UM CERTO PROFESSOR DE MATEMÁTICA

TEMA:  O pai era um professor de Matemática, Marcícilio Solano, mas o filho Marconi era voltado para as Ciências Humanas, particularmente para Filosofia e Artes.                                                                                                        O contraste de visões sobre o sentido de Cultura e Política, em termos gerais, era visível, o que criava um ambiente de certa hostilidade do pai, quando ocasionalmente, em família, surgia algum assuntos polêmicos sobre fatos do cotidiano, e até mesmo da família, e a reunião terminava em discussões acirradas, o que sempre deixava D. Yolanda, muito nervosa.    Um amigo da família, Otaviano Monteiro, parente distante de D. Yolanda, psicólogo, em um aniversário para o qual fora convidado, assistiu a um desses espetáculos, e com cuidado, resolveu participar, como quem não quer nada, com o fim de apaziguar o conflito. Desenvolver a narrativa, pontuando a intervenção, na direção de esclarecer as fontes do conflito

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UM CERTO PROFESSOR DE MATEMÁTICA

O pai era um professor de Matemática, Marcícilio Solano, homem de raciocínio rigoroso, acostumado a buscar demonstrações, coerência lógica e respostas objetivas para os problemas da vida.                                                    O filho, Marconi, seguia um caminho bastante diferente. Apaixonado por Filosofia, Literatura e Artes, via o mundo através das nuances da experiência humana, das emoções, dos símbolos e das múltiplas interpretações possíveis da realidade.

Embora houvesse afeto entre os dois, o contraste de suas visões tornava-se evidente, sempre que surgia algum tema mais delicado.                                    Uma notícia política, uma decisão de algum familiar, ou mesmo uma discussão sobre costumes e valores, bastava para desencadear longos debates.                                                                                                                Marcícilio defendia seus pontos de vista com a firmeza, de quem acreditava na existência de critérios objetivos, para julgar os fatos.                        Marconi, por sua vez, questionava premissas, relativizava certezas e insistia que os problemas humanos, não podiam ser reduzidos a fórmulas ou regras universais.

Numa tarde de aniversário de Dona Yolanda, a situação repetiu-se.              A família estava reunida em torno da mesa, quando alguém comentou  uma reportagem sobre mudanças no sistema educacional do país.

— O problema é que estão abandonando os fundamentos — afirmou Marcícilio. — Sem disciplina, método e conhecimento sólido, não se constrói nada.

— Mas educação não é apenas transmissão de conteúdo — respondeu Marconi. — É também formação crítica, criatividade e capacidade de compreender a realidade social.

— Isso é discurso bonito. Na prática, sem base objetiva, tudo vira opinião.

— E sem reflexão crítica, tudo vira obediência cega.

A tensão cresceu rapidamente. Os demais familiares começaram a se entreolhar. Dona Yolanda apertava as mãos sobre o colo, já prevendo o desfecho habitual.                                                                                                        As vozes aumentaram de tom. Pai e filho pareciam falar não um com o outro, mas um contra o outro.

Foi nesse momento que Otaviano Monteiro, amigo da família e psicólogo, que observava a cena em silêncio, resolveu intervir.

Com um sorriso tranquilo, pegou um copo de água e comentou:

— Posso fazer uma pergunta?

Os dois interromperam a discussão por alguns segundos.

— Claro — respondeu Marcícilio, ainda contrariado.

— Digam-me uma coisa: vocês estão tentando compreender o que o outro pensa, ou tentando provar que o outro está errado?

O silêncio que se seguiu foi constrangedor.

Otaviano continuou:

— Porque me parece que a discussão não é exatamente sobre educação. Nem sobre política. Talvez seja sobre algo mais profundo.

Marconi cruzou os braços.

— Como assim?

— Vejo dois modos diferentes de enxergar o mundo. Marcícilio procura estabilidade, coerência e critérios confiáveis para orientar a vida. Marconi procura significado, reflexão e compreensão das experiências humanas. Nenhum dos dois objetivos é ilegítimo.

— Mas ele relativiza tudo — protestou o pai.

— E o senhor, às vezes, transforma toda discordância em erro — respondeu Otaviano, com delicadeza.

Alguns familiares sorriram discretamente.

O psicólogo prosseguiu:

— Quando pessoas com estilos de pensamento diferentes conversam, é comum acreditarem que estão discutindo ideias. Porém, muitas vezes, estão defendendo necessidades emocionais. O senhor, Marcícilio, valoriza a segurança que vem da ordem e da lógica. Marconi valoriza a liberdade de questionar e reinterpretar. O conflito nasce quando cada um vê a necessidade do outro como uma ameaça.

Dona Yolanda observava atentamente.

— Então o problema não é a política? — perguntou ela.

— A política é apenas o palco — respondeu Otaviano. — O verdadeiro conflito está nos significados que cada um atribui às coisas.

Voltou-se para pai e filho.

— Percebam algo curioso. Marcícilio se tornou professor, porque acredita que o conhecimento melhora a vida das pessoas. Marconi se interessa por Filosofia e Artes, porque também acredita que o conhecimento melhora a vida das pessoas. Os caminhos são diferentes, mas o valor central é semelhante.

Pai e filho ficaram em silêncio.

— Vocês já notaram, que ambos se preocupam com educação, justiça e desenvolvimento humano? Apenas usam linguagens diferentes, para expressar essas preocupações.

Marconi refletiu por alguns instantes.

— Nunca tinha pensado dessa forma.

— Nem eu — admitiu Marcícilio, com voz mais baixa.

Otaviano sorriu.

— Quando deixamos de perguntar “quem está certo?” e passamos a perguntar “o que é importante para cada um?”, muitos conflitos mudam de natureza. Nem sempre desaparecem, mas se tornam mais compreensíveis.

A conversa prosseguiu em tom mais sereno. Pela primeira vez em muito tempo, pai e filho fizeram perguntas um ao outro, sem a urgência de vencer o debate. Descobriram divergências reais, mas também afinidades que haviam ficado escondidas, sob anos de confrontos.

Ao final da noite, Dona Yolanda respirou aliviada. Não havia ocorrido um milagre. As diferenças continuavam existindo.                                              Contudo, algo importante havia mudado: ambos começaram a perceber, que o adversário que imaginavam enfrentar era, na verdade, alguém movido por preocupações humanas muito semelhantes às suas.

E foi justamente esse reconhecimento, que permitiu transformar a hostilidade em diálogo, revelando que a fonte principal do conflito, não estava nas ideias em si, mas na dificuldade de compreender os valores e necessidades que existiam por trás delas.

Naquela noite, depois que todos foram embora, Marcílio permaneceu sozinho na varanda. As palavras de Otaviano continuavam ecoando em sua mente.                                                                                                                      Durante décadas ensinara Matemática, demonstrando teoremas, corrigindo erros e mostrando aos alunos, que uma conclusão só era válida, quando podia ser sustentada por argumentos consistentes. A lógica sempre lhe parecera o instrumento mais confiável, para aproximar-se da verdade.

Contudo, algo o inquietava.

Pensou em Marconi. Pensou nas inúmeras discussões que haviam travado ao longo dos anos. Em todas elas, acreditara estar defendendo a razão contra a confusão, a objetividade contra o relativismo.                                  Mas, pela primeira vez, ocorreu-lhe uma pergunta desconcertante: e se estivesse utilizando a ferramenta correta, para compreender o objeto errado?

A lógica permitia demonstrar relações entre conceitos. Permitia verificar coerências, identificar contradições e construir sistemas de pensamento consistentes.                                                                                                        Porém, naquele instante, Marcílio percebeu que os sentimentos humanos, não funcionavam como equações. O sofrimento, a esperança, o medo, o pertencimento, a identidade e os valores que movem as pessoas, não podiam ser reduzidos a proposições formais, sem que algo essencial se perdesse no processo.

A vida social, cultural e política, não era composta apenas por fatos, mas também por significados. E significados não eram objetos, que pudessem ser medidos com a precisão de números. Eram interpretações construídas por indivíduos e comunidades, ao longo de suas experiências.

Pela primeira vez, compreendeu que a lógica era uma extraordinária condição abstrata do pensamento, mas não uma chave universal, capaz de abrir todas as portas da experiência humana.

Sentiu-se surpreendido pela própria conclusão.

Não significava abandonar a razão. Pelo contrário. Significava reconhecer seus limites.

Assim como uma régua é perfeita, para medir comprimentos, mas inútil para medir saudades, a lógica era poderosa para analisar argumentos, mas insuficiente para compreender, sozinha, as dimensões subjetivas da existência.

Nesse momento, lembrou-se de uma frase dita por Marconi anos antes, durante uma discussão que terminara mal:

— Nem tudo o que importa pode ser demonstrado.

Na época, considerara aquilo uma fuga intelectual. Agora, porém, a frase adquiria outro sentido.

Talvez o filho não estivesse rejeitando a razão. Talvez estivesse tentando mostrar, que a experiência humana continha camadas, que a razão, isoladamente, não alcançava.

Marcílio sorriu discretamente.

Pela primeira vez, não via Marconi como alguém que pensava contra ele, mas como alguém, que enxergava uma parte da realidade, que ele próprio havia negligenciado durante muito tempo.

No dia seguinte, procurou o filho.

Marconi estranhou, quando o pai sentou-se ao seu lado sem iniciar qualquer debate.

Após alguns instantes de silêncio, Marcílio falou:

— Acho que passei anos, tentando compreender as pessoas, da mesma forma que compreendia os problemas de Matemática.

Marconi o observou sem dizer nada.

— E agora percebo, que os números não têm história, não têm medo, não têm sonhos, não têm memória. As pessoas têm.

O filho permaneceu em silêncio, emocionado.

— Você estava certo sobre uma coisa — continuou o pai. — Existem aspectos da vida, que precisam ser interpretados, não demonstrados.

Marconi sentiu um nó na garganta.

Pela primeira vez, não havia vencedores naquela conversa.

Havia apenas dois seres humanos reconhecendo que a realidade é maior do que qualquer linguagem isolada.                                                                              A lógica continuava valiosa. A filosofia continuava necessária. Mas ambas encontravam seu verdadeiro significado, quando deixavam de disputar supremacia e passavam a colaborar na compreensão do mistério humano.

E foi nesse instante, que pai e filho descobriram algo, que nenhuma discussão anterior havia revelado: a sabedoria não consiste em possuir a última resposta, mas em reconhecer os limites da própria forma de compreender o mundo.

mario moura                                                                                                              (do livro Pequenas histórias sem testemunhas  Ensaios  Vagas anotações)

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