MADALENA, UMA MULHER SIMPLES (conto original, revisado)



MADALENA, UMA MULHER SIMPLES

Capítulo 01

Madalena nasceu de sete meses, e não sabia ao certo quantos anos tinha. Quarenta e poucos, talvez. Aprendeu a medir o tempo pelas estações das chuvas, pelas festas de junho, pelas rugas discretas surgidas ao redor dos olhos, quando se olhava no espelho rachado da pequena casa onde morava. 

Não foi registrada ao nascer. A mãe, mulher simples e cansada da vida, jamais entendeu a importância daqueles papéis, que davam às pessoas um lugar oficial no mundo. 

Assim, Madalena cresceu existindo apenas para os vizinhos, para a igreja do bairro e para os poucos que sabiam seu nome.

O pai desaparecera cedo, numa manhã qualquer, levando consigo apenas duas camisas e um silêncio definitivo. 

Madalena tinha seis anos. Nunca mais o viu. Da figura dele, restou apenas a lembrança de um homem magro, de chinelos gastos, assobiando modinhas antigas no quintal.

A vida não lhe concedera talentos extraordinários. Não sabia cantar, nem escrever bonito, tampouco possuía inteligência, dessas que impressionam. Mas aprendera cedo a resolver pequenas coisas. Apertava dobras, remendava roupas, trocava botões, alinhava barras, colava solas de sandálias, improvisava soluções com a habilidade humilde, dos que vivem sem poder desperdiçar nada.

Foi assim que virou costureira.

Seu pequeno quarto de trabalho ficava na frente da casa, perto da janela que dava para a rua estreita. A máquina antiga, herdada de uma tia distante, rangia como um velho animal cansado. 

Madalena passava os dias curvada sobre vestidos alheios, ajustando cinturas, apertando mangas, reparando rendas delicadas que pertenciam a mulheres muito diferentes dela.

Mulheres dos bairros nobres.

Chegavam em carros silenciosos, usando perfumes suaves e óculos escuros enormes. Falavam depressa, olhando o celular, quase nunca reparando na casa simples, ou no chão de cimento gasto. Algumas, sequer se lembravam do nome da costureira.

— Preciso para sexta, querida.

Capítulo 02

Querida.

Madalena sempre sorria. Tomava as medidas, espetava os alfinetes no tecido e observava.

Observava tudo.

O modo como cruzavam as pernas. A maneira elegante de segurar as bolsas. A leve arrogância das que nunca precisaram calcular o preço do arroz, antes de comprar um sabonete.

À noite, porém, quando o bairro mergulhava na escuridão e os cachorros latiam para o vazio, Madalena deixava de ser apenas a costureira invisível.

Deitada na cama estreita, sob o ventilador barulhento, ela sonhava acordada.

Transformava-se.

Via-se caminhando pelas avenidas arborizadas dos bairros ricos. Usava vestidos de tecidos leves, feitos sob medida por estilistas famosos, cujos nomes pronunciava mentalmente com solenidade francesa. Saltos finos ecoavam sob seus pés. Homens educados, seguravam portas para sua passagem. Mulheres a cumprimentavam com respeito e discreta inveja.

Nessas fantasias noturnas, Madalena não precisava baixar os olhos.

O corpo mudava junto com o sonho. Sua postura se erguia. Os ombros deixavam de carregar o peso da sobrevivência. O rosto adquire uma serenidade altiva, dessas pessoas que parecem nascer convencidas, de merecer o melhor do mundo.

Ela gostava especialmente de imaginar as mãos.

Não as suas verdadeiras, ásperas de agulhas e sabão, mas mãos elegantes, adornadas por anéis delicados, deslizando distraidamente sobre taças de cristal.

Então sorria no escuro.

Às vezes, permitia-se exageros. Imaginava viagens para Paris, cafés em Lisboa, hotéis luxuosos, onde empregados falavam baixo e a tratavam como senhora importante. 

Em certos sonhos, era até dona de uma grande maison de costura, dessas que apareciam nas revistas antigas da sala de espera do salão de beleza.

Mas o mais curioso era que, em nenhuma dessas fantasias, Madalena desejava vingança.

Capítulo 03

Não sonhava em humilhar ninguém.

Não queria riqueza, para esfregar felicidade no rosto dos pobres do bairro. Seu desejo era outro, mais silencioso e difícil de explicar.

Ela queria pertencimento.

Queria saber como era viver sem medo constante. Sem contar moedas. Sem sentir vergonha da própria ignorância. Sem perceber, no olhar dos outros, aquela compaixão misturada com desinteresse, reservada às pessoas simples.

Numa madrugada abafada de novembro, enquanto terminava o ajuste de um vestido azul-marinho caríssimo, Madalena parou de costurar e ficou olhando a peça estendida sobre a mesa.

Passou a mão devagar pelo tecido.  Era macio como água.

Sem pensar muito, levantou-se, fechou a porta da frente e experimentou o vestido.

Serviu perfeitamente.

Madalena aproximou-se do espelho rachado da sala.

Por um instante, o mundo pareceu suspenso.

Ali estava ela: elegante, ereta, misteriosa. O tecido moldava seu corpo, com dignidade inesperada. Os cabelos presos de qualquer jeito, pareciam sofisticados sob a luz fraca. Até as marcas do tempo adquiriram certa nobreza.

E pela primeira vez em muitos anos, Madalena não imaginou outra mulher.

Não desejou ser ninguém além de si mesma.

Ficou longos minutos parada diante do espelho, como quem finalmente encontra alguma coisa perdida há décadas.

Depois retirou cuidadosamente o vestido, dobrou-o com carinho e voltou à máquina.

Lá fora, o céu começava a clarear.

Os primeiros ruídos da manhã surgiam na rua pobre, onde continuava vivendo a invisível Madalena, costureira sem idade certa, filha do abandono, mulher de sonhos silenciosos.

Mas naquela madrugada, sem que ninguém soubesse, ela experimentara uma rara forma de riqueza.

A de enxergar beleza em sua própria existência.

mario moura

(do livro Pequenas histórias sem testemunhas)

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