O JOGO DE XADREZ (conto original, revisado)

 O JOGO DE XADREZ


Capítulo 01

O bar ficava numa esquina esquecida da cidade, desses lugares onde o tempo parecia ter desistido de correr. As paredes amarelecidas pela fumaça, o balcão de madeira gasto pelos cotovelos de gerações inteiras, e o rádio antigo, chiando boleros baixinho, davam ao ambiente uma melancolia quase confortável.

Toda quinta-feira, perto das seis da tarde, Ernesto e Paulo ocupavam a mesma mesa ao fundo, debaixo do ventilador preguiçoso que girava, como se pensasse duas vezes antes de continuar.

O tabuleiro de xadrez era velho. Algumas peças já tinham sido substituídas por outras, incompatíveis: um bispo de plástico branco, um peão de madeira escura, sem cabeça, uma rainha riscada pelo tempo. Ainda assim, os dois jogavam com solenidade, como se disputassem o destino do mundo.

Naquela noite, a chuva batia fina contra os vidros embaçados do bar.

Paulo mexeu um cavalo.

— Xeque.  Seu tom de voz era solene, como se fosse Napoleão em sua última batalha.

Ernesto ergueu os olhos devagar. Os dedos trêmulos, seguravam um copo pequeno de cachaça.

— Você sempre foi apressado — murmurou.

Paulo sorriu.

Tinham sido amigos desde meninos. Cresceram na mesma rua de terra, jogaram bola descalços, fumaram cigarros escondidos atrás da escola, e prometeram conquistar o mundo antes dos trinta.

Agora estavam ambos perto dos oitenta.

E o mundo, descobriram tarde demais, era grande demais para ser conquistado.

Ernesto avançou um peão.

— Sabe do que eu lembro quando chove assim? E a melancolia escorria da sonoridade de sua voz, agora sem ares napoleônicos, mas carregada de algo difícil de definir. Entre a tristeza e a nostalgia.


Capítulo 02

Paulo já conhecia o ritual. As partidas serviam menos para vencer, e mais para escavar memórias.

— Da Helena.

Ernesto assentiu.

O nome pairou entre os dois como fumaça.

Helena...

Mesmo depois de quarenta anos, ainda havia algo delicado, na maneira como Ernesto pronunciava aquelas sílabas.

— Ela odiava guarda-chuva — disse ele. — Dizia que chuva tinha que cair na pele da gente.

Paulo apoiou os braços na mesa.

Do lado de fora, um ônibus passou levantando água na rua.

— Você nunca me contou direito como foi.

Ernesto ficou em silêncio por um instante. Observou o tabuleiro, como se procurasse as palavras entre as peças.

— Nós tínhamos vinte e três anos. Imagina isso… vinte e três. A idade em que a gente acha que a vida é infinita.

Ele sorriu de leve.

— Eu trabalhava na oficina do meu pai. Ganhava pouco, mas tinha planos enormes. Queria abrir minha própria mecânica, comprar uma casa grande… achava que até os quarenta já estaria rico.

— E ela?

— Ela queria viajar. Conhecer o mar do Nordeste, aprender francês… dizia que Paris tinha cheiro de pão quente e perfume caro.

Paulo riu baixo.

— Helena sempre foi sonhadora.

— Era. E eu amava isso nela. Porque eu… eu era duro demais. Prático demais. Helena fazia o mundo parecer maior.

Ernesto moveu a torre lentamente.

As gotas de chuva engrossaram lá fora.

— A gente ia casar em dezembro — continuou. — Já tinha até comprado as alianças. Baratinhas… mas ela usava como se fossem ouro.

O rádio do bar mudou para um samba antigo.  Os clientes aproximaram-se para assistir melhor a partida, ou talvez para ouvir a conversa.  Ou ambos...

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Paulo percebeu que Ernesto olhava para algum lugar distante, muito além da fumaça, do tabuleiro e das paredes gastas.

— Foi numa noite assim — disse Ernesto. — Chovia muito. Eu estava esperando ela sair do trabalho. Helena atravessou a avenida correndo porque me viu do outro lado.

A mão dele parou sobre o rei.

— O carro apareceu rápido demais.

Paulo baixou os olhos.

Ernesto respirou fundo.

— O pior não é a lembrança do acidente. O pior é que, durante anos, eu fiquei lembrando das coisas pequenas. O jeito que ela prendia o cabelo. O jeito que ria cobrindo a boca. O cheiro do sabonete dela.

A voz falhou um pouco.

— A memória é cruel, Paulo. Ela não guarda os grandes acontecimentos. Guarda migalhas.

O amigo permaneceu quieto.

Sabia que existiam dores, que não precisavam de respostas.


Capítulo 03

No balcão, o dono do bar, após enxugar copos, estava atento, enquanto fingia não ouvir.

Ernesto continuou:

— Depois que Helena morreu, eu parei de fazer planos. Trabalhei, envelheci… mas nunca mais imaginei futuro nenhum.

Paulo encarou o tabuleiro.

— E mesmo assim, você continuou vivendo.

— A gente continua. Esse é o problema.

Os dois riram baixinho.

Uma risada cansada, de homens que já enterraram pais, irmãos, amigos, cachorros, ilusões e partes de si mesmos.

Paulo moveu o bispo.

— Sabe do que eu tenho saudade? — perguntou. — Da época em que tudo parecia começar.

Ernesto assentiu imediatamente.

— Ah… os começos.

Ficaram em silêncio outra vez.

Na juventude, pensavam que a felicidade seria uma chegada triunfal: dinheiro, sucesso, carros, viagens.

Agora, velhos, descobriam que os melhores momentos tinham sido outros.  E eram abstratos, associados a imagens emocionais, afetivas, uma abstração que se vive intensamente, e que marca defivinitivamente um estado de breve felicidade, mas ainda assim, felicidade absoluta...

As tardes sem pressa.  Os amigos vivos.  As mãos dadas.  As promessas impossíveis.  

As noites em que ainda acreditavam, que o tempo era infinito.

Ernesto olhou o tabuleiro e sorriu de canto.

— Engraçado… no fim, a vida é igual ao xadrez.

— Como assim?

— Você passa anos planejando movimentos brilhantes…

Ele segurou o rei entre os dedos.

— …mas termina tentando proteger o que sobrou.

Paulo ficou olhando para o amigo. E via o jovem impulsivo e brilhante, que desaparecera sob marcas fortes no rosto, linhas severas e rugas.

Havia naquela frase, uma tristeza tão funda que parecia antiga, como o próprio mundo.

A chuva começou a diminuir.

No rádio, alguém cantava sobre amores perdidos.

Ernesto então moveu a última peça.

— Xeque-mate.

Paulo observou o tabuleiro por alguns segundos, e soltou uma gargalhada baixa.

— Desgraçado… eu nem vi.

Ernesto sorriu. O pequeno público do bar aplaudiu a vitória de Ernesto.

E por um breve instante, enquanto a fumaça dançava sob a luz amarela do bar, Paulo teve a impressão de que o amigo, parecia jovem outra vez.

Como se Helena ainda estivesse viva, em algum canto invisível da memória.

Como se o tempo, cansado de vencer sempre, tivesse decidido recuar uma única casa.

mario moura

(do livro Pequenas histórias sem testemunhas)


Comentário sobre o tempo e a velhice

A velhice talvez seja o tempo, em que o futuro deixa de ser um território vasto, e se transforma numa janela pequena, aberta apenas para o dia seguinte. 

Quando somos jovens, vivemos voltados para o que virá: os sonhos, os planos, os amores ainda não encontrados, os caminhos que imaginamos infinitos. 

O amanhã parece inesgotável. Há sempre tempo. Tempo para recomeçar, para mudar de vida, para pedir perdão, para amar melhor.

Mas os anos passam silenciosamente.

E chega um momento em que o homem percebe, que o futuro já não lhe pertence da mesma maneira. Não porque deixe de existir esperança, mas porque a esperança muda de forma. 

Ela deixa de morar nas grandes conquistas e passa a sobreviver nas pequenas permanências: acordar sem dor, ouvir a voz de um amigo antigo, sentir o cheiro do café pela manhã, reconhecer ainda o próprio rosto no espelho.

A velhice, de certo modo,   é uma lenta despedida do futuro.

Os projetos tornam-se menores. As viagens são adiadas, indefinidamente. Muitos sonhos permanecem guardados numa gaveta invisível, não por covardia, mas porque o corpo já não acompanha os impulsos da alma. O tempo, antes abundante, torna-se matéria preciosa e frágil.

Então as lembranças começam a ocupar espaço.

E talvez seja essa a grande sobrevivência do velho: alimentar-se do passado, para suportar a estreiteza do amanhã.

As recordações tornam-se abrigo. Um amor vivido há cinquenta anos, ainda aquece noites solitárias. A voz da mãe morta, continua ecoando dentro da memória. Amigos desaparecidos, reaparecem inteiros em tardes silenciosas. 

Há uma estranha beleza nisso: aquilo que o tempo destrói na matéria, muitas vezes preserva na lembrança.

Os velhos passam a habitar dois mundos ao mesmo tempo — o presente breve e o passado interminável.

Por isso contam histórias repetidas. Não é distração apenas. É resistência. Enquanto a memória existe, parte da vida continua respirando. Cada lembrança narrada, é uma tentativa de salvar do esquecimento, aquilo que o tempo insiste em apagar.

E talvez exista certa sabedoria melancólica nisso tudo.

A juventude acredita que viver, é acumular futuros. A velhice descobre que viver, foi acumular instantes. Pequenos momentos, aparentemente banais que, anos depois, revelam-se gigantescos: uma risada num bar antigo, uma mão segurada, durante a chuva, uma despedida, que ninguém sabia ser a última.

No fim, o velho compreende algo, que o jovem jamais consegue entender completamente: a vida nunca esteve no amanhã. A vida sempre esteve nos dias comuns que passaram despercebidos, enquanto se esperava por algo maior.

E assim seguem os idosos, caminhando devagar entre perdas e memórias, sustentando a alma com os fragmentos luminosos, de tudo aquilo que um dia amaram.

mario moura

(do livro Pequenas histórias sem testemunhas)

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