DIÁLOGO IMPERTINENTE (SEM REVISÃO)
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Diálogo entre Alberto e Neide, sobre o mercado e o consumo, como um processo de decadência da sociedade, a medida que afeta o comportamento das pessoas, criando valores desumanos
— Você reparou, Neide, que agora ninguém mais compra porque precisa? — perguntou Alberto, segurando a sacola quase vazia. — As pessoas compram para esquecer.
Neide ajeitou o óculos e observou a vitrine iluminada do shopping, do outro lado da rua.
— Esquecer o quê?
— O vazio. O silêncio. A própria vida.
Ela soltou uma risada curta.
— Isso parece frase de filósofo cansado.
— Talvez eu esteja cansado mesmo. Antigamente, o mercado existia para abastecer as pessoas. Hoje parece que as pessoas existem para abastecer o mercado.
Neide ficou em silêncio por alguns segundos.
— Tem verdade nisso. Você entra numa loja e sai se sentindo insuficiente. Sempre falta alguma coisa: um celular novo, uma roupa nova, uma experiência nova…
— Uma personalidade nova — completou Alberto. — O consumo virou identidade.
Os dois atravessaram lentamente a praça. Um telão publicitário piscava imagens de famílias sorrindo, diante de carros e perfumes.
— O pior — disse Neide — é que venderam a ideia de liberdade. “Compre e seja você mesmo.” Mas todo mundo acaba igual.
— Exatamente. As mesmas roupas, os mesmos gostos, as mesmas frases prontas da internet. É uma produção industrial de desejos.
Neide olhou para um menino sentado no banco, distraído no celular, enquanto a mãe carregava várias sacolas.
— E quanto mais as pessoas consomem, menos parecem satisfeitas.
— Porque o mercado não quer satisfação. Quer carência permanente. Uma pessoa satisfeita é um consumidor aposentado.
Ela sorriu de canto.
— Você devia escrever discursos revolucionários.
— Não é revolução. É só observação. Veja os bairros antigos: padarias virando franquias, praças virando estacionamento, livrarias virando loja de eletrônicos. Tudo precisa dar lucro imediato.
— Até as relações humanas — acrescentou Neide. — Hoje amizade tem lógica de aplicativo. Amor tem lógica de catálogo. As pessoas se exibem como produtos.
Alberto assentiu lentamente.
— O mercado descobriu que pode vender até insegurança. Primeiro cria o medo de não pertencer. Depois vende a solução.
O vento trouxe o cheiro artificial de pipoca caramelizada do shopping.
— Você acha que isso é decadência? — perguntou Neide.
— Acho que a decadência começa, quando uma sociedade troca valores humanos, por valores de vitrine.
Ela cruzou os braços.
— E existe saída?
Alberto demorou a responder.
— Talvez em pequenas recusas. Conversar sem pressa. Ler livros antigos. Cozinhar em casa. Fazer coisas que não gerem lucro para ninguém.
Neide riu.
— Resistência doméstica?
— É o que sobra, quando tudo virou mercadoria.
Os dois ficaram olhando o movimento da avenida: pessoas apressadas, sacolas nas mãos, olhos cansados refletidos nas vitrines.
— Engraçado — murmurou Neide. — Nunca houve tanta abundância. E nunca vi tanta gente vazia.
Alberto baixou os olhos.
— Porque abundância material não impede falência espiritual.
E seguiram andando em silêncio, enquanto atrás deles os anúncios continuavam prometendo felicidade em até dez vezes sem juros.
— Sabe o que mais me incomoda nisso tudo, Neide? — disse Alberto, diminuindo o passo. — É perceber que essa lógica não fica só nas lojas. Ela entra na cabeça da gente. No trabalho, principalmente.
— Como assim?
— Na empresa onde eu trabalho, por exemplo, tudo gira em torno de desempenho. Não importa se você está esgotado, se dorme mal, se a sua vida desmorona por dentro. O que importa é produzir mais que o outro.
Neide observou o rosto dele com atenção.
— Competição?
— O tempo inteiro. Eles chamam de meritocracia. Parece bonito. Parece justo, mas no fundo é uma máquina de transformar pessoas em números comparáveis.
— E você sente isso diariamente?
Alberto soltou um riso amargo.
— Todo dia. Existem rankings para tudo. Quem vende mais. Quem entrega mais rápido. Quem responde e-mails mais cedo. Quem sacrifica mais horas da própria vida pela empresa. O sujeito deixa de ser um ser humano, e vira uma estatística ambulante.
— Mas muita gente diria, que esforço merece recompensa.
— Claro que merece. O problema é quando o valor da pessoa, passa a depender, exclusivamente, da performance dela. Aí nasce uma sociedade doente.
Neide ficou pensativa.
— Você acha que o mercado mudou a maneira como as pessoas enxergam a si mesmas?
— Completamente. Antes o trabalho era parte da vida. Agora virou medida da dignidade humana. Se você produz muito, é admirado. Se desacelera, parece culpado de alguma falha moral.
Ela assentiu devagar.
— É verdade… descanso virou quase vergonha.
— Exato. Até o lazer foi sequestrado pela produtividade. As pessoas fazem academia para performar melhor, dormem ouvindo podcasts sobre eficiência, transformam hobbies em renda extra. Tudo precisa ser útil, monetizável, competitivo.
Neide respirou fundo.
— Como se viver sem gerar resultado, fosse desperdício.
— Porque o mercado não tolera a existência improdutiva. Ele precisa convencer todo mundo, de que tempo sem lucro é tempo perdido.
Passaram diante de um café cheio de jovens trabalhando em notebooks.
— Olha isso — disse Alberto. — Nem o café é mais descanso. Virou extensão do escritório. A pessoa toma cappuccino, respondendo mensagem de chefe, e acha que está vivendo uma vida moderna.
— E no meio disso tudo — perguntou Neide — onde fica o ser humano?
Alberto demorou a responder.
— Dilacerado entre ansiedade e comparação. O mercado criou uma corrida infinita. Sempre existe alguém produzindo mais, ganhando mais, aparecendo mais. E as pessoas internalizam essa competição até nas amizades.
— Como assim?
— Comparação constante. Quem viajou mais. Quem tem o melhor celular. Quem parece mais feliz. A vitrine digital transformou a vida numa exposição permanente de desempenho social.
Neide olhou novamente para o fluxo de carros.
— Então o consumo não é só econômico…
— Não. É psicológico. Cultural. Moral. O mercado deixou de vender apenas produtos. Agora vende critérios de valor humano.
Ela franziu a testa.
— Isso explica por que tanta gente se sente fracassada, mesmo vivendo melhor do que as gerações anteriores.
— Porque a sensação de insuficiência é essencial, para manter o sistema funcionando. Uma pessoa satisfeita desacelera. E desacelerar virou quase um ato de rebeldia.
Neide sorriu melancolicamente.
— Talvez por isso todo mundo esteja tão cansado.
Alberto concordou.
— O esgotamento virou condição permanente. E o mais assustador é que muitos já nem percebem. Acham normal viver correndo atrás de metas, que nunca terminam.
O sinal da avenida fechou. Os dois pararam na calçada enquanto enormes anúncios luminosos refletiam sobre o asfalto molhado.
— No fundo — concluiu Alberto — o mercado venceu, quando conseguiu transformar até a alma humana em ambiente de concorrência.
Alberto fitou a rua vazia pela última vez. Os postes ainda acesos tremeluziam como velas cansadas diante de um mundo que já não sabia distinguir progresso de ruína.
Neide permaneceu em silêncio, abraçada ao próprio casaco, como quem tentava proteger o pouco de humanidade que ainda lhe restava. Nenhum dos dois encontrou palavras capazes de responder à vertigem daquele tempo — a civilização ocidental avançava sobre os próprios escombros, administrando a decadência com a elegância burocrática de quem assina decretos, enquanto a casa arde lentamente.
Como escreveu Soren Kierkgaard, em sua obra Temor e Tremor: "enquanto o navio afunda, é obrigação polir os corrimãos de cobre, das escadas."
Ao longe, as telas continuavam brilhando nas janelas dos edifícios, vendendo conforto, distração e promessas ocas. Mas sob aquele brilho havia apenas um vazio disciplinado, uma tristeza organizada, a criação de um mundo incapaz de sonhar sem consumir, amar sem possuir, existir sem produzir ruínas. Alberto então sorriu com uma amargura quase serena.
— Talvez o fim não venha com bombas — murmurou. — Talvez venha assim… sem respostas.
Neide não respondeu. E foi justamente naquele silêncio que os dois compreenderam que já pertenciam ao crepúsculo de uma era.
A expressão “aviltamento do ser humano” refere-se à perda da dignidade, da liberdade e da valorização humana provocadas por sistemas políticos, sociai s ou econômicos. Assim, Alberto procura pensamentos que denunciem injustiças, exploração e desumanização, demonstrando uma preocupação ética e humanista.
Esse tipo de reflexão aparece frequentemente em autores como:
- Karl Marx — crítica à exploração do trabalhador pelo capitalismo.
- Jean-Paul Sartre — defesa da liberdade e responsabilidade humana.
- Michel Foucault — análise dos mecanismos de poder e controle social.
- George Orwell — crítica aos regimes totalitários e à manipulação das pessoas.
- Erich Fromm — discussão sobre alienação e perda da humanidade nas sociedades modernas.
O trecho sugere que Alberto está construindo uma visão crítica da sociedade, buscando compreender como diferentes sistemas podem reduzir o homem à submissão ou à perda de sua essência humana.
Nesse aprofundamento da reflexão, Alberto percebe que muitos sistemas autoritários ao longo da História acabaram ruindo porque promoveram a desumanização das pessoas. Ao negar liberdade, dignidade e individualidade, esses regimes criaram estruturas incapazes de sustentar-se permanentemente.
A ideia de “subtração da humanidade” indica justamente o processo pelo qual o ser humano deixa de ser visto como sujeito de direitos e passa a ser tratado apenas como instrumento do poder, da produção ou da ideologia. Essa percepção aproxima Alberto das críticas feitas por pensadores humanistas e por escritores que denunciaram diferentes formas de opressão.
Entre os períodos históricos que podem ser associados a essa reflexão estão:
- Nazismo — marcado pela perseguição, violência e eliminação de grupos humanos considerados “inferiores”.
- Stalinismo — caracterizado por repressão política, censura e perseguições em massa.
- Fascismo Italiano — valorização extrema do Estado e supressão das liberdades individuais.
- Ditadura Militar no Brasil — censura, perseguição política e limitação dos direitos civis.
Alberto compreende, então, que sistemas baseados na opressão e no aviltamento humano tendem a entrar em crise porque negam elementos essenciais da própria condição humana: liberdade, consciência crítica, empatia e dignidade. Sua reflexão estabelece uma ligação entre filosofia, literatura e História, mostrando que sociedades que anulam a humanidade acabam comprometendo sua própria permanência.
Neide, sentada em sua poltrona predileta, lugar onde costuma ler e anotar suas reflexões, com o diálogo ainda muito vivo em sua mente, sorvendo com tranquilidade um suco de laranja, amadurece alguns momentos importantes do "papo" com Alberto. Recorda-se de alguns escritores, que escreveram sobre ideías semelhantes, às que discutira com Alberto.
Sentada em sua poltrona preferida, Neide deixou o olhar perdido por alguns instantes enquanto recordava escritores que, ao longo do tempo, escreveram e polemizaram sobre ideias semelhantes às que havia discutido com Alberto.
Vieram-lhe à memória nomes como Friedrich Nietzsche, Jean-Paul Sartre e George Orwell, autores que transformaram inquietações humanas, políticas e existenciais em debates intensos e duradouros.
Neide permaneceu alguns minutos em silêncio depois da conversa com Alberto. Enquanto mexia lentamente o copo de suco de laranja, ainda gelado, organizava mentalmente os argumentos que haviam surgido naquela tarde.
Havia algo na fala dele que a inquietava: a ideia de que as transformações humanas raramente acontecem de forma abrupta, mas quase sempre por meio de pequenos deslocamentos internos, quase imperceptíveis.
Ela abriu o caderno e começou a anotar.
Lembrou-se imediatamente de Hannah Arendt, especialmente, quando escreveu sobre a responsabilidade individual diante das estruturas sociais. Neide registrou que Arendt parecia compreender algo essencial: a banalidade não nasce apenas da maldade, mas da ausência de reflexão crítica.
Alberto insistira exatamente nisso — no perigo das pessoas repetirem discursos sem examiná-los profundamente.
Mais abaixo, escreveu o nome de Paulo Freire. Para ela, Freire aproximava a consciência da ação concreta. Não bastava perceber o mundo; era necessário dialogar com ele. Neide anotou que Alberto demonstrava certa esperança na educação, como prática de transformação, ainda que às vezes falasse com ceticismo sobre a velocidade dessas mudanças.
Tomou outro gole do suco.
Em seguida, lembrou-se de Zygmunt Bauman e da ideia de modernidade líquida. As relações frágeis, os vínculos temporários, a dificuldade contemporânea de sustentar compromissos duradouros — tudo aquilo aparecia, de algum modo, na conversa que tivera com Alberto. Ela escreveu:
“Talvez o desconforto atual venha justamente da tentativa de viver profundidade em um tempo que recompensa superficialidade.”
Neide também recordou Michel Foucault, sobretudo quando pensava sobre poder e vigilância. Alberto mencionara, como as pessoas frequentemente internalizam controles sociais, sem perceber. Isso lhe pareceu profundamente foucaultiano: o poder não apenas reprime, mas produz comportamentos, organiza desejos e define normalidades.
Rabiscou mais uma observação:
“Os indivíduos acreditam escolher livremente até perceberem quantas escolhas já foram previamente moldadas.”
Por fim, escreveu sobre Simone de Beauvoir. A noção de construção social da identidade lhe parecia central para compreender certas inquietações discutidas com Alberto. Neide percebeu que ambos falavam, em essência, sobre liberdade — mas uma liberdade difícil, atravessada por condicionamentos históricos, afetivos e culturais.
Fechou o caderno devagar.
O suco já estava quase no fim, e o gelo havia derretido completamente. Ainda assim, sentia que aquelas anotações não eram apenas um resumo da conversa. Eram também uma tentativa de compreender a si mesma através das ideias dos outros.
Alberto fitou a rua vazia pela última vez. Os postes ainda acesos tremeluziam como velas cansadas diante de um mundo que já não sabia distinguir progresso de ruína.
Neide permaneceu em silêncio, abraçada ao próprio casaco, como quem tentava proteger o pouco de humanidade que ainda lhe restava. Nenhum dos dois encontrou palavras capazes de responder à vertigem daquele tempo — a civilização ocidental avançava sobre os próprios escombros, administrando a decadência com a elegância burocrática de quem assina decretos, enquanto a casa arde lentamente.
Como escreveu Soren Kierkgaard, em sua obra Temor e Tremor: "enquanto o navio afunda, é obrigação polir os corrimãos de cobre, das escadas."
Ao longe, as telas continuavam brilhando nas janelas dos edifícios, vendendo conforto, distração e promessas ocas. Mas sob aquele brilho havia apenas um vazio disciplinado, uma tristeza organizada, a criação de um mundo incapaz de sonhar sem consumir, amar sem possuir, existir sem produzir ruínas. Alberto então sorriu com uma amargura quase serena.
— Talvez o fim não venha com bombas — murmurou. — Talvez venha assim… sem respostas.
Neide não respondeu. E foi justamente naquele silêncio que os dois compreenderam que já pertenciam ao crepúsculo de uma era.
Alberto fitou a rua vazia pela última vez. Os postes ainda acesos tremeluziam como velas cansadas diante de um mundo que já não sabia distinguir progresso de ruína. Neide permaneceu em silêncio, abraçada ao próprio casaco, como quem tentava proteger o pouco de humanidade que ainda lhe restava. Nenhum dos dois encontrou palavras capazes de responder à vertigem daquele tempo — a civilização ocidental avançava sobre os próprios escombros, administrando a decadência com a elegância burocrática de quem assina decretos enquanto a casa arde lentamente.
Ao longe, as telas continuavam brilhando nas janelas dos edifícios, vendendo conforto, distração e promessas ocas. Mas sob aquele brilho havia apenas um vazio disciplinado, uma tristeza organizada, a criação de um mundo incapaz de sonhar sem consumir, amar sem possuir, existir sem produzir ruínas. Alberto então sorriu com uma amargura quase serena.
— Talvez o fim não venha com bombas — murmurou. — Talvez venha assim… sem respostas.
Neide não respondeu. E foi justamente naquele silêncio que os dois compreenderam que já pertenciam ao crepúsculo de uma era.
A chuva começara sem que percebessem. Gotas finas desciam pelos vidros do café vazio, deformando as luzes da avenida como se a própria cidade estivesse se dissolvendo diante deles. Alberto mantinha os olhos perdidos no movimento apressado das pessoas lá fora — homens e mulheres atravessando a noite com a mesma expressão fatigada, carregando sacolas, dívidas, remédios, metas, medos. Tudo parecia funcionar perfeitamente. E justamente por isso era assustador.
Neide fechou devagar o livro que trazia nas mãos.
— Então era isso? — perguntou, quase num sussurro. — Todo o progresso nos trouxe até aqui?
Alberto demorou a responder. Havia um cansaço antigo em seu rosto, como se tivesse envelhecido apenas tentando compreender.
— Criaram um Sistema em que o mercado deixou de ser instrumento e virou destino. O lucro passou a organizar a vida, os afetos, o tempo, a moral. Tudo precisa valer alguma coisa… tudo precisa gerar retorno. E o que não produz lucro… perde o direito de existir.
Neide abaixou os olhos.
— Inclusive as pessoas.
Ele assentiu lentamente.
Lá fora, uma ambulância cruzou a avenida sem que ninguém realmente olhasse. As vitrines continuavam acesas. Telas publicitárias sorriam rostos perfeitos sobre corpos exaustos. A cidade inteira parecia anestesiada por uma felicidade obrigatória.
— O mais terrível — continuou Alberto — é que aprenderam a administrar a decadência. Transformaram o colapso em rotina. Vendem distrações enquanto o sentido desaparece. E chamam isso de liberdade.
Neide sentiu um frio estranho, não no corpo, mas na consciência. Como se naquele instante percebesse que já não existiam respostas, apenas mecanismos funcionando sozinhos, esmagando silenciosamente tudo aquilo que um dia chamaram de humanidade.
Por muito tempo nenhum dos dois falou.
Do lado de fora, as pessoas continuavam andando depressa para lugar nenhum.
E naquele silêncio pesado, sufocante, Alberto e Neide compreenderam que talvez a tragédia definitiva da civilização ocidental não fosse sua queda — mas sua incapacidade de perceber que já havia começado.
..............................................................................
A chuva começara sem que percebessem. Gotas finas desciam pelos vidros do café vazio, deformando as luzes da avenida como se a própria cidade estivesse se dissolvendo diante deles.
Alberto mantinha os olhos perdidos no movimento apressado das pessoas lá fora — homens e mulheres atravessando a noite, com a mesma expressão fatigada, carregando sacolas, dívidas, remédios, metas, medos. Tudo parecia funcionar perfeitamente. E justamente por isso era assustador.
Neide fechou devagar o livro que trazia nas mãos.
— Então era isso? — perguntou, quase num sussurro. — Todo o progresso nos trouxe até aqui?
Alberto demorou a responder. Havia um cansaço antigo em seu rosto, como se tivesse envelhecido apenas tentando compreender.
— Criaram um Sistema em que o mercado deixou de ser instrumento e virou destino. O lucro passou a organizar a vida, os afetos, o tempo, a moral. Tudo precisa valer alguma coisa… tudo precisa gerar retorno. E o que não produz lucro… perde o direito de existir.
Neide abaixou os olhos.
— Inclusive as pessoas.
Ele assentiu lentamente.
Lá fora, uma ambulância cruzou a avenida sem que ninguém realmente olhasse. As vitrines continuavam acesas. Telas publicitárias sorriam rostos perfeitos sobre corpos exaustos. A cidade inteira parecia anestesiada por uma felicidade obrigatória.
— O mais terrível — continuou Alberto — é que aprenderam a administrar a decadência. Transformaram o colapso em rotina. Vendem distrações enquanto o sentido desaparece. E chamam isso de liberdade.
Neide sentiu um frio estranho, não no corpo, mas na consciência. Como se naquele instante percebesse que já não existiam respostas, apenas mecanismos funcionando sozinhos, esmagando silenciosamente tudo aquilo que um dia chamaram de humanidade.
Por muito tempo nenhum dos dois falou.
Do lado de fora, as pessoas continuavam andando depressa para lugar nenhum.
E naquele silêncio pesado, sufocante, Alberto e Neide compreenderam que talvez a tragédia definitiva da civilização ocidental não fosse sua queda — mas sua incapacidade de perceber que já havia começado.
mario moura
(do livro Pequenas histórias sem testemunhas Ensaios e Vagas anotações )
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Comentários
Postar um comentário