UM ANIMAL MISTERIOSO: PROTETOR ESPIRITUAL: Crença, ou verdade pressentida? A simbologia em torno do gato

                         

             Um animal misterioso: protetor espiritual

   Crença, ou verdade pressentida? A simbologia em torno do gato

Há animais que convivem conosco. Outros parecem habitar, de algum modo, uma região mais profunda da nossa imaginação. O gato pertence a essa segunda categoria.

Ele está dentro da casa, mas conserva algo da floresta. Dorme aos nossos pés, mas parece escutar aquilo que não escutamos. Aceita o afago, mas não se entrega inteiramente. Aproxima-se quando quer, desaparece quando deseja e, mesmo depois de anos de convivência, permanece guardando um pequeno território de mistério.

Talvez seja justamente essa resistência à completa domesticação, que tenha feito do gato um dos animais mais carregados de simbolismo na história humana.

Chamamo-lo de companheiro, mas frequentemente o tratamos como algo mais.

Em diferentes culturas, o gato foi associado à proteção, à intuição, à fertilidade, à noite, à morte, à magia e ao mundo invisível. Foi venerado, temido, perseguido, demonizado e novamente amado. Poucos animais atravessaram a imaginação humana, carregando tantas interpretações contraditórias.

Mas de onde vem essa impressão de que o gato nos protege, e a nossa casa?

E quando dizemos que ele é um “protetor espiritual”, estamos falando de uma crença sem fundamento, ou tentando nomear, com as palavras disponíveis, alguma experiência humana que ainda não compreendemos inteiramente?

Talvez seja necessário suspender, por um instante, a necessidade de escolher entre crença e verdade.

Porque existe uma terceira possibilidade: a verdade pressentida.

Não uma verdade científica, demonstrável em laboratório. Tampouco uma superstição, que exige aceitação. Uma verdade vivida: aquela que nasce da experiência, da intimidade, da percepção e daquilo que sentimos antes de conseguir explicar.

O gato diante do invisível

O gato sempre pareceu saber alguma coisa, que nós não sabemos.

Ele interrompe subitamente uma caminhada, e olha para um ponto vazio da parede. Fixa os olhos em uma porta fechada. Ergue a cabeça diante de um ruído que não percebemos. Permanece imóvel durante longos segundos, como se acompanhasse alguma presença invisível.

Para o pensamento racional, há explicações possíveis: sua audição é muito mais sensível que a humana; sua visão capta movimentos e variações luminosas que nos escapam; seus sentidos foram moldados por uma longa história evolutiva de caça e sobrevivência.

Tudo isso é verdadeiro.  Mas talvez não seja tudo.

Porque uma explicação fisiológica, responde à pergunta como o gato percebe; não necessariamente, responde à pergunta, o que essa percepção significa para nós.

O mistério começa justamente aí.

O ser humano não vive apenas aquilo que pode provar. Vive também o que interpreta.

Uma noite silenciosa, pode ser apenas uma noite silenciosa. Mas, para alguém que perdeu uma pessoa querida, aquele mesmo silêncio, pode adquirir uma dimensão quase sagrada. O gato que se deita ao lado dessa pessoa, pode tornar-se mais que um animal: pode transformar-se em presença.

Não porque necessariamente, esteja transmitindo alguma mensagem sobrenatural.  Mas porque sua presença, participa da reconstrução do mundo interior daquele que sofre.  E isso já é uma forma de proteção.

O gato como guardião

Há uma antiga imagem simbólica, que atravessa diversas tradições: a do animal como guardião de fronteiras.

O cão guarda a porta.  O gato parece guardar o espaço.  Há uma diferença importante.                                                                                                                     O cão, frequentemente, protege contra aquilo que vem de fora. O gato parece proteger, o que acontece dentro.

Ele se instala na sala, sobre a cama, junto à janela, em um canto qualquer da casa. Observa. Dorme. Desperta. Caminha silenciosamente.                         Sua presença produz uma espécie de vigilância tranquila.

Talvez por isso, seja tão fácil imaginar o gato como guardião espiritual.

Ele não precisa atacar o mal. Basta permanecer.                                              Sua função simbólica, não seria expulsar demônios, ou impedir forças sobrenaturais, mas manter uma espécie de equilíbrio invisível do ambiente.

O gato parece dizer, com sua maneira silenciosa de existir:  Estou aqui.        E às vezes é exatamente isso que precisamos ouvir.

O Egito e a divinização do gato

Nenhuma cultura tornou essa relação tão explícita, quanto o antigo Egito.  Ali, o gato esteve associado a divindades, especialmente Bastet, inicialmente relacionada à proteção, e posteriormente, também à fertilidade, à maternidade, à música, à alegria e à vida doméstica.

O gato não era simplesmente um animal útil.  Ele participava de uma cosmologia.                                                                                                               Sua capacidade de caçar, proteger os celeiros contra roedores, e conviver com os humanos, foi incorporada à linguagem religiosa. O comportamento animal tornou-se símbolo.  Essa passagem é importante.

O ser humano observa a natureza e transforma aquilo que observa em significado.  O gato que caça durante a noite, transforma-se em criatura da noite.  O animal que protege os alimentos, transforma-se em guardião.  A fêmea que cuida dos filhotes, transforma-se em imagem materna.  O olhar atento transforma-se em símbolo de vigilância.  A capacidade de desaparecer, silenciosamente, transforma-se em associação com o mundo invisível.  Assim nasce uma mitologia...                                                                    Mas mitologia não significa necessariamente mentira.  A palavra “mito”, costuma ser confundida com falsidade. Porém, em sentido antropológico e filosófico, o mito pode ser compreendido, como uma narrativa, por meio da qual, uma sociedade tenta expressar aquilo que não consegue explicar, apenas racionalmente.

O mito não compete necessariamente, com a ciência.  Ele responde a perguntas diferentes.

A ciência pergunta:  Como o gato percebe?                                                    O mito pergunta:  O que significa para nós, um animal que parece perceber aquilo que não percebemos?

Entre a superstição e a experiência

Existe, entretanto, um perigo.   Quando transformamos o simbolismo em certeza, podemos criar superstição.                                                                       O gato preto deixa de ser um animal, e passa a ser considerado sinal de azar.  O gato que entra em determinado lugar, passa a anunciar acontecimentos.  O gato que observa determinado ponto da casa, passa a ser interpretado, como alguém que vê espíritos.

Aqui, o símbolo pode transformar-se em medo.

E talvez seja necessário preservar o mistério, sem fabricar certezas.

Não precisamos afirmar que gatos enxergam espíritos, para reconhecer que eles possuem uma sensibilidade extraordinária.  Não precisamos provar que absorvem energias negativas, para perceber que sua presença pode acalmar uma pessoa.  Não precisamos acreditar que afastam entidades malignas, para reconhecer que podem oferecer uma espécie de segurança emocional.

Existe uma forma mais delicada de compreender o fenômeno:  o gato talvez não proteja nossa alma, de forças sobrenaturais; talvez proteja nossa alma, de algumas das forças concretas que a ameaçam.

A solidão.  A ansiedade.  O silêncio excessivo.  A sensação de abandono.  A ausência de contato.  O vazio.

O protetor que não sabe que protege

Há algo profundamente bonito, nessa possibilidade.

O gato não precisa saber que está nos protegendo.  Ele não assume uma missão.  Não faz promessas.  Não exige gratidão.  Ele simplesmente existe.  Deita-se ao nosso lado.  Ronrona.  Encosta o corpo.  Permanece.

E talvez uma das formas mais puras de proteção, seja justamente aquela que não pretende proteger.

O gato não diz:  “Eu vou salvá-lo.”  Ele apenas permanece, quando precisamos que alguém permaneça.  Por isso sua presença pode adquirir uma dimensão quase terapêutica.

O ronronar estabelece um ritmo.  O calor do corpo oferece contato.  A rotina do animal, introduz regularidade na vida humana.  Alimentá-lo, obriga-nos a continuar.  Cuidar de outro ser, impede que nossa existência se feche completamente sobre nós mesmos.

O gato pode, assim, funcionar como uma pequena âncora existencial.

Não cura necessariamente, nossas dores.  Mas pode impedir que nos afastemos completamente da vida.

O mistério da companhia

Talvez o aspecto mais intrigante da relação entre humanos e gatos, esteja justamente na ambiguidade.

O gato não é inteiramente nosso.  E talvez por isso, sua companhia seja tão poderosa.

Ele não parece existir para nos servir.  Não vive exclusivamente para agradar.  Conserva uma independência, que nos obriga a negociar afetivamente com ele.

Quando um gato escolhe dormir perto de alguém, essa escolha parece possuir um valor especial, porque poderia não acontecer.

Há uma espécie de liberdade dentro da relação.  E isso modifica profundamente o sentido do afeto.

Um animal que depende absolutamente de nós, pode ser amado pela dependência.  O gato, entretanto, frequentemente nos oferece algo diferente:  a experiência de sermos escolhidos.

Ele poderia estar em outro lugar.  Mas está ali.  Ao nosso lado.  E essa pequena decisão silenciosa, pode adquirir uma importância enorme.

O gato e a solidão humana

Talvez seja aqui que o gato revele sua dimensão espiritual mais profunda.

Espiritualidade não precisa significar necessariamente religião.  Pode significar nossa relação, com o que ultrapassa o imediato.

O gato introduz uma alteridade dentro da casa.  Ele nos lembra que não somos os únicos habitantes da realidade.  Existe outro ser, com outra percepção, outro corpo, outra linguagem, outra consciência — talvez radicalmente diferente da nossa — compartilhando o mesmo espaço.  Isso pode produzir humildade.

Vivemos cercados de coisas, que acreditamos compreender.  O gato devolve-nos ao desconhecido.  Ele não explica sua existência.  Não nos diz o que pensa.  Não revela o que vê, quando fixa os olhos no vazio.  Ele simplesmente permanece sendo outro.  E talvez seja justamente essa experiência da alteridade, que tenha um valor espiritual.

Porque uma das grandes doenças do ser humano, é acreditar que o mundo inteiro existe para ser interpretado por ele.  O gato não aceita essa soberania.  Ele continua misterioso.

Crença ou verdade pressentida?

Então, afinal, o gato é um protetor espiritual?

A resposta mais honesta talvez seja: não sabemos!

Não sabemos, se existe uma dimensão espiritual, na qual os gatos exercem alguma função protetora.  Não sabemos, se percebem energias, que a ciência ainda não identificou.  Não sabemos, se determinadas experiências, relatadas por pessoas, correspondem a fenômenos sobrenaturais, ou a manifestações ainda insuficientemente compreendidas.

Mas sabemos algo que não é pequeno.  Sabemos que um gato pode transformar uma casa.  Pode modificar uma rotina.  Pode reduzir a sensação de solidão.  Pode oferecer contato, presença e companhia.  Pode criar vínculos afetivos profundos.  Pode tornar suportável uma noite difícil.  Pode estar silenciosamente ao lado de alguém, quando nenhum discurso seria suficiente.  E, se chamamos isso de proteção, talvez não estejamos necessariamente cometendo um erro.  Talvez estejamos apenas usando uma palavra antiga, para uma experiência profundamente humana.

Proteger é, muitas vezes, permanecer.  E o gato sabe permanecer.

O animal que guarda o mistério

Talvez o gato seja misterioso, não porque esconda necessariamente poderes sobrenaturais, mas porque nos obriga a reconhecer os limites, daquilo que sabemos.

Ele nos olha, e não sabemos exatamente o que aquele olhar contém.  Ele dorme, e não sabemos que mundo atravessa em seus sonhos.

Ele se aproxima, quando estamos tristes, e não sabemos se percebe nossa tristeza, ou simplesmente responde a alterações em nosso comportamento.

Ele permanece junto de nós, e não sabemos se compreende nossa dor.  Mas sabemos que sua presença nos alcança.  E talvez seja suficiente.

No fundo, o gato pode ser um dos mais antigos símbolos de uma verdade, que a humanidade frequentemente esquece:  nem tudo aquilo que nos transforma, precisa ser explicado para ser real.

Talvez ele não seja um protetor espiritual.  Talvez seja...  Talvez a distinção seja menos importante do que imaginamos.  Porque há uma forma de proteção, que não depende do sobrenatural.  É a proteção da presença.  A proteção do vínculo.  A proteção do silêncio compartilhado.  A proteção de saber que, no meio da noite, existe outro ser respirando perto de nós.

E talvez seja por isso que, quando um gato se deita aos nossos pés, muitos de nós sintamos algo difícil de traduzir.

Não sabemos se ele está nos guardando.  Mas, por alguns instantes, sentimos que não estamos sozinhos.  E talvez algumas das verdades mais profundas da existência, sejam exatamente aquelas que primeiro sentimos — e somente, muito depois, conseguimos tentar compreender.

Mario Moura

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