serenidade e de crença, de que tudo estava bem, e que a vida sempre ofereceria oportuidades a quem procurasse por elas. Essa ambiguidade tirava o seu sono.

A pasta havia sido poupada porque Renato não conseguira emitir um veredito definitivo sobre aquilo que descobrira. Havia algo de intoleravelmente ambíguo no processo. Se, por um lado, percebia mecanismos claros de alienação programada — narrativas repetidas para anestesiar angústias, promessas distribuídas como sedativos morais, esperanças fabricadas em série — por outro lado não podia ignorar um fato desconcertante: as pessoas pareciam sobreviver graças precisamente a essas ilusões.

Essa constatação o perseguia.

Durante semanas passou a dormir apenas em fragmentos, cochilos interrompidos por pensamentos que regressavam como funcionários disciplinados de uma repartição invisível. Às três da manhã levantava-se, acendia o abajur da cozinha e relia suas anotações com uma espécie de desespero analítico.

Numa página escreveu:

“Se destruirmos as ilusões, o que colocaremos no lugar?”

Noutra:

“A verdade integral talvez seja incompatível com a estabilidade psíquica.”

E depois, com a letra trêmula:

“Talvez o sofrimento humano aumente quando desaparece a ficção de sentido.”

Renato começava a suspeitar de que a alienação não era apenas um instrumento de dominação. Talvez fosse também um mecanismo civilizatório. Um amortecedor invisível entre a consciência humana e o abismo.

Observava os trabalhadores no metrô. Exaustos, apertados, silenciosos. Ainda assim carregavam pequenas centelhas privadas: planos de viagens, reformas futuras, romances imaginados, a expectativa de uma promoção improvável, o orgulho de um filho, a fé discreta num amanhã mais suportável.

Seriam essas esperanças falsas?

Ou seriam exatamente aquilo que permitia continuar?

Essa pergunta corroía Renato mais do que qualquer teoria conspiratória.

Certa madrugada, caminhando pelas ruas vazias sob postes amarelados, percebeu vitrines iluminadas exibindo manequins sorridentes. Por um instante teve a sensação absurda de que os rostos artificiais compreendiam melhor a condição humana do que os filósofos.

As pessoas necessitavam acreditar que a vida estava minimamente organizada. Precisavam da sensação de que existiam oportunidades escondidas para quem persistisse. Mesmo quando as probabilidades eram pequenas, a crença em possibilidades futuras impedia o colapso imediato.

Renato passou então a desconfiar de sua própria lucidez.

Porque toda vez que desmontava uma ilusão, encontrava atrás dela não a liberdade, mas frequentemente o vazio, a apatia ou o terror silencioso.

Foi nesse período que começou a ouvir ruídos no apartamento.

Não ruídos claros. Apenas pequenos deslocamentos: o ranger da madeira durante a madrugada, passos no corredor do edifício, o elevador funcionando em horários impossíveis.

Numa noite abriu subitamente a gaveta onde guardava a pasta “O”.

Tudo permanecia intacto.

Exceto por uma nova anotação.

A folha não estava ali antes.

Dizia apenas:

“Os homens não suportam viver sem alguma forma de narrativa.”

Renato sentou-se na cama e permaneceu imóvel por quase uma hora. Não porque discordasse da frase. Mas porque, pela primeira vez, suspeitou que o verdadeiro objetivo do sistema talvez nunca tivesse sido esconder a realidade.

Talvez fosse impedir que a humanidade sucumbisse diante dela.

E isso tornava tudo infinitamente mais difícil de condenar.

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interrogou alguns colegas psicólogos e psiquiatras, sobre as ações do Sistema, e como eles interpretavam essa domesticação social, no sentido de manter uma ordem pacífica, controlando a violência, permitindo uma convivência coletiva, sob relativo controle social. Respostas evasivas, que não deram a Renato o retorno esperado, que acrescentasse alguma solução à ambiguidade, objeto principal do problema.

Renato decidiu procurar antigos colegas da universidade, psicólogos e psiquiatras que, em tempos remotos, haviam compartilhado com ele inquietações semelhantes. Imaginava encontrar ao menos uma formulação teórica capaz de iluminar aquela ambiguidade que o consumia. Talvez algum conceito esquecido, alguma interpretação clínica ou sociológica que organizasse o impasse entre alienação e estabilidade coletiva.

Mas os encontros produziram apenas um desconforto difuso.

O primeiro deles ocorreu no consultório elegante de Álvaro Tessen, psiquiatra renomado, especialista em transtornos de ansiedade. Enquanto falava, Álvaro ajeitava compulsivamente os botões do jaleco.

— Você chama de domesticação social — disse ele — aquilo que outros chamariam de adaptação civilizatória.

— E qual é a diferença? — perguntou Renato.

Álvaro sorriu com cansaço.

— A diferença está em sobreviver sem massacres permanentes.

Renato insistiu:

— Então o Sistema administra ilusões deliberadamente?

O psiquiatra desviou os olhos para a janela.

— Toda sociedade produz ficções reguladoras. Família, mérito, progresso, identidade, sucesso… Sem isso, talvez a violência explodisse de maneira incontrolável.

— Mas isso não é manipulação?

— Talvez. Mas experimente retirar das pessoas a crença mínima de pertencimento ou de futuro. Veja o que acontece.

A conversa terminou ali, suspensa num silêncio burocrático.

Dias depois encontrou Helena Bivar, psicóloga social que trabalhava em programas públicos de mediação comunitária. Conversaram num café quase vazio, cercados pelo ruído distante das máquinas de espresso.

Helena ouviu atentamente as teorias de Renato sobre “O Sistema”, mas reagiu com prudência quase clínica.

— Você está procurando uma pureza impossível — afirmou. — Nenhuma coletividade humana se sustenta apenas pela verdade objetiva. As pessoas precisam de símbolos compartilhados, mesmo imperfeitos.

— Símbolos ou anestesias?

— Às vezes são a mesma coisa.

A frase o perturbou profundamente.

Helena prosseguiu:

— A civilização inteira talvez seja uma negociação contínua entre frustração e fantasia. O problema não é existir domesticação social. O problema é quando ela elimina completamente a consciência crítica.

Renato anotou imediatamente aquela observação. Contudo, mesmo nela havia algo incompleto, uma hesitação cuidadosamente administrada.

Começou então a perceber um padrão inquietante nas respostas de todos os especialistas que consultava.

Ninguém negava inteiramente a existência do mecanismo.

Mas ninguém desejava nomeá-lo claramente.

Como se houvesse uma fronteira invisível além da qual o discurso acadêmico se tornava perigoso.

Um velho professor de psicanálise, já aposentado, foi ainda mais evasivo. Encontraram-se numa livraria antiga impregnada de poeira e cheiro de papel úmido.

Após ouvir longamente Renato, o professor comentou em voz baixa:

— A função mais importante das sociedades não é produzir felicidade. É conter o caos.

— Mesmo ao custo da alienação?

— Especialmente ao custo dela.

Renato ficou imóvel.

— Então estamos todos presos?

O professor demorou a responder.

— Não exatamente presos. Sedados.

Naquela noite, Renato voltou para casa com uma sensação opressiva de fracasso intelectual. Esperava encontrar respostas; encontrou apenas versões mais sofisticadas da ambiguidade original.

Abriu a pasta “O” e acrescentou uma nova folha:

“Os especialistas conhecem o mecanismo, mas falam dele como médicos que evitam revelar ao paciente a gravidade da doença.”

Depois escreveu outra frase abaixo, lentamente:

“A paz social talvez dependa menos da justiça do que da administração cuidadosa das ilusões.”

Ficou observando aquela sentença por muito tempo.

Ela lhe parecia monstruosa.

E, ao mesmo tempo, terrivelmente plausível.

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Renato percebeu que não conseguiria quebrar a consistente concordância que o Sistema conseguiria construir, como processo civilizatório. Rabiscou palavras soltas: poder, controle, massificação, alienação, regras instituídas. ideologias... Amassou o papel onde fizera algumas anotações soltas, e serviu-se de um dose de whiski. Foi até a janela, admirando o movimento como um grande formigueiro que alguém cultura e alvoroçara as formigas, que andavam de um lago para o outro, como se procurassem alguma direção.

Renato percebeu, com uma espécie de fadiga moral, que não conseguiria romper a consistência daquela concordância subterrânea que o Sistema construíra ao longo das gerações. Não se tratava apenas de propaganda, manipulação ou coerção. Era algo mais profundo: um acordo silencioso entre medo e necessidade.

A civilização parecia ter sido erguida precisamente sobre essa arquitetura ambígua.

Sentado à mesa da cozinha, sob a luz amarelada do abajur, rabiscou palavras soltas num papel já manchado de café:

“Poder.
Controle.
Massificação.
Alienação.
Regras instituídas.
Ideologias.
Pertencimento.
Medo do vazio.”

Observou aquelas palavras por alguns segundos. Pareciam conceitos mortos, fósseis acadêmicos incapazes de capturar a verdadeira dimensão do problema. Havia algo infinitamente mais orgânico em funcionamento. Um mecanismo psicológico coletivo que nenhum tratado sociológico conseguia explicar inteiramente.

Com irritação, amassou o papel e o lançou contra a parede.

Depois abriu a gaveta do armário, serviu-se de uma dose generosa de uísque e bebeu lentamente, sentindo o líquido descer como uma pequena combustão controlada.

Foi até a janela.

A cidade pulsava lá embaixo.

Carros deslizavam pelas avenidas como correntes luminosas. Pessoas cruzavam as calçadas em movimentos rápidos, quase automáticos. Vistas do alto, pareciam formigas subitamente perturbadas por alguma força invisível que lhes alterara a rotina. Um formigueiro inteiro alvoroçado por uma interferência mínima.

Renato apoiou a testa no vidro frio.

As pessoas iam de um lado para outro como se buscassem incessantemente alguma direção definitiva — trabalho, consumo, amor, segurança, reconhecimento, distração — sem perceber talvez que o próprio movimento já era parte essencial do mecanismo.

Manter-se em deslocamento contínuo.

Não parar.

Não olhar demais.

Não pensar além do necessário.

Na rua, um homem ria ao telefone. Uma mulher carregava sacolas apressadamente. Um entregador atravessava o trânsito como se sua vida dependesse de alguns minutos. Casais discutiam em esquinas. Um ônibus despejava passageiros fatigados sob a luz dos postes.

Tudo parecia absurdo.

E, ainda assim, estranhamente funcional.

Renato teve então um pensamento que o assustou pela clareza:

Talvez o Sistema não tivesse sido criado por alguém.

Talvez tivesse emergido naturalmente da incapacidade humana de suportar a própria consciência.

Essa hipótese lhe produziu um mal-estar maior do que qualquer teoria conspiratória. Porque eliminava a possibilidade de um culpado central. O Sistema deixava de ser uma entidade externa e passava a existir como uma produção coletiva, espontânea, quase biológica.

Uma defesa civilizatória contra o desespero.

Bebeu mais um gole de uísque.

O reflexo de seu rosto apareceu no vidro da janela, misturado às luzes da cidade. Por um instante, não soube distinguir onde terminava sua própria consciência e onde começava o rumor anônimo daquela multidão.

Então compreendeu algo ainda mais perturbador:

Até sua revolta talvez estivesse prevista dentro do mecanismo.

Até os inconformados tinham função na engrenagem.

E essa percepção lhe trouxe um cansaço tão profundo que, pela primeira vez em muitos anos, Renato desejou sinceramente ser apenas mais uma formiga obediente naquele grande movimento sem sentido aparente.

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Seus olhos passearam pelas janelas iluminadas dos prédios fronteiriços. Todos assistiam televisão, ou deviam, anestesiando-se do trabalho cumprido. Gritou inesperadamente, com a certeza de que jamas alguém o ouviria, sua palavra favorita em momentos de caos congnitivo: FOOODAAAASSSEEEEEE...

Seus olhos vagaram lentamente pelas janelas iluminadas dos prédios fronteiriços. Quadrados de luz suspensos na noite. Pequenos aquários humanos empilhados verticalmente.

Em quase todos eles, a televisão pulsava com sua luminosidade hipnótica.

Renato conseguia distinguir vultos imóveis diante das telas: famílias silenciosas, homens deitados em sofás, mulheres jantando distraidamente, crianças absorvidas por desenhos estridentes, idosos encarando telejornais como quem recebe instruções para continuar existindo.

Uma coreografia doméstica repetida milhares de vezes.

Pensou que talvez aquele fosse o verdadeiro templo contemporâneo. Não igrejas, nem parlamentos, nem universidades. Mas a luz azulada das salas noturnas, onde o cansaço coletivo vinha anestesiar-se depois do expediente cumprido.

Ali, o Sistema parecia atingir sua forma mais sofisticada:
não pela força,
mas pelo alívio.

As pessoas não queriam necessariamente a verdade. Queriam descanso. Um intervalo entre duas angústias. Uma narrativa simples que amortecesse o ruído interior antes do sono.

Renato sentiu uma pressão crescente dentro do peito.

As palavras dos colegas retornavam fragmentadas:

“Adaptação civilizatória.”
“Ficções reguladoras.”
“Conter o caos.”
“Sedação coletiva.”

Tudo lhe pareceu insuportavelmente lúcido.

A cidade inteira respirava como um organismo cansado tentando manter a própria estabilidade psicológica através de distrações cuidadosamente distribuídas.

Então algo rompeu dentro dele.

Talvez o álcool.
Talvez a insônia acumulada.
Talvez a percepção de que jamais encontraria uma resposta definitiva.

Apoiou as duas mãos na janela aberta e gritou para a noite, num impulso brutal, quase infantil:

— FOOODAAAASSSEEEEEE!

O som atravessou o vazio entre os edifícios e dissolveu-se rapidamente no rumor distante do trânsito.

Nenhuma janela se abriu.

Nenhuma cabeça surgiu.

Nenhum cachorro latiu.

A cidade permaneceu indiferente.

E foi precisamente essa indiferença que lhe provocou um estranho alívio.

Renato começou a rir sozinho.

Um riso baixo, cansado, quase melancólico.

Porque naquele instante compreendeu que seu grito não era contra o Sistema. Nem contra a alienação. Nem contra as ilusões coletivas.

Era apenas um protesto íntimo contra a exaustão de ser consciente demais.

Serviu-se de outra dose de uísque.

Na televisão de um apartamento distante, alguém sorria exageradamente em um programa de auditório. Palmas automáticas ecoavam sem som através do vidro.

Renato observou aquilo durante longos minutos.

Depois murmurou para si mesmo, com voz rouca:

— Talvez eles estejam certos… talvez sobreviver seja exatamente isso.

E pela primeira vez em muitos meses não abriu a pasta “O”.

Deixou-a fechada na gaveta.

Como quem finalmente aceita que certas perguntas continuam vivas justamente porque nenhuma resposta consegue suportá-las completamente.

mario moura

(do livro Pequenos contos contos sem testemunhas)

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