ETARISMO: UMA COVARDIA BIOSOCIAL (TEXTO PARA PUBLICAÇÃO NO LINKEDIN)
(cont.)
(O atendente pareceu desconfortável)
— Então qual foi o problema?
A resposta veio quase num sussurro:
— A direção entende que a vaga exige uma imagem mais jovem.
Augusto permaneceu imóvel. Não era sua memória. Não era sua saúde. Não era sua capacidade. Não era seu comportamento. Era apenas um número:
SESSENTA!
Depois de desligar, sentou-se na varanda de casa observando a rua. Crianças brincavam de bicicleta. Um entregador passava apressado. A cidade seguia indiferente.
Pensou em tudo o que havia construído ao longo da vida.
Criara dois filhos. Pagara impostos. Cumprira horários.
Enfrentara crises econômicas, mudanças tecnológicas e transformações sociais.
Aprendera a usar computadores, quando muitos diziam que jamais conseguiria. Adaptara-se a celulares, aplicativos e sistemas digitais.
No entanto, para aquela empresa, tudo isso pesava menos do que a data impressa em seu documento de identidade.
Na semana seguinte, Augusto entrou em outra farmácia para comprar um medicamento. Foi atendido por um rapaz muito jovem, que não sabia localizar o produto solicitado.
Após vários minutos de procura frustrada, Augusto apontou a seção correta.
O rapaz agradeceu, constrangido.
Enquanto saía, Augusto não sentiu superioridade nem ressentimento. Sentiu tristeza.
Capítulo 02
A sociedade parecia cometer um erro silencioso: confundia juventude com competência e idade com incapacidade.
Naquele momento, compreendeu que o preconceito, nem sempre se apresentava com insultos ou hostilidade. Às vezes, vinha vestido de linguagem corporativa, escondido atrás de expressões elegantes, como "perfil adequado", "renovação" ou "imagem da empresa".
Mudavam-se as palavras, mas o significado permanecia o mesmo.
Era a exclusão.
Dias depois, encontrou outra oportunidade, em um pequeno estabelecimento administrado por uma senhora de idade semelhante à sua.
Ela examinou seu currículo por alguns minutos e perguntou:
— O senhor sabe lidar com pessoas?
Augusto sorriu.
— Há quarenta anos.
Ela riu.
— Então está contratado.
Mario Moura (do livro Pequenas histórias sem testemunhas)
Capítulo 03
Naquele instante, Augusto percebeu que a verdadeira capacidade humana, não se mede pelos anos que alguém tem, mas pelo que continua capaz de oferecer.
E, ironicamente, foi justamente a experiência acumulada durante seis décadas que o tornou o melhor candidato para uma função, da qual haviam tentado excluí-lo.
O preconceito enxergava sua idade. A sabedoria enxergava sua pessoa.
Augusto Andrade pousou a xícara de café sobre a mesa da pequena padaria da esquina. Seus olhos mantinham aquele brilho obstinado, de quem se recusava a aceitar uma injustiça como algo natural.
(Siga os próximos capítulos)
Mario Moura (do livro Pequenas Histórias sem Testemunhas)
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