O CONTO "O GATO QUE VIGIAVA A CASA & PEQUENO ENSAIO Entre a natureza, o mistério e a companhia humana




O GATO QUE VIGIAVA A CASA

Augusto tinha setenta e quatro anos, quando descobriu que uma casa pode ficar grande demais.

Não era uma casa grande.

Três quartos, uma sala, cozinha, dois banheiros, uma pequena área de serviço e um jardim estreito na frente.

Durante muitos anos, aquilo lhe parecera suficiente.

Depois começou a parecer excessivo.

A esposa havia morrido dois anos antes.

Os filhos moravam em outras cidades.

Os amigos tinham desaparecido lentamente, como desaparecem as pessoas na velhice: primeiro deixam de telefonar todos os dias; depois telefonam apenas aos domingos; depois começam a esquecer os domingos.

Alguns morreram.  Outros adoeceram.  Alguns simplesmente desapareceram da vida.  Augusto permaneceu.

No início, tentou preencher a casa.  Ligava a televisão.  Deixava o rádio ligado.  Conversava sozinho.  Fazia café em excesso.  Acendia as luzes de todos os cômodos.

Era como se quisesse convencer a casa, de que ainda havia muita gente vivendo ali.

Depois desistiu.  Foi nessa época que Bento apareceu.                                    Era um gato laranja, malhado, de pelo curto, olhos dourados, felinos, e uma pequena mancha branca no peito.

Primeiro apareceu no jardim.  Depois na calçada.  Depois passou a sentar-se junto ao portão.  Augusto colocou uma tigela com água.  No dia seguinte, colocou comida.  No terceiro dia, Bento comeu.  No quarto, não apareceu.  No quinto, voltou.                                                                       Augusto não comentou.

No sexto, o gato entrou na cozinha.  Augusto olhou para ele.

— Você está ficando abusado.

Bento sentou-se.

— Aqui não é hotel.

O gato piscou lentamente.

Augusto sorriu.

— Mas pode ficar.

E ficou.  Não houve cerimônia.  Não houve adoção formal.  Não houve decisão.  Bento simplesmente passou a morar ali.  Dormia em lugares diferentes.  Tinha preferência pela cadeira próxima à janela, durante a manhã, e pelo sofá durante a tarde.

À noite, desaparecia.  Augusto nunca descobriu para onde.

— Você tem uma vida secreta — dizia.

Bento não respondia.  Era um gato.  Augusto achava isso uma qualidade.

Com o passar dos meses, Bento começou a conhecer a rotina da casa.

Sabia, quando Augusto acordava.  Sabia, quando o café estava pronto.  Sabia, quando o jornal chegava.  Sabia, quando era hora de dormir. E principalmente sabia, quando Augusto estava triste.

Nesses dias, o gato se aproximava.  Não imediatamente.  Esperava.  Depois vinha.  Sentava-se perto.  Às vezes encostava o corpo na perna do velho.

Augusto dizia:

— Você não entende nada.

Bento fechava os olhos.

— Ou entende mais do que eu.

O gato continuava imóvel.  Era impossível saber.

Certa madrugada, Augusto acordou com uma sensação estranha.  A casa estava completamente silenciosa.

Olhou para o relógio.  Três horas e dezessete minutos.

Bento estava sentado no corredor.  O gato olhava fixamente para a porta da sala.

Augusto levantou.

— O que foi?

Bento não se mexeu.  Augusto caminhou até a sala.

Nada.  Abriu a janela.  Nada. Apenas incontáveis luzeiros, estrelas anônimas brilhavam à distâncias, que a imaginação humana não consegue entender.

Olhou para o jardim.  Nada.  Voltou para o quarto.  Bento continuava no corredor.

— Você está vendo fantasma?

O gato virou a cabeça.  Augusto riu.

— Eu sabia.

Voltou para a cama.

Na manhã seguinte, esqueceu.  Na noite seguinte, aconteceu novamente.

Três horas e dezessete.  Bento no corredor.  Olhando para a sala. Na terceira noite, Augusto começou a ficar incomodado.

— Agora chega!

Levantou-se.  Acendeu as luzes.  Abriu todas as portas.

Nada!

Voltou para o corredor.  Bento estava diante de uma fotografia.  Augusto parou.  Era a fotografia de Helena.  Sua falecida esposa.  A mesma fotografia que permanecia na sala havia dois anos.  Ele não sabia por que, aquela imagem lhe parecia diferente naquela madrugada.

Talvez porque estivesse cansado.  Talvez porque estivesse velho.  Talvez porque a luz fosse diferente.  Ou talvez porque Bento estivesse olhando para ela.

Augusto aproximou-se.

— Você conheceu Helena?

Bento não respondeu.

— Ela gostava de você.

O gato sentou-se.  Augusto tocou a moldura.

— Ela dizia que eu não sabia cuidar de ninguém. Nem mesmo de mim!

Sorriu.

— Talvez tivesse razão.

Ficou alguns segundos em silêncio.  Depois sentou-se no chão.  Foi então que começou a chorar.  Não chorou como havia chorado no funeral.  Nem como chorara sozinho, durante os primeiros meses.                                       Foi um choro diferente.  Um choro sem defesa.  Um choro de alguém que finalmente, não precisava fingir que estava bem.

Bento aproximou-se.  Encostou-se nele.  E começou a ronronar.  Augusto colocou a mão sobre o gato.

— Você está fazendo isso de propósito?

O ronronado continuou.

— Está tentando me curar?

O gato fechou os olhos.  Augusto riu entre lágrimas.

— Não seja pretensioso, Bento!  Há dores que são silenciosas, e têm o seu tempo para amaudrecer, assim como as frutas... Não amadurecem todas de uma só vez, mas cada uma a seu tempo, determinado pelas leis naturais.

Mas não retirou a mão.  Ficou assim por muito tempo.

No dia seguinte, telefonou para o filho.  Conversaram durante quarenta minutos.  Depois telefonou para a filha.  Também demorou, esticando conversa, como quem busca fugir da solidão. E do silêncio...

Na semana seguinte, aceitou o convite de um antigo amigo para almoçar.  Voltou a frequentar uma pequena livraria.  Começou a caminhar todas as manhãs.

Reaprendeu a cozinhar para uma só pessoa. Retornava de uma longa viagem ao redor da memória, e chegava sem bagagem, sem anteriores, sem passado. Com a alma leve, mãos vazias, olhos mais serenos, expressão mais suave.

A casa mudou.  Ou talvez Augusto tivesse mudado. Ou a vida apontasse para outra direção, para um novo renascer.

Bento continuava o mesmo. Dormia. Comia. Brincava. Observava. Miava para si mesmo. Desaparecia. Voltava.

Fazia suas rondas.  E todas as noites, às vezes exatamente às três e dezessete, sentava-se no corredor.  Augusto já não se assustava.

— Vai vigiar?

Bento olhava para ele.

— Vá.

O gato sentava-se.  Augusto voltava para a cama.  Certa tarde, seu filho perguntou:

— Pai, você ainda acha que esse gato vê coisas?

— Que coisas?

— Espíritos.

Augusto sorriu.

— Não sei.

— Mas você acredita?

Augusto olhou para Bento.  O gato estava sentado diante da janela.

— Acreditar é uma palavra complicada.

— Então o que você acha?

Augusto demorou a responder.

— Acho que ele percebe coisas, que eu não percebo.

— Como o quê?

— Sons. Cheiros. Movimentos. Mudanças.

— Isso é normal em gato.

— Eu sei.

O filho sorriu.

— Então, você não acredita em nada sobrenatural?

Augusto permaneceu olhando para Bento.

— Não disse isso.

— Pai...

— Eu só disse que não sei.

E acrescentou:

— Há muita coisa que a gente chama de sobrenatural, apenas porque ainda não encontrou a palavra certa.

O filho ficou em silêncio. Bento levantou-se.  Passou pelas pernas de Augusto.  Depois desapareceu pelo corredor.

Alguns meses depois, Augusto ficou doente.  Nada grave no início.

Uma infecção.  Febre.  Fraqueza.  Mas o corpo de um homem de setenta e quatro anos, não responde às doenças como o corpo de um homem de   quarenta.                                                                                                          Augusto passou alguns dias na cama.  Bento não saiu do quarto.  Dormia aos pés da cama.  Às vezes subia.  Às vezes ficava sentado no chão.

Quando Augusto tinha febre, Bento permanecia perto.  Quando a febre baixava, saía.

Augusto percebeu aquilo.

— Você é médico agora?

Bento fechou os olhos.

— Veterinário?

O gato permaneceu imóvel.

— Enfermeiro?

Nada.

— Guarda-costas?

Bento levantou a cabeça.  Augusto riu.

— Ah. Essa você gostou!

Naquela noite, Augusto adormeceu.  Quando acordou, Bento estava sentado ao lado da porta.

O velho olhou para ele.  E teve uma sensação estranha.

Não medo.  Não exatamente.  Uma espécie de certeza.  Como se aquela criatura estivesse realmente, guardando alguma coisa.

Não sabia o quê.  Talvez a casa.  Talvez ele.  Talvez simplesmente o silêncio.

Quando se recuperou, Augusto passou a olhar para Bento de maneira diferente.  Não porque acreditasse que o gato tivesse poderes.  Mas porque percebeu que não precisava decidir.  A existência podia permanecer misteriosa.  Nem tudo precisava ser transformado em certeza.  Algumas coisas podiam apenas ser vividas.

Certa noite, Augusto estava sentado no jardim.  Bento ao lado. O céu estava limpo.  As estrelas apareciam sobre as casas.  Frias, distantes, indiferenes às dores e alegrias dos homens, como deuses mitológicos, acima do bem e do mal.

Augusto falou:

— Você sabe que vai morrer antes de mim, não sabe?

Bento olhou para ele.

— Provavelmente.

O gato permaneceu em silêncio.

— E eu não sei se estou preparado.

Bento aproximou-se.  Augusto passou a mão sobre seu pelo.

— Talvez ninguém esteja.

Ficaram juntos.  O homem olhando o céu. O gato olhando o escuro.

Augusto pensou que talvez fosse isso, que a vida fazia conosco.  Primeiro nos ensinava a possuir.  Depois nos obrigava a perder.  E, finalmente, quando já havíamos perdido quase tudo, ensinava-nos a simplesmente permanecer.

Bento deitou-se.  Augusto sorriu.

— Você é melhor filósofo do que eu.

O gato fechou os olhos.

Algum tempo depois, o filho voltou a perguntar:

— Pai, afinal, por que você acha que o Bento protege a casa?

Augusto respondeu:

— Não sei se protege.

— Mas você sempre diz isso.

— Digo porque ele faz rondas durante a noite.

— Isso é comportamento de gato.

— Talvez.

— Então?

Augusto pensou.  Passou a mão sobre a cabeleira branca, perdeu o olhar em uma desconhecida distância, e após um demorado silêncio, respondeu:

— Talvez ele não proteja a casa dos espíritos.

— E proteja de quê?

Augusto olhou para a sala.  Depois para o corredor.  Depois para o gato.

— Da solidão.

E seu olhar escureceu, como se chegasse de algum lugar intensamente iluminado.

O filho não respondeu.  Augusto continuou:

— Quando Helena morreu, esta casa ficou cheia de lugares vazios. Cada cômodo, lembrava alguma coisa. Cada cadeira, parecia perguntar onde ela estava. Cada noite, parecia maior que a anterior.

Fez uma pausa.

— Bento não trouxe Helena de volta.

— Eu sei.

— Não curou minha tristeza.

— Também sei.

— Mas ficou.

O filho olhou para o pai.

Augusto continuou:

— Às vezes, penso que é isso que chamamos de proteção. Não é impedir que a dor aconteça. Apenas, não permitir que atravessemos a dor, completamente sozinhos.

O filho ficou em silêncio.  Bento levantou-se.  Caminhou até Augusto.  Passou lentamente entre suas pernas.  Depois foi até o corredor.  Sentou-se. Parecia uma esfinge..

E ficou olhando para a escuridão.

Naquela madrugada, Augusto acordou. Três horas e dezessete minutos. 

Bento estava no corredor.  Como sempre.

O velho ficou alguns segundos observando.  Então levantou-se.  Caminhou até o gato.  Sentou no chão.

— Você ainda está vendo alguma coisa?

Bento olhou para ele.  Augusto esperou.  Nada.

— Tudo bem!

Ficou sentado ao lado do gato.  A casa estava silenciosa.  Não havia televisão.  Não havia rádio.  Não havia vozes.  Não havia passos.

Somente o relógio.  A respiração do homem.  A respiração do gato.

E, depois de algum tempo, o ronronado.

Augusto fechou os olhos.  Pensou em Helena.  Pensou nos filhos.  Pensou na infância.  Pensou no tempo.  Pensou na morte.  E pela primeira vez, não sentiu necessidade de compreender nada.

Talvez aquela fosse a verdadeira sabedoria, que o gato lhe ensinara.

Nem tudo precisa ser explicado.  Algumas coisas precisam apenas ser acompanhadas.

Augusto passou a mão sobre o pelo de Bento.

— Obrigado.

O gato não respondeu.  Nunca respondia.  Mas permaneceu.  E talvez fosse exatamente essa a resposta.

Anos mais tarde, quando Bento já estava velho, Augusto percebeu que a casa começara novamente a mudar.

O gato dormia mais.  Brincava menos.  Subia com dificuldade no sofá.  Já não fazia suas rondas, com a mesma velocidade.  Augusto passou a ajudá-lo.  Colocou uma pequena almofada perto da janela.

Aproximou a água.  Adaptou a comida.  E, algumas noites, carregava Bento até o quarto.

— Agora sou eu que cuido de você.

Bento olhava para ele.  Augusto sorria.

— Não se acostume.

Mas os dois sabiam.  A relação havia mudado.

Aquele que durante anos fora o guardião, agora precisava ser protegido.

E talvez não houvesse nisso nenhuma tragédia.Era apenas a natureza.            O ciclo.  A reciprocidade silenciosa da vida.

Na última noite, Bento estava deitado aos pés da cama.  Augusto não dormia.

Sabia.  Os animais não anunciam a morte.  Mas algumas vezes o corpo anuncia.

Augusto estendeu a mão.  Bento abriu os olhos.  O velho acariciou lentamente sua cabeça.

— Você foi um bom gato.

O ronronado veio baixo.  Quase imperceptível.  Augusto sorriu.

— Foi mais do que isso.

Fechou os olhos.

— Foi minha companhia.

O gato permaneceu imóvel.  Depois Augusto disse:

— Talvez tenha sido meu guardião.

Silêncio.

— Ou talvez eu tenha sido o seu.

A mão permaneceu sobre o pelo.  E Augusto percebeu, naquele instante, que já não sabia onde terminava um, e começava o outro.

Durante tantos anos haviam dividido a mesma casa.  Os mesmos horários.  As mesmas noites.  Os mesmos silêncios.  Uma parte da vida de Augusto, havia entrado no gato.  E uma parte de Bento, havia entrado no homem.

Talvez fosse isso, o amor entre espécies.  Não a transformação de um no outro.  Mas a criação de um território comum.

Um lugar onde duas naturezas diferentes, conseguem permanecer juntas, sem deixar de ser diferentes.

Bento morreu alguns dias depois.  Augusto enterrou-o no jardim.

Plantou uma árvore pequena sobre o lugar.

Durante semanas, a casa voltou a parecer grande.  Grande demais.

O velho caminhava pelos cômodos, e procurava involuntariamente o gato.

Na janela.  Na cadeira.  No corredor.  Aos pés da cama.

Nada!

O silêncio havia retornado.  Mas alguma coisa havia mudado.  Augusto já não tinha medo dele.

Numa madrugada, exatamente às três e dezessete minutos, acordou.  Ficou imóvel.  Esperou.

Por alguns segundos, teve a impressão de ouvir um ronronado.

Baixíssimo.  Distante.  Quase impossível.  Abriu os olhos.  Não havia nada!!

Olhou para o corredor.  Vazio.

Sorriu.

— Você voltou?

Nenhuma resposta.  Augusto fechou os olhos.  Não sabia se tinha ouvido alguma coisa. Talvez fosse apenas memória.  Talvez o cérebro reproduzisse um som conhecido.  Talvez a casa tivesse produzido algum ruído. Talvez nada tivesse acontecido.  Talvez...

E, pela primeira vez, Augusto percebeu que não precisava escolher.

A realidade e o mistério podiam viver juntos.

Na manhã seguinte, abriu todas as janelas.

A luz entrou.

Foi até o jardim.  Parou diante da árvore.  Tocou o tronco.

Depois voltou para dentro.  A casa estava silenciosa.  Mas não estava mais vazia.  Porque algumas presenças permanecem, depois que o corpo desaparece.  Não necessariamente como fantasmas.  Talvez como hábitos.

Como memória.  Como afeto.  Como transformação.  Como uma parte de nós, que foi modificada pela existência de outro ser.

Augusto finalmente compreendera:  o gato não havia protegido a casa da morte.  Não poderia.  Nenhum animal, nenhum homem, nenhuma crença pode fazer isso.

Bento havia feito algo mais simples e, talvez, mais importante.

Havia ensinado Augusto a viver acompanhado do mistério.  E talvez fosse essa a verdadeira proteção.  Não afastar a escuridão.  Mas permanecer ao nosso lado, quando ela chega!!

EPÍLOGO

Talvez os gatos não sejam seres espirituais.  Talvez sejam. Não sabemos.  Talvez não absorvam energias negativas. Talvez simplesmente, percebam alterações do ambiente, que nossos sentidos não alcançam.

Talvez não curem doenças.  Mas podem oferecer presença, calor, vínculo, conforto e uma rotina de cuidado, capaz de tornar a existência menos solitária.

Talvez não sejam guardiões sobrenaturais.  Mas guardam alguma coisa.

Guardam a casa contra o vazio.  Guardam o silêncio contra o abandono.  Guardam a rotina contra a desordem.  Guardam, muitas vezes, o humano, contra uma forma de solidão, que nenhuma tecnologia consegue resolver.

O gato não precisa ser transformado em divindade, para ser extraordinário.

Talvez sua grandeza, esteja justamente em permanecer animal.  Um pequeno descendente dos felinos selvagens, que entrou na história humana, sem abandonar completamente a floresta.

Uma criatura que dorme em nossas camas, mas ainda carrega a noite nos olhos.  Uma pequena fera que aceita nossa mão sobre o pelo, mas conserva dentro de si, um território que não podemos possuir.

Talvez seja essa sua maior lição.

O gato não nos ensina a dominar a natureza. Ensina-nos a conviver com o que não dominamos.

Não nos ensina a eliminar o mistério.  Ensina-nos a habitá-lo.  Não nos promete eternidade.  Oferece presença.

E talvez a presença, seja uma das formas mais profundas de amor.

Porque, no final, quando todas as explicações falham, quando a ciência chega ao limite de suas perguntas, quando a religião encontra o território da fé, e quando a filosofia percebe que algumas perguntas não possuem resposta definitiva, permanece uma coisa muito simples:

um ser vivo ao nosso lado.  Uma respiração.  Um corpo aquecido.  Dois olhos observando a escuridão.

E, às vezes, um ronronado.

Talvez não seja uma mensagem do outro mundo.  Talvez seja apenas o som de um gato.  Mas talvez seja exatamente isso, que precisamos ouvir.

Porque há momentos em que a vida, não precisa nos explicar nada.  Precisa apenas permanecer conosco.

E o gato, com sua antiga sabedoria silenciosa, parece saber disso desde sempre.

Talvez o homem tenha pensado que domesticou o gato.  Talvez tenha sido o gato que, silenciosamente, domesticou uma parte do homem.

O ponto central que sustenta tudo, é a ambiguidade: não precisamos provar que o gato é um protetor espiritual, para reconhecer que ele pode exercer, na vida humana, uma função de proteção emocional, simbólica e existencial.

mario moura

SOBRE OS GATOS

A pequena fera que entrou na casa humana. Ensaio sobre a natureza, a liberdade, o afeto e o mistério.

Há animais, que pertencem à natureza.  Há animais, que pertencem ao homem.  E há aqueles, que parecem ter encontrado uma terceira possibilidade: viver conosco, sem jamais deixar de pertencer inteiramente a si mesmos.

O gato talvez seja o exemplo mais perfeito, dessa terceira condição.

Ele entra em nossas casas, aceita o alimento que oferecemos, dorme em nossas camas, ocupa nossas poltronas, conhece nossos horários, reconhece nossas vozes e, com o passar dos anos, aprende a interpretar nossos gestos. Permite que o chamemos por um nome. Permite que o acariciemos. Às vezes, procura nosso colo.

Mas permanece estranhamente livre.

Há nele uma espécie de independência, que não desapareceu com a domesticação. Por trás do animal, que repousa tranquilamente sobre uma almofada, existe ainda a pequena fera, que observa, calcula, escuta, fareja e, quando necessário, desaparece.

Talvez seja justamente isso, que nos fascina.

O gato não se entrega completamente.  Ele permanece outro.

E talvez, toda relação verdadeiramente profunda com o outro, comece exatamente aí: quando compreendemos que amar, não significa possuir.

O ser humano levou milhares de anos tentando domesticar a natureza. Cercou-a, nomeou-a, classificou-a, utilizou-a, transformou-a em recurso, mercadoria, território, alimento, matéria-prima.                                                A civilização foi construída, em grande parte, sob a pretensão de que a natureza poderia ser submetida à vontade humana.

O gato, entretanto, entrou nesse projeto de maneira peculiar.  Não parece ter sido inteiramente conquistado.  Talvez tenha apenas percebido, que viver próximo ao homem poderia ser vantajoso.

E talvez essa diferença explique quase tudo.

1. O animal que escolheu viver conosco

O gato doméstico, Felis catus, descende de pequenos felinos selvagens, e traz consigo uma história muito antiga, de aproximação com os seres humanos.

Sua domesticação não parece ter seguido exatamente o mesmo caminho, observado em animais selecionados durante gerações, para obedecer, transportar, produzir ou trabalhar.

O gato aproximou-se das primeiras comunidades humanas atraído, entre outras coisas, pela abundância de pequenos roedores junto aos depósitos de grãos e alimentos.

O homem produzia comida.  Os ratos aproximavam-se da comida.  O gato aproximava-se dos ratos.  E, em algum momento dessa longa história, uma aliança silenciosa começou.

Não houve necessariamente uma cerimônia.  Não houve contrato.  Não houve juramento.  Houve apenas uma espécie de conveniência recíproca.

O homem oferecia alimento e abrigo.  O gato oferecia controle de pragas e sua presença.

Mas alguma coisa aconteceu além da utilidade.  Porque, se o gato tivesse permanecido apenas um caçador útil, provavelmente não teria se transformado em uma das criaturas mais amadas do planeta.

A utilidade explica sua aproximação.  Não explica o afeto.  Não explica o vínculo.  Não explica, por que milhões de pessoas conversam com seus gatos; sentem sua falta, quando viajam; sofrem, quando adoecem; e experimentam uma espécie particular de vazio, quando eles morrem.

A história do gato doméstico, é portanto também, a história de uma transformação na própria ideia humana de convivência.

O gato deixou de ser apenas o que fazia.  Passou a ser o que era.

Essa passagem é fundamental.

Porque amar um animal é, em certo sentido, reconhecer que sua existência possui valor para além de sua utilidade.

2. Uma pequena fera dentro de casa

Existe algo profundo e comovente, na imagem de um gato dormindo.

Ele se enrola sobre si mesmo, recolhe as patas, fecha os olhos e parece abandonar-se completamente ao mundo.

Mas basta um ruído.  Uma pequena alteração.  Um som distante.  Um movimento atrás da janela.  As orelhas se levantam.  Os olhos se abrem.  O corpo inteiro muda.  Em poucos segundos, o animal que parecia entregue ao sono, transforma-se em atenção absoluta.

É a natureza reaparecendo.

O gato doméstico não deixou de ser felino, porque passou a viver numa sala.  A sala apenas se tornou seu território.  A poltrona substituiu pedra.  O corredor substituiu a trilha.  A janela substituiu o horizonte.  O brinquedo substituiu a presa.  E, algumas vezes, o humano tornou-se parte de seu território afetivo.Mas os instintos permanecem.  O gato observa antes de agir.  Escolhe o lugar de onde poderá ver, sem ser facilmente visto.

Investiga cheiros.  Percebe sons de frequências que não ouvimos.  Move-se com uma precisão quase coreográfica.  Sabe esperar.

E talvez a espera seja uma das características mais esquecidas pelo homem contemporâneo. Nós vivemos numa civilização da urgência.

Queremos respostas instantâneas.  Mensagens imediatas.  Resultados rápidos.  Comida rápida.  Transporte rápido.  Informação rápida.

Até o descanso precisa ser eficiente.

O gato parece não compreender essa ansiedade.  Ele pode passar vinte minutos olhando pela janela.  Não sabemos o que vê.  Talvez veja um pássaro.  Talvez um inseto.  Talvez apenas luz e movimento. Ou sombras...

Mas não parece preocupado, com a necessidade de transformar aquilo em produtividade.

Ele olha.  E isso basta.

3. O gato e a liberdade

A palavra mais adequada para compreender a natureza felina, talvez seja autonomia.

O gato não parece ter sido biologicamente preparado, para obedecer cegamente.

Ele negocia.  Aproxima-se quando quer.  Afasta-se quando precisa.  Aceita carinho, mas estabelece limites.

Escolhe onde dormir.  Escolhe quando brincar.  Escolhe, muitas vezes, até mesmo a pessoa com quem deseja permanecer.

Isso explica uma diferença essencial entre o gato, e a ideia tradicional de propriedade.

Quem possui um objeto pode determinar seu uso.  Quem convive com um ser vivo, precisa negociar sua presença.  Por isso, a palavra "tutor" parece mais justa do que "dono".

O tutor assume responsabilidade.  Alimenta.  Protege.  Cuida.  Leva ao veterinário.  Oferece abrigo.  Mas não possui a essência do animal.

Há algo no gato, que permanece inacessível.

E essa inacessibilidade, talvez seja uma das fontes de seu encanto.

O gato nos obriga a compreender que amor e liberdade, não são necessariamente opostos.                                                                              Pode-se amar profundamente alguém, sem querer transformá-lo em propriedade.

Talvez os gatos nos ensinem isso, melhor do que qualquer tratado filosófico.

4. Os gatos dos faraós

A história humana percebeu muito cedo, que havia algo singular naquele animal.

No Egito antigo, os gatos adquiriram uma importância religiosa e cultural extraordinária. A associação com Bastet, divindade relacionada à proteção, à maternidade, à fertilidade e à vida doméstica, ajudou a transformar o felino em símbolo de proteção.

A reverência não nasceu apenas de superstição.

O gato era útil.  Protegia alimentos.  Caçava serpentes e roedores.  Afastava animais considerados perigosos.  Mas, na imaginação religiosa, a utilidade transformou-se em significado.

O gato passou a representar proteção.  E talvez não seja por acaso.

Ele é um animal que vigia.  Mesmo dormindo, parece parcialmente atento.  Mesmo repousando, conserva os sentidos despertos.

Ele percebe aquilo que se move.  Escuta aquilo que não ouvimos.  Reage às alterações que nem sempre compreendemos.

Para uma civilização que vivia intensamente entre o visível e o invisível, não era difícil imaginar que aquela criatura, possuísse alguma relação especial com os mundos desconhecidos.

A partir daí, o gato deixou de ser somente animal.  Tornou-se símbolo.  E símbolos sobrevivem muito mais tempo, do que os impérios que os criaram.

5. Do sagrado ao demoníaco

Mas o mesmo animal que foi venerado, também foi temido.

A história humana possui essa característica contraditória: aquilo que não compreende, pode transformar-se em divindade, ou em ameaça.

O gato passou, em diferentes períodos e lugares, a ser associado à noite, à magia, à bruxaria e ao sobrenatural.

Sua capacidade de mover-se silenciosamente, ajudou a construir essa imagem.

Seus olhos refletindo a luz na escuridão, contribuíram para o imaginário.

Sua independência despertava desconfiança.  Sua relação com a noite aproximava-o, simbolicamente, do desconhecido.

O gato tornou-se, então, uma criatura liminar.  Não completamente doméstica.  Não completamente selvagem.  Não totalmente compreendida.

E tudo aquilo que habita fronteiras, tende a despertar o imaginário.

Talvez por isso a história do gato seja tão cheia de contradições:

Sagrado e profano.  Protetor e suspeito.  Afetuoso e distante.  Doméstico e selvagem.  Companheiro e enigma.

O gato não resolveu essas contradições.  Ele simplesmente continuou sendo gato.

Nós é que criamos as interpretações.

6. O animal que enxerga o que não vemos

É possível que boa parte do misticismo relacionado aos gatos, tenha origem em suas capacidades sensoriais.

O mundo percebido por um gato, não é exatamente o mundo que percebemos.

Ele dispõe de sentidos especializados e de uma capacidade extraordinária de detectar movimentos, sons e odores.  Pode ouvir o que nossos ouvidos não registram.  Pode perceber pequenos movimentos à distância.  Pode reagir a sons vindos de lugares que consideramos silenciosos.

Pode passar longos períodos, olhando fixamente para um ponto aparentemente vazio.  E é nesse momento que a imaginação humana começa.

— O que ele está vendo?

A pergunta parece simples.  Mas contém uma história inteira.

Talvez seja apenas um inseto.  Talvez um ruído.  Talvez uma alteração de luz.  Talvez alguma coisa, que nossos sentidos não conseguem perceber.

Ou talvez nada.  O gato pode simplesmente estar olhando.

A ciência nos ensina a não transformar o que desconhecemos, em certeza.

Mas a poesia nos lembra, que o desconhecido também possui valor.

Não precisamos afirmar que o gato vê espíritos.  Podemos apenas reconhecer, que ele percebe um mundo sensorial mais amplo, do que aquele ao qual estamos habituados.

A diferença já é suficiente para conservar o mistério.

7. O ronronar e a energia da cura

Talvez nenhum comportamento felino tenha produzido tanto encantamento, quanto o ronronar.

Aquele som contínuo, baixo, vibrante, quase hipnótico, acompanha momentos de prazer e relaxamento, mas pode também aparecer em situações de estresse, medo ou desconforto.

Isso nos impede de reduzir o ronronado, a uma simples manifestação de felicidade.

Ele é mais complexo.  E justamente por isso é mais interessante.

Quando um gato ronrona sobre o colo de alguém, alguma coisa acontece.  Não necessariamente uma cura, no sentido médico. Não devemos transformar uma experiência afetiva, em promessa terapêutica.  Mas existe uma experiência corporal concreta: calor, toque, ritmo, som, respiração e presença.

O ser humano ansioso, pode desacelerar.  A pessoa solitária, pode sentir-se acompanhada.  Aquele que sofre, pode encontrar uma presença que não exige explicações.

Aquele que chora, pode ter ao lado uma criatura que não pergunta por quê.

Talvez seja isso, que tantas pessoas chamam de energia curativa.  Não uma força sobrenatural demonstrada cientificamente, mas uma experiência subjetiva, profundamente real.

O corpo humano responde à presença.  Responde ao toque.  Responde ao ritmo.  Responde à segurança.

E o gato, sem conhecer qualquer teoria sobre isso, oferece sua pequena liturgia de calor e ronronado.

Há curas que não eliminam a doença.  Apenas tornam a dor mais suportável.

Talvez algumas formas de companhia, pertençam a essa categoria.

8. O gato como regulador emocional

Vivemos uma época, em que a solidão adquiriu dimensões paradoxais.

Nunca tivemos tantos meios de comunicação.  Nunca estivemos tão conectados.  E nunca foi tão comum, experimentar a sensação de isolamento.

O gato ocupa um lugar particular nesse cenário.

Ele não exige uma conversa permanente.  Não precisa de explicações.  Não pergunta sobre nossa carreira.  Não avalia nossa aparência.  Não compara nosso desempenho.  Não sabe quanto dinheiro temos.  Não se interessa pelo nosso prestígio.

Para ele, somos cheiro, voz, calor, rotina, gesto e presença. Sobretudo, provedor, proteção e afeto!!

Isso pode ser libertador.

O gato não nos conhece pela biografia.  Conhece-nos pela convivência.

Talvez exista aí, uma forma de amor mais primitiva e, por isso mesmo, mais desinteressada.

O animal não sabe quem fomos.  Não conhece nossos fracassos.  Não conhece nossos títulos.  Não sabe o que a sociedade pensa de nós.  Ele simplesmente sabe se estamos ali.

E às vezes isso basta.

9. A espiritualidade do gato

Há pessoas que acreditam que gatos possuem uma função espiritual.  

Algumas dizem que eles percebem energias negativas.  Outras acreditam que protegem a casa.  Há quem imagine que o gato absorve ou neutraliza determinadas vibrações do ambiente.  Há ainda quem diga que ele escolhe determinados lugares da casa, justamente por perceber algo que os humanos não percebem.

Nada disso pode ser apresentado como conhecimento científico comprovado.

Mas seria um erro concluir que, por não ser cientificamente demonstrável, essa dimensão não possui significado.

As sociedades humanas sempre criaram símbolos, para representar aquilo que não conseguiam medir.

A espiritualidade é também uma linguagem do sentido.

O gato como guardião espiritual pode ser compreendido, portanto, como uma metáfora poderosa.

Ele guarda.  Ele vigia.  Ele percebe.  Ele circula.  Ele permanece acordado quando dormimos.  Ele ocupa o espaço.  E sua simples presença, altera a atmosfera doméstica.

Quando alguém diz:

— Meu gato protege minha casa.

Talvez esteja dizendo, em linguagem espiritual, algo que também pode ser compreendido psicologicamente:

— A presença dele faz minha casa parecer segura.

E isso é profundamente humano.

10. O gato como guardião do território

Toda casa possui uma atmosfera.  Não apenas física.  Também emocional.

Há casas alegres.  Há casas tensas.  Há casas silenciosas.  Há casas onde pessoas discutem constantemente.  Há casas onde alguém está morrendo.  

Há casas onde alguém acabou de nascer.  Há casas atravessadas pela solidão.

O gato participa dessa atmosfera.

Não necessariamente porque absorva "energia" no sentido místico, mas porque é um ser sensível às alterações do ambiente.

Ele percebe vozes. Movimentos. Rotinas. Ausências. Mudanças. Agressividade.

Calma.  Agitação.  Presença...

Talvez seja por isso, que o gato seja frequentemente associado à proteção.

Ele parece registrar a casa. Faz rondas. Observa portas e janelas. Escolhe pontos estratégicos.

E, durante a noite, quando todos os humanos dormem, continua percorrendo seu pequeno território.

Para o pensamento racional, isso é comportamento animal.

Para a imaginação espiritual, é vigilância. Talvez as duas interpretações possam coexistir, sem que uma precise destruir a outra.

11. O tutor que também é tutelado

Existe uma ironia maravilhosa na relação entre humanos e gatos.

Acreditamos que somos seus tutores. E somos. Mas talvez sejamos também tutelados por eles.

O gato cria horários. Exige cuidado. Organiza rotinas. Interrompe a solidão.

Provoca responsabilidade. Ensina paciência. E sobretudo, devolve o ser humano ao mundo concreto.

Enquanto o mundo digital oferece imagens infinitas, o gato exige presença.

Enquanto a internet permite conversar com milhares de pessoas, o gato pede apenas uma mão sobre sua cabeça.

Enquanto as redes sociais estimulam comparação, o gato não compara.

Enquanto a economia mede produtividade, o gato dorme.

Ele não produz. Não vende. Não compra. Não acumula. E paradoxalmente, talvez nos ensine uma das coisas que mais esquecemos:

a existência não precisa justificar-se pela produtividade.

Um gato pode passar horas dormindo, e continuar sendo absolutamente importante.

Talvez o mesmo pudesse ser dito dos seres humanos.

12. O gato e o envelhecimento

Existe uma relação especialmente bonita, entre gatos e pessoas que envelhecem.

O envelhecimento modifica a percepção do tempo. Quando somos jovens, o futuro parece infinito. Na maturidade, percebemos que o tempo não é infinito.

Na velhice, cada manhã ganha um peso particular.

O gato parece compreender intuitivamente uma coisa, que a civilização moderna esqueceu: a vida não precisa acontecer em velocidade máxima.

Ele dorme. Acorda. Come. Observa. Brinca. Descansa. Repete. Mas cada repetição é diferente.

Talvez seja essa a sabedoria silenciosa do animal.

A vida não é apenas uma sequência de grandes acontecimentos. É feita de pequenas permanências.

Uma janela. Uma tarde. Um corpo quente. Um raio de sol. Uma mão. Um ronronado. Uma presença.

O gato não sabe que está envelhecendo. Mas envelhece. E, quando envelhece ao nosso lado, torna-se testemunha de nossa própria passagem.

Talvez seja por isso, que a morte de um gato possa ser tão dolorosa.

Não perdemos apenas o animal. Perdemos uma testemunha.

Alguém que esteve conosco em uma determinada parte da vida. Alguém que conheceu uma versão de nós, que jamais voltará a existir.

13. Uma filosofia felina da existência

Talvez seja possível construir uma pequena filosofia, a partir do comportamento de um gato.

Não uma filosofia sistemática.  Uma filosofia de gestos.

O gato ensina o valor do limite.  Nem todo contato, precisa durar. Nem toda aproximação, precisa transformar-se em posse. Nem toda distância é rejeição.  Nem todo silêncio, significa ausência.

Ele ensina que o descanso não é culpa.

Que a observação pode ser uma forma de inteligência.

Que a autonomia é compatível com o afeto.

Que uma casa não é apenas arquitetura.  É território de vínculos.

Ensina também que a confiança é gradual.

Um gato assustado não se conquista pela força.  Aproxima-se lentamente. Espera-se.  Respeita-se. Talvez isso seja uma lição, para todas as relações humanas.

Há pessoas que precisam de tempo. Há pessoas que foram feridas. Há pessoas que não suportam aproximações bruscas. Há pessoas que só conseguem amar, depois de aprender novamente a confiar.

O gato sabe disso, sem jamais ter lido um livro de psicologia.

14. Talvez nós também sejamos domesticados

Existe, finalmente, uma hipótese que merece ser considerada.

Talvez tenhamos domesticado o gato. Mas talvez o gato também tenha domesticado alguma coisa em nós.  A presença de um animal modifica o humano. Torna-o responsável. Mais atento. Mais paciente. Mais sensível à fragilidade. Mais consciente de que outra vida depende de seus cuidados.

Talvez o gato tenha introduzido uma pequena fissura na arrogância humana.

Porque diante dele descobrimos que inteligência não significa necessariamente linguagem. Que afeto não depende de palavras. Que presença pode ser mais importante que explicação. Que cuidado é uma forma de ética. E que a natureza não precisa ser totalmente compreendida para ser amada.

O gato entrou em nossas casas. Mas talvez tenha entrado também, em uma parte esquecida de nossa consciência.

Aquela que ainda reconhece a vida antes de transformá-la em conceito.

Mario Moura


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SOBRE O GATO AGENOR

SUMÁRIO DO LIVRO PEQUENAS HISTÓRIAS SEM TESTEMUNHAS ENSAIOS E VAGAS ANOTAÇÕES

O PASSADO VISITA O PRESENTE