JACQUES, UM PROFESSOR DE FILOSOFIA

          TEMA para um conto a ser desenvolvido.

Escrever um conto com os elementos apresentados, narrando o abatimento e o pesar dos seus alunos, quando Jacques afastou-se da Universidade por aposentadoria.

Jacques Silva Barros gostava do silêncio do seu escritório. Naquele lugar, um quarto amplo de sua casa, na chácara que comprara há muitos anos, e que era onde pretendia morar com sua esposa Gabriela, assim que se aposentasse da Universidade, onde lecionava Filosofia.                                  Levara a sua vasta biblioteca, de estudos especializados filosofia e linguística, até as obras contemporâneas dos mais diversos autores e nacionalidades.                                                                                                  Jacques era um poliglota. Falava seis idiomas, vários dialetos, das línguas que conhecia. Jacques era professor, reconhecido por algumas obras que publicara, sobre três homens que ocuparam grande parte de seus trabalhos intelectuais: Sócrates, Platão e Epicuro. 

Em suas aulas, os alunos viam um homem enérgico, mobilizado por uma alegria incomum, fruto do seu amor ao conhecimento filosófico, o que provocava em seus alunos simpatia e uma grande admiração, além da simples relação professor/aluno.     

Com sua vasta cabeleira branca, do alto de seus 1,85m, e sessenta e cinco anos de idade, Jacques movimentava-se na sala de aula, com entusiasmo de um menino que ganhara alguma medalha, por algum mérito alcançado.

Demorava-se mais, quando a aula o levava a um dos seus três filósofos preferidos, e seu discurso ganhava as cores do entusiasmo e do feitiço que encantava os seus alunos, muitos deles, nem matriculados em sua disciplina estavam, mas entravam na sala de aula do professor Jacques, pelo tanto que corria na Universidade, a sabedoria com que impregnava suas narrativas sobre Filosofia.

Promovia debates entre os grupos de alunos, sobre temas de filosofia, que se prestavam para discutir e interpretar as grandes questões  contemporâneas, aproximando tempos tão distantes, como se tivessem ocorridos recentemente.

Recebia  nos fins de semana em sua chácara, grupos de alunos, no varandão frontal da casa, não mais para as aulas em filas indianas de 'carteiras', mas para uma conversa interminável sobre filosofia, com jovens espalhados no chão, sentados na mureta da varanda e em bancos e cadeiras.   Gabriela, ou Gabi, servia rodadas de limonada.

                 JACQUES, UM PROFESSOR DE FILOSOFIA

         

Capítulo  01

Jacques da Silva Barros gostava do silêncio do seu escritório. Naquele lugar, um quarto amplo de sua casa, na chácara que comprara há muitos anos, e onde pretendia morar com sua esposa Gabriela, assim que se aposentasse da Universidade, onde lecionava Filosofia.                                                          Levara a sua vasta biblioteca, de estudos especializados em filosofia e linguística, bem como obras contemporâneas dos mais diversos autores e nacionalidades.                                                                                                              Jacques era um poliglota. Falava seis idiomas, vários dialetos, das línguas que conhecia. Era um professor reconhecido por algumas obras que publicara, sobre Linguística e Filosofia, principalmente sobre três homens que ocuparam grande parte de seus trabahos intelectuais: Sócrates, Platão e Epicuro. 

Em suas aulas, os alunos viam um homem enérgico, mobilizado por uma alegria incomum, fruto do seu amor ao conhecimento filosófico, o que provocava em seus alunos, um grande entusiamo e admiração.                        Com sua vasta cabeleira branca, do alto de seus 1,85m, e sessenta e cinco anos de idade, Jacques movimentava-se na sala de aula, com o entusiasmo de um menino que ganhara alguma medalha, por algum mérito alcançado.

Demorava-se mais, quando a aula o levava a um dos seus filósofos preferidos, e seu discurso ganhava as cores da jovialidade e do feitiço, que encantavam os seus alunos, muitos deles, nem matriculados em sua disciplina estavam, mas entravam na sala de aula do professor Jacques, pelo tanto que corria na Universidade, sobre a sabedoria com que impregnava suas narrativas sobre Filosofia e contemporaneidade.

Promovia debates entre os grupos de alunos, sobre temas de filosofia, que se prestavam para discutir e interpretar as grandes questões  contemporâneas, aproximando tempos tão distantes, como se tivessem ocorridos recentemente, com os movimentos sociais e intelectuais do presente.

Recebia  nos fins de semana em sua chácara, grupos de alunos, e no varandão frontal da casa, não mais as aulas em filas indianas de carteiras, mas uma conversa informal e interminável sobre filosofia, com jovens espalhados no chão, sentados na mureta da varanda, ou em bancos e cadeiras.  Gabriela, também chamada de Gabi, servia rodadas de limonada gelada.

Os encontros de fim de semana na chácara do professor Jacques,  tornaram-se uma tradição quase tão importante, quanto suas aulas na Universidade.  Não existiam convites formais.  A notícia corria naturalmente pelos corredores, entre os alunos mais antigos e os recém-chegados: no sábado, no começo do entardecer, quem desejasse, poderia aparecer na chácara.   

Siga o próximo capítulo

Mario Moura                                                                                                                (do livro Pequenas histórias sem testemunhas)


Capítulo  02

Chegavam a pé, de moto ou carro, e até mesmo de bicicleta.   Ao longo dos anos, aquele hábito transformou-se numa espécie de rito de iniciação intelectual. 

Os estudantes chegavam aos poucos. Alguns traziam livros debaixo do braço; outros carregavam pastas ou cadernos repletos de anotações e perguntas, acumuladas durante a semana.  

Havia quem levasse frutas, salames, pães ou doces para compartilhar. Pouco importava a origem social, a idade ou mesmo o curso universitário. 

Reuniam-se ali estudantes de Filosofia, História, Letras, Direito, Sociologia, Psicologia e até das áreas mais distantes das Humanidades, como as de Saúde e Tecnologias. 

Todos eram atraídos pela mesma força: a possibilidade de pensar sem pressa, elaborando seus próprios pensamentos, e formando sua cosmovisão.

A varanda da casa logo se transformava numa pequena "ágora" contemporânea.

Não havia lugares marcados. Alguns sentavam-se sobre a mureta frontal, outros acomodavam-se em cadeiras espalhadas por Gabriela. Muitos preferiam sentar-se diretamente no chão frio da varanda, encostados nas colunas ou nas paredes. Quando o número de visitantes era grande, o gramado em frente também era ocupado.

As conversas começavam sempre de maneira simples.

Alguém comentava uma aula da semana.

Outro levantava uma dúvida sobre Platão.

Um terceiro mencionava alguma notícia dos jornais.

Então Jacques fazia uma pergunta.

Era quase sempre uma pergunta aparentemente simples. 

— Quem deseja pontuar uma interpretação, ou apresentar as causas, ou a        origem, da notícia apresentada? Ou sobre os demais temas                              levantados?

— O que é uma vida feliz?

— É possível existir justiça para todos?

— Somos realmente livres?

— Existe verdade ou apenas interpretações?

É possível uma sociedade sem classes, e como ela se                                           organizaria?  Ou seria uma utopia?

Bastava isso.

A partir daquele instante, a tarde passava a pertencer ao pensamento.

Os debates cresciam em intensidade e profundidade. Um estudante citava Aristóteles; outro recorria a Nietzsche. Marx era uma citação recorrente. Alguém lembrava uma passagem de Santo Agostinho; outro trazia exemplos da política contemporânea. 

Jacques raramente impunha conclusões.   Sua função era provocar novos caminhos, descobrir o ineditismo... livre das amarras impostas pelos chavões.   Um parteiro de ideias, como um Sócrates moderno e indispensável, aos tempos que correm.

— Você tem certeza disso?

— O que o leva a pensar assim?

— E se examinarmos a questão por outro ângulo?

— Quem apresenta um novo ângulo, um novo olhar?

Perguntas sucediam perguntas.

Respostas geravam novas dúvidas.   E assim as horas desapareciam.

Quando o sol começava a descer atrás das árvores da propriedade, Gabriela surgia carregando bandejas de limonada gelada, café recém-passado e pedaços de bolo. 

Siga o próximo capítulo.

Mario Moura                                                                                                                  (Do livro Pequenas histórias sem testemunhas)


Capítulo  03

Era recebida com entusiasmo pelos jovens, que a tratavam com o mesmo carinho dedicado ao professor. 

Era a "mãezona" de todos...                                                                                        Ela costumava brincar.

— Se continuarem filosofando nesse ritmo, vou precisar servir jantar também.   E ria , um sorriso cheio de alegria, por tê-los todos ali, como filhos.   

Ninguém percebia o tempo passar.

Ao anoitecer, os temas tornavam-se ainda mais amplos. A escuridão parecia favorecer as perguntas fundamentais da existência humana.

Discutia-se a morte.

A solidão.

O amor.

O sofrimento.

A busca pelo sentido da vida.   E claro, a existência de Deus...

Muitos estudantes revelavam inquietações, que jamais compartilhariam dentro de uma sala de aula formal. Falavam de medos, fracassos, perdas familiares, dúvidas sobre o futuro. Jacques ouvia atentamente, quase paternal.   Creio mesmo, que paternal!

Nesses momentos, deixava de ser apenas o professor renomado.

Tornava-se um interlocutor paciente, tranquilo e atento.

Um homem que compreendia, que a filosofia nascera precisamente da necessidade humana, de enfrentar as grandes perguntas da vida.

As madrugadas, frequentemente encontravam o grupo ainda reunido.

Sob a luz amarelada da varanda, entre o canto distante dos grilos e a brisa suave que percorria os campos da chácara, continuavam as discussões.

Muitas vezes o tema central era Sócrate, ou Platão.

Jacques retornava continuamente ao filósofo ateniense, porque via nele um modelo de vida intelectual e moral.

— Sócrates não nos deixou livros — dizia. — Deixou algo muito mais importante: o exemplo de alguém que preferiu a busca da verdade, ao conforto das certezas.

Noutras noites, era Epicuro quem dominava a conversa.

Contra os preconceitos comuns, Jacques explicava que Epicuro não pregava excessos ou prazeres desenfreados. Falava da serenidade, da amizade, da liberdade diante dos medos, que atormentavam os seres humanos.

Talvez — dizia o professor — a felicidade seja menos uma conquista extraordinária, e mais uma arte de viver com simplicidade.

Os estudantes permaneciam em silêncio, refletindo.

Muitos daqueles jovens, carregariam essas palavras por toda a vida.

Havia também longas discussões sobre os dilemas do mundo moderno. A tecnologia, a inteligência artificial, as crises políticas, as desigualdades sociais, o individualismo crescente e a dificuldade das pessoas em manter diálogos verdadeiros.

Jacques insistia, que a filosofia jamais deveria permanecer presa aos livros.

— Se Platão estivesse vivo hoje, estaria discutindo os problemas do nosso tempo. Filosofar é pensar o presente.

Por volta de duas ou três horas da madrugada, alguns alunos já demonstravam sinais de cansaço. Outros permaneciam despertos, impulsionados pelo entusiasmo das ideias. Ainda assim, ninguém queria ser o primeiro a partir.

Siga o próximo capítulo.

Mario Moura                                                                                                                  (Do livro Pequenas histórias sem testemunhas)


Capítulo final

Aquela varanda oferecia algo raro.

Ali não existia competição por notas.   Não havia currículos, avaliações ou disputas acadêmicas.   Existia apenas a alegria compartilhada de pensar.

Anos depois, muitos daqueles estudantes esqueceriam fórmulas, datas e conteúdos específicos aprendidos na Universidade.    Contudo, jamais esqueceriam as noites passadas na varanda da chácara de Jacques Silva Barros.

Recordariam a voz do professor, atravessando a madrugada.   O aroma do café servido por Gabriela.

As discussões apaixonadas versavam sobre Justiça, Liberdade, Felicidade e Verdade, pilares essenciais que definem a ordem e a convivência em sociedades, onde os direitos humanos são respeitados, e conferem dignidade aos seus habitantes.

E compreenderiam, já adultos, a importância daqueles encontros e o que eles haviam lhes proporcionado, como consciência crítica e autonomia, algo muito além de apenas conhecimento.

Tinham aprendido uma forma de viver, de interpretar a realidade, segundo valores inegociáveis. Deixavam de ser cidadãos manipulados, que não se integravam ao dócil rebanho "dos obedientes inconscientes".

Uma forma de olhar para o mundo com juizo próprio, com curiosidade, humildade e espanto.  

Em certo sentido, era essa a verdadeira filosofia que o professor Jacques desejava ensinar, casando teoria e existència, proporcionando o desenvolvimento da argúcia, da sabedoria, da perspicácia, descartando o conhecimento como mera formalidade acadêmica.

Seu método seguia os caminhos do seu mestre Sócrates, ao praticar a dialética socrática, cuja investigação se construia através do diálogo de perguntas e respostas, em vez de ditar verdades, ou conceitos.                    Procurava expor as contradições nas crenças das pessoas, conduzindo-as ao reconhecimento da própria ignorância, para levá-las ao autoconhecimento.

Sócrates aproximava-se das pessoas, fingindo não saber nada (a conhecida ironia socrática), com perguntas sobre o cotidiano que organizava a sociedade, levando seus alunos a duvidarem de suas certezas, forçando-os  a "parir ideias" (a maiêutica), daí ser Sócrates, um parteiro de ideias.

Pequeno adendo, a pedido do professor Jacques!

Sócrates foi um filósofo ateniense, do período clássico da Grécia antiga, considerado como um dos fundadores da filosofia ocidenal.                              É uma figura enigmática, conhecida por relatos de obras de escritores que viveram mais tarde, particularmente por dois de seus alunos, Platão e Xenofonte, bem como pelas peças teatrais de seu contemporâneo, o dramaturgo grego Aristófanes.                                                                                  Muitos indicam que os diálogos de Platão, seriam o relato mais abrangente de Sócrates, a ter perdurado, da antiguidade aos dias atuais.

Mario Moura                                                                                                                (do livro Pequenas histórias sem testemunhas)

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