FRED, UM COMPANHEIRO E TANTO

Fred, um companheiro e tanto

Bruno Abreu nunca gostou do silêncio.

Quando era mais jovem, reclamava do barulho das crianças correndo pela casa, dos brinquedos espalhados pela sala e das discussões inocentes, sobre qual desenho assistir na televisão. Sua esposa, Helena, costumava rir e dizer:

— Um dia você vai sentir falta disso tudo.

Ele ria também, sem imaginar que aquelas palavras se tornariam uma sentença.

Tudo mudou numa tarde chuvosa de janeiro.

A família viajava para a fazenda de um velho amigo, no interior. Era o início das férias escolares. Helena cantava baixinho no banco do passageiro. Os filhos, Lucas e Marina, disputavam espaço no banco traseiro. Orlando, o mais velho, observava a paisagem pela janela.

O caminhão surgiu na curva como um pesadelo.

Bruno ainda tentou desviar.

O impacto foi devastador.

Quando acordou no hospital dias depois, encontrou apenas o olhar abatido dos médicos. Helena não sobrevivera. Lucas e Marina também haviam partido.

Orlando estava vivo.

Mas jamais voltaria a andar.

A notícia destruiu o que restava de Bruno.

Nos meses seguintes, ele passou a existir, sem realmente viver. A casa tornou-se um mausoléu de lembranças. As fotografias permaneciam nos mesmos lugares. Os quartos continuavam arrumados. Os brinquedos nunca foram guardados.

Orlando observava o pai afundar em uma tristeza, que parecia não ter fim.

Embora tivesse apenas doze anos, carregava suas próprias dores. A cadeira de rodas era uma lembrança constante do acidente. Ainda assim, esforçava-se para sorrir, quando podia.

Bruno, porém, estava cada vez mais distante.

Foi então que uma psicóloga sugeriu algo simples:

— Talvez um animal de estimação, possa ajudar Orlando.

Bruno achou a ideia absurda.

Nenhum cachorro traria sua família de volta.

Nenhum animal preencheria o vazio, daquelas cadeiras vazias à mesa.

Mas acabou cedendo.

Num sábado ensolarado, visitaram um pequeno canil na periferia da cidade.

Havia filhotes de todos os tamanhos.

Um deles, porém, chamou atenção.

Era um vira-lata de pelo dourado, orelhas grandes demais para a cabeça e patas desajeitadas. Enquanto os outros cães corriam pelo cercado, aquele caminhou diretamente até a cadeira de rodas de Orlando. Um caramelo sem raça definida, sem pedigre. Apenas um cão caramelo.

Sentou-se diante dele.

E ficou ali.   Observando.   Como se já o conhecesse.

Orlando sorriu pela primeira vez em muitos meses.

— Pai... eu quero esse.

Bruno suspirou.

— Tem certeza?

— Tenho.

O filhote abanou o rabo.

E naquele instante recebeu seu nome:   Fred.

Nos primeiros dias, Fred parecia uma tempestade de energia. Mastigava chinelos, derrubava vasos, e transformava qualquer objeto em brinquedo.

Mas havia algo especial nele.

Nunca se afastava de Orlando.

Dormia ao lado da cama.

Acompanhava cada movimento da cadeira de rodas.

Esperava pacientemente durante as sessões de fisioterapia.

Quando Orlando chorava escondido, Fred aparecia e encostava o focinho em sua mão.

Como se dissesse:  "Estou aqui."

Com o passar dos meses, algo inesperado aconteceu.

Fred não salvou apenas Orlando.   Salvou Bruno.

Numa madrugada de insônia, Bruno encontrou o cachorro deitado diante da fotografia de Helena.

O animal levantou a cabeça e caminhou até ele.

Sem pedir nada.   Sem exigir explicações.   Apenas permaneceu ao seu lado.

Bruno sentou-se no chão.

E chorou.

Chorou pela esposa.   Pelos filhos.   Pelos sonhos destruídos.

Pela culpa que carregava desde o acidente.

Fred ficou ali durante horas.

Silencioso.   Fiel.

Naquela noite, pela primeira vez, Bruno percebeu que ainda havia vida além da dor.

Os anos passaram.

Orlando cresceu.

Aprendeu a enfrentar as limitações físicas, com coragem admirável. Tornou-se um jovem inteligente, determinado e cheio de planos.

Fred envelheceu junto com ele.

Os pelos dourados começaram a ficar esbranquiçados. O focinho adquiriu manchas cinzentas. Os passos tornaram-se lentos.

Mas seus olhos continuavam os mesmos.

Leais.   Amorosos.   Presentes.

Certa tarde, enquanto observavam o pôr do sol na varanda, Orlando perguntou:

— Pai, você acha que a mamãe ficaria feliz vendo a gente agora?

Bruno demorou alguns segundos para responder.

Olhou para o filho.

Depois para Fred, deitado aos seus pés.

E finalmente para o horizonte.

— Sim. Acho que ela diria que continuamos em frente.

Orlando sorriu.

Fred abanou o rabo, como se concordasse.

Naquele momento, Bruno compreendeu uma verdade, que levara anos para aceitar.

A tragédia havia levado muito.

Quase tudo.

Mas não tinha levado a capacidade de amar.

E foi justamente um pequeno filhote desajeitado, comprado como um simples remédio para a tristeza, que ensinou isso a ele.

Fred nunca substituiu Helena.

Nunca substituiu Lucas ou Marina.

Ninguém poderia.

Mas ajudou dois sobreviventes a reencontrarem o caminho quando tudo parecia perdido.

E às vezes, pensou Bruno, enquanto acariciava o velho companheiro, os maiores heróis não usam capas.

Apenas abanam o rabo e permanecem ao nosso lado quando o mundo desaba.

Os anos continuaram seu curso silencioso.

Fred já não corria pelo quintal como antes.

As patas tremiam ao levantar-se. A audição falhava. Os olhos, antes vivos e atentos, estavam cobertos por uma névoa suave da velhice. Mesmo assim, ele insistia em acompanhar Orlando, para onde quer que fosse.

Era como se ainda estivesse cumprindo a promessa silenciosa, feita naquele primeiro dia.

"Estou aqui."

Numa manhã de primavera, Orlando chegou em casa trazendo uma novidade.

Após anos de tratamentos, fisioterapia e exercícios incansáveis, os médicos haviam autorizado uma nova etapa de sua reabilitação.

Um andador.

Não era uma cura.   Não era um milagre.

Mas era mais do que qualquer um deles ousara sonhar durante muito tempo.

Bruno observou o filho posicionar-se cuidadosamente, entre as barras metálicas.

As mãos tremiam.   As pernas também.   O esforço era enorme.

Fred, deitado próximo à porta da sala, ergueu lentamente a cabeça.

Parecia atento.

Esperando.

Orlando respirou fundo.

Deu um passo.

Depois outro.

Pequeno.

Vacilante.

Mas real.

As lágrimas surgiram imediatamente nos olhos de Bruno.

Ele não percebeu, quando começou a chorar.

Apenas chorava.

Como naquela madrugada distante, anos atrás.   Só que agora as lágrimas não nasciam da dor.

Nasciam da esperança.

Orlando avançou mais alguns centímetros.   Então mais alguns.

Até atravessar toda a sala.

Quando terminou, estava exausto.

Mas sorrindo.

Bruno correu para abraçá-lo.

Pai e filho permaneceram unidos durante vários segundos.

Quando finalmente se afastaram, perceberam que Fred ainda os observava.

Deitado.   Quieto.   Com os olhos brilhando.

E, pela primeira vez em muito tempo, o velho cão abanou o rabo com a energia de um filhote.

Como se também comemorasse aquela vitória.

Como se tivesse esperado por aquele momento durante toda a vida.

Naquela noite, Fred recusou a comida.

No dia seguinte, mal conseguiu levantar-se.

O veterinário foi sincero.

Seu tempo estava chegando ao fim.

Bruno e Orlando passaram os dias seguintes ao seu lado.

Sem tristeza exagerada.

Sem desespero.

Apenas amor.

O mesmo amor que Fred lhes havia oferecido durante tantos anos.

Numa tarde tranquila, o velho cão repousava sobre sua manta favorita, na varanda.

O vento movimentava suavemente as folhas das árvores.

O céu estava limpo.   Sereno.

Orlando sentou-se ao seu lado.

Com esforço, apoiando-se no andador.

E segurou delicadamente sua cabeça.

— Obrigado, meu amigo.

Fred abriu os olhos.

Por um instante, pareciam os mesmos olhos daquele filhote que um dia escolhera um menino triste, em uma cadeira de rodas.

Bruno ajoelhou-se do outro lado.

Passou a mão pelo pelo grisalho.

— Você salvou a nossa vida, Fred.

O cachorro respirou lentamente.

Uma vez.   Depois outra.   E mais uma.

Até que, sem dor.   Sem medo.   Apenas descansou.

Como quem adormece após cumprir sua missão.

Dias depois, Bruno mandou fazer dois retratos para colocar na sala.

No primeiro, Fred aparecia ainda filhote.

Orelhas grandes demais para a cabeça.

Patas desajeitadas.

Olhar curioso.

Era a fotografia tirada no dia em que chegou à família.

No segundo retrato, já idoso, estava deitado na varanda.

O focinho completamente branco.   Os olhos cansados.

Mas ainda cheios daquela mesma ternura que jamais o abandonara.

As duas imagens ficaram lado a lado.

O começo e o fim.   A juventude e a velhice.

A chegada e a despedida.

Certa noite, observando os retratos, Orlando aproximou-se usando o andador.

Passo após passo.

Lento.

Determinado.

Parou diante das fotografias.

Sorriu.

E percebeu algo que jamais esqueceria.

Entre aquelas duas imagens estava toda uma vida.   Uma vida que havia transformado a dele.

Bruno aproximou-se em silêncio.

Pai e filho permaneceram observando os retratos.

Então Orlando apontou para a fotografia do filhote.

— Ele chegou, quando a gente estava perdido.

Bruno assentiu.

— E ficou até encontrarmos o caminho.

O silêncio que se seguiu, não era mais doloroso.   Era apenas uma lembrança cheia de amor.

Lá fora, o vento soprava suavemente entre as árvores.

E, pela primeira vez em muitos anos, Bruno teve a sensação de que Helena, Lucas, Marina e Fred pertenciam ao mesmo lugar dentro de seu coração.

Um lugar onde a saudade existia.   Mas já não machucava.

Um lugar onde o amor permanecia vivo.

Para sempre.

mario moura

(do livro Pequenas histórias sem testemunhas  Ensaios   Vagas anotações)

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