UM MENINO ACIMA DA MÉDIA E O HOMEM FORA DO LUGAR
Capítulo Final
A primavera chegou sem avisar.
Ninguém na comunidade comentou exatamente quando aconteceu.
Um dia, as manhãs deixaram de ser tão frias.
No outro, pequenas flores apareceram à beira dos caminhos.
Depois vieram os pássaros.
E a luz.
Uma luz diferente.
Mais demorada.
Mais generosa.
Heleno percebeu a mudança durante uma caminhada.
Parou diante de uma árvore que passara meses observando.
Os galhos antes secos agora exibiam brotos pequenos e discretos.
Sorriu.
Não porque aquilo fosse extraordinário.
Mas porque finalmente conseguia enxergar.
Seguiu pela trilha de terra até o rio.
Sentou-se no lugar de sempre.
A correnteza continuava seu caminho silencioso.
Nada parecia diferente.
E, ao mesmo tempo, tudo era.
Nos meses que passara ali, não encontrara a resposta que procurava.
Não resolvera os grandes mistérios da existência.
Não descobrira uma verdade definitiva.
Não alcançara a paz absoluta prometida por tantos livros.
Mas algo havia mudado.
Já não precisava disso.
Enquanto observava a água, ouviu passos atrás de si.
Era seu Anselmo.
O velho carregava duas canecas de café.
Entregou uma delas a Heleno.
Sentaram-se lado a lado.
Em silêncio.
Como tantas outras vezes.
Depois de alguns minutos, o velho perguntou:
— E então?
Heleno sorriu.
— E então o quê?
— Encontrou o que veio procurar?
Ele olhou para o rio.
Pensou por um instante.
Depois respondeu:
— Não.
Seu Anselmo assentiu.
Como se já esperasse aquela resposta.
— E está decepcionado?
Heleno demorou alguns segundos.
— Estranhamente, não.
O velho deu um pequeno sorriso.
— Bom sinal.
Ficaram observando a correnteza.
Por fim, Heleno falou:
— Passei a vida acreditando que a sabedoria estava nas respostas.
— E agora?
— Acho que ela mora na forma como a gente vive as perguntas.
O velho não respondeu.
Mas seus olhos brilhavam.
O vento atravessou os campos.
Ao longe, algumas crianças corriam atrás de uma bola improvisada.
Maria Pequena estendia roupas no varal.
Um cachorro latia sem motivo aparente.
A vida seguia.
Simples.
Comum.
Imperfeita.
E, justamente por isso, preciosa.
Na manhã seguinte, Heleno arrumou seus poucos pertences.
Guardou algumas roupas.
Alguns cadernos.
E apenas um livro.
Não para buscar respostas.
Mas para lembrar de onde havia vindo.
Quando terminou, caminhou pela comunidade para se despedir.
Abraçou Maria Pequena.
Conversou com os vizinhos.
Agradeceu pelos dias compartilhados.
Por último, encontrou seu Anselmo sentado sob a sombra de uma árvore.
— Vai embora? — perguntou o velho.
— Vou.
— Está pronto?
Heleno observou o horizonte.
A estrada desaparecia entre os campos iluminados pelo sol.
Respirou fundo.
— Não.
Seu Anselmo riu.
— Então está.
Os dois permaneceram em silêncio por alguns instantes.
Depois se abraçaram.
Um abraço simples.
Daqueles que dizem mais do que qualquer discurso.
Heleno começou a caminhar.
Não olhou para trás imediatamente.
Seguiu alguns metros.
Sentindo o chão sob os pés.
O calor suave do sol.
O cheiro da terra.
O som distante da vida acontecendo.
Então compreendeu algo.
Durante anos, acreditara que a existência era um problema a ser resolvido.
Agora sabia que ela era um caminho a ser percorrido.
E caminhos não exigem conclusões.
Exigem passos.
Continuou andando.
Sem certezas.
Sem respostas finais.
Sem fórmulas.
Mas pela primeira vez, em paz com isso.
A estrada seguia adiante.
E Heleno também.
Fim.
Mario Moura
(do livro Pequenas histórias sem testemunhas)
(Procurei manter o estilo contemplativo, econômico e humano dos capítulos anteriores, encerrando a jornada de Heleno não com uma grande revelação, mas com uma transformação silenciosa: a aceitação de que viver é mais importante do que compreender tudo.)
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