O PROBLEMA HUMANO DOS ADICTOS: SOMOS TODOS ADICTOS (em processo de revisão)
Um conto sobre o psiquiatra Alberto Cruz, um homem solitário, cuja preocupação estava sempre voltada para pesquisar as mentes de pessoas adictas, em diversas substancias, incluindo o alcoolismo.
O PROBLEMA HUMANO DOS ADICTOS. SOMOS TODOS ADICTOSO consultório do doutor Alberto Cruz ficava numa rua antiga, de casarões estreitos e calçadas rachadas pelo tempo. O prédio, herdado do pai — também médico — sobrevivera às reformas urbanas, que transformaram a cidade numa sucessão de vidros espelhados e fachadas sem memória. Alberto jamais permitira que alterassem o lugar.
Dizia que paredes envelhecidas escutavam melhor os sofrimentos humanos.
Era um homem de cinquenta e oito anos, magro, de olhos profundamente encovados, sempre escondidos atrás de óculos de lentes grossas. Vivia sozinho, num apartamento silencioso, onde os livros ocupavam mais espaço que os móveis.
Era um homem de cinquenta e oito anos, magro, de olhos profundamente encovados, sempre escondidos atrás de óculos de lentes grossas. Vivia sozinho, num apartamento silencioso, onde os livros ocupavam mais espaço que os móveis.
Não havia fotografias sobre a mesa, nem retratos de família nas paredes. Apenas estantes abarrotadas de tratados de psiquiatria, neurologia, filosofia e antropologia.
Seu maior interesse, quase uma obsessão científica, era compreender as mentes destruídas pela dependência química.
Seu maior interesse, quase uma obsessão científica, era compreender as mentes destruídas pela dependência química.
Álcool, heroína, cocaína, crack, anfetaminas, medicamentos controlados — para Alberto, cada substância, era apenas uma porta diferente para o mesmo abismo humano.
Os colegas diziam, que ele estudava os vícios, como um monge medieval examinando demônios.
Mas Alberto não se ofendia.
Talvez porque soubesse que havia verdade naquela observação.
Durante décadas, trabalhou em hospitais psiquiátricos, clínicas de reabilitação e centros públicos de atendimento.
Os colegas diziam, que ele estudava os vícios, como um monge medieval examinando demônios.
Mas Alberto não se ofendia.
Talvez porque soubesse que havia verdade naquela observação.
Durante décadas, trabalhou em hospitais psiquiátricos, clínicas de reabilitação e centros públicos de atendimento.
Vira homens venderem alianças de casamento por uma dose. Mães abandonarem filhos. Jovens brilhantes, transformarem-se em espectros cambaleantes, incapazes de recordar o próprio nome.
E, no entanto, Alberto recusava-se a enxergar os dependentes, apenas como fracassados morais.
— Toda adicção — costumava dizer aos residentes — é uma tentativa desesperada de anestesiar alguma dor invisível.
Os alunos anotavam a frase, impressionados com a firmeza melancólica de sua voz.
À noite, depois das consultas, Alberto caminhava sozinho pela cidade. Gostava de observar os bares cheios, as mesas abarrotadas de copos, as risadas altas, os rostos lentamente alterados pelo álcool.
E, no entanto, Alberto recusava-se a enxergar os dependentes, apenas como fracassados morais.
— Toda adicção — costumava dizer aos residentes — é uma tentativa desesperada de anestesiar alguma dor invisível.
Os alunos anotavam a frase, impressionados com a firmeza melancólica de sua voz.
À noite, depois das consultas, Alberto caminhava sozinho pela cidade. Gostava de observar os bares cheios, as mesas abarrotadas de copos, as risadas altas, os rostos lentamente alterados pelo álcool.
Percebia detalhes, que ninguém notava: o homem que ria excessivamente, para ocultar a tristeza, a mulher que bebia rápido demais, para impedir o pensamento, o executivo elegante, cuja mão tremia discretamente, antes do primeiro gole.
Via sofrimento escondido sob gestos banais.
E talvez fosse isso que o tornava tão solitário.
Aos poucos, perdera a capacidade de conviver normalmente com as pessoas. Em qualquer conversa casual, enxergava fissuras psicológicas, mecanismos de fuga, sintomas ocultos. O mundo lhe parecia um vasto hospital invisível.
Certa madrugada chuvosa, enquanto organizava anotações sobre alcoolismo crônico, encontrou um velho caderno de couro, perdido entre livros empoeirados. Reconheceu imediatamente a caligrafia.
Era de Helena. Sua esposa. Ou melhor, a mulher que fora sua esposa vinte anos antes.
Helena morrera de cirrose hepática, aos quarenta e dois anos.
Alberto fechou os olhos lentamente. A dor jamais desaparecera por completo.
No início, ele acreditara poder salvá-la. Afinal, era psiquiatra, estudioso da mente humana, especialista em dependências. Mas a ciência não lhe dera resposta suficiente, diante da degradação lenta da mulher que amava.
Helena bebia escondido. Primeiro, pequenas doses. Depois, garrafas inteiras ocultas dentro do armário da cozinha.
Mais tarde, passou a beber pela manhã.
Por fim, já não escondia mais nada.
O álcool consumira sua alegria, sua memória, sua dignidade física. E Alberto, apesar de todos os estudos, percebera algo terrível: conhecimento técnico, não garantia poder sobre o sofrimento humano.
A culpa tornou-se seu companheiro permanente.
Talvez por isso mergulhasse obsessivamente nas pesquisas. Não buscava apenas compreender os pacientes.
Tentava compreender Helena.
Tentava compreender o fracasso.
Sentado diante da escrivaninha, abriu o antigo caderno. Encontrou uma frase sublinhada várias vezes:
“Existem dores que não desejam cura, apenas silêncio.”
Ficou imóvel durante longos minutos.
Lembrou-se de uma noite distante, em que Helena, completamente embriagada, chorara encostada na janela do apartamento.
— Você observa as pessoas, como quem desmonta máquinas, Alberto… Mas ninguém sobrevive, sendo apenas analisado.
Na época, ele não entendera.
Agora entendia.
Passara a vida inteira estudando cérebros deteriorados, mecanismos de dependência, impulsos destrutivos, alterações químicas da dopamina, traumas emocionais, predisposições genéticas.
Via sofrimento escondido sob gestos banais.
E talvez fosse isso que o tornava tão solitário.
Aos poucos, perdera a capacidade de conviver normalmente com as pessoas. Em qualquer conversa casual, enxergava fissuras psicológicas, mecanismos de fuga, sintomas ocultos. O mundo lhe parecia um vasto hospital invisível.
Certa madrugada chuvosa, enquanto organizava anotações sobre alcoolismo crônico, encontrou um velho caderno de couro, perdido entre livros empoeirados. Reconheceu imediatamente a caligrafia.
Era de Helena. Sua esposa. Ou melhor, a mulher que fora sua esposa vinte anos antes.
Helena morrera de cirrose hepática, aos quarenta e dois anos.
Alberto fechou os olhos lentamente. A dor jamais desaparecera por completo.
No início, ele acreditara poder salvá-la. Afinal, era psiquiatra, estudioso da mente humana, especialista em dependências. Mas a ciência não lhe dera resposta suficiente, diante da degradação lenta da mulher que amava.
Helena bebia escondido. Primeiro, pequenas doses. Depois, garrafas inteiras ocultas dentro do armário da cozinha.
Mais tarde, passou a beber pela manhã.
Por fim, já não escondia mais nada.
O álcool consumira sua alegria, sua memória, sua dignidade física. E Alberto, apesar de todos os estudos, percebera algo terrível: conhecimento técnico, não garantia poder sobre o sofrimento humano.
A culpa tornou-se seu companheiro permanente.
Talvez por isso mergulhasse obsessivamente nas pesquisas. Não buscava apenas compreender os pacientes.
Tentava compreender Helena.
Tentava compreender o fracasso.
Sentado diante da escrivaninha, abriu o antigo caderno. Encontrou uma frase sublinhada várias vezes:
“Existem dores que não desejam cura, apenas silêncio.”
Ficou imóvel durante longos minutos.
Lembrou-se de uma noite distante, em que Helena, completamente embriagada, chorara encostada na janela do apartamento.
— Você observa as pessoas, como quem desmonta máquinas, Alberto… Mas ninguém sobrevive, sendo apenas analisado.
Na época, ele não entendera.
Agora entendia.
Passara a vida inteira estudando cérebros deteriorados, mecanismos de dependência, impulsos destrutivos, alterações químicas da dopamina, traumas emocionais, predisposições genéticas.
Contudo, quanto mais aprendia, mais percebia o limite brutal da ciência, diante da solidão humana.
Porque havia algo nas adicções que escapava aos diagnósticos.
Uma espécie de vazio.
Um desamparo profundo.
Como se certas pessoas carregassem dentro de si um inverno permanente.
Nos meses seguintes, Alberto tornou-se ainda mais introspectivo. Atendia normalmente, escrevia artigos, participava de congressos, mas dentro dele crescia uma sensação irreversível de cansaço existencial.
Numa tarde abafada de novembro, recebeu em consulta um jovem alcoólatra chamado Vinícius, vinte e seis anos, internado diversas vezes. O rapaz entrou na sala com os olhos avermelhados e a aparência de quem já desistira de si mesmo.
— Doutor… o senhor acha que alguém realmente consegue mudar?
Alberto permaneceu em silêncio, por alguns segundos.
Olhou demoradamente, para aquele rosto devastado.
Depois respondeu com voz baixa:
— Não sei se as pessoas mudam completamente… Talvez apenas aprendam a conviver com os próprios fantasmas.
Vinícius sorriu de maneira triste.
— Então estamos condenados?
Alberto fitou a chuva escorrendo pela janela do consultório.
E, pela primeira vez em muitos anos, respondeu, não como médico, mas como homem:
— Não… condenados não. Mas profundamente feridos.
O rapaz abaixou a cabeça em silêncio.
Naquele instante, Alberto percebeu algo que suas pesquisas jamais haviam conseguido revelar por inteiro: muitas vezes, o dependente químico não buscava prazer na substância.
Buscava ausência.
Ausência da culpa.
Ausência da memória.
Ausência de si mesmo.
Naquela noite, ao fechar o consultório, Alberto caminhou lentamente pelas ruas molhadas da cidade. Os bares permaneciam cheios, iluminados por néons cansados. Pessoas brindavam, riam, esqueciam.
E ele compreendeu, com amarga lucidez, que talvez toda a sociedade estivesse intoxicada de alguma maneira — uns pelo álcool, outros pelo dinheiro, pela ambição, pelo poder, pela necessidade desesperada de não encarar o próprio vazio.
Parou diante da vitrine escura de uma livraria fechada.
Viu seu reflexo envelhecido no vidro.
Um homem que dedicara a vida inteira a investigar as ruínas da mente humana, sem perceber que também caminhava lentamente, entre destroços invisíveis.
E, pela primeira vez em décadas, Alberto Cruz chorou.
Alberto Cruz passou semanas, mergulhado naquela reflexão, que nascera após a conversa com Vinícius. Já não conseguia limitar a ideia de dependência ao álcool ou às drogas químicas. Algo dentro dele insistia em ampliar o problema, para dimensões muito maiores.
Começou a rever antigos apontamentos de congressos, entrevistas clínicas e observações acumuladas ao longo de décadas. Aos poucos, uma conclusão amarga tomou forma: a dependência não era um acidente marginal da sociedade moderna.
Era um de seus pilares invisíveis.
Numa madrugada silenciosa, sentado entre pilhas de livros e folhas rabiscadas, Alberto escreveu em seu caderno:
“A sociedade contemporânea condena os vícios visíveis, enquanto estimula violentamente, os vícios socialmente úteis.”
Ficou olhando a frase durante vários minutos.
Depois levantou-se e foi até a janela. A cidade permanecia acordada. Luzes acesas em apartamentos, automóveis cruzando avenidas, propagandas luminosas prometendo felicidade instantânea, juventude eterna, sucesso profissional, prazer imediato.
Tudo parecia movido por uma agitação incessante.
Uma fome coletiva.
Percebeu então que a dependência assumira formas sofisticadas demais para ser percebida com clareza. O alcoolista, caído na sarjeta, ainda despertava reprovação social. Mas o executivo, incapaz de abandonar o trabalho, era celebrado como exemplo de produtividade.
Porque havia algo nas adicções que escapava aos diagnósticos.
Uma espécie de vazio.
Um desamparo profundo.
Como se certas pessoas carregassem dentro de si um inverno permanente.
Nos meses seguintes, Alberto tornou-se ainda mais introspectivo. Atendia normalmente, escrevia artigos, participava de congressos, mas dentro dele crescia uma sensação irreversível de cansaço existencial.
Numa tarde abafada de novembro, recebeu em consulta um jovem alcoólatra chamado Vinícius, vinte e seis anos, internado diversas vezes. O rapaz entrou na sala com os olhos avermelhados e a aparência de quem já desistira de si mesmo.
— Doutor… o senhor acha que alguém realmente consegue mudar?
Alberto permaneceu em silêncio, por alguns segundos.
Olhou demoradamente, para aquele rosto devastado.
Depois respondeu com voz baixa:
— Não sei se as pessoas mudam completamente… Talvez apenas aprendam a conviver com os próprios fantasmas.
Vinícius sorriu de maneira triste.
— Então estamos condenados?
Alberto fitou a chuva escorrendo pela janela do consultório.
E, pela primeira vez em muitos anos, respondeu, não como médico, mas como homem:
— Não… condenados não. Mas profundamente feridos.
O rapaz abaixou a cabeça em silêncio.
Naquele instante, Alberto percebeu algo que suas pesquisas jamais haviam conseguido revelar por inteiro: muitas vezes, o dependente químico não buscava prazer na substância.
Buscava ausência.
Ausência da culpa.
Ausência da memória.
Ausência de si mesmo.
Naquela noite, ao fechar o consultório, Alberto caminhou lentamente pelas ruas molhadas da cidade. Os bares permaneciam cheios, iluminados por néons cansados. Pessoas brindavam, riam, esqueciam.
E ele compreendeu, com amarga lucidez, que talvez toda a sociedade estivesse intoxicada de alguma maneira — uns pelo álcool, outros pelo dinheiro, pela ambição, pelo poder, pela necessidade desesperada de não encarar o próprio vazio.
Parou diante da vitrine escura de uma livraria fechada.
Viu seu reflexo envelhecido no vidro.
Um homem que dedicara a vida inteira a investigar as ruínas da mente humana, sem perceber que também caminhava lentamente, entre destroços invisíveis.
E, pela primeira vez em décadas, Alberto Cruz chorou.
Alberto Cruz passou semanas, mergulhado naquela reflexão, que nascera após a conversa com Vinícius. Já não conseguia limitar a ideia de dependência ao álcool ou às drogas químicas. Algo dentro dele insistia em ampliar o problema, para dimensões muito maiores.
Começou a rever antigos apontamentos de congressos, entrevistas clínicas e observações acumuladas ao longo de décadas. Aos poucos, uma conclusão amarga tomou forma: a dependência não era um acidente marginal da sociedade moderna.
Era um de seus pilares invisíveis.
Numa madrugada silenciosa, sentado entre pilhas de livros e folhas rabiscadas, Alberto escreveu em seu caderno:
“A sociedade contemporânea condena os vícios visíveis, enquanto estimula violentamente, os vícios socialmente úteis.”
Ficou olhando a frase durante vários minutos.
Depois levantou-se e foi até a janela. A cidade permanecia acordada. Luzes acesas em apartamentos, automóveis cruzando avenidas, propagandas luminosas prometendo felicidade instantânea, juventude eterna, sucesso profissional, prazer imediato.
Tudo parecia movido por uma agitação incessante.
Uma fome coletiva.
Percebeu então que a dependência assumira formas sofisticadas demais para ser percebida com clareza. O alcoolista, caído na sarjeta, ainda despertava reprovação social. Mas o executivo, incapaz de abandonar o trabalho, era celebrado como exemplo de produtividade.
O jovem dominado pela ansiedade digital, era chamado de conectado. A compulsão pelo consumo transformara-se em virtude econômica.
Mudavam os objetos da dependência.
Mas a estrutura psicológica permanecia a mesma.
A necessidade compulsiva.
A incapacidade do vazio.
O medo do silêncio.
Alberto passou a desenvolver uma ideia perturbadora: talvez o homem contemporâneo, tivesse perdido completamente a capacidade de existir sem estímulos constantes. A civilização moderna, parecia construída sobre um princípio silencioso de anestesia contínua.
As pessoas já não suportavam a própria interioridade.
Precisavam consumir imagens, sons, informações, medicamentos, distrações, ambições, reconhecimento social. Precisavam manter a mente ocupada permanentemente, como se qualquer pausa, pudesse revelar algo intolerável, escondido dentro delas.
E talvez pudesse mesmo.
Porque, em sua experiência clínica, Alberto observara algo recorrente: muitos dependentes, não sabiam exatamente, quando haviam começado a se destruir. A substância surgia lentamente, quase sempre ligada a alguma dor anterior.
Solidão.
Humilhação.
Fracasso.
Sentimento de inadequação.
Medo.
Traumas antigos.
Mas existia também, outra origem mais profunda e difusa: o esmagamento silencioso, produzido por uma cultura fundada na competição permanente.
Desde a infância, os indivíduos eram treinados para disputar espaço, reconhecimento, desempenho. Precisavam ser melhores, mais rápidos, mais produtivos, mais desejáveis. O fracasso, transformara-se numa espécie de pecado moderno.
Ninguém podia simplesmente existir.
Era necessário vencer.
A cultura do desempenho criara uma humanidade exausta.
Alberto lembrava-se de pacientes, que recorriam a anfetaminas para suportar jornadas de trabalho desumanas; adolescentes, dependentes de ansiolíticos, antes dos vestibulares; empresários, destruídos por antidepressivos e álcool; jovens, completamente devastados emocionalmente pela necessidade obsessiva de aprovação, nas redes sociais.
A sociedade tratava esses casos como desvios individuais.
Mas Alberto via neles, sintomas de um adoecimento coletivo.
O problema não estava apenas nas substâncias.
Estava na própria organização da vida moderna.
Quanto mais refletia, mais percebia a dificuldade, quase impossível, da verdadeira libertação. Muitos pacientes conseguiam abandonar a droga específica, mas continuavam aprisionados na lógica psicológica da dependência.
O alcoolista, deixava a bebida e tornava-se compulsivo pelo trabalho.
O dependente químico, refugiava-se em fanatismos religiosos.
O consumista, convertia-se em obcecado por produtividade.
A estrutura interna permanecia intacta.
Mudava apenas o objeto de fixação.
Isso o levou a uma conclusão ainda mais desconfortável: a libertação individual, talvez fosse limitada, enquanto a própria sociedade continuasse organizada em torno da ansiedade, da competitividade e do consumo permanente.
Como curar homens adoecidos por uma cultura inteira?
Como exigir equilíbrio psíquico, de indivíduos submetidos diariamente ao medo do fracasso, da pobreza, da exclusão, da insignificância?
Alberto compreendia, que o sistema necessitava, psicologicamente, da inquietação contínua. Pessoas permanentemente insatisfeitas, consumiam mais, trabalhavam mais, obedeciam mais.
A angústia movimentava a engrenagem econômica.
Por isso, a ideia contemporânea de felicidade, lhe parecia profundamente contraditória: prometia plenitude, através de mecanismos que produziam exatamente o vazio, que tentavam preencher.
A publicidade alimentava carências.
A competição alimentava insegurança.
O excesso de estímulos alimentava ansiedade.
E então surgiam os remédios, os vícios, os narcóticos físicos e emocionais, para tornar suportável a existência produzida por esse próprio sistema.
Era um círculo perfeito. Quase impossível de romper.
Numa conferência para jovens médicos, Alberto certa vez declarou:
— A sociedade moderna medicaliza o sofrimento, mas raramente questiona as estruturas que o produzem.
O auditório silenciou.
Alguns estudantes pareceram desconfortáveis.
Outros anotaram a frase rapidamente.
Ele prosseguiu:
— Combatemos as consequências sem tocar nas causas. Tentamos curar indivíduos, que retornam diariamente para ambientes emocionalmente adoecedores. É como tratar queimaduras, enquanto a casa continua incendiando.
Depois da palestra, um residente perguntou:
— Então o senhor acredita que não existe saída?
Alberto demorou a responder.
Talvez porque soubesse, que respostas fáceis, eram outra forma de anestesia intelectual.
Por fim disse:
— Existe… mas ela exige mais do que tratamentos médicos. Exige uma transformação profunda, da maneira como entendemos o sucesso, o valor humano e o próprio sentido da vida.
O rapaz permaneceu calado.
E Alberto também.
Porque ambos intuíram algo difícil de admitir: nenhuma mudança verdadeira, seria simples, enquanto a civilização inteira continuasse baseada na exaustão do indivíduo, na competição permanente e na incapacidade coletiva de lidar com o vazio humano, sem recorrer a algum tipo de intoxicação.
Mudavam os objetos da dependência.
Mas a estrutura psicológica permanecia a mesma.
A necessidade compulsiva.
A incapacidade do vazio.
O medo do silêncio.
Alberto passou a desenvolver uma ideia perturbadora: talvez o homem contemporâneo, tivesse perdido completamente a capacidade de existir sem estímulos constantes. A civilização moderna, parecia construída sobre um princípio silencioso de anestesia contínua.
As pessoas já não suportavam a própria interioridade.
Precisavam consumir imagens, sons, informações, medicamentos, distrações, ambições, reconhecimento social. Precisavam manter a mente ocupada permanentemente, como se qualquer pausa, pudesse revelar algo intolerável, escondido dentro delas.
E talvez pudesse mesmo.
Porque, em sua experiência clínica, Alberto observara algo recorrente: muitos dependentes, não sabiam exatamente, quando haviam começado a se destruir. A substância surgia lentamente, quase sempre ligada a alguma dor anterior.
Solidão.
Humilhação.
Fracasso.
Sentimento de inadequação.
Medo.
Traumas antigos.
Mas existia também, outra origem mais profunda e difusa: o esmagamento silencioso, produzido por uma cultura fundada na competição permanente.
Desde a infância, os indivíduos eram treinados para disputar espaço, reconhecimento, desempenho. Precisavam ser melhores, mais rápidos, mais produtivos, mais desejáveis. O fracasso, transformara-se numa espécie de pecado moderno.
Ninguém podia simplesmente existir.
Era necessário vencer.
A cultura do desempenho criara uma humanidade exausta.
Alberto lembrava-se de pacientes, que recorriam a anfetaminas para suportar jornadas de trabalho desumanas; adolescentes, dependentes de ansiolíticos, antes dos vestibulares; empresários, destruídos por antidepressivos e álcool; jovens, completamente devastados emocionalmente pela necessidade obsessiva de aprovação, nas redes sociais.
A sociedade tratava esses casos como desvios individuais.
Mas Alberto via neles, sintomas de um adoecimento coletivo.
O problema não estava apenas nas substâncias.
Estava na própria organização da vida moderna.
Quanto mais refletia, mais percebia a dificuldade, quase impossível, da verdadeira libertação. Muitos pacientes conseguiam abandonar a droga específica, mas continuavam aprisionados na lógica psicológica da dependência.
O alcoolista, deixava a bebida e tornava-se compulsivo pelo trabalho.
O dependente químico, refugiava-se em fanatismos religiosos.
O consumista, convertia-se em obcecado por produtividade.
A estrutura interna permanecia intacta.
Mudava apenas o objeto de fixação.
Isso o levou a uma conclusão ainda mais desconfortável: a libertação individual, talvez fosse limitada, enquanto a própria sociedade continuasse organizada em torno da ansiedade, da competitividade e do consumo permanente.
Como curar homens adoecidos por uma cultura inteira?
Como exigir equilíbrio psíquico, de indivíduos submetidos diariamente ao medo do fracasso, da pobreza, da exclusão, da insignificância?
Alberto compreendia, que o sistema necessitava, psicologicamente, da inquietação contínua. Pessoas permanentemente insatisfeitas, consumiam mais, trabalhavam mais, obedeciam mais.
A angústia movimentava a engrenagem econômica.
Por isso, a ideia contemporânea de felicidade, lhe parecia profundamente contraditória: prometia plenitude, através de mecanismos que produziam exatamente o vazio, que tentavam preencher.
A publicidade alimentava carências.
A competição alimentava insegurança.
O excesso de estímulos alimentava ansiedade.
E então surgiam os remédios, os vícios, os narcóticos físicos e emocionais, para tornar suportável a existência produzida por esse próprio sistema.
Era um círculo perfeito. Quase impossível de romper.
Numa conferência para jovens médicos, Alberto certa vez declarou:
— A sociedade moderna medicaliza o sofrimento, mas raramente questiona as estruturas que o produzem.
O auditório silenciou.
Alguns estudantes pareceram desconfortáveis.
Outros anotaram a frase rapidamente.
Ele prosseguiu:
— Combatemos as consequências sem tocar nas causas. Tentamos curar indivíduos, que retornam diariamente para ambientes emocionalmente adoecedores. É como tratar queimaduras, enquanto a casa continua incendiando.
Depois da palestra, um residente perguntou:
— Então o senhor acredita que não existe saída?
Alberto demorou a responder.
Talvez porque soubesse, que respostas fáceis, eram outra forma de anestesia intelectual.
Por fim disse:
— Existe… mas ela exige mais do que tratamentos médicos. Exige uma transformação profunda, da maneira como entendemos o sucesso, o valor humano e o próprio sentido da vida.
O rapaz permaneceu calado.
E Alberto também.
Porque ambos intuíram algo difícil de admitir: nenhuma mudança verdadeira, seria simples, enquanto a civilização inteira continuasse baseada na exaustão do indivíduo, na competição permanente e na incapacidade coletiva de lidar com o vazio humano, sem recorrer a algum tipo de intoxicação.
mario moura
(do livro Pequenos contos sem testemunhas)
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