MENTIRAS CONFORTÁVEIS (em processo de revisão)
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Um conto sobre um dialogo entre Pedro e Maria: por que as pessoas acreditam em mentiras confortaveis, que sempre arruínam as suas mentes?
MENTIRAS CONFORTÁVEIS
Numa noite abafada de inverno, a chuva escorria pelas janelas da pequena cafeteria, onde Pedro e Maria costumavam conversar sobre tudo aquilo que ninguém mais queria ouvir. As luzes amareladas, davam ao lugar um ar de refúgio, quase como se o mundo lá fora fosse menos real.
Pedro mexia o café sem beber.
— Você já percebeu — disse ele — que as pessoas preferem uma mentira que as abrace, do que uma verdade que as acorde?
Maria apoiou os cotovelos na mesa.
— Porque a verdade exige mudança. E mudar dói.
Pedro sorriu de lado.
— Mas a mentira também dói.
— Sim — respondeu ela —, só que devagar.
O silêncio caiu entre os dois. A chuva parecia aumentar.
Maria observou um homem sozinho no canto do café, olhando para o celular, como quem procura uma versão suportável da própria vida.
— Acho que as pessoas constroem mentiras, como quem constrói casas — disse ela. — Pequenas paredes para se proteger do frio.
— E acabam trancadas dentro delas.
Ela assentiu.
Pedro respirou fundo.
— Meu pai acreditava que trabalhar até morrer, fazia dele um homem importante. Nunca viu os filhos crescerem. Chamava aquilo de “responsabilidade”. Talvez fosse só o medo, de perceber que desperdiçou a vida.
Maria baixou os olhos.
— Minha mãe dizia que era feliz no casamento. Repetia tanto isso, que começou a acreditar. Mas a tristeza vazava pelos olhos dela, quando achava que ninguém estava olhando.
Pedro encarou a janela molhada.
— Então é isso? Mentiras confortáveis são anestesias?
— Mais do que isso — respondeu Maria. — São vícios. A mente humana ama aquilo que evita o sofrimento imediato, mesmo que destrua tudo aos poucos.
Ela fez uma pausa antes de continuar:
— Quando alguém aceita uma mentira confortável, a mente começa a apodrecer em silêncio. A pessoa deixa de questionar, deixa de enxergar, deixa de crescer. E então cria raiva de qualquer um, que tente mostrar a verdade.
Pedro riu sem humor.
— Como se a verdade fosse o inimigo...
— Porque ela ameaça o castelo inteiro.
O garçom trouxe mais café. Nenhum dos dois agradeceu; estavam perdidos demais no próprio pensamento.
Pedro ficou olhando a fumaça subir da xícara.
— Talvez seja por isso, que tanta gente enlouquece hoje em dia. Vivem cercadas de ilusões: sucesso falso, felicidade falsa, amor falso… Todo mundo interpretando personagens, até esquecer quem realmente são.
Maria o encarou profundamente.
— A pior mentira não é aquela contada pelos outros.
— Qual é então?
— A que contamos para nós mesmos, para conseguir dormir.
A frase ficou suspensa no ar.
Lá fora, um trovão cortou o céu.
Pedro sentiu um arrepio.
— Você acha que existe salvação?
Maria pensou por alguns segundos.
— Talvez. Mas começa, quando alguém suporta a dor de olhar para si, sem máscaras.
— Pouca gente consegue.
— Porque desmontar uma mentira confortável, é como arrancar partes da própria pele.
Pedro finalmente bebeu o café frio.
— E o que sobra depois?
Maria sorriu pela primeira vez naquela noite.
— Talvez reste algo verdadeiro. E isso já é mais raro do que felicidade.
Os dois permaneceram em silêncio, enquanto a chuva continuava caindo sobre a cidade, como se o mundo inteiro estivesse tentando lavar as ilusões acumuladas nas janelas da alma humana.
Pedro permaneceu imóvel, depois que Maria saiu da cafeteria. A chuva já havia diminuído, mas dentro dele, algo continuava desabando lentamente.
Ele observou o reflexo distorcido da própria face na janela molhada, e pensou em como a verdade sempre chegava, como uma força cruel: silenciosa, inevitável e devastadora.
A mentira, ao contrário, possuía mãos suaves.
Ela acariciava os medos humanos.
Cobria feridas com tecidos delicados.
Transformava o vazio em esperança e a solidão em fantasia.
Pedro fechou os olhos.
Talvez fosse por isso que os homens a amavam tanto.
A verdade jamais prometia conforto. Ela arrancava véus, destruía imagens sagradas, dissolvia crenças construídas durante anos. A verdade não oferecia abrigo; oferecia apenas claridade. E havia algo de terrível na claridade absoluta.
Porque enxergar, significava perder. Perder ilusões. Perder versões idealizadas de si mesmo.
Perder os deuses íntimos, criados para tornar suportável o peso da existência.
Pedro pensou em quantas pessoas sobreviviam, graças às próprias mentiras.
O homem que fingia amar o trabalho, para não admitir o medo da pobreza.
A mulher que chamava de amor, aquilo que era apenas abandono compartilhado.
O velho que dizia ter vivido plenamente, porque admitir o contrário, destruiria os restos de sua dignidade.
As mentiras funcionavam como paredes erguidas contra o abismo. Frágeis. Falsas. Mas necessárias para muitos.
A verdade, porém, tinha o poder de desagregar essas construções interiores. Bastava um instante de lucidez, para que anos de ilusões começassem a ruir. E quando as ilusões caíam, a mente humana se via diante daquilo que sempre tentou evitar: a nudez brutal da realidade.
Pedro percebeu então, que a maioria das pessoas, não tem medo da mentira. Tem medo do que sobra depois dela.
Porque sem as ilusões acolhedoras, a existência parece áspera demais.
O tempo se torna cruel. Os afetos revelam sua fragilidade. Os sonhos mostram suas rachaduras.
E o ser humano descobre, que talvez tenha passado a vida inteira, conversando com fantasmas, criados pela própria necessidade de sobreviver emocionalmente.
Ele suspirou profundamente.
Talvez a mentira não existisse apenas para enganar. Talvez existisse para anestesiar.
Como um remédio imperfeito, dado a criaturas conscientes demais da própria finitude.
A verdade libertava, sim. Mas antes de libertar, destruía.
E poucos suportavam assistir à demolição silenciosa das próprias crenças.
Pedro então compreendeu algo perturbador: as mentiras confortáveis não sobrevivem, porque são fortes. Sobrevivem porque a dor da verdade, muitas vezes, parece insuportável para corações cansados.
Naquele instante, olhando a cidade úmida e vazia, ele entendeu que a existência humana talvez fosse esse conflito eterno, entre dois desejos impossíveis: o desejo de conhecer a verdade… e o desejo desesperado de continuar inteiro depois dela.
mario moura
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