O HEDONISTA (conto original, com revisão feita)

 Conquistar quanto fosse de bens materiais, acumulou um patrimônio de propriedades, urbanas e rurais, que impressionavam. Viúvo, de meia-idade, pai de filho único, criado com todo o conforto, e já com 29 anos, sem nunca ter trabalhado, vivendo de prazeres e gastanças com carros esportivos, viagens, roupas de grifes e outras extravagâncias, ambiciona a fortuna do pai, para continuar no ócio perdulário de uma vida sem sentido, além do prazer inconsequente. O inicio da preocupação do pai, que não via o filho como um sucessor na administração de tudo o que acumulou. 


O HEDONISTA 

Midas e O Pai Goriot* pareciam ecoar silenciosamente naquela casa, onde o luxo ocupava todos os espaços, mas faltava justamente o essencial: propósito.                                                                                                                      O empresário Wenceslau Rodrigues, homem admirado nos círculos financeiros, construíra impérios, onde antes havia apenas terrenos baldios, fazendas improdutivas, e oportunidades invisíveis aos olhos comuns.        Sua fortuna não nascera da sorte, mas de décadas de trabalho, cálculo, disciplina e renúncia. 

Cada propriedade urbana, cada hectare de terra fértil, cada contrato assinado, carregava marcas de noites sem dormir e decisões duras.      Depois da morte da esposa, porém, sua atenção voltou-se inteiramente ao único filho. 

 Aos vinte e nove anos, o rapaz jamais conhecera a necessidade. Crescera cercado de empregados, motoristas, escolas caras e cartões sem limite.  Seus dias eram consumidos entre viagens internacionais, festas exclusivas, carros importados e roupas, cujo valor ultrapassava o salário anual de muitos trabalhadores das empresas do pai. 

Não havia nele curiosidade pelos negócios, interesse pela administração, ou senso de responsabilidade. Via a fortuna paterna, não como legado, mas como combustível eterno, para sustentar prazeres imediatos.                        

O pai observava tudo em silêncio crescente. 

No início, acreditara que fosse apenas imaturidade. Depois, pensou tratar-se de uma fase prolongada pela superproteção. Mas o tempo avançava, e o herdeiro permanecia vazio de ambição verdadeira. 

Não desejava construir; apenas consumir. Não compreendia o esforço necessário, para preservar aquilo que julgava infinito. Essa percepção começou a atormentar o empresário Wenceslau Rodrigues. 

Pela primeira vez em muitos anos, sentiu medo — não de perder dinheiro, mas de perceber que todo o patrimônio acumulado, talvez terminasse destruído em poucas décadas, por alguém incapaz de lhe atribuir valor moral ou humano. 

Via nos olhos do filho, não a continuidade de sua obra, mas a ameaça silenciosa de sua dissolução. 

Em reuniões, passou a testar discretamente o rapaz, convidando-o para visitas a propriedades, negociações e encontros empresariais.                        O filho comparecia sem interesse, distraído pelo celular, ou perguntando quanto tempo ainda faltava para terminar. 

Em certa ocasião, diante de uma fazenda adquirida após anos de disputa judicial, comentou apenas: 

— Dá para transformar isso aqui num resort incrível. 

O pai nada respondeu. Mas naquela noite quase não dormiu. Pela primeira vez, Wenceslau Rodrigues cogitou fazer uma pergunta amarga:                  teria construído o império, enquanto destruía o caráter do próprio herdeiro, com concessões sem limites?

...........................

O texto tem uma base literária forte, com atmosfera moral e psicológica bem construída. A referência a Pai Goriot e ao mito de Rei Midas funciona bem como chave simbólica: riqueza abundante, mas incapaz de produzir plenitude humana.

O trecho final é particularmente eficaz:

“teria construído o império, enquanto destruía o caráter do próprio herdeiro, com concessões sem limites?”

Essa pergunta fecha o capítulo com densidade ética e prepara um possível conflito maior entre pai e filho.

Alguns pontos que ficaram muito bons:

  • O contraste entre construção e consumo.
  • A imagem do filho como alguém “vazio de ambição verdadeira”.
  • O silêncio do pai como elemento dramático.
  • A ideia de herança não apenas material, mas moral.

Há também ecos interessantes de personagens clássicos decadentes, como os herdeiros improdutivos da literatura realista do século XIX.

Se quiser elevar ainda mais o impacto literário, há alguns caminhos possíveis:

1. Reduzir pequenas repetições

Em alguns trechos, as ideias de luxo, prazer e irresponsabilidade aparecem reiteradas muito próximas. Uma leve condensação deixaria a narrativa ainda mais elegante.

Exemplo:

“vivendo de prazeres e gastanças com carros esportivos, viagens, roupas de grifes e outras extravagâncias”

Poderia ficar:

“vivendo entre luxos, viagens e extravagâncias sem propósito”

2. Tornar Wenceslau mais humano

O pai está muito sólido como símbolo do mérito e da disciplina, mas ainda pouco emocionalmente exposto. Talvez inserir uma memória da esposa ou um momento íntimo de culpa aumente a profundidade psicológica.

Algo como:

Às vezes perguntava a si mesmo se a ausência materna deixara no filho um vazio que tentara compensar com dinheiro.

3. Dar mais singularidade ao filho

Por enquanto ele representa bem o hedonista moderno, mas ainda é mais conceito do que indivíduo. Um pequeno detalhe específico poderia humanizá-lo:

  • um vício emocional,
  • uma insegurança escondida,
  • um medo do fracasso,
  • uma sensação secreta de inutilidade.

Isso evitaria que ele se tornasse apenas “o filho rico irresponsável”.

4. O título funciona

“O Hedonista” é direto e forte. Remete imediatamente ao eixo moral da narrativa.

Seu texto está muito próximo de uma abertura de romance psicológico-social, no estilo de autores que exploram decadência moral ligada à riqueza e herança. Há um tom de realismo clássico, misturado a crítica contemporânea do vazio existencial.

Continuar o desenvolvimento do conto, reduzindo pequenas repetições, tornando Wenceslau mais humano, mais compassivo, talvez pela consciência de que não educara o filho na disciplina e no trabalho. Dar mais singularidade ao filho, com traços de prepotência e arrogância. Desenvolver como fechamento dramático do conto a morte do pai, a falência dos negócios, pela negligência do filho, que fica reduzido a pobreza, gastando toda a herança em cassinos, mulheres, com imprevidência assustadora, observada pelos amigos mais próximos e sinceros.

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A partir daquela inquietação, algo começou a mudar lentamente em Wenceslau Rodrigues.

Pela primeira vez em décadas, o empresário percebeu que o verdadeiro fracasso, talvez não estivesse nos riscos financeiros, nem nas oscilações do mercado, mas dentro da própria casa. Durante anos acreditara que amar o filho significava poupá-lo de dificuldades. Confundira proteção com excesso, afeto com permissividade.

Em noites silenciosas, sentado sozinho na biblioteca da mansão, lembrava-se da esposa. Ela costumava dizer que a abundância sem limites, podia deformar o espírito, de quem nunca conhecera esforço.                                Na época, ele sorria, distraído pelas reuniões, pelos contratos, pelas obras em andamento. Havia sempre mais um negócio urgente, mais uma aquisição, mais um projeto de expansão.

Agora, aquelas palavras retornavam com peso incômodo.

O filho, Arthur, crescera acreditando que o mundo existia para servi-lo.

Tinha a arrogância calma dos que jamais ouviram um “não” verdadeiro. Tratava garçons, motoristas e empregados, com impaciência automática, como se pessoas fossem extensões invisíveis, do conforto a que se habituara. Gostava de humilhar discretamente, quem julgava inferior, corrigindo pronúncias, exibindo marcas caras, mencionando viagens internacionais em conversas banais. Havia nele uma necessidade permanente de demonstrar superioridade.

Ainda assim, sob aquela postura insolente, existia algo mais profundo: um vazio que ele próprio parecia incapaz de compreender.  Nada o satisfazia por muito tempo.   

Comprava carros e logo se cansava deles. Mudava de país, como quem troca de restaurante. Cercava-se de festas, mulheres e excessos, mas carregava constantemente uma irritação difusa, uma espécie de tédio agressivo. Precisava de estímulos contínuos, para não permanecer sozinho consigo mesmo.

Wenceslau começou a enxergar isso, com dolorosa clareza.

Tentou aproximar-se do filho de maneira diferente. Convidou-o para conversas menos formais, contou histórias do próprio passado, falou das dificuldades da juventude, dos empregos precários, dos empréstimos arriscados, das humilhações que suportara, antes de enriquecer.

Artur ouvia pouco.  Às vezes sorria com ironia.

— O senhor fala, como se sofrer fosse virtude.

Wenceslau sustentava o silêncio por alguns segundos, antes de responder:

— Não. Mas aprender limites é virtude, e salva de muitos dissabores...

O filho desviava o olhar, entediado.

Pouco tempo depois, a saúde do empresário começou a declinar. Primeiro vieram pequenos esquecimentos. Depois o cansaço constante. Em seguida, os problemas cardíacos. Os médicos recomendaram reduzir o ritmo de trabalho, evitar tensões, descansar mais.

Mas descansar tornou-se impossível.

Wenceslau já não temia a morte em si. O que o aterrorizava, era imaginar o destino de tudo aquilo que construíra. Via no filho um homem despreparado, não apenas para administrar empresas, mas para administrar a própria vida.

Mesmo assim, insistiu até o fim.

Transferiu responsabilidades gradualmente, apresentou executivos antigos, explicou contratos, alertou sobre dívidas estratégicas, fluxos de caixa, riscos agrícolas e investimentos imobiliários.    Arthur demonstrava impaciência crescente, diante de qualquer assunto que exigisse concentração prolongada.

Certa tarde, interrompeu uma explicação do pai, sobre negociações bancárias:

— Honestamente, eu não entendo por que o senhor complica tanto as coisas. A gente tem patrimônio suficiente para várias vidas!

Wenceslau observou o filho longamente.

Naquele instante, compreendeu com tristeza definitiva, que ele jamais entenderia.

Meses depois, morreu durante a madrugada, vítima de um infarto fulminante.

O enterro reuniu empresários, políticos, antigos funcionários e trabalhadores rurais, que o respeitavam genuinamente. Muitos choravam com sinceridade. Arthur, porém, parecia desconfortável, não pela perda, mas pela solenidade demorada da cerimônia, preocupado com 0 compromisso programado para a noitada de esbórnia, em que encontraria uma mulher, em particular, que o interessara, quando a conhecera em uma reunião privada.

Nos primeiros meses após assumir o patrimônio, tentou manter aparência de normalidade. Cercou-se de consultores bajuladores, amigos oportunistas e mulheres fascinadas pelo dinheiro fácil. Continuou vivendo, como sempre vivera — talvez com ainda menos limites.

Comprou um iate.  Depois outro.

Passou temporadas inteiras em cassinos internacionais, onde gastava em uma noite valores equivalentes ao salário anual de dezenas de empregados das empresas herdadas. Bebia excessivamente. Fazia apostas impulsivas. Emprestava dinheiro a falsos amigos. Ignorava relatórios financeiros sem sequer abri-los.

Executivos antigos pediram demissão.

Alguns tentaram alertá-lo.

— Seu pai nunca retirava capital das empresas desse jeito — disse um administrador que trabalhava havia trinta anos com Wenceslau.

Arthur respondeu com desprezo:

— Meu pai passou a vida inteira trabalhando como escravo, para acumular dinheiro, que nunca aproveitou. Eu não pretendo cometer esse erro.

A decadência acelerou-se.

Fazendas foram vendidas para cobrir dívidas. Imóveis hipotecados. Processos judiciais surgiram. Parceiros comerciais afastaram-se discretamente. Bancos começaram a negar crédito.

Ainda assim, ele continuava gastando.

Os poucos amigos sinceros, assistiam à ruína com espanto impotente.

Havia algo quase suicida, na maneira como Arthur destruía a própria herança. Como se precisasse consumir tudo ao redor, para preencher uma ausência impossível de nomear.

Com o tempo, os convites cessaram.   As mulheres desapareceram.

Os bajuladores migraram para fortunas mais promissoras.

Quando percebeu a dimensão real da falência, já era tarde. Restava apenas um apartamento decadente, alguns objetos de luxo, vendidos gradualmente, e dívidas acumuladas.

Numa noite chuvosa, sentado sozinho em um bar quase vazio, Arthur viu pela televisão uma reportagem sobre um novo empreendimento, construído justamente, em uma das antigas propriedades do pai.

A matéria mencionava o nome de Wenceslau Rodrigues, como visionário do setor imobiliário.

O filho abaixou os olhos, lentamente.   Pela primeira vez em muitos anos, sentiu algo próximo da vergonha.   

Não pela pobreza.   Mas pela compreensão tardia, de que herdara uma fortuna, sem jamais compreender o valor do esforço que a criara.

E percebeu, tarde demais, que o dinheiro destruído, talvez fosse a menor de todas as perdas.

mario moura

(do livro Pequenas histórias sem testemunhas)

COMENTÁRIO

O fenômeno dos herdeiros dissipadores é tão antigo, quanto a própria ideia de patrimônio. Desde as grandes famílias aristocráticas europeias, até dinastias empresariais modernas, repete-se frequentemente o mesmo drama humano: a geração que constrói, conhece o esforço; a geração que recebe, conhece apenas o resultado final do esforço alheio.

Quem ergue uma fortuna, normalmente desenvolve, pela necessidade, uma relação concreta com limites, riscos e consequências.   Aprende cedo o valor do tempo, do trabalho, da privação e da disciplina.                                            Já o herdeiro, criado exclusivamente na abundância, muitas vezes conhece apenas o conforto acabado, sem contato verdadeiro com os sacrifícios invisíveis, que sustentaram aquele mundo.

Por isso, não raro surge um fenômeno psicológico curioso e destrutivo: o consumo deixa de ser prazer e transforma-se em linguagem inconsciente de desperdício.

Luxos exagerados, gastos impulsivos, ostentação contínua, apostas, vícios, extravagâncias públicas — tudo isso, muitas vezes revela mais do que simples vaidade. Em certos casos, funciona como uma incapacidade profunda de atribuir significado ao patrimônio recebido.                          Como o herdeiro não participou da construção da riqueza, também não desenvolveu vínculo moral com ela.

O dinheiro torna-se abstrato.   Perde o peso humano do esforço.

Aquilo que para o fundador representava décadas de trabalho, medo, renúncia e cálculo, para o sucessor pode parecer apenas, um fluxo inesgotável de recursos disponíveis ao prazer imediato.

Existe ainda um aspecto mais silencioso e trágico.

Muitos desses herdeiros, vivem sob uma identidade incompleta.          Crescem admirados pelo sobrenome, pela fortuna e pelos privilégios, mas intimamente percebem, que não construíram nada próprio.                    Alguns tentam compensar esse vazio, através do excesso permanente: festas, carros, viagens, mulheres, drogas, jogos, exibicionismo social. Como se precisassem provar, constantemente, uma grandeza que, no fundo, não sentem possuir.

Em diversos romances clássicos, essa figura aparece quase como símbolo de decadência civilizacional: o herdeiro, que consome rapidamente, aquilo que uma geração inteira levou uma vida para erguer.

Não se trata apenas, de irresponsabilidade financeira, mas de uma ruptura na transmissão de valores. Quando riqueza não vem acompanhada de formação moral, disciplina e consciência de limites, ela frequentemente se converte em instrumento de autodestruição.

Por isso tantas fortunas desaparecem em poucas décadas.

Não porque o dinheiro acabe sozinho, mas porque o vazio humano costuma consumir mais rapidamente, do que qualquer crise econômica.

mario moura

*Pai Goriot (Le Pére Goriot / 1835), romance de Honoré de Balzac, narra a história de um velho comerciante, que empobrece ao dar toda a sua fortuna para suas filhas, que o abandonam por vergonha.

(do livro Pequens histórias sem testemunhas   Ensaios   Vagas anotações)

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