O PRECONCEITO DO ETARISMO: UMA COVARDIA BIOSOCIAL
O PRECONCEITO DO ETARISMO: UMA COVARDIA BIOSOCIAL
Conto que aborda o etarismo, de forma crítica e humanizada.
Capítulo 01
O Número na Ficha
O movimento começara cedo, tão logo o anúncio das vagas de emprego, foram publicadas. Sob os olhares curiosos dos passantes, a fila da entrevista avançava lentamente. Entre jovens recém-formados e adultos em busca de recolocação, estava Augusto Andrade, sessenta anos recém-completados, camisa bem passada, sapatos engraxados e uma pasta de documentos cuidadosamente organizada.
A vaga era para atendente de balcão de farmácia e para Gerente Geral da Organização.
A farmácia ficava em um bairro tranquilo da cidade. Não exigia formação universitária, nem conhecimentos complexos, para a vaga de atendente.. Bastava atender clientes, localizar produtos nas prateleiras, registrar vendas simples e orientar o público dentro dos procedimentos da empresa.
Para a gerência, sim, havia exigência de formação superior em Advocacia, ou Administração, prererencialmente.
Augusto Andrade era advogado. Sentia-se perfeitamente apto para a função.
Durante mais de trinta anos, trabalhara no comércio, advogando. Conhecia pessoas, sabia ouvir reclamações sem perder a calma, e aprendera que um sorriso sincero valia mais do que muitos treinamentos motivacionais.
Quando chegou sua vez, foi recebido por uma comissão de seleção surpreendentemente rigorosa.
Primeiro vieram os testes de memória.
— Vou citar uma sequência de produtos. O senhor repete depois.
Augusto repetiu todos sem erro.
Depois, exercícios de coordenação motora.
Movimentou objetos, organizou caixas e demonstrou firmeza nas mãos.
Vieram então perguntas sobre situações de conflito com clientes.
— Como o senhor reagiria a um consumidor agressivo?
— Escutando primeiro. As pessoas geralmente querem ser compreendidas antes de serem contrariadas.
Os entrevistadores trocaram olhares.
Ao longo de quase duas horas, avaliaram sua capacidade de raciocínio, sua comunicação, sua paciência e até seu equilíbrio emocional.
Ao final, uma das entrevistadoras sorriu.
— O senhor foi muito bem, senhor Augusto.
Ele saiu satisfeito. Pela primeira vez em meses, sentia uma esperança concreta.
Dois dias depois, recebeu uma ligação.
— Senhor Augusto, agradecemos sua participação no processo seletivo.
A voz do outro lado parecia ensaiada.
— Fiquei com a vaga? — perguntou.
Houve um breve silêncio.
— Infelizmente, não.
— Posso saber o motivo?
Outro silêncio.
— A empresa decidiu seguir um perfil mais alinhado ao público que deseja atingir.
Augusto conhecia aquele tipo de frase. Era uma cortina de fumaça.
Insistiu:
— Houve algum problema na entrevista?
— Não, senhor.
— Nos testes?
— Não.
— Na minha experiência profissional?
— Também não.
A atendente pareceu desconfortável.
— Então qual foi o problema?
A resposta veio quase num sussurro:
— A direção entende que a vaga exige uma imagem mais jovem.
Augusto permaneceu imóvel. Não era sua memória. Não era sua saúde. Não era sua capacidade. Não era seu comportamento. Era apenas um número:
Sessenta.
Siga o próximo capítulo.
Mario Moura (do livro Pequenas histórias sem testemunhas)
Capítulo 02
Dois dias depois, recebeu uma ligação.
— Senhor Augusto, agradecemos sua participação no processo seletivo.
A voz do outro lado parecia ensaiada.
— Fiquei com a vaga? — perguntou.
Houve um breve silêncio.
— Infelizmente, não.
— Posso saber o motivo?
Outro silêncio.
— A empresa decidiu seguir um perfil mais alinhado ao público que deseja atingir.
Augusto conhecia aquele tipo de frase. Era uma cortina de fumaça.
Insistiu:
— Houve algum problema na entrevista?
— Não, senhor.
— Nos testes?
— Não.
— Na minha experiência profissional?
— Também não.
A atendente pareceu desconfortável.
— Então qual foi o problema?
A resposta veio quase num sussurro:
— A direção entende que a vaga exige uma imagem mais jovem.
Augusto permaneceu imóvel. Não era sua memória. Não era sua saúde. Não era sua capacidade. Não era seu comportamento. Era apenas um número:
Sessenta.
Depois de desligar, sentou-se na varanda de casa observando a rua. Crianças brincavam de bicicleta. Um entregador passava apressado. A cidade seguia indiferente.
Pensou em tudo o que havia construído ao longo da vida.
Criara dois filhos. Pagara impostos. Cumprira horários.
Enfrentara crises econômicas, mudanças tecnológicas e transformações sociais.
Aprendera a usar computadores, quando muitos diziam que jamais conseguiria. Adaptara-se a celulares, aplicativos e sistemas digitais.
No entanto, para aquela empresa, tudo isso pesava menos do que a data impressa em seu documento de identidade.
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Mario Moura (do livro Pequenas histórias sem testemunhas)
Capítulo 03
Na semana seguinte, Augusto entrou em outra farmácia para comprar um medicamento. Foi atendido por um rapaz muito jovem, que não sabia localizar o produto solicitado.
Após vários minutos de procura frustrada, Augusto apontou a seção correta.
O rapaz agradeceu, constrangido.
Enquanto saía, Augusto não sentiu superioridade nem ressentimento. Sentiu tristeza.
A sociedade parecia cometer um erro silencioso: confundia juventude com competência e idade com incapacidade.
Naquele momento, compreendeu que o preconceito, nem sempre se apresentava com insultos ou hostilidade. Às vezes, vinha vestido de linguagem corporativa, escondido atrás de expressões elegantes, como "perfil adequado", "renovação" ou "imagem da empresa".
Mudavam-se as palavras, mas o significado permanecia o mesmo.
Era a exclusão.
Dias depois, encontrou outra oportunidade, em um pequeno estabelecimento administrado por uma senhora de idade semelhante à sua.
Ela examinou seu currículo por alguns minutos e perguntou:
— O senhor sabe lidar com pessoas?
Augusto sorriu.
— Há quarenta anos.
Ela riu.
— Então está contratado.
Naquele instante, Augusto percebeu que a verdadeira capacidade humana, não se mede pelos anos que alguém tem, mas pelo que continua capaz de oferecer.
E, ironicamente, foi justamente a experiência acumulada durante seis décadas que o tornou o melhor candidato para uma função, da qual haviam tentado excluí-lo.
O preconceito enxergava sua idade. A sabedoria enxergava sua pessoa.
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Mario Moura (do livro Pequenas histórias sem testemunhas)
Capítulo 04
Augusto Andrade pousou a xícara de café sobre a mesa da pequena padaria da esquina. Seus olhos mantinham aquele brilho obstinado, de quem se recusava a aceitar uma injustiça como algo natural.
— Então é isso, Josué. Ontem protocolei a ação.
Josué Monteiro arqueou as sobrancelhas.
— Fez mesmo?
— Fiz. A empresa não teve nem o cuidado de disfarçar. A gerente me disse, com todas as letras, que procuravam um profissional com "perfil mais jovem e dinâmico". Quarenta anos de advocacia, especializações, experiência em mediação... e tudo isso ficou irrelevante, porque tenho sessenta anos.
— Eles confundem juventude com competência — respondeu Josué, balançando a cabeça.
— E confundem idade com incapacidade. O mais curioso é que, durante a entrevista, responderam a todas as minhas observações com entusiasmo. Pareciam impressionados. Mas, quando perguntaram minha idade, a conversa mudou completamente.
Josué Monteiro suspirou.
— Comigo foi parecido. Eu ouvi aquela frase terrível: "O senhor tem um currículo excelente, mas estamos buscando alguém que acompanhe o ritmo da empresa."
— Como se nós estivéssemos esperando a morte, sentados numa cadeira de balanço.
Os dois riram, mas o riso carregava uma ponta de amargura.
— Sabe o que mais me incomoda? — continuou Augusto. — Não é apenas o preconceito. É a naturalidade com que ele acontece. Se fosse por raça, gênero ou deficiência, haveria indignação imediata. Mas quando é por idade, muitos acham normal.
Josué assentiu.
— Foi exatamente isso que me levou a fundar a Associação.
— E como estão os preparativos?
Os olhos de Josué se iluminaram.
— Muito melhores do que eu imaginava. Já registramos a Associação Miréia Borges.
— Uma bela homenagem.
— Merecida. A Miréia passou anos, denunciando o etarismo e mostrando que envelhecer não significa desaparecer. Ela inspirou milhares de pessoas a continuarem estudando, empreendendo, viajando, trabalhando. Quando pensei num nome, não tive dúvidas.
Augusto sorriu.
— Ela ficou sabendo?
— Ficou. Mandei uma carta contando a história. Recebi uma resposta emocionante. Ela disse que o envelhecimento ativo não é apenas uma causa social; é uma questão de dignidade humana.
— Concordo plenamente.
— Nosso objetivo será amplo. Queremos oferecer orientação jurídica, apoio psicológico, capacitação tecnológica e, principalmente, criar um observatório para registrar denúncias de discriminação etária.
— Excelente iniciativa.
— E mais. Estamos organizando uma campanha nacional, chamada "Experiência e Idade Não Tem Prazo de Validade".
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Mario Moura (do livro Pequenas histórias sem testemunhas)
Capítulo 05
Augusto bateu palmas discretamente.
— Isso é brilhante.
— A ideia é mostrar exemplos concretos. Professores, médicos, engenheiros, artesãos, comerciantes, advogados... gente que continua produzindo e contribuindo para a sociedade, muito depois dos sessenta.
Augusto ficou pensativo por alguns segundos.
— Sabe, Josué, quando eu era jovem, acreditava que a sociedade evoluiria naturalmente. Achava que preconceitos desapareceriam com o tempo.
— Eu também.
— Hoje percebo que cada geração, precisa lutar novamente pelas mesmas causas.
— Talvez porque a dignidade humana, nunca seja uma conquista definitiva.
O silêncio pairou por alguns instantes.
Do outro lado da rua, um grupo de adolescentes saía de uma escola, conversando animadamente.
Augusto observou-os.
— Eles serão velhos um dia.
— Se tiverem sorte — acrescentou Josué.
— Exatamente. É curioso como muitos tratam a velhice, como se fosse um problema dos outros.
— Quando, na verdade, é o destino comum de todos nós.
Josué retirou alguns papéis da pasta que carregava.
— Veja isto.
Augusto examinou o documento.
— Estatuto da associação?
— A versão final.
— Quantos associados já temos?
— Cento e quarenta e sete.
Augusto arregalou os olhos.
— Em tão pouco tempo?
— E aumentando. Recebemos mensagens de todo o país. Gente que perdeu emprego, foi impedida de participar de processos seletivos, ou simplesmente deixou de ser promovida por causa da idade.
— Isso mostra que o problema é maior do que imaginávamos.
— Sim. Mas também mostra que não estamos sozinhos.
Augusto devolveu os papéis.
— A minha ação pode abrir um precedente importante.
— É o que espero.
— E a sua associação pode transformar casos isolados, numa causa nacional.
Josué sorriu.
— Talvez estejamos apenas começando.
— Talvez.
— Você percebe a ironia?
— Qual?
— Disseram que éramos velhos demais para trabalhar.
— Sim.
— E acabaram nos dando uma missão, muito maior do que qualquer emprego.
Augusto soltou uma gargalhada sincera.
— Tem razão.
Levantou a xícara vazia como se fosse um brinde.
— À experiência.
Josué ergueu a sua.
— À coragem.
— E à luta contra o etarismo.
— Até o dia em que ninguém mais precise lutar por isso.
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Mario Moura (do livro Pequenas histórias sem testemunhas)
Capítulo 06
O Tempo da Justiça
As xícaras se tocaram suavemente, enquanto os dois homens, já idosos aos olhos do mundo, sentiam-se mais jovens do que nunca, diante do futuro que haviam decidido construir.
O caso de Augusto Andrade ultrapassou os limites de uma simples ação trabalhista. O que inicialmente parecia ser uma disputa individual contra uma empresa que o afastara sob argumentos velados de "renovação de quadro", transformou-se em um marco na luta contra o etarismo, expressão discriminatória que, silenciosamente, exclui milhões de pessoas em razão da idade.
Ao longo dos meses, a repercussão do processo alcançou diferentes regiões do país. Organizações sociais, universidades, sindicatos e movimentos de defesa dos direitos humanos, passaram a acompanhar atentamente cada etapa da ação. O nome de Augusto Andrade, tornou-se símbolo de resistência, diante de uma realidade enfrentada por trabalhadores maduros em diversas partes do mundo.
Enquanto o processo seguia seu curso, debates internacionais ganhavam força. Em conferências promovidas por organismos multilaterais, especialistas destacavam que o envelhecimento da população, exigia uma nova compreensão sobre trabalho, cidadania e dignidade humana.
O preconceito etário deixava de ser visto como um problema isolado e passava a ser reconhecido, como uma violação dos direitos fundamentais da pessoa humana.
Foi nesse contexto que a Associação MIRÉIA BORGES, ampliou sua atuação. Fundada com o propósito de defender os direitos das pessoas idosas, a entidade passou a ocupar um espaço de relevância nacional e internacional. Seus representantes participaram de seminários, audiências públicas e fóruns de discussão, defendendo políticas inclusivas e denunciando práticas discriminatórias.
A associação compreendeu que a luta contra o etarismo, não era apenas uma causa dos idosos. Era uma causa de toda a sociedade. Afinal, negar oportunidades a alguém em razão da idade, significava negar a própria diversidade humana.
Assim, a defesa da pessoa idosa, passou a caminhar lado a lado com a defesa dos direitos humanos em sentido amplo: igualdade, respeito, participação social e dignidade.
Pouco a pouco, a mobilização gerou resultados concretos. Empresas passaram a revisar políticas de contratação e desligamento. Instituições de ensino criaram programas voltados ao envelhecimento ativo. Órgãos públicos iniciaram campanhas de conscientização. A sociedade começava a perceber, que experiência e conhecimento não envelhecem; ao contrário, tornam-se patrimônio coletivo.
Finalmente, chegou o dia do julgamento.
O plenário estava repleto. Jornalistas, representantes de entidades sociais e cidadãos comuns, aguardavam a decisão que poderia estabelecer um precedente histórico. Após a leitura do voto, veio a conclusão esperada por muitos, mas ainda assim emocionante: a Justiça reconheceu que Augusto Andrade havia sido vítima de discriminação etária.
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Mario Moura (do livro Pequenas histórias sem testemunhas)
Capítulo 07
A sentença condenou a empresa pelos danos causados, determinou reparação integral e reconheceu o caráter discriminatório das práticas adotadas. Mais do que uma vitória pessoal, a decisão afirmava um princípio fundamental: nenhuma pessoa pode ser privada de oportunidades, respeito ou dignidade, em razão de sua idade.
Ao deixar o tribunal, Augusto Andrade não comemorou sozinho. Ao seu lado estavam membros da Associação MIRÉIA BORGES, ativistas, amigos e inúmeras pessoas, que haviam encontrado em sua luta, um reflexo de suas próprias histórias.
Nos meses seguintes, a decisão tornou-se referência em estudos jurídicos e debates acadêmicos. Diversas ações semelhantes, passaram a ser propostas em diferentes regiões, fortalecendo a construção de uma cultura de respeito intergeracional.
A ASSOCIAÇÃO MIRÉIA BORGES consolidou-se como uma das mais importantes vozes, na defesa dos direitos das pessoas idosas. Sua atuação inspirou movimentos em outros países, criando redes de cooperação internacional, voltadas ao combate do etarismo e à promoção da cidadania plena em todas as fases da vida.
Augusto Andrade costumava dizer que o tempo não deveria ser visto como um limite, mas como uma conquista. E sua história provou exatamente isso.
No fim, a vitória não pertenceu apenas a um homem. Pertenceu a todos aqueles, que acreditavam que os direitos humanos não possuem idade, prazo de validade ou data de vencimento. Pertenceu à sociedade, que decidiu olhar para seus idosos, não como o passado, mas como parte indispensável do seu futuro.
E foi assim, que uma causa individual transformou-se em movimento coletivo; uma ação judicial converteu-se em marco histórico, e a voz de Augusto Andrade, ecoou muito além das paredes de um tribunal, tornando-se símbolo permanente de justiça, dignidade e esperança.
Mario Moura (do livro Pequenas histórias sem testemunhas)
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