SOBRE O GATO AGENOR (versão definitiva)
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SOBRE O GATO AGENOR (versão definitiva)
Agenor não era um gato comum — embora, à primeira vista, parecesse apenas mais um felino, de pelos cinzentos e olhos atentos. Chegara à casa numa tarde indecisa, entre sol e chuva, desses dias em que o mundo parece suspenso, aguardando algo que ninguém sabe ao certo o que é.
Dona Dulce foi a primeira a notá-lo, encolhido junto ao portão, com uma dignidade estranha, para quem claramente passara por muitas ruas. Não miava. Não implorava. Apenas observava.
— Esse gato tem jeito de quem sabe das coisas — murmurou ela, mais para si do que para qualquer outro.
E, como se tivesse ouvido um convite invisível, Agenor entrou.
Nos primeiros dias, manteve certa distância. Caminhava pela casa com passos leves, medidos, como se estivesse mapeando não apenas os espaços, mas também as almas que ali habitavam. Observava Aninha fazer os deveres, acompanhava seu Antônio ler o jornal, seguia Dona Dulce pela cozinha, atento aos gestos e aos silêncios.
Não era um gato de excessos. Não pedia colo, mas aceitava quando vinha. Não fazia algazarra, mas também não era ausente. Sua presença era firme, constante — quase como um guardião discreto.
Com o tempo, todos começaram a perceber: Agenor tinha uma sensibilidade incomum.
Quando Dona Dulce se sentia triste, ele surgia e se acomodava ao seu lado, em silêncio, como se compreendesse que certas dores, não pedem palavras. Quando Aninha chorava, por alguma frustração infantil, era ele quem aparecia primeiro, esfregando-se em suas pernas até arrancar um sorriso. E, nas noites mais longas, quando seu Antônio se perdia em pensamentos que não compartilhava com ninguém, era o gato que se deitava próximo, vigilante.
— Esse bicho entende mais da gente, do que muita gente por aí — disse certa vez o velho, ajeitando os óculos.
Mas havia algo mais em Agenor.
Às vezes, ele parava diante de um ponto vazio da casa — um canto, uma porta, um corredor — e ficava ali, imóvel, como se escutasse algo que os outros não podiam ouvir. Seus olhos se fixavam em algo invisível, e um arrepio sutil percorria quem o observasse.
Aninha chegou a perguntar:
— Ele tá vendo o quê?
Ninguém soube responder.
Talvez lembranças. Talvez presenças. Talvez apenas o mundo, sob uma lógica que os humanos ainda não compreendem.
Os anos passaram, e Agenor envelheceu.
Seu caminhar tornou-se mais lento, seus saltos mais calculados. Ainda assim, manteve aquela aura tranquila, aquela sabedoria silenciosa que parecia crescer com o tempo.
Até que, numa manhã diferente das outras, ele não se levantou.
A casa, que antes pulsava com sua presença discreta, mergulhou num silêncio pesado. Não era apenas a ausência de um animal. Era como se algo essencial tivesse partido — algo que sustentava, de maneira invisível, o equilíbrio daquele lar.
Dona Dulce chorou em silêncio. Aninha abraçou o vazio. Seu Antônio permaneceu longamente sentado, olhando para o lugar, onde Agenor costumava ficar.
— Ele cuidava da gente — disse, por fim, com a voz baixa.
E talvez cuidasse mesmo.
Porque, mesmo depois de sua partida, algo permaneceu.
Nos momentos de tristeza, havia ainda um certo consolo inexplicável. Nas noites inquietas, uma sensação de proteção. Nos silêncios mais profundos, uma presença quase imperceptível — como um eco de algo que não se apaga.
Agenor partira, mas deixara uma marca invisível: a certeza de que os animais, especialmente os gatos, vivem em uma dimensão que apenas roçamos com nossa compreensão.
Eles não apenas habitam nossas casas.
Habitam nossos silêncios, nossas dores, nossas memórias.
E, de alguma forma misteriosa, cuidam de nós — mesmo quando já não estão mais aqui.
Depois de alguns meses — meses longos, arrastados, cheios de silêncios que pareciam maiores do que a própria casa — surgiu a pergunta inevitável:
Adotar outro gato?
Não foi uma decisão. Foi uma inquietação.
Veio primeiro com Aninha, de forma tímida, quase como quem pede desculpas por sentir vontade de seguir em frente:
— Mãe… e se a gente tivesse outro gatinho?
Dona Dulce não respondeu de imediato. Continuou mexendo a colher no café já frio, girando, girando, como se buscasse ali uma resposta que não vinha.
— Outro gato não é o Agenor — disse, por fim, sem dureza, mas com uma firmeza triste.
A frase ficou suspensa no ar.
Seu Antônio, que ouvira da sala, interveio dias depois, como quem entra numa conversa que nunca terminou:
— Não é pra substituir… — ajeitou o óculos — é pra continuar.
— Mas continuar o quê? — D. Dulce falou baixo, olhando para o vazio.
A casa ainda guardava os hábitos de Agenor. O canto do sofá onde, ele se deitava parecia intocado. Às vezes, Dona Dulce ainda evitava colocar objetos ali, como se temesse perturbar algo sagrado. Aninha, por sua vez, ainda chamava por ele sem perceber, em lapsos rápidos, quase sonhos acordados.
E então começaram as discussões.
Não discussões ásperas — mas aquelas conversas circulares, repetidas, que voltam sempre ao mesmo ponto.
— Vai ser diferente…
— Mas a gente tá pronto?
— E se não for igual?
— Justamente por isso…
Havia, no fundo, uma pergunta que ninguém dizia em voz alta:
É permitido amar outro, sem trair o que se perdeu?
Numa tarde particularmente quente, o assunto voltou à mesa.
O ventilador girava preguiçoso, espalhando mais ruído do que alívio. Aninha insistia:
— Eu sinto falta de um gato na casa…
Dona Dulce suspirou.
— Eu sinto falta do gato.
Seu Antônio, mais calado que o habitual, levantou-se, caminhou até a porta e ficou olhando o quintal. O mesmo quintal, onde Agenor, tantas vezes parava, como se enxergasse além do mundo visível.
— A casa ficou vazia demais — disse, sem se virar.
Silêncio.
Não era exatamente sobre o gato. Era sobre o que ele representava. Sobre o cuidado silencioso, a companhia sem exigências, a presença que preenchia sem pesar.
Naquela noite, algo curioso aconteceu.
Um barulho leve veio do portão.
Não era insistente. Não era urgente. Era… conhecido.
Aninha foi a primeira a perceber.
— Vocês ouviram?
Dona Dulce congelou por um instante. Seu Antônio levantou-se lentamente, como se cada passo carregasse uma expectativa antiga.
Ao abrirem o portão, encontraram um pequeno gato, magro, de olhos atentos — parado exatamente no mesmo lugar, onde Agenor aparecera anos antes.
Ele não miava.
Apenas observava.
Os três se entreolharam.
Não havia decisão tomada. Nenhuma discussão concluída. Nenhum consenso firmado.
Mas, de alguma forma, a vida — com sua estranha teimosia — parecia não esperar por resoluções humanas.
Dona Dulce foi a primeira a ceder, quase num sussurro:
— Parece que… ele já decidiu.
O gato deu um passo à frente.
E, naquele gesto simples, silencioso, algo se reorganizou dentro da casa.
Não era substituição.
Não era esquecimento.
Era outra coisa — mais difícil de nomear, mas profundamente familiar:
A continuidade do afeto.
A adoção estava, enfim, confirmada.
Não houve assinatura, nem anúncio formal, nem qualquer tipo de cerimônia. Apenas aconteceu — como acontecem as coisas, que já estavam decididas antes mesmo de serem ditas.
O pequeno gato já circulava pela casa com uma naturalidade desconcertante, como se conhecesse os caminhos, como se reconhecesse os cheiros, como se, de algum modo inexplicável, estivesse apenas retomando algo interrompido.
E, curiosamente, foi isso que trouxe de volta uma certa solenidade ao ambiente.
Seguiu-se um silêncio.
Aninha olhava o gato, esperando que ele próprio se apresentasse. O bichinho, por sua vez, apenas observava, sentado no meio da sala, com aquele ar atento que lembrava — perigosamente — alguém.
Foi então que seu Antônio, sem hesitar, sem sequer piscar, decretou:
— Altamirando.
Dona Dulce virou o rosto devagar.
— O quê?
— Altamirando — repetiu ele, com a convicção de quem não propõe, apenas reconhece algo evidente.
Aninha franziu a testa.
— Mas… não é grande demais?
Dona Dulce cruzou os braços, ponderando...
— Nome comprido demais dá trabalho…
Seu Antônio, no entanto, já parecia além da discussão.
Abaixou-se um pouco, ficando na altura do gato, e falou como se estivesse tratando diretamente com ele:
— Pode receber o apelido de “Mirinho”. Mas o nome… é Altamirando.
Houve um breve silêncio.
O gato piscou lentamente.
Uma vez.
Depois se levantou, caminhou até seu Antônio e roçou levemente a cabeça em sua perna, num gesto calmo, decidido.
Seu Antônio sorriu de lado.
— Tá vendo? Já concordou.
Dona Dulce soltou um suspiro que misturava resignação e um começo de ternura.
— Pois muito bem, então… Altamirando.
Aninha repetiu, testando o som:
— Mirinho…
O gato — agora Altamirando, oficialmente — percorreu a sala, explorando cantos, farejando memórias, ocupando espaços. Ao passar pelo antigo lugar de Agenor, parou por um instante.
Olhou.
Silêncio.
Então seguiu.
E, naquele pequeno movimento, havia algo quase imperceptível — mas profundo.
Como se não estivesse substituindo. Como se estivesse apenas… continuando a história.
Adoção confirmada, nome decidido — ainda que com certa solenidade doméstica —, Altamirando, ou melhor, Mirinho, começou a revelar, quem realmente era.
E, ao contrário de Agenor, cuja presença era quase filosófica, o novo morador não parecia interessado em contemplar o mundo.
Ele queria… interagir com ele. Intensamente...
A primeira suspeita surgiu na cozinha.
Dona Dulce entrou certa manhã e encontrou o pano de prato no chão, a tigela de frutas deslocada e uma banana curiosamente mordiscada — não comida, apenas testada, como se alguém tivesse feito uma análise técnica e depois desistido.
— Esse gato… — murmurou ela, já desconfiando.
Mirinho apareceu logo em seguida, com passos leves e olhar inocente demais para ser confiável.
Sentou-se. Piscou, como quem diz: não há provas.
Dias depois, foi a vez da sala.
Aninha deixara seu caderno aberto sobre a mesa. Quando voltou, encontrou uma página inteira decorada com marcas de patas levemente sujas de tinta azul.
No centro, um borrão mais expressivo, quase artístico.
— Mãe! O Mirinho pintou meu dever!
Dona Dulce tentou manter a seriedade, mas falhou.
— Pelo menos tem criatividade…
Mirinho, naquele momento, estava embaixo do sofá, observando o resultado de sua intervenção estética, com aparente satisfação.
Seu Antônio, por outro lado, demorou mais a perceber.
Até o dia em que o jornal simplesmente desapareceu.
Não sumiu por completo — isso teria sido menos intrigante. Ele reapareceu, horas depois, parcialmente escondido atrás da poltrona, com algumas páginas amassadas e outras… levemente rasgadas.
— Isso aqui foi um atentado — declarou, ajustando o óculos.
Mirinho surgiu atrás da cortina, enrolado como se fosse parte da decoração.
Olhou.
E deu um pequeno salto repentino, agarrando a própria sombra no chão, como se aquilo fosse a coisa mais urgente do mundo.
Seu Antônio ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois, inesperadamente, riu.
— Esse aí não veio pra cuidar da casa… veio pra acordar a casa.
E acordava mesmo.
Corridas repentinas durante a madrugada, como se perseguisse entidades invisíveis. Saltos calculados — e às vezes nem tanto — sobre móveis que claramente não foram feitos para aquilo. Investidas corajosas contra o pé de quem estivesse distraído sob o lençol.
Aninha adorava.
— Ele é maluco!
— Ele é jovem — corrigia Dona Dulce, embora já começasse a esconder melhor os objetos mais frágeis.
Mas havia algo curioso.
Entre uma travessura e outra, Mirinho também demonstrava momentos de pausa.
Às vezes, no meio de uma de suas corridas, ele simplesmente parava. Olhava para um ponto específico da casa — o mesmo canto onde Agenor costumava se deter.
Ficava ali por alguns segundos.
Quieto. Atento.
Como se escutasse. Como se lembrasse.
Então, de repente, voltava a correr atrás de nada — ou de tudo.
Certa noite, depois de um dia particularmente caótico — que incluíra um copo derrubado, uma planta parcialmente desenterrada e um ataque inesperado a um novelo de lã — Dona Dulce sentou-se cansada.
Mirinho subiu no sofá e, pela primeira vez, acomodou-se ao lado dela sem inquietação.
Ficou ali. Quieto. Ela hesitou por um instante… e fez um carinho leve em sua cabeça.
O gato fechou os olhos.
E, por um breve momento, houve silêncio.
Um silêncio diferente.
Não igual ao de Agenor — nunca seria —, mas ainda assim… completo.
Dona Dulce suspirou.
— Você não é ele…
Mirinho abriu um olho, como se escutasse.
Ela continuou:
— Mas acho que a gente precisava de você, mesmo assim.
O gato não respondeu, claro. Mas encostou-se um pouco mais.
E, naquela casa, que aprendera a conviver com a ausência, agora também se aprendia algo novo:
A alegria imperfeita, barulhenta, inesperada — mas profundamente viva — de recomeçar.
O tempo, como sempre, não pediu licença.
Passou. E com ele, Altamirando cresceu.
Já não cabia mais no diminutivo apressado de “Mirinho”, embora o apelido resistisse, teimoso, nas vozes da casa. Seu corpo alongara-se, os movimentos tornaram-se mais precisos, e havia agora uma elegância quase cerimonial em cada passo.
A transformação era visível — mas não apenas no físico.
As peraltices cessaram.
Não de uma vez, não com anúncio. Foram rareando, como as chuvas ao fim de uma estação. Primeiro, as corridas noturnas diminuíram. Depois, os ataques repentinos às sombras, tornaram-se mais espaçados. Até que, um dia, ninguém mais se lembrava da última travessura.
— Ele tá… diferente — comentou Aninha, observando-o de longe.
Dona Dulce concordou com um leve aceno.
Seu Antônio, com um meio sorriso, resumiu:
— Virou gato de verdade.
Altamirando agora passava longos períodos em silêncio.
Não um silêncio vazio — mas um silêncio cheio de alguma coisa difícil de nomear. Instalava-se em pontos estratégicos da casa: o encosto do sofá, o parapeito da janela, o mesmo canto, onde Agenor, anos antes, parecia escutar o invisível.
Ficava ali. Observando.
Às vezes, o olhar seguia movimentos que ninguém mais via. Outras vezes, parecia atravessar as paredes, como se buscasse algo além do que os olhos humanos alcançam.
— Ele tá pensando — dizia Aninha, meio em tom de brincadeira, meio em dúvida.
— Ou lembrando — completava Dona Dulce, sem saber bem por quê.
Havia também uma nova forma de presença.
Altamirando não era mais o caos que agitava a casa — era o eixo que a organizava.
Se Dona Dulce sentava-se cansada, ele surgia e se acomodava próximo, sem pressa. Se seu Antônio mergulhava em seus pensamentos, lá estava o gato, em vigília tranquila. Se Aninha, agora mais crescida, se perdia em inquietações silenciosas, era ele quem se aproximava, não com brincadeiras, mas como uma companhia serena.
Não exigia. Oferecia. E isso fazia toda a diferença.
Certa tarde, enquanto o sol atravessava a sala em faixas douradas, seu Antônio observava o gato imóvel no parapeito.
— Engraçado… — disse, ajustando o óculos — começa tudo em bagunça… e termina em contemplação.
Dona Dulce sorriu de leve.
— Talvez seja assim com a gente também.
Altamirando, como se tivesse ouvido, moveu apenas a ponta do rabo.
Nada mais.
Mas o que mais chamava atenção era aquele velho hábito.
O mesmo. O canto. Ele ainda parava ali. Imóvel. Atento.
O tempo não apagara esse gesto — apenas o aprofundara.
Agora, porém, havia algo diferente. Não era mais a curiosidade inquieta de um jovem gato. Era uma escuta paciente, quase solene.
Como se compreendesse.
Como se dialogasse com aquilo que, para os outros, permanecia inacessível.
Aninha, certa vez, perguntou, já sem o tom infantil de antes:
— Você acha que ele vê as mesmas coisas que o Agenor via?
Dona Dulce demorou a responder.
— Eu acho… — disse, por fim — que cada gato vê do seu jeito. Mas talvez… o mistério seja o mesmo.
Naquela noite, a casa estava em paz.
Altamirando caminhou lentamente até o antigo lugar de Agenor. Parou.
Sentou-se.
E ficou.
O silêncio que se formou não era de ausência.
Era de continuidade.
Como se, naquele instante, todas as fases — a chegada, a perda, o recomeço, a travessura e a maturidade — se encontrassem num único ponto invisível.
E ali, naquele canto simples de uma casa comum, Altamirando parecia cumprir o destino silencioso de todo gato:
Ser, ao mesmo tempo, presença e enigma. Companhia e mistério.
Fim… e recomeço.
Mãe... E Madalena? — a pergunta ficou ecoando, silenciosamente.
A pergunta surgiu quase por acaso, mas trouxe consigo um silêncio diferente — mais denso, mais antigo.
Aninha foi quem a fez, numa tarde qualquer, dessas em que o tempo parece dobrar-se sobre si mesmo:
— Mãe… e a Madalena?
Dona Dulce parou o que estava fazendo. Não imediatamente — houve aquele pequeno atraso de quem é alcançado por uma lembrança que nunca foi embora, apenas se escondeu.
Seu Antônio ergueu os olhos por cima do óculos.
Altamirando, no parapeito, moveu levemente as orelhas.
— A Madalena… — repetiu Dona Dulce, como se experimentasse o nome depois de muito tempo.
Diferente de Agenor, Madalena nunca fora completamente da casa.
Era presença e ausência ao mesmo tempo.
Aparecia nos fins de tarde, silenciosa, elegante, com aquele andar que parecia não tocar o chão. Não pedia nada — aceitava. Comia pouco, ficava o suficiente, e partia antes que a noite se tornasse profunda demais.
Tinha olhos que não se entregavam. E um mistério que ninguém ousava decifrar.
— Ela escolhia a gente… mas nunca ficou — disse seu Antônio, mais para si do que para os outros.
Aninha lembrava bem.
Lembrava de esperar por ela. Lembrava da alegria contida, quando Madalena surgia no muro. Lembrava, sobretudo, da sensação de que Madalena pertencia a outro mundo — um mundo que apenas tangenciava o deles.
— Ela sumiu, não foi? — perguntou Aninha, agora com um tom mais maduro.
Dona Dulce assentiu devagar.
— Depois que o Agenor… partiu… ela ainda apareceu umas duas vezes.
— Eu lembro — disse seu Antônio. — Ficava menos tempo.
— Como se estivesse… se despedindo — completou Dona Dulce.
Silêncio.
Altamirando desceu do parapeito. Caminhou lentamente até o centro da sala.
Parou.
— E depois? — insistiu Aninha.
Dona Dulce respirou fundo.
— Depois… não voltou mais.
Mas não havia dor na frase. Havia algo diferente. Uma aceitação serena, quase respeitosa.
Como se todos soubessem, no fundo, que Madalena nunca fora de partir — porque nunca fora de ficar.
Seu Antônio, então, disse algo que raramente dizia — algo sem ironia, sem defesa:
— Tem gato que é da casa… e tem gato que é do mundo.
Aninha pensou por um instante.
— E ela?
Ele sorriu de leve.
— Ela era do caminho.
Naquela noite, algo curioso aconteceu.
Altamirando, já em seu silêncio filosófico, dirigiu-se à porta.
Sentou-se. Ficou olhando para fora.
Não miou. Não pediu para sair. Apenas observava.
O vento passava leve pelo quintal. As sombras se moviam devagar. Por um instante — breve, quase ilusório — pareceu haver um movimento no muro.
Uma forma.
Um contorno.
Elegante.
Silencioso.
Altamirando não se moveu. Mas seus olhos acompanharam.
E, então, piscou lentamente.
Uma vez.
Depois, levantou-se e voltou para dentro.
No dia seguinte, nada foi dito.
Mas Aninha, ao passar pelo muro, teve a estranha sensação de que alguém ainda conhecia aquele caminho.
E talvez conhecesse mesmo.
Porque há presenças que não se explicam em permanência.
Elas existem no intervalo.
Na travessia.
No quase.
Madalena não ficou. Mas também não se foi completamente.
Como certos encontros da vida, ela permaneceu onde sempre esteve:
Entre o que se vê…
e o que apenas se sente.
“Entre o que se vê… e o que apenas se sente”, existe um território silencioso, quase invisível — e, ainda assim, profundamente real.
É o espaço, onde a experiência humana se torna maior do que as palavras.
O que se vê pertence ao mundo das formas: o gesto, o corpo, a presença concreta, o acontecimento que pode ser contado, descrito, compartilhado.
É o domínio da certeza visível, aquilo que se pode apontar e dizer: está aqui.
Mas o que se sente… não obedece a essa lógica. O que se sente escapa.
Não se fixa. Não se deixa medir. Não cabe inteiro em linguagem alguma.
É uma espécie de verdade mais íntima — e, paradoxalmente, mais difícil de provar.
Entre esses dois polos existe um intervalo. E é nesse intervalo que a vida realmente acontece.
Porque raramente sentimos apenas o que vemos.
E quase nunca vemos tudo o que sentimos.
Pense na lembrança de alguém que partiu.
O corpo já não está. A voz não ecoa. O lugar que ocupava pode até ter sido reorganizado. Tudo, no plano visível, indica ausência.
Mas algo permanece.
Um cheiro que surge sem aviso. Um gesto repetido sem perceber. Um silêncio que carrega significado. Uma presença que não se impõe — mas também não desaparece.
Isso não se vê.
Mas se sente.
E, de algum modo, é tão real quanto qualquer objeto diante dos olhos.
Esse “entre” não é vazio. É densidade.
É onde habitam as memórias, os afetos, as intuições, os vínculos que não dependem da matéria para existir. É também onde mora o mistério — aquilo que não conseguimos explicar, mas reconhecemos quando nos atravessa.
Talvez seja por isso que certos encontros parecem maiores do que o tempo que duraram.
E certas ausências… nunca se completam.
Porque não pertencem apenas ao que foi vivido de forma concreta — pertencem ao que foi sentido de forma profunda.
Viver apenas no que se vê é limitar a existência ao que pode ser comprovado.
Mas viver apenas no que se sente é correr o risco de se perder naquilo que não tem forma.
A sabedoria — se é que ela existe — talvez esteja em sustentar essa tensão.
Habitar esse intervalo sem a necessidade de resolvê-lo.
Aceitar que há coisas que não serão explicadas, apenas experienciadas.
No fundo, “entre o que se vê… e o que apenas se sente” , é onde se revela uma dimensão mais sutil da realidade.
Uma dimensão onde o amor continua mesmo sem presença.
Onde a memória não é passado, mas continuidade.
Onde o invisível não é ausência — é outra forma de presença.
E talvez seja justamente nesse espaço — discreto, silencioso, quase imperceptível — que aquilo que realmente importa, encontra sua forma mais verdadeira de existir.
O conto de Agenor, Madalena e Altamirando nunca foi apenas sobre gatos.
Ou melhor: é sobre gatos — mas não só.
Há uma ambiguidade que atravessa toda a narrativa, como um fio invisível que costura os episódios aparentemente simples do cotidiano doméstico, a uma reflexão mais ampla sobre a própria condição de existir.
Os gatos, com seus gestos contidos e seus silêncios densos, funcionam como espelhos — não do que somos na superfície, mas do que nos habita em profundidade.
Agenor representa aquilo que chega sem explicação e, sem esforço, organiza o mundo ao redor. Sua presença é quase arquetípica: o guardião silencioso, aquele que compreende sem falar, que acolhe sem invadir. Sua morte não é apenas a perda de um animal — é o primeiro grande confronto da casa com a finitude, com a ruptura inevitável que nenhuma afeição consegue impedir.
Madalena, por sua vez, é o oposto complementar. Nunca pertence, nunca se fixa. Ela encarna o transitório, o indomável, o que não pode ser retido. Sua existência é feita de intervalos, de aparições e ausências. Se Agenor é a permanência que conforta, Madalena é o mistério que inquieta. Ela não deixa vazio — deixa perguntas.
Altamirando surge como síntese — mas não como repetição. Ele não substitui, ele desloca. Sua trajetória, da desordem juvenil à contemplação madura, reflete um ciclo que é profundamente humano: nascer no impulso, viver no excesso, e, com o tempo, aprender a habitar o silêncio.
Assim, o conto se revela como uma metáfora da vida.
A chegada inesperada (Agenor), o encontro que não se pode possuir (Madalena), e o amadurecimento que nos transforma (Altamirando). Três formas de existência, três modos de estar no mundo — todos atravessados pela mesma pergunta silenciosa: o que, afinal, permanece?
E é aqui que a ambiguidade se intensifica.
Porque, se lido literalmente, o conto fala de gatos que entram e saem de uma casa, deixam marcas, criam vínculos.
Mas, se lido com mais atenção, ele fala de pessoas.
Fala dos que chegam e mudam tudo sem pedir licença. Dos que passam e, justamente por não ficarem, se tornam inesquecíveis. E dos que permanecem tempo suficiente para se transformar — e, ao se transformarem, nos transformam também.
Fala, sobretudo, da impossibilidade de fixar o que é vivo.
Tudo muda .Tudo escapa. Tudo segue...
Na última noite, sem que ninguém percebesse de imediato, algo se alterou na casa.
Altamirando, já em sua fase de silêncio profundo, caminhou até o antigo canto — o mesmo onde Agenor parava, o mesmo que, por vezes, parecia convocar presenças invisíveis.
Sentou-se.
Mas, dessa vez, não ficou apenas observando.
Deitou-se. Lentamente. Como se reconhecesse algo. Como se finalmente compreendesse.
Dona Dulce, ao passar, estranhou.
— Ele não costuma deitar aí…
Seu Antônio aproximou-se.
Aninha ficou em silêncio.
Altamirando não se moveu.
Respirava — mas havia algo diferente no ritmo, algo que não pertencia mais à pressa da vida.
Um tempo outro. Mais calmo. Mais distante.
E, então, sem anúncio, sem ruptura visível, apenas… cessou.
Não houve barulho.
Não houve luta.
Apenas um silêncio — mas não o silêncio da ausência imediata.
Um silêncio cheio. Denso. Quase sagrado.
Aninha foi a primeira a chorar.
Dona Dulce segurou o ar por um instante longo demais.
Seu Antônio, com a voz baixa, disse apenas:
— Ele entendeu.
Ninguém perguntou o quê.
Porque, naquele momento, todos sabiam. Ou, pelo menos, sentiam.
Naquela mesma noite, o vento atravessou o quintal com uma suavidade incomum.
E, por um instante breve — desses que não se podem provar, apenas perceber —, três presenças pareceram cruzar o mesmo espaço.
Nenhuma delas visível.
Mas todas… inegavelmente reais.
No dia seguinte, a casa estava em silêncio.
Mas não vazia.
Porque, no fundo, o conto nunca foi sobre quem ficou ou quem partiu.
Foi sobre aquilo que, mesmo atravessando o tempo, a perda e a mudança, insiste em permanecer — não diante dos olhos…
Mas exatamente ali, entre o que se vê… e o que apenas se sente.
mario moura
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