O GATO, UM ANIMAL ENIGMÁTICO

                                 O GATO, UM ANIMAL ENIGMÁTICO

                                             
 

O pequeno artigo publicado num antigo jornal, encontrado num velho baú, no sótão de uma velha casa abandonada, assinado por um tal Euricles Q. de Mello, que discorre sobre o gato, como protetor espiritual: a crença, o símbolo e a presença misteriosa

O GATO           

Há crenças que não precisam ser provadas, para exercerem uma função na vida humana.

Acreditamos que determinadas pessoas nos protegem. Acreditamos que certos lugares nos fazem bem. Acreditamos que uma lembrança, pode nos acompanhar durante décadas; que uma fotografia pode conter uma presença; que uma casa, pode guardar a memória daqueles que nela viveram. Não sabemos, exatamente, onde termina a realidade e começa a ficção, oua  interpretação. Talvez nem seja necessário saber...

Com os gatos acontece algo semelhante.

Desde muito antes de serem animais domésticos, os gatos ocupam um lugar singular no imaginário humano. Foram associados ao mistério, à noite, ao silêncio, à independência e à capacidade de perceber aquilo, que os seres humanos não percebem. Em diferentes culturas, receberam significados religiosos e simbólicos muito distintos: foram divinizados, temidos, respeitados, associados à proteção, à fertilidade, à morte ou à passagem entre mundos, ou por portais

Mas talvez seja precipitado perguntar, se o gato realmente possui poderes espirituais.

Uma pergunta mais interessante seria: por que tantas pessoas experimentam a presença de um gato, como uma forma de proteção?

A resposta pode estar menos no sobrenatural, do que na própria estrutura da relação, entre o animal e o ser humano.

O gato não precisa compreender o que nos aflige, para permanecer ao nosso lado.

Ele não exige uma explicação para a tristeza.  Não pergunta por que estamos em silêncio.  Não solicita justificativas, para nossas lágrimas.  Ele simplesmente permanece.

E talvez exista aí uma das formas mais antigas e profundas de proteção:      a presença que não exige nada.

O animal que permanece

O ser humano passa grande parte da vida tentando, interpretar aquilo que lhe acontece.

Queremos saber por que fomos abandonados, por que envelhecemos, por que alguém morreu, por que uma relação terminou, por que fracassamos, por que determinada doença apareceu, por que o futuro não correspondeu ao que imaginávamos... E por aí afora!!

O gato não responde à essas perguntas,  mas pode permanecer conosco enquanto elas existem.  É uma diferença enorme.

Talvez uma das maiores formas de sofrimento humano, seja acreditar que precisamos compreender tudo para continuar vivendo.  O gato parece ensinar o contrário.  Ele dorme.  Come.  Observa.  Caminha.  Procura um lugar confortável.  Olha pela janela.  Brinca.  Desaparece por algumas horas. Volta.  E, nessa simplicidade, há alguma coisa profundamente perturbadora para a consciência humana: a vida não precisa explicar a si mesma para continuar sendo vida.                                                                    O gato não nos oferece uma filosofia.  Ele oferece presença.  E a presença, muitas vezes, é aquilo de que mais necessitamos, quando nenhuma explicação consegue nos alcançar.

O protetor que não promete proteção

Chamamos alguém de protetor, quando essa pessoa impede que alguma coisa nos aconteça.  O conceito tradicional de proteção, pressupõe força, vigilância e intervenção.

O gato protege de outra maneira.  Ele não impede necessariamente que soframos.  Não pode impedir a morte de quem amamos.  Não pode impedir uma separação.  Não pode impedir uma doença.  Não pode impedir que envelheçamos.  Não pode nos livrar das perdas inevitáveis.

Mas pode modificar a maneira, como atravessamos essas experiências.  E talvez seja essa uma forma mais profunda de proteção.  Há uma diferença entre impedir o sofrimento e não nos deixar completamente sozinhos, diante dele.  O gato pode exercer a segunda função.

Quando uma pessoa está deprimida, angustiada, ou simplesmente cansada da existência, um animal ao seu lado introduz uma pequena obrigação de permanecer no mundo.  É preciso alimentá-lo.  Abrir a porta.  Trocar a água.  Limpar a caixa.  Fazer carinho.  Responder ao seu chamado.  Pequenas tarefas, aparentemente insignificantes, podem funcionar como fios que mantêm alguém ligado à realidade.  O gato não sabe que está fazendo isso.  Talvez justamente por isso, a experiência seja tão poderosa.

Proteção emocional

A presença de um gato, pode produzir uma espécie de abrigo emocional.  Não porque o animal possua necessariamente uma energia sobrenatural, capaz de absorver nossas dores, mas porque a relação estabelece um espaço de intimidade, no qual a pessoa pode abandonar, ainda que temporariamente, algumas das defesas que utiliza diante dos outros seres humanos.

Com um gato, não precisamos parecer competentes.  Não precisamos parecer fortes.  Não precisamos parecer felizes.  Podemos simplesmente existir.  E talvez essa seja uma das razões, pelas quais tantas pessoas conversam com seus animais.

Sabemos que o gato não responderá com uma explicação racional.  Mas falamos.  Contamos.  Confessamos.  Às vezes choramos diante dele.

O animal se transforma, então, em uma espécie de testemunha silenciosa da nossa existência.  E ser testemunhado, é uma necessidade profundamente humana.

Talvez não queiramos apenas ser amados.  Talvez queiramos também que alguém — ou alguma coisa — saiba que estivemos aqui.

Proteção simbólica

Mas existe outra dimensão.  O gato também pode funcionar como símbolo.  Símbolos não são meras invenções decorativas. Eles organizam a maneira, como experimentamos o mundo.

Quando uma pessoa olha para seu gato, e o considera um protetor, ela está atribuindo àquela presença, um significado que ultrapassa o animal concreto.  O gato passa a representar alguma coisa.  Pode representar a casa.  A continuidade.  A companhia.  A resistência.  O mistério.  A liberdade.  A capacidade de sobreviver.  A delicadeza.  A própria vida...

Nesse sentido, dizer “meu gato me protege”, pode significar muito mais do que afirmar, que o animal possui algum poder invisível.

Pode significar:  “Quando ele está comigo, sinto que não estou completamente sozinho.”

E isso é verdadeiro.  Não necessariamente, como verdade sobrenatural, mas como verdade existencial.  Há verdades que não pertencem ao laboratório.  A saudade é verdadeira.  O amor é verdadeiro.  A solidão é verdadeira.  A esperança é verdadeira.  Nenhuma delas precisa ser uma substância mensurável, para produzir consequências concretas na existência.  Por que seria diferente, com a sensação de proteção que um animal produz?

O mistério do olhar

Talvez nada seja tão importante nessa experiência, quanto o olhar do gato.  Ele observa.  E parece observar de uma maneira diferente da nossa.  Não sabemos exatamente o que existe por trás daqueles olhos.

Essa ignorância alimenta o mistério.  O ser humano tende a preencher o desconhecido, com significados.  Por isso, quando o gato permanece olhando para um ponto vazio da casa, muitos imaginam que ele está percebendo alguma coisa, que nós não percebemos.  Pode ser simplesmente uma alteração mínima de som, luz ou movimento, que nossos sentidos não captaram.  Pode ser.  Mas o imaginário humano não se satisfaz apenas com essa explicação.  E talvez não haja necessidade de destruir o mistério.

Há uma diferença entre acreditar ingenuamente em qualquer explicação, e preservar o direito ao mistério.

O gato parece habitar justamente essa fronteira.  Ele está dentro da nossa casa e, ao mesmo tempo, permanece parcialmente inacessível.                       É doméstico, mas nunca completamente domesticado.  Dorme conosco, mas conserva um território interior, que não podemos penetrar.  Recebe nosso carinho, mas não pertence inteiramente a nós.  Talvez seja exatamente essa alteridade, que lhe confere força simbólica.  O gato permanece próximo sem deixar de ser o outro.

O gato e a morte

A associação entre gatos e espiritualidade, também pode ser compreendida a partir da relação humana com a morte.

O gato possui uma presença silenciosa que, para muitas pessoas, parece tocar alguma coisa que não conseguimos nomear.  Ele dorme durante longos períodos.  Desaparece.  Retorna.  Move-se pela casa durante a noite.  Observa a escuridão.  Parece pertencer simultaneamente, ao mundo da vigília e ao mundo do sonho.  Por isso, em diferentes épocas, foi associado ao mundo dos mortos, aos espíritos e às passagens entre dimensões.

Não precisamos aceitar literalmente essas crenças, para compreender sua força.  O símbolo revela uma necessidade humana.  Queremos acreditar que existe alguma coisa entre a vida e a morte.  E o gato, com sua maneira silenciosa de ocupar os espaços, parece oferecer uma imagem perfeita dessa fronteira.  Ele não explica o mistério.  Ele o encarna.

O protetor espiritual

Talvez seja possível, então, reformular a expressão.

O gato não precisa ser um protetor espiritual, porque possui poderes   sobrenaturais.  Pode ser um protetor espiritual, porque desperta em nós, uma experiência espiritual da existência.

A diferença é fundamental.  Espiritualidade, nesse sentido, não significa necessariamente religião.                                                                                    Pode significar profundidade.  Silêncio.  Vínculo.  Pertencimento.   Contemplação.  Mistério.  Consciência da finitude.

O gato pode nos conduzir a essas experiências, simplesmente por existir ao nosso lado.

Quando o observamos dormir, somos confrontados com a tranquilidade de um ser, que não precisa justificar sua existência.  Quando o vemos envelhecer, percebemos que também estamos envelhecendo.  Quando adoece, descobrimos a vulnerabilidade.  Quando desaparece, sentimos a ausência.  Quando morre, compreendemos brutalmente, que até aquilo que parecia permanente, era temporário.

E, depois de sua morte, o gato pode continuar vivendo dentro da memória.  É nesse momento, que a ideia de proteção espiritual, ganha uma dimensão inesperada.

Talvez aqueles que amamos, nunca desapareçam completamente.  Eles mudam de lugar.  Saem do mundo exterior, e passam a habitar a memória.

A proteção contra a solidão

Se existe uma função espiritual particularmente importante, que o gato pode exercer, talvez seja esta:  proteger-nos da sensação de absoluta solidão.

Não da solidão física.  Essa ninguém pode eliminar completamente.  Mas daquela solidão mais radical que aparece, quando sentimos que nossa existência não interessa a ninguém.

O animal contradiz silenciosamente essa sensação.  Ele espera.  Ele procura.  Ele reconhece nossa voz.  Ele percebe nossa ausência.  Ele retorna ao nosso colo.

Existe uma reciprocidade ali, ainda que diferente da reciprocidade humana.  E talvez o fato de não compartilharmos a mesma linguagem, torne essa relação ainda mais significativa.

Somos obrigados a amar sem possuir completamente o outro.  Somos obrigados a interpretar gestos.  Aprendemos a reconhecer estados de espírito sem palavras.  Aprendemos que o vínculo, não depende necessariamente da linguagem.

Nesse sentido, o gato pode nos ensinar uma espécie de espiritualidade anterior às palavras.  Uma espiritualidade do corpo.  Da presença.  Do silêncio.  Do toque.

Entre a crença e a verdade

Mas afinal: o gato é, ou não é, um protetor espiritual?  Talvez a pergunta esteja mal formulada.  Se por “protetor espiritual”, entendemos um ser dotado de poderes sobrenaturais, capazes de afastar forças invisíveis, não temos como afirmar isso como verdade objetiva.

Mas se entendemos proteção espiritual, como a capacidade de uma presença nos ajudar a permanecer ligados à vida, então a afirmação pode adquirir uma verdade profunda.

O gato protege.  Protege, quando nos obriga a sair da abstração, e voltar ao cotidiano.  Protege, quando interrompe nossa solidão.  Protege, quando nos oferece uma presença, que não exige explicações.  Protege, quando nos ensina que o silêncio também pode ser companhia.  Protege, quando transforma uma casa em território de convivência.  Protege, quando nos permite cuidar de outro ser.  Protege, quando nos lembra que somos capazes de estabelecer vínculos, para além da linguagem.  E protege, finalmente, quando nos ensina — sem jamais formular uma frase — que viver não é necessariamente compreender.  Às vezes, viver é, simplesmente, permanecer.

O último mistério

Talvez por isso, a presença de um gato possa adquirir, para algumas pessoas, uma dimensão quase sagrada.  Não porque o animal seja um deus.  Mas porque ele nos coloca diante de alguma coisa, que a racionalidade não consegue esgotar.

O gato está ali.  Respira.  Olha.  Dorme.  Desperta.  Caminha pela casa.  Desaparece na penumbra.  Volta...

E nós, seres humanos, tão preocupados em descobrir o sentido de tudo, acabamos olhando para ele, e perguntando:

o que exatamente você sabe, que eu não sei?

Talvez ele não saiba absolutamente nada.  Talvez sejamos nós que projetamos nele, o que desejamos encontrar.  Mas existe uma possibilidade ainda mais bonita. Talvez a pergunta não seja sobre o que o gato sabe.  Talvez seja sobre o que sua presença nos permite perceber.

A nossa fragilidade.  A nossa necessidade de afeto.  A nossa solidão. A nossa capacidade de cuidar.  A nossa finitude.  E, sobretudo, a possibilidade de que uma existência, aparentemente pequena, possa ocupar um espaço imenso dentro de outra.

Talvez seja isso que chamamos de proteção espiritual.  Não uma força invisível que nos impede de sofrer.  Mas uma presença que, em silêncio, nos ajuda a suportar o fato de que sofrer faz parte de estar vivo.

E talvez o gato seja um dos mais discretos guardiões dessa verdade.

Ele não promete nos salvar.  Não promete afastar a morte.  Não promete responder às nossas perguntas.  Ele apenas permanece.  E, algumas vezes, permanecer ao lado de alguém, é a forma mais profunda de proteção que existe.

mario moura

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