SOBRE O GATO AGENOR
SOBRE O GATO AGENOR Agenor não era um gato comum — embora, à primeira vista, parecesse apenas mais um felino de pelos cinzentos e olhos atentos. Chegara à casa numa tarde indecisa entre sol e chuva, desses dias em que o mundo parece suspenso, aguardando algo que ninguém sabe ao certo o que é. Dona Dulce foi a primeira a notá-lo, encolhido junto ao portão, com uma dignidade estranha para quem claramente passara por muitas ruas. Não miava. Não implorava. Apenas observava. — Esse gato tem jeito de quem sabe das coisas — murmurou ela, mais para si do que para qualquer outro. E, como se tivesse ouvido um convite invisível, Agenor entrou. Nos primeiros dias, manteve certa distância. Caminhava pela casa com passos leves, medidos, como se estivesse mapeando não apenas os espaços, mas também as almas que ali habitavam. Observava Aninha fazer os deveres, acompanhava seu Antônio ler o jornal, seguia Dona Dulce pela cozinha, atento aos gestos e aos silêncios. Não era um ga...
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