INTERNAÇÃO (Versão sem revisão)

 Escrever um conto sobre "a internação de um escritor em um hospício, — após sofrer uma crise nervosa, meses após o falecimento de sua esposa. feita por parentes próximos, interessados em sua fortuna. No hospício, Sandro Olivieri passa o tempo observando as estranhas manias e comportamentos dos internos, enquanto seu advogado providencia sua saída, suspendendo sua interdição. Anotando as extravagâncias mais notáveis, Sandro estabelece conexões com as práticas ditas "normais" na sociedade, apontando semelhanças psicológicas e comportamentais das pessoas, com aquela população considerada "infratores ameaçadores da normalidade".

INTERNAÇÃO  (Versão sem revisão)

Sandro Olivieri chegou ao Hospício São Jerônimo numa manhã de chuva fina, escoltado por dois enfermeiros silenciosos e por um primo que fingia tristeza com excessiva competência. O portão de ferro fechou-se atrás dele com um estalo seco, como uma sentença assinada pelo próprio destino.

Havia quatro meses que Helena morrera.

Desde então, Sandro — romancista célebre, herdeiro de uma fortuna antiga e dono de uma mente excessivamente inclinada à introspecção — passara a dormir pouco, conversar sozinho e esquecer compromissos. Chorava em público. Recusava visitas. Caminhava de madrugada pela casa vestindo o roupão da esposa morta. Isso bastou.

Os parentes agiram depressa.

Um laudo médico comprado, duas testemunhas convenientes e uma assinatura obtida sob sedativos transformaram a melancolia de um viúvo em insanidade jurídica. Sandro foi interditado. Seus bens, temporariamente administrados pelos familiares mais “preocupados”.

No terceiro dia de internação, compreendeu a verdade.

— Não fui trazido para ser curado — murmurou para si mesmo. — Fui removido.

O hospício possuía um odor permanente de éter, sopa rala e umidade antiga. Os corredores eram longos, pintados de verde descascado, e os internos vagueavam por eles como pensamentos perdidos dentro de uma cabeça febril.

Sandro começou a observar.

Era escritor antes de qualquer outra coisa; mesmo devastado, ainda carregava o vício da análise.

Havia o Coronel Brandão, um velho de bigode impecável, que marchava pelo pátio distribuindo ordens militares a árvores e bancos de pedra. Chamava aquilo de “manutenção da disciplina nacional”.

Havia Dona Celeste, que colecionava pedaços de barbante porque acreditava que cada fio continha lembranças abandonadas pelas pessoas.

Havia Norberto, um ex-contador que passava o dia registrando números invisíveis num caderno sem páginas. Dizia administrar “as dívidas morais do mundo”.

E havia o menino Elias, internado aos vinte e seis anos, que só falava através de perguntas.

— O senhor já percebeu — perguntou-lhe certa tarde — que os relógios parecem cansados, quando ninguém olha para eles?

Sandro anotava tudo.

O diretor do hospício permitia-lhe escrever porque acreditava que aquilo funcionava como terapia. Não imaginava que aquelas anotações se transformavam, pouco a pouco, numa acusação.

Seu advogado, doutor Álvaro Mendonça, visitava-o semanalmente.

— O processo de suspensão da interdição está avançando — dizia em voz baixa. — Seus parentes exageraram. Há inconsistências nos laudos.

— Inconsistências? — respondeu Sandro certa vez, sorrindo sem humor. — Meu caro Álvaro, toda sociedade é uma inconsistência bem vestida.

Foi naquela mesma semana que começou a perceber algo perturbador.

As manias dos internos não eram tão diferentes dos hábitos cultivados fora dali.

O Coronel Brandão berrava ordens para árvores; ministros berravam discursos patrióticos para multidões igualmente imóveis.

Norberto registrava dívidas imaginárias; banqueiros e investidores faziam o mesmo em edifícios luxuosos.

Dona Celeste guardava barbantes por medo de perder lembranças; famílias inteiras enchiam armários com objetos inúteis para evitar o vazio da própria existência.

E Elias…

Bem, Elias fazia perguntas absurdas.

Mas não seriam filósofos, poetas e religiosos apenas versões socialmente aprovadas do mesmo delírio?

Sandro passou a enxergar o hospício como uma miniatura honesta da sociedade.

Ali, ao menos, os delírios recebiam nomes sinceros.

Lá fora, eram chamados de carreira, patriotismo, tradição, mercado, status, moralidade.

Certa noite, durante o jantar, um interno começou a gritar que ratos invisíveis governavam o mundo por trás das paredes.

Os enfermeiros o sedaram imediatamente.

Sandro observou em silêncio.

No dia seguinte, leu no jornal velho da recepção que políticos haviam desviado milhões de fundos públicos enquanto discursavam sobre ética.

Ninguém foi sedado.

Isso o fez rir pela primeira vez desde a morte de Helena.

Uma gargalhada longa, amarga e quase feliz.

Os internos o encararam assustados.

— Vejam só — disse ele enxugando os olhos. — Acho que estou ficando são.

Meses depois, doutor Álvaro conseguiu reverter a interdição.

O processo revelou subornos, interesses financeiros e manipulação médica. Os parentes afastaram-se discretamente, protegendo a própria reputação como hienas assustadas pela luz.

Na manhã de sua partida, Sandro despediu-se dos internos no pátio.

O Coronel Brandão saudou-o rigidamente.

Dona Celeste entregou-lhe um barbante azul “para amarrar lembranças felizes”.

E Elias aproximou-se por último.

— Quando sair daqui — perguntou o rapaz — o senhor vai para o mundo dos loucos ou para o dos normais?

Sandro demorou-se antes de responder.

Olhou os muros altos do hospício.

Depois, além deles.

— Ainda não sei qual dos dois fica do lado de fora.

Naquele mesmo ano, publicou um livro intitulado Os Métodos da Normalidade.

A crítica chamou a obra de perturbadora.

A sociedade, naturalmente, adorou.

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desenvolver uma análise sobre os critérios ditos normais, e o permanente medo do confronto com os comportamentos que pensam além do rebanho, que pontuam reflexões sobre os valores da chamada normalidade, desestruturando certezas.

A sociedade sempre tratou a normalidade como um território seguro. Não necessariamente justo, racional ou saudável — apenas seguro. O conceito de “normal” raramente nasce de uma verdade objetiva; ele surge da repetição coletiva, do hábito social, da conveniência histórica e, sobretudo, do medo. O indivíduo normal é, quase sempre, aquele que aprendeu a reproduzir adequadamente os comportamentos esperados pelo grupo.

A grande questão é que toda estrutura social depende de estabilidade simbólica. As pessoas precisam acreditar que seus costumes possuem fundamento sólido, que suas rotinas fazem sentido, que suas crenças morais são legítimas e que seus modos de vida representam algum tipo de equilíbrio superior. Quando alguém rompe esse pacto silencioso — seja através da arte, da filosofia, da loucura, da dissidência política ou da recusa emocional — instala-se um desconforto profundo.

Não porque o “diferente” seja necessariamente perigoso.

Mas porque ele ameaça revelar que a normalidade talvez seja apenas um acordo frágil.

É por isso que sociedades historicamente desenvolveram mecanismos de contenção contra indivíduos excessivamente reflexivos, sensíveis ou desviantes. Nem sempre através da violência explícita. Muitas vezes, o controle ocorre pela ridicularização, pelo isolamento, pela patologização ou pela desqualificação moral.

O comportamento que questiona as estruturas produz ansiedade coletiva.

O sujeito que pergunta “por quê?” em excesso torna-se inconveniente porque obriga os demais a confrontarem suas próprias incoerências. E a maioria das pessoas não deseja rever os fundamentos da própria existência. Revisar crenças dói. Desconstruir valores provoca vertigem psicológica. É mais confortável preservar certezas imperfeitas do que encarar o vazio possível por trás delas.

Nesse sentido, a figura do “louco” ocupa um papel simbólico importante na organização social.

O louco não é apenas aquele que perdeu contato com a realidade; frequentemente, ele é também aquele cuja percepção rompe códigos aceitos de interpretação do mundo. Em diversas épocas, comportamentos considerados insanos eram apenas formas intoleráveis de lucidez, sensibilidade extrema ou rejeição às normas vigentes.

A história está repleta de exemplos:

  • Mulheres emocionalmente intensas foram diagnosticadas como histéricas.
  • Artistas foram tratados como degenerados.
  • Filósofos foram perseguidos por corromper certezas morais.
  • Visionários religiosos alternaram entre a santidade e a insanidade, dependendo da conveniência política da época.

A definição de normalidade muda constantemente porque ela não é um princípio absoluto — é um instrumento de organização social.

O problema surge quando a sociedade transforma normalidade em virtude moral.

Nesse ponto, obedecer passa a ser confundido com sanidade; adaptação torna-se sinônimo de equilíbrio; conformidade passa a parecer maturidade. Porém, indivíduos perfeitamente ajustados a estruturas injustas podem ser profundamente adoecidos sem jamais serem considerados loucos.

Uma sociedade pode normalizar:

  • a violência;
  • a desigualdade;
  • a exploração;
  • o consumo compulsivo;
  • o vazio afetivo;
  • a indiferença humana.

Ainda assim, continuará chamando de “desajustado” aquele que não consegue se adaptar a esse modelo.

Existe um medo permanente do pensamento que ultrapassa o rebanho porque pensamentos independentes desorganizam consensos. Eles obrigam as pessoas a perceberem que muitas convenções sociais são sustentadas mais pela repetição do que pela verdade.

Por isso, o indivíduo excessivamente reflexivo frequentemente desperta reações ambíguas:
admiração e hostilidade;
fascínio e rejeição.

Ele representa tanto a possibilidade de liberdade quanto o risco do caos.

Questionar profundamente a normalidade implica abrir mão de respostas prontas. E a maioria dos seres humanos necessita de estruturas estáveis para suportar a existência cotidiana. Sem essas estruturas, surgem angústias fundamentais:
Quem somos?
Por que vivemos assim?
Nossos valores possuem fundamento real ou apenas tradição?
Existe autenticidade em nossas escolhas ou apenas condicionamento social?

Essas perguntas desestabilizam identidades.

Por isso, a sociedade tende a tolerar críticas superficiais, mas reage defensivamente quando confrontada por reflexões que ameaçam os pilares emocionais do funcionamento coletivo.

No caso de Sandro Olivieri, o hospício torna-se uma metáfora poderosa: ele percebe que a diferença entre os internos e o restante da sociedade talvez não esteja na existência do delírio, mas apenas na forma como ele é legitimado socialmente.

O homem que conversa sozinho pode ser internado.

O homem que repete slogans políticos, dogmas econômicos ou crenças herdadas durante toda a vida é considerado perfeitamente racional — desde que o faça em coro com os demais.

A normalidade, então, revela seu aspecto mais inquietante:
ela não define necessariamente o que é verdadeiro, saudável ou lúcido.

Define apenas aquilo que o grupo consegue suportar sem entrar em crise.

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escrever um diálogo entre um interno insano e Sandro, quando esteve internado. , onde o trágico e o cômico se alternam.

Era fim de tarde no Hospício São Jerônimo.

A chuva escorria lentamente pelas grades das janelas, deformando o jardim externo numa aquarela cinzenta. Alguns internos caminhavam em círculos pelo pátio, como ponteiros defeituosos de um relógio abandonado.

Sandro estava sentado num banco de madeira, escrevendo em seu caderno, quando Ambrósio aproximou-se.

Ambrósio tinha cerca de cinquenta anos, embora o rosto sugerisse oitenta. Usava um paletó gasto sobre o pijama do hospício e carregava no bolso uma colher enferrujada que tratava como objeto sagrado.

Sentou-se ao lado de Sandro sem pedir licença.

Ficaram em silêncio por alguns segundos.

Então Ambrósio falou:

— O senhor também morreu?

Sandro ergueu os olhos lentamente.

— Ainda não, até onde sei.

Ambrósio assentiu com seriedade.

— Ah… então está na ala preventiva.

— Existe uma ala preventiva?

— Claro. O mundo inteiro é preventiva. Enterram a gente aos poucos para evitar o trabalho depois.

Sandro conteve um sorriso.

— E o senhor? Já morreu completamente?

— Parcialmente. O coração ainda insiste em trabalhar sem autorização.

Ambrósio retirou a colher do bolso e observou o próprio reflexo torto nela.

— Sabe qual é o problema dos médicos? — perguntou.

— Qual?

— Eles acreditam demais nos termômetros. Nunca vi homem inteligente confiando em vidro fino.

Sandro anotou discretamente a frase.

Ambrósio percebeu.

— Ah, o senhor escreve.

— Tento.

— Escritor?

— Sim.

— Péssima profissão para quem deseja continuar são.

Sandro riu pela primeira vez naquele dia.

— Talvez o senhor tenha razão.

— Tenho quase sempre. É por isso que me internaram.

O vento atravessou o corredor com cheiro de roupa molhada e desinfetante.

Ambrósio inclinou-se para perto dele.

— Escute com atenção. Aqui dentro há dois tipos de loucos.

— Quais?

— Os que enxergam coisas inexistentes… e os que enxergam coisas reais demais.

Sandro fechou lentamente o caderno.

— Em qual grupo o senhor está?

Ambrósio pensou longamente.

— Depende do remédio.

Os dois riram.

Depois o velho ficou sério de repente.

— Minha filha não me visita há três anos.

A mudança brusca de tom caiu entre eles como um copo quebrando.

— Sinto muito — disse Sandro.

— Ela acredita que enlouqueci porque comecei a dizer verdades inconvenientes.

— Que verdades?

Ambrósio olhou para o teto.

— Que meu genro a traía. Que o padre roubava dinheiro da igreja. Que ela era infeliz.

— E o senhor estava certo?

— Horrivelmente.

Silêncio.

Um interno passou correndo pelo corredor usando uma panela na cabeça enquanto gritava:

— O imperador das galinhas chegou!

Ninguém pareceu surpreso.

Ambrósio observou o homem desaparecer.

— A vantagem daqui — comentou — é que ao menos os lunáticos são sinceros.

Sandro sorriu de lado.

— Lá fora usam gravata.

— Exatamente.

O velho apontou a colher para ele como se fosse um cetro.

— O senhor sabe por que as pessoas odeiam os loucos?

— Medo?

— Não. Inveja.

Sandro arqueou a sobrancelha.

— Inveja?

— Claro. O louco diz o que pensa. Chora quando quer. Grita para o céu. Conversa com fantasmas sem pedir autorização social.

— E o preço disso é perder a liberdade.

— Não seja ingênuo, escritor… — Ambrósio murmurou. — Lá fora eles também não são livres.

O rosto dele endureceu.

— Apenas escolheram prisões compartilhadas.

A frase ficou suspensa no ar.

Ao longe, um enfermeiro tocava o sino do jantar.

Os internos começaram a caminhar lentamente em direção ao refeitório.

Ambrósio permaneceu imóvel.

— Posso lhe fazer uma pergunta? — disse Sandro.

— Se for difícil, cobro mais caro.

— O senhor realmente acredita que é louco?

Ambrósio abriu um sorriso cansado.

— Meu caro… às vezes passo horas conversando com minha esposa morta.

Sandro sentiu o peito apertar.

— Eu também fazia isso.

O velho virou-se lentamente para ele.

Por um instante, toda ironia desapareceu.

— Então talvez o senhor não esteja aqui por engano.

Sandro baixou os olhos.

A chuva engrossava do lado de fora.

— Ela morreu em fevereiro — disse ele, quase num sussurro. — Desde então, tudo parece deslocado. Como um palco depois que a peça termina.

Ambrósio assentiu devagar.

— O luto é uma forma temporária de insanidade.

— Temporária?

— Às vezes.

— E quando não passa?

— Então vira poesia.

Sandro riu apesar da tristeza.

— O senhor devia escrever livros.

— Deus me livre. Escritores transformam miséria em metáfora e ainda recebem aplausos por isso.

Levantou-se com dificuldade.

— Venha. Se chegarmos atrasados, Norberto começa a acusar as batatas de espionagem internacional.

Deram alguns passos pelo corredor.

Então Ambrósio parou de novo.

— Ah, antes que eu esqueça…

— O quê?

— Se algum dia o senhor sair daqui, faça um favor ao mundo.

— Qual?

O velho sorriu melancolicamente.

— Nunca deixe os normais decidirem sozinho o significado da sanidade.

mario moura

(do livro Pequenos histórias sem testemunhas  Ensaios  Vagas anotações )

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