Conversa pra Mais de Metro
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Conversa pra Mais de Metro
Era certo encontrar aqueles três amigos na Bodega Chegamais, de Seu Antônio, português de fala arrastada e opiniões rápidas. O estabelecimento era pequeno, mas as conversas que ali aconteciam, tinham o estranho costume de ultrapassar as paredes, ganhar a rua, atravessar a madrugada e permanecer ecoando durante dias na cabeça dos frequentadores.
Raul Silvério, médico cirurgião.
Pedro Toledo, professor de Filosofia.
Alberto Soares, sociólogo.
Amigos desde a juventude, sobreviventes das travessuras da adolescência e das ilusões da universidade. Haviam trocado a irreverência dos vinte anos, pela teimosia intelectual dos trinta. Continuavam discutindo tudo.
Naquela noite, a chuva tamborilava no telhado de zinco enquanto uma garrafa de vinho repousava no centro da mesa como uma testemunha silenciosa.
O assunto surgiu sem aviso.
— Eutanásia — disse Raul.
Seu Antônio, que limpava copos atrás do balcão, suspirou.
— Pronto. Já vi que hoje vou fechar tarde.
Os três sorriram.
— Não estou brincando — continuou Raul. — Passei a tarde acompanhando um paciente terminal. Sem possibilidade de recuperação. Sem perspectiva de melhora. Apenas sofrimento. A certa altura, ele me perguntou por que a medicina insistia tanto em mantê-lo vivo.
Pedro coçou a barba.
— E o que você respondeu?
— Nada.
— Às vezes o silêncio é uma resposta filosófica — observou Alberto.
— Ou uma resposta médica — rebateu Raul.
A primeira rodada de vinho desapareceu rapidamente.
A chuva engrossou.
A conversa também.
Raul defendia que a dignidade humana deveria incluir o direito de decidir sobre o próprio sofrimento.
Pedro discordava.
— A questão é perigosa. Se a vida possui valor intrínseco, quem somos nós para determinar quando ela deve terminar?
— E se a vida se transformar numa prisão de dor? — perguntou Raul.
— A dor não elimina a dignidade.
— Mas pode destruir a existência.
— Ou revelar sua profundidade.
— Isso parece frase de filósofo que nunca teve câncer.
Alberto engasgou de tanto rir.
Pedro ergueu a taça.
— Golpe baixo.
— Não foi golpe. Foi argumento clínico.
Nas mesas vizinhas, alguns fregueses já acompanhavam o debate.
Um deles cochichou:
— Sobre o que eles estão falando?
Outro respondeu:
— Não sei. Mas parece importante.
A segunda garrafa chegou.
Então Alberto resolveu entrar no combate.
— Talvez vocês dois estejam olhando para a mesma montanha por lados diferentes.
— Explique — disse Pedro.
— O médico vê a dor individual. O filósofo vê os princípios universais. A sociedade precisa conviver com ambos.
Raul assentiu.
Pedro também.
Era raro.
Muito raro.
— Pensem comigo — continuou Alberto. — Se autorizarmos a eutanásia, como evitar abusos? Como garantir que a escolha seja realmente livre? Como impedir pressões econômicas, familiares ou sociais?
— Boa pergunta — disse Raul.
— Excelente pergunta — concordou Pedro.
— Eu sei. Sou sociólogo. Às vezes acontece.
Todos riram.
Até Seu Antônio.
A discussão atravessou horas.
Falou-se de liberdade.
Falou-se de compaixão.
Falou-se de religião.
Falou-se de ciência.
Falou-se da estranha incapacidade humana de aceitar a própria finitude.
Perto da meia-noite, quando a chuva já se transformara em garoa, Seu Antônio aproximou-se da mesa.
— Então, chegaram a alguma conclusão?
Os três se entreolharam.
Raul sorriu.
Pedro deu de ombros.
Alberto respondeu:
— Chegamos à conclusão de que ninguém está qualificado para dar uma resposta definitiva.
— Nem vocês?
— Principalmente nós.
Seu Antônio recolheu as garrafas vazias.
— Ainda bem. Se resolvessem os problemas do mundo numa única noite, eu teria de fechar o boteco.
A gargalhada foi geral.
Pouco depois, despediram-se.
Cada um seguiu seu caminho. E com eles, a eutanásia, um dilema que perseguirá aqueles que se aventurarem a entrar no labirinto, em busca da resposta, ou da verdade.
A rua estava molhada. As luzes refletiam-se nas poças d'água. Um frio úmido como navalha, cortava a noite.
E a pergunta permanecia viva. Talvez mais viva do que quando a conversa começou.
A eutanásia é uma dessas questões, que obrigam o ser humano a olhar para os limites da própria condição.
A religião, de modo geral, costuma enxergar a vida como um dom que não pertence inteiramente ao indivíduo. Para muitas tradições religiosas, nascer e morrer fazem parte de uma ordem maior, diante da qual a autonomia humana encontra fronteiras.
A filosofia, por sua vez, raramente oferece respostas prontas. Ela prefere complicar aquilo, que parecia simples. Alguns pensadores enfatizam a liberdade individual, e o direito de decidir sobre a própria existência. Outros lembram que a dignidade humana, não depende da utilidade, da saúde ou da ausência de sofrimento.
A medicina oscila entre dois imperativos igualmente nobres: preservar a vida e aliviar a dor. Nem sempre eles caminham lado a lado.
A sociologia recorda, que nenhuma escolha acontece no vazio. Toda decisão é influenciada por valores culturais, pressões econômicas, expectativas familiares e pelas estruturas da sociedade.
E existe ainda uma perspectiva curiosamente humana: o humor.
Não porque a morte seja engraçada. Não é.
Mas porque o humor, sempre foi uma das maneiras que encontramos para enfrentar aquilo que nos assusta. Rimos de nossas fraquezas, de nossos medos e até da morte, porque no fundo, sabemos que ela vencerá todas as discussões.
Talvez seja por isso que os velhos botecos continuem existindo.
Ali, entre um gole de vinho e outro, homens comuns tentam resolver questões que desafiam teólogos, médicos, filósofos e juristas há séculos.
Nunca conseguem. Felizmente...
Porque algumas perguntas não foram feitas para serem encerradas.
Foram feitas para nos lembrar de que pensar ainda é uma das formas mais bonitas de estar vivo.
mario moura (do livro Pequenas histórias sem testemunhas Ensaios Vagas anotações)
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